Projeto Peixotoa

1. Os Carimbadores de Exsicatas

A pesquisadora ianque Christiane Anderson publicou, em 1982, extensa monografia (¹) sobre as espécies do gênero Peixotoa, que ocorrem no Brasil, Paraguai e Bolívia, em áreas de Cerrado, Caatinga e Campo.  Nesse trabalho ela consolida as informações disponíveis sobre as 10 espécies que eram até então tradicionalmente citadas (²), e acrescenta elementos do que seriam 18 novas espécies (³) por ela descobertas.

Essas novas “descobertas” decorreram da análise de “farto material” exsicatado, obtido de fontes e épocas diversas. Adverte a autora, à guisa de desculpas, sobre a extrema dificuldade de identificar as espécies do gênero Peixotoa, o que só seria possível, na maioria dos casos, após análise laboratorial.

Que já era difícil identificar as espécies de Peixotoa na fase pré-Anderson, parece irremissível. Mas não pelos motivos citados pela pesquisadora, e sim, pelas imprecisões e confusões com que os pesquisadores anteriores descreveram as suas “descobertas”, elas também com base em exsicatas colhidas por terceiros. E agora, no período pós-Anderson, qualquer identificação ficou impossível. Temos aqui, no submundo do Conhecimento Botânico, uma representação extemporânea  do Mito da Caverna, de Platão. Pesquisadores viram as costas para os objetos de estudo e concentram-se em estudar as sombras desses objetos.  Ou suas exsicatas. E Anderson vai além (ou tropeça ainda mais), ao confundir reprodução biológica com linha de montagem industrial. Assim, pretende que os exemplares de uma espécie vegetal sejam absolutamente iguais uns aos outros. Qualquer pequena diferença (até a inclinação de um estame ou a abertura tardia de uma antera), e a dunidense (4) já se autoriza a implantar uma nova espécie. Pelo seu critério, dentro de um gênero haveria quase tantas espécies quanto exemplares… e  o Conhecimento Botânico não teria nenhuma utilidade prática.

2. As Plantas Azaradas

As belas Peixotoas tiveram a má sorte de serem “descobertas” e “estudadas” por necrófilos de tal quilate. De modo que nenhum botânico brasileiro consegue identificar com segurança (vale dizer, com argumentos palpáveis) uma determinada espécie do gênero. Ou mesmo examinar uma planta real e enquadrá-la numa dessas 28 (agora 29) espécies. Na Internet e nos livros há poucas fotos, todas cuidadosamente panorâmicas, ou desfocadas, ou em baixa resolução, para que o autor não seja contestado em sua “identificação” (na verdade um enquadramento numa Cama de Procusto vegetal). Prevenção desnecessária, já que os botânicos brasileiros, baratinados pela sapiência cavernosa dos seres-sagrados-de-olhos-azuis (o seiscentista Francis Bacon não é conhecido por aqui), preferem cuidar de espécies menos “difíceis”. E deixam aqueles grotescos prisioneiros do gelo  imporem as trevas da caverna sobre o nosso mundo botânico real.

Um botânico, por exemplo, reside em Campo Grande – MS, e topa com uma Peixotoa. Pesquisa a literatura e as exsicatas e vê que, nessa parte do Brasil, só consta a ocorrência “oficial” da espécie Peixotoa reticulata. Por exclusão, então, “decide” que se trata de uma Peixotoa reticulata. Outro pesquisador, em Corumbá – MS, descobre que em sua região (e na vizinha Bolívia) foram exsicatados vários exemplares de Peixotoa cordistipula, e apenas desta. Conclui também, por exclusão, que a planta que tem diante dos olhos é uma Peixotoa cordistipula. Mas nada impede que ambas as plantas, a de Campo Grande e a de Corumbá, sejam da mesma espécie, e a quilômetros de distância de serem enquadráveis como cordistipula ou reticulata, ou como outra abstração qualquer…

3. O Que Fazer ?

A Botânica brasileira deve começar do zero. Vejam, por exemplo, os pretensamente descritivos nomes de cada espécie. A Peixotoa cordistipula seria uma Peixotoa cuja “estípula” teria a forma aproximada de um coração (sem o cordado na base). Mas outras espécies teriam estípulas dessa forma, o que invalida a discriminação. Aliás, ter estípula com a forma de coração não é, e aparentemente nunca foi, usada como traço distintivo dessa espécie. O mesmo ocorre com a Peixotoa reticulata. O traço “reticulado” não é usado como distintivo da espécie, já que, aparentemente, todas as outras, ou quase todas, têm também folhas reticuladas…

Na hora de nomear as espécies de um gênero, toda a comunidade científico-botânica brasileira deveria ser consultada. Justamente para evitar o ridículo de atribuir nomes mentirosos ou provocadores de confusão. Por outro lado, a Ciência, sendo empreendimento coletivo,  não pode ser usada para glorificar pessoas “amigas do rei de algum reino distante”. Se fosse para glorificar pessoas, elas deveriam ser escolhidas entre os primeiros botânicos destas terras, ou seja, os antigos pajés indígenas, fonte de onde os “sábios” europeus devem ter tirado (sem agradecer) preciosos conhecimentos da flora tropical.

4. O Projeto Peixotoa

Há uma chácara em Campo Grande (de 1,5 ha, próximo ao anel rodoviário e entre as saídas para Cuiabá e para Três Lagoas), no bioma Cerrado, onde vicejam naturalmente dezenas de exemplares de Peixotoas. Esses exemplares apresentam grande diversidade de estruturas foliares, indo do orbicular ao lanceolado, passando pelo cordiformato. As “estípulas” são na maioria inteiras (ou fundidas), mas em boa parte das plantas ocorrem estípulas bífidas. Não há segurança em enquadrá-las, quer como cordistipulas, quer como reticulatas. Ou em adequar sua sombra a qualquer outra sombra provinda  das geladas cavernas do Norte.

É preciso estudar as plantas vivas. Seria preciso determinar, em princípio, se se trata de espécie única ou de espécie híbrida. Ou se, de outro modo, coexistem duas ou mais espécies diferentes e exemplares hibridizados. Vamos destacar, para estudo, 15 ou 20 exemplares definidos, e acompanhar o seu desenvolvimento, bem como examinar as plantas descendentes de alguns desses exemplares. A partir desses dados preliminares poderemos avançar um pouco mais em futuras pesquisas.

Os dados preliminares e novidades serão mostrados resumidamente, nesta página, nos subtítulos abaixo. Os dados completos estarão em Peixotoas Campograndenses.

4.01 – O Exemplar a1

(aguardem fotos)

4.02 – O Exemplar a2

a

4.03 – O Exemplar a3

a

4.04 – O Exemplar f1

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4.05 – O Exemplar f2

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4.06 – O Exemplar f3

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4.07 – O Exemplar f4

a

4.08 – O Exemplar f5

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4.09 – O Exemplar m1

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4.10 – O Exemplar m2

a

4.11 – O Exemplar m3

a

4.12 – O Exemplar t1

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4.13 – O Exemplar t2

a

4.14 – O Exemplar t3

a

_______________

Notas:

(¹) Anderson, C. 1982. A monograph of the genus Peixotoa (Malpighiaceae). Contr. Univ. Michigan Herb. 15: 1–92.

(²) Peixotoa cordistipula, P. glabra, P. hirta, P. hispidula, P. jussieuana, P. leptoclada, P. paludosa, P. parviflora, P. reticulata e P. tomentosa.

(³) Peixotoa adenopoda, P. anadenanthera, P. andersonii, P. axillaris, P. bahiana, P. barnebyi, P. catarinensis, P. cipoana, P. gardneri, P. goiana, P. hatschbachii,  P. irwinii, P. magnifica, P. megalantha, P. octoflora, P. psilophylla, P. sericea e P. spinensis. Em 2001 foi “descoberta”, conforme monografia, a “Peixotoa floribunda (Malpighiaceae), a new species from Paraguay”…

(4) Corruptela de estados-unidense ou estadunidense.

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