Histórias da Mata do Segredo

Autor: JOSÉ ANTONIO MASIERO COELHO

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Desde 1983, tinha um sonho de proteger um pedacinho de Brasil, ecologicamente. Sempre trabalhando, viajando e conhecendo reservas naturais em todo o Brasil, esperava que um dia, teria meu espaço, um direito, uma luta para defender, um pedacinho de chão. Foi quando conheci as Matas do Segredo.

Neste ano, o único bairro que havia aqui era o Jardim Campo Belo e o Jardim Campo Novo. O Jardim Presidente ainda era mata fechada. Após o loteamento formado e a Chácara Santa Inês sendo vendida para o Previsul, senti que aquele era o momento oportuno para lutar por aquela área, onde pretendiam construir casas populares. Afinal, as matas do Segredo guardavam um tesouro incalculável: suas águas e nascentes, que contavam a história da fundação de Campo Grande.

Comecei a andar pela mata e a senti-la de perto. As depredações contra o meio ambiente, os caçadores, os raizeiros, as serrarias, os posseiros, etc. Como trabalhava com o radioamador, procurei divulgar pelas ondas de rádio, na faixa dos onze metros, a importância de se conservar uma floresta viva, urbana, dentro dos limites da cidade e qual sería a sua importância, para a comunidade. Fiz panfletos, folder de cópias xerox, coletei assinaturas e abaixo-assinados. Gritei, briguei, chamei a atenção das autoridades do meio ambiente sobre as agressões que aquela mata estava sofrendo, mas, qual o que, ninguém ligou.

Procurei ajuda, com biólogos, agrimensores, agrônomos, engenheiros florestais, botânicos do MS, de SP, do PR, de SC, do RS, da BA, de MG, do ES, do MT e aos poucos, comecei a sentir que me davam ouvidos e aconselhavam-me do melhor caminho a percorrer, para não bater de frente ou pisar no “calo” de alguém. Afinal, já sentia intimamente, que era uma “pedra” no sapato de alguém. Fundei então, o GRUPO OK*SOPAE (Sociedade Px de Apoio à Ecologia), e a partir daí, fizemos diplomas de participação, a todos aqueles que enviassem uma idéia de como proteger este símbolo de nossa cidade.

Foi quando comecei os registros diários de afazeres práticos e resolvi arregaçar as mangas e partir para o trabalho braçal, de semear, plantar e limpar aquela área tão grande, mesmo antes de se tornar unidade de conservação. Sem dinheiro, sem lenço, sem documento. Com fé e coragem, procurei galgar a barreira, que era “fazer um filho na mãe dos outros”. E assumir sua paternidade, no final. Foram cinco anos de divulgações no rádio.

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No dia 08 de janeiro de 1990, iniciei os registros diários. De 09 a 15 de janeiro de 1990, fiz o reconhecimento da mata toda, analisando seus principais problemas e as maiores dificuldades a serem enfrentadas. A quantidade de lixo era enorme, faria qualquer um desistir da iniciativa, assim que visse aquilo. Mas, não sou qualquer um. Dava um boi para não topar aquela parada, mas, assim que iniciei o trabalho de retirada do lixo da mata, já dava uma boiada para não sair. De 16/01 a 04/02, retirei lixo e mais lixo, carregando com carrinho de mão e sacos. Calculei mais de 12 toneladas de latas, plásticos, velas, imagens, papéis, lixo domiciliar, móveis velhos, cerâmicas, vasos sanitários. Tinha até uma sucata de um carro velho, queimado, que não consegui arrastar. Retirei inúmeras cercas velhas e toneladas de arame farpado, encontrando duas choupanas também ruindo, com várias armadilhas de ferro, pau e plástico, arapucas de aves e cartuchos vazios de arma de fogo. Tambores vazios queimados, pneus, borrachas e retalhos de pneus cortados, etc. Deu um trabalhão enorme.

Neste vai e vem de limpeza da mata, conheci o Senhor Albino Galdino Carvalho no dia 15/02 e contei-lhe de meu ideal de proteger aquele pedacinho de chão. Ele convidou-me a ir a sua casa e lá me contou outros problemas que a mata tinha. Apresentou-me o Sr. Guedes que ali estava e que tem uma chácara, na reserva do Exército, do outro lado, vizinho ao Jd. Campo Belo. Foi quando obtive sua permissão para entrar naquela mata e observar as voçorocas e erosões que lá aconteciam e a destruição generalizada. Lá dava dó de ver os espetáculos de ignorância, praticados contra a mãe natureza. Animais sendo mortos a pauladas, estilingadas, bombas (granadas) do exército (o local era usado para manobras de tiro e sobrevivência na floresta).

Foi quando observei orquídeas, epífitas, aráceas, arálias raras, que eram cortadas a facão pelos soldados para abrir picadas nas várzeas e no mato, em seus cursos de treinamento pré-guerra.. e iniciei a retirada destes espécimes da flora, e os transportei para a Mata do Segredo, onde aos poucos, fui amarrando-as às árvores, conservando-as. No mês de março de 1990, subia em árvores, com equipamentos emprestados por colegas da Enersul, para amarrar as bromélias e orquídeas, no alto.

Neste mesmo mês, iniciei uma campanha de conscientização com os presidentes de bairros, para juntos conseguirmos transformar a área em unidade de conservação. Também neste período, constatei as clareiras desérticas e áreas abertas, num total de 49.

E o desmatamento continuava e os caçadores ainda armavam armadilhas que destruía sempre. Até bolar um plano para assustar quem se aproximasse da mata. Ao longo das velhas cercas que limitavam a mata, nas entradas de trilhas, construí várias armadilhas para caçar o animal mais perigoso que invadia o local: o homem. Tratava-se ao meu ver, de uma luta pessoal para proteger a mata, que estava começando a amar de coração. Construí caixas de som com ripas e arame fino bem esticado e coloquei no alto das árvores, para produzir sons fantasmagóricos de ventos uivantes. Espalhei em contatos pessoais, a lenda de ter visto uma procissão de mortos, andando a noite pelas trilhas, e que durante o dia, sempre encontrava alguém morto, nas encruzilhadas dos caminhos, dentro da mata. Surtiu efeito. Diminuiu a invasão de depredadores.

Iniciei em maio de 1990, a colheita de sementes, coletando mais de 5.000. Consegui doação de minha cunhada Maria Concepcion Rodrigues Coelho, de 2.000 saquinhos plásticos, para plantio das mesmas. No começo usei adubo químico NPK 10.10.10, esterco, palha de arroz e terra local, não dando certo. Parti para o natural: esterco, serrapilheira da mata, terra local e adubo orgânico, na qual as plântulas adoraram. Comecei um catálogo de plantas, com reconhecimento em livros e sua medicina popular. Na época, colhi sementes de jatobá (Hymenaea courbaril var. stilbocarpa), jenipapo (Genipa americana), chifre-de-veado (Aspidosperma sp), cumbarú (Dipterix alata), jambo (Jambosa vulgaris), mangaba (Hancornia speciosa), guavira (Campomanesia eugenioides), pimenta-de-macaco (Xylopia aromatica), pau-terra (Qualea grandiflora),aroeira- pimenteira (Schinus terebinthifolius).

No dia 29 de maio, criei e redigi a edição nº 01 da Cartilha do Bom Raizeiro, onde explicava detalhadamente, como retirar sem destruir. E nos dias 30 e 31 os distribuí aos raizeiros da cidade, que costumavam freqüentar o Segredo.

No começo do mês de junho, fui plantar com pau… enfincava o pau no buraco e jogava a semente de nativas, e tapava com o pé. Nos dias 6, 7, 8 e 9 cuidei da segurança da mata, enfrentei caçadores que portavam armas de fogo, declarando que era um policial florestal disfarçado, apreendi um machado de um lenhador, desmanchei uma tocaia na nascente. Cortei bambus para fazer amarrilhos de trepadeiras nativas em saquinhos e em 11 dias, plantei em saquinhos, as 2.000 sementes colhidas em maio.

Em julho, observei um casal de seriemas (Cariama cristata) e no dia 7 encontrei uma sucuri (Eunectes murinus) com a barriga cheia, dormindo. Tinha cerca de cinco metros. Só lamento, na época, não ter uma câmara fotográfica, para registrar, estes momentos de encanto da floresta e do cerrado. Apelidei a sucuri de Zéfinha. No dia 9, vi um casal de lobos guará (Chrysocyon brachyurus). O Albino reclamou da água suja da lagoa, então incluí aguapés (Eichhornia crassipes), para purificar suas águas. Alguns anos depois, retirei estas plantas, pois haviam formado uma camada densa populacional, que estava afetando os pequenos peixinhos do lugar, erradicando-as todas. No dia 16, vi a floração da Piúva-roxa (Tabebuia avellanedae). Um raizeiro veio buscar cancorosa (Maytenus salicifolia) e mamica-de-cadela (Brosimum gaudichaudii), passei-lhe a cartilha e expliquei-lhe uma proibição fictícia na época, sobre arrancar raízes para remédios. No dia 19 tive uma reunião com dirigentes de bairros e restante do mês, conheci novas trilhas. Na queda d’água, as crianças do bairro brincavam e saíam machucadas, entrei dentro e com uma peneira, tirei o lixo e cacos de vidro quebrados.

No mês de agosto de 90, ao estar plantando na mata cinqüenta mudas de pitanga-cabaça (Eugenia sp), 20 mudas de jatobá (Hymenaea sp) e 30 mudas de guatambu (Aspidosperma sp); no dia 28/08, convidei o GEÔ – Geoglemir Barbosa Rodrigues, onde trocamos idéias , e observei que conservar a mata, para ele, também era um ideal. A partir daí, começamos a trabalhar juntos.

Animais vistos neste mês: sagüi (Callithris penicillata), raposa-do-cerrado (Lycalopex vetrilus), rato-d´água (Nectomys squamipes), capivara (Hydrochaerys hydrochaerys), furão (Galictis cuja), gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris), jaguatirica (Leopardus pardalis), lebre (Lepus capensis), lobinho (Cerdocyon thous), macaco-prego (Cebus apella), bugio (Alouatta caraya), irara (Eira barbara), anta (Tapirus terrestris), coelho-branco (Oryctolagus cuniculus), paca (Agouti paca), lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), tatu-bola (Tolypeutes matacus), tatú-galinha (Dasypus novemcinctus), cutia (Dasyprocta punctata), preá (Galea musteloides), veado-mateiro (Mazama americana), tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), onça-parda (Felis concolor), araras (Ara ararauna), Principe-negro (Nandayus nenday), papagaio (Amazona aestiva), pica-pau-pequeno (Veniliornis passerinus), etc.

As árvores mais conhecidas: araticum (Annona sp), barbatimão (Striphnodendron adstringens), jatobá (Hymenaea sp), angico (Anadenanthera sp), jequitibá (Cariniana sp), mangaba (Hancornia speciosa), ipês (Tabebuia sp), pequi (Caryocar brasiliense), canelas (Ocotea sp), imbaúba (Cecropia sp), pau-tucano (Vochysia tucanorum), negramina (Siparuna sp), olho-de-cabra (Ormosia arborea), cumbarú (Dipterix alata), peroba-rosa (Aspidosperma sp), jacarandá (Jacaranda sp), sucupira (Pterodon sp) cedro (Cedrela sp), etc.

Em setembro de 90, agora com a ajuda voluntária de Geô, plantamos jenipapo (Genipa americana), cumbarú (Dipterix alata), jambo (Jambosa vulgaris), mangaba (Hancornia speciosa), guavira (Campomanesia eugenioides), tudo em mudas. Fizemos as suas manutenções com água no plantio. Fizemos um mapa das trilhas.

Em outubro de 90, encontramos a sucuri Zéfinha, estava maior. No dia 02/10, ocorreu um incêndio no fundo da mata, onde queimou três hectares. No dia 3 encontramos vestígios de caçadores que acamparam, fizeram fogueira e carnearam dois coelhos-brancos (Oryctolagus cuniculus) (Mais tarde, vimos saber que estes coelhos brancos foram deixados por uma senhora que se mudou do bairro). Andando em volta, encontramos 15 armadilhas de coelhos. Dias 8, 9 e 10 fizemos catalogo de plantas. Dias 11 e 12 fofamos uma clareira aberta e semeamos jatobá (Hymenaea courbaril), guatambu (Aspidosperma sp) , guavira (Campomanesia eugenioides), jambo (Jambosa vulgaris) e mangaba (Hancornia speciosa). Como a clareira estava muita exposta ao sol, no lugar do plantio, colocamos estacas de bambu (Bambusa vulgaris), com sombra de capim (Brachiaria decumbens). Fizemos a manutenção e regamos o local.

No dia 23/10, retiramos água da nascente para análise na GERCG, da Sanesul.

Calculamos 5 dias para reconstituir uma clareira e depois só manutenção com água. (Para registro: a água usada para regar as mudas plantadas, era das nascentes e o único meio de a carregarmos, era com um tambor plástico de 100 litros, com alças, que tínhamos).

Em novembro de 90, no dia 01, criamos o GEMAS – Grupo Ecológico de Manutenção da Mata do Segredo, composta por 11 meninos de rua, na qual ensinamos a plantar, com visitas na mata, colheita de sementes, aulas de secagem e encher saquinhos, a fazer adubo orgânico, procurar esterco, mistura de substrato, etc. Dias depois, recebemos a visita de alguns pais, que queriam saber de nosso projeto ambientalista.

Em meu viveiro particular, o “Herbarium”, tinha muitas mudas ornamentais. Neste dia, distribuímos aos pais, muitas destas mudas.

No dia 15/11 teve eleições, mas, no dia 16/11 fiz uma palestra sobre a Mata do Segredo, na reunião de moradores. No dia 17/11 fizemos a fundação da AMOJAP – Associação de Moradores do Jardim Presidente. No dia 18/11 elaboramos cartas para entregar a Sodepan, Fundepan, Ecoa, Sema e Ibama. Do dia 20 ao final do mês, coletamos sementes de juúna (Solanum verbascifolium), pequi (Caryocar brasiliense) e ensinamos as crianças, os venenos naturais de pimenta (Capsicum sp), para combater formigas. Fizemos manutenções e água em plantios anteriores.

A fundação do GEMAS, marcou profundamente um passo a frente na conscientização das crianças e no futuro ecológico da mata. Elas são atentas e aprendem rápido. Continuamos a distribuir gratuitamente mudas ornamentais, frutíferas e exóticas, aos moradores dos bairros.

Em dezembro de 90, as chuvas estão fortes. Recebemos doação de sementes de aroeira pimenta (Schinus terebinthifolius). Fizemos visita na mata, onde os meninos observaram fungos e liquens, além de um ecossistema completo, em um pau podre. No dia 08/12 fizemos uma cartilha de conscientização que foi distribuída nas casas do bairro. Neste mês coletamos sementes de ipê-roxo (Tabebuia avellanedae), Cambuí (Eugenia sp), angico preto (Anadenanthera sp), juúna (Solanum verbascifolium), jurubeba (Solanum paniculatum), jatobá (Hymenaea stigonocarpa), guavira (Campomanesia eugenioides) e mamica-de-cadela (Brosimum gaudichaudii). No dia 23 de dezembro, tivemos as primeiras eleições da diretoria de fundação da AMOJAP – Associação de Moradores do Jardim Presidente, onde seu presidente foi Joaquim Duran da Silva, também grande batalhador, para a conservação da área do parque. Comprei 5.000 saquinhos com a venda de um radio-gravador meu.

Continuo a ensinar em casa, devido ao medo das faíscas, que caem na mata, as quedas de árvores e a chuva forte.

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RESUMO DE 1990

Pelo trabalho executado na mata, asseguramos a existência e manutenção de 60 espécies, neste ano de 1990.

Desde o começo de janeiro, vimos cobrindo áreas desérticas, dado o desmatamento, que embora nossos esforços, continuam a destruição e corte de madeiras nobres como a aroeira (Myracrodruon urundeuva), o balsimin (Diptychandra aurantiaca), angelim (Vatairea macrocarpa) e ipês (Tabebuia sp).

Vimos neste ano, desfazendo muitas armadilhas e tocaias de ferro, plástico e madeira, embora quase não consigamos conter os homens que ali caçam com armas de fogo. A matança dos animais, quase extinguiu da área, o preá (Galea musteloides) e o coelho selvagem ou lebre (Lepus capensis), e os veados-mateiro (Mazama americana).

O lixo que tiramos da mata, superou as marca das 20 toneladas. Mais trilhas foram abertas, com corte de mudas que ali plantamos.

Os raizeiros tiraram muitas raízes, cascas e folhas e as reservas de algumas espécies já se esgotam. Os moradores locais, continuam a buscar água nas minas e quando saem retiram muita lenha da mata.

O Sr. Albino continua na árdua tarefa de espantar intrusos na mata.

Alguns fios de arame farpado da Avenida Marques de Herval foram retirados.

A mamãe bugia (Alouatta caraya) teve filhote e está mais brava que o costume.

Nas chuvas de verão apareceram muitas garças (Egretta thunula) e um colhereiro (Ajaia ajaja), arara-canindé (Ara ararauna), papagaios (Amazona aestiva) e uma infinidade de aves.

As cobras que tenho visto são a cascavel (Crotalus durissus), caiçaca (Bothrops moojeni), coral falso (Anilius scytale) e a coral verdadeira (Micrurus frontalis), boca de sapo (Bothrops neuwiedi), cipó verde (Philodryas spp), cobra cega (Liotyphlops spp) e a jibóia (Boa constrictor).

Aranhas caranguejeira, marrom (Loxosceles). Escorpião amarelo (Tityus serrulatus), preto (Tityus bahiensis), e o vinagre. Lacraias ou centopéias várias que atingiam até 0,30cm.

No final do ano, apareceu uma onça pintada (Panthera onca) e uma anta (Tapirus terrestris). Vários teiús (Tupinambis sp) e outros lagartinhos.

Continuo retirando, da mata da reserva do exército, várias qualidades de orquídeas e epífitas, que foram atingidas pela voçoroca. Consegui quatro espécies de bromélias.

As bromélias foram: Nidularium fulgens, Tillandsia gardneri, Bromélia-fogo Neoregelia “Fire ball”, Vriesea forstriana, além de gêneros como: Nidularium, Cryptanthus, Aechmea e Quesnelia.

A mata começa a se recuperar. Continuamos a retirar lixo e arapucas e a sucuri Zéfinha tem já quase 7 metros, medida de longe, é claro.

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Em janeiro de 1991, fizemos uma festa para a Nossa Senhora da Mata, com as crianças. (Uma santa criada, alusiva a uma mulher fictícia que cuidava das crianças, enquanto cuidávamos de sua floresta). A santa mãe Natureza.

Como continua a chover, paramos de fazer mudas e começamos a semear pitanga (Eugenia sp), mangaba (Hancornia sp), escova (Combretum loeflingii), maracujá-açú (Passiflora quadrangularis), cipó-mil-homens (Aristolochia cymbifera) , arranha-gato (Mimosa adenocarpa), pau-terra (Qualea grandiflora), aroeira (Myracrodruon urundeuva), begônias (Begônia salicifolia), ingá (Inga uruguensis), arnica-do-mato (Porophyllum ruderale), Vassourinha ou alecrim-do-campo (Scoparia dulcis) , trapoeraba (Tradescantia sp), quebra-pedra (Phillanthus niruri),etc. Várias espécies de ervas rasteiras medicinais. As frutíferas semeadas entraram como tentativa de a natureza não fazer tudo sozinha, apesar da destruição constante que ela sofre. Apenas fofamos a terra com o enxadão, adubando organicamente para as sementes penetrarem.

Em fevereiro de 91, fizemos acompanhamento de mudas plantadas em 90. No dia 07/02, achamos uma clareira seca curiosa, tudo que se jogava nela, ela tragava para dentro; até uma vaca desgarrada do Albino, caindo na areia movediça, foi engolida. Sendo o local muito perigoso, nunca mais voltamos lá. Normalmente, há vacas do Albino trafegando na mata e o seu esterco vem carregado de sementes de brachiaria decumbens, que está invadindo o local. Em árvores encontramos arapucas para aves e com chamariz vivo dentro. Soltei-a e destruí as armadilhas. Arapucas de nylon para pegar lebres e coelhos são freqüentes. Uma tocaia com vasilha aberta de qboa, cheia de sal, para veados, já encontramos várias.

Dos dias 16 a 21/02/91, viajei a São Paulo, onde fui no SEMA-SP, IAC- Instituto Agronômico de Campinas-SP, Colégio Mackenzie-SP e USP-SP, procurando informações de como deveria agir naquela mata,(visto que aqui em Campo Grande, quando dizia que não tinha curso superior ou que estava estudando biologia, não informavam nada). Após instruções, retornei a Campo Grande, onde no dia 24/02, constatei o corte e retirada de 40 arvores: aroeira (Myracrodruon urundeuva) e balsimin (Diptychandra aurantiaca). Fixei um cacto rainha-da-noite (Cereus grandiflorus) em uma árvore. No final do mês, semeamos marmelada (Alibertia edulis).

Em marco de 91 de 05 a 14, iniciamos um projeto do cogumelo comestível, tipos: Hydnums, Morilhas, Helvelas, Psalliota campestris, Trufas e Tubaras subterrâneas, semeando estrume de animais que comem feno e aveia, coletados no Haras de Campo Grande e no Parque Laucídio Coelho, ao lado de paus podres, acrescentando azoto, fósforo, potássio e proteínas insolúveis.

Semeei o dente-de-leão (Taraxacum officinale), assoprando. Fiz levantamento florístico de árvores e plantas herbáceas. Semeei o juquiri-aturiá (Solanum juceri). Nesta época, necessitava de livros, como “A Flora Brasileira” e as “Plantas e Substâncias Vegetais Tóxicas e Medicinais”, mas o dinheiro que ganhava com a catação de latas e papelão, não dava para comprar. Andei pedindo doações de livros, mas, não consegui. Neste mês tentei a reprodução do barbatimão (Stryphnodendron adstringens) por estacas, pois ela quase não produz sementes viáveis. A mata já está começando a ficar seca e as chuvas estão parando.

Em abril de 91, plantamos por estacas o cambará-de-espinho (Lantana camara), carrapichinho (Urena sinuata) e cascarilha (Croton eluteria). Coletamos sementes de negramina (Siparuna guianensis), cuambú ou picão (Bidens pilosus), douradinha (Waltheria douradinha) , fava-branca (Dyphisa flava), jaborandi (Piper aduncum), jaborandi-falso (Piper marginatum) jurubeba (Solanum paniculatum), cumbarú (Dipterix alata) e imbaúba (Cecropia pachystachya).

No dia 20/04/91, iniciou-se a construção do Posto da Policia Florestal, com a mão-de-obra e alguns materiais de construção, totalmente doados pela comunidade.

No projeto cogumelo, nasceu outras espécies venenosas: Amanita e Volvaria, além de fungos “orelhas de pau”, desisti deste projeto, pois o comestível não apareceu. Emprestei de amigos, o livro “Flora Nacional na Medicina Doméstica” que ajudou-nos bastante, no reconhecimento de várias espécies medicinais.

Em maio de 91, consegui mudas de samambaiaçu (Polypodium filix mas) e nos dedicamos mais às nascentes e olhos d’água, plantando samambaias (Pteris caudada), aquáticas, rabo-de-búgio (Polypodium sp), etc, visto que floriculturas mandavam equipes, para arrancar as poucas existentes.

Estava se iniciando uma pequena voçoroca, em torno de alguns olhos d’água e nascentes. Incluí aí, as bambusas ou bambusinhas (Bambusa sp), que seguram o solo e evitam desbarrancamentos e erosões. Dedicamos o restante do mês ao plantio de 200 mudas de bambusa, nos barrancos.

No dia 01/06/91, visitei a construção do Posto Florestal e tive a 1ª proibição de adentrar a mata, mesmo explicando o trabalho que estava fazendo voluntariamente. No dia seguinte, fui barrado novamente e agora estamos entrando na mata pelas laterais e entradas de cercas velhas. Apesar de todo o nosso serviço voluntário de construção deste posto e manutenção da mata, ainda assim, era proibido entrar. Mandei-os para o inferno e continuamos o nosso trabalho. O que importava era regenerar a floresta e ninguém nos barraria ali.

Plantio de mudas de canafistula (Peltophorum dubium), espinheira-santa (Maytenus salicifolia). No dia 10/06/91, fiz uma cartilha de conscientização aos moradores e distribuí de casa em casa, explicando que a Policia Militar não deixava-nos entrar na mata e os seus motivos. Foi o suficiente para um abaixo-assinado ser feito e encaminhado ao Comando Geral da Policia Militar, que respeitou a nossa iniciativa e nos autorizou verbalmente de continuar nosso ideal ecológico.

No dia 29 de junho também distribuímos cartilhas sobre o lixo, as queimadas e as velas de macumba que deixam acesas na mata. Fui bem recebido pelos moradores da Favela São Pedro, Nova Lima e altos do Jardim Presidente, que elogiaram nosso trabalho de conscientização e prometeram não jogar mais lixo na área.

Em julho de 91, fizemos com os meninos do GEMAS, aulas teóricas de Fotossíntese, Equilíbrio ecológico, Estudo do Meio, Cadeia Alimentar, Reciclagem de Lixo, Recursos Naturais Renováveis e Desmatamentos, junto com os pais que trouxeram lanches e refrigerantes para todos. O menino Júlio perguntou-me: Sr. Coelho, plantando na mata, o senhor não modificou a natureza? – Respondi: “Deus criou, o homem destruiu… refiz, mas, não descaracterizei a área, só ajudei a Mãe Natureza, a não fazer o trabalho sozinha”.

A mata está seca e todo o cuidado é pouco. De casa, avistei um balão que caiu na mata. Os meninos do GEMAS correram para me avisar, peguei uma pá e corri para o local, que já ardia, queimando um 100m² de mata. No dia 15/07, visitei hortifrutigranjeiros que usam as águas do rio Segredo e discutimos os principais problemas. Administrei aulas teóricas sobre parques e jardins, erosão e a necessidade de replante, para conservar a mata ciliar do rio.

No dia 23 soltei alevinos de pacu (Mylossoma paraguayensis), na lagoa do Albino, pois visitei a piscicultura de Terenos e lá ganhei alguns peixinhos. No dia 25/07, o Anísio e seu irmão, cortaram o barranco de sua divisa, para passagem da água da mina, pelos fundos de sua casa. Nada pude fazer. Os mesmos ao realizar o serviço, arrancou inúmeras raízes do brejo, que após a sua saída, os replantei. Procurei o Senhor Albino, para falar sobre o desvio da água, mas, segundo ele, seus filhos acham melhor fazer aquilo, pois a água ficava mais próxima de sua casa.

Em agosto de 91, realizamos vários plantios de mudas: bacuri (Scheelea phalerata), guabiroba (Campomanesia xanthocarpa), caju-silvestre (Anacardium humile), coco-piri (Astrocaryum sp), boca-boa (Buchenavia tomentosa), marolo-cagão (Annona dioica), araticum-areia (Annona coriacea), serralha-brava (Sonchus oleraceus), melancia-de-macaco (Cayaponia trilobata), joá-bravo (Solanum viarum).

No dia 21/08, teve uma queimada no canto direito da mata e destruiu 02 ha. Procurei a causa e descobri um trabalho de macumba, na Avenida Marques de Herval. Dia 23 em diante plantamos ananás (Ananas ananassoides), ata (Dughetia furfuracea), araçá (Psidium guineense) e maracujina (Passiflora sp), além de estacas de amoreira (Morus nigra).

Em setembro de 91 semeamos melão-de-são-caetano (Momordica charantia), ingá (Inga edulis), cumbarú (Dipterix alata), e babaçu (Orbignya oleifera). No brejo, plantamos inhame-d’-água (Colocasia antiquorum var. esculenta), melão-silvestre (Cayaponia sp) e 55 mudas de jenipapo-bravo (Genipa spruceana). Desmanchamos 04 armadilhas de chão e no dia 21/09 caí numa delas. A armadilha de chão consiste em um buraco de 0,50 x 0,50 x 1,00m de fundura, com pontas cravadas em baixo, para quando ao animal cair, morrer cravado. Ao cair numa destas , a ponta se cravou em minha perna. Fui atendido no P.S. da Santa Casa e fiquei de “molho” 09 dias em casa, louco para voltar a trabalhar na mata.

Em outubro de 91, vi alguns resultados de plantio do ano anterior: 04 indivíduos de goiaba-vermelha (Psidium guajava). Semeei fedegoso-verdadeiro (Senna occidentalis), congonha-de-bugre (Villaresia congonha), mentruz (Coronopus didymus) e ervas rasteiras. Plantei uma semente de manga-aden e dez sementes de girassol, mas, as formigas as comeram. Decidimos, Geô e eu, atacar de vez, as clareiras abertas, visto que a primeira surtiu efeito e as mudas, hoje, já são bons arbustos, em menos de um ano. Pegamos com afinco, 10 clareiras e batalhamos o resto do mês e do mês seguinte, fofando e adubando, semeando ervas rasteiras e plantando mudas, fazendo coberturas de bambus e capim e o mais difícil foi carregar a bombona plástica de 100 litros com alças, com água, para regar estas mudas, nestes dois meses.

Trabalhando nas clareiras, fiquei moreno e enxuto, emagreci uns 15 kilos e quando me perguntavam o que era bom para emagrecer, eu respondia: “Sol, calor e enxada”.

Em dezembro de 91, tive que parar o trabalho da mata, pois já há algum tempo não entrava dinheiro em casa e tinha sempre que vender alguma coisa de casa mesmo, para a família sobreviver. Arranjei emprego na Cobel, de vigia noturno. Ah! Se tivesse uma renda mensal, eu me dedicaria integralmente ao Segredo.

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RESUMO DE 1991

Foram plantados na mata, mudas e sementes de 15 espécies em 28 kilos de sementes. Recebi doações de pau-ferro (Caesalpinia ferrea), peroba (Aspidosperma sp), ipê (Tabebuia sp) e cedro (Cedrela sp).

Enquanto trabalhava na Cobel e começava a colocar em ordem a minha vida, comecei a adquirir no “sebo”, alguns livros, como: “Aspectos Biológicos da Flora Brasileira;” “Plantas e Substâncias Vegetais Tóxicas e Medicinais”; “Notas sobre Plantas Brasileiras”; “Árvores e Plantas Úteis” e “Plantas que ajudam o Homem”.

Procurei estudar bastante sobre ervas medicinais e juntei vasto material bibliográfico manuscrito, sobre o assunto. E nas minhas folgas, como vigia, visitava a mata para reconhecer as ervas medicinais do local, para a futura composição de um livro sobre o assunto, o que culminou em 1994, com um manuscrito completo, cujo titulo era: Plantas Medicinais do Jardim Botânico. Totalmente xerocopiado e distribuído em Campo Grande. Uma cópia foi enviada à biblioteca do SEMA, que segundo informações, “perdeu-se”, numa das arrumações da sala. Mas, até hoje, tenho o manuscrito guardado, inclusive com fórmulas de como preparar os remédios.

Em 1991, o Geô construiu uma cabana com paredes trançadas de bambu e lá foi morar. Ali, coletamos e beneficiamos muitas sementes de espécies arbóreas nativas e semeamos em clareiras abertas. Em 1999, após incêndio criminoso, na mata, esta cabana se queimou toda.

Meu trabalho como vigia durou somente 40 dias e no dia 05/01/92, fui dispensado, devido ao fracasso de obras que a engenharia prestava e houve corte de pessoal. Mas, já no dia 09/01/92, ingressava na mata, para plantar novamente.

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Em janeiro de 1992, realizamos plantio de cacto-trepador (Cereus grandiflorus), Carolina (Thumbergia laurifolia), chinelinho (Thumbergia mysorensis), cipó-de-são-miguel (Petrea volubilis), escova (Combretum loeflingii), flor-de-são-joão (Pyrostegia venusta), flor-do-cardeal (Ipomoea pinnata), glicínia-branca (Wistaria sinensis), maracujá (Passiflora sp), cipó-mil-homens (Aristolochia cymbifera), Sarita (Saritaea magnifica), sete-leguas (Pandorea ricasoliana) e Vanda (Orchidaceae). Estas plantas foram orientadas por biólogos da USP-SP, devido ao solo arenoso do local, algumas trepadeiras sentiram a diferença e feneceram, mas, outras apresentaram folhas novas. É o fruto do nosso trabalho que Deus abençoa. As trepadeiras e os cipós, umedecem o solo abaixo delas e a formação de fungos, enriquece o local antes morto.

Em fevereiro de 92, fiz análise de reprodução da catuaba (Anemopaegma arvense) e do algodãozinho (Cochlospermum sp). Reconheci várias espécies arbóreas: Quina-doce (Vochysia cinnamomea), canela-branca (Ocotea velloziana), casca-de-anta (Drimys winteri), caraíba (Tabebuia caraiba), pau-santo (Kielmeyera coriacea), quina-cassia-grossa (Strychnos pseudoquina), pau-d-óleo (Copaifera langsdorffii), almécega-açu (Protium heptaphyllum), japecanga (Smilax japecanga). Vi um tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla) e uma cobra que andava na trilha, curiosamente, quase em pé, apoiada no rabo, e ao me ver, entrou na mata.

Em março, com livros na mão, reconheci o pacová-catinga (Renealmia exaltata), a aroeira-brava (Lithraea molleoides). Semeamos serralha-brava (Sonchus oleracea), damiana (Turnera sp), mil-em-rama (Achillea millefolium), salva (Salvia officinalis), dente-de-leão (Taraxacum officinalis). Plantamos 50 mudas de mangaba-brava (Hancornia sp) e 5 mudas de jequitibá (Cariniana estrellensis). Semeamos douradinha (Waltheria douradinha), erva-cidreira-verdadeira (Lippia alba), erva-de-bicho (Polygonum hydropiperoides), erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides), rubim (Leonurus sibiricus), alfavaca-do-campo (Ocimum gratissimum), angelicó (Aristolochia cymbifera), aturiá (Solanum juceri), begônia (Begonia salicifolia). Plantei doação de 4 mudas de bálsamo (Myroxylon peruiferum) e 5 mudas de barbatimão (Stryphnodendron adstringens).

Em abril de 92, semeamos beldroega (Portulaca oleracea), borragem (Heliotropium indicum), calendula-vermelha (Calendula sp), fedegoso (Senna occidentalis), folha da fortuna (Bryophyllum pinnatum), cambará (Lantana camara), gritadeira ou douradão (Palicourea rigida), guabiroba (Campomanesia xanthocarpa), e perto das minas d’-água, cana de macaco (Costus spicatus). Reconhecimento da carapanaúba-amarela (Aspidosperma discolor) e caroba (Jacaranda cuspidifolia). Plantio de guaco (Mikania sp) e 20 mudas de cedro vermelho (Cedrela sp).

No dia 20/04, mudou-se para o posto construído o Cabo PM PAULO ROBERTO NUNES, com sua família, e para fazer expediente de 12 horas, veio o SD PM MEDEIROS. A hostilidade inicial, num conhecimento militar com um paisano, é natural, mas, o convívio madura todas as amizades; houve troca de informações ecológicas com o Cabo Paulo e a coisa entrou nos eixos.

No dia 30/4, encontrei na trilha Coral, a mamãe bugia (Alouatta caraya), que antes tivera um filhote, morta, provavelmente com pauladas na cabeça. Avisei o Cabo Paulo, sobre o ocorrido e após enterrei o corpo, apesar das reclamações do papai bugio, que insistia em me atacar.

Em maio de 92, minha dedicação foi mais para a fauna desta vez. Comuniquei aos soldados do posto, de que caçadores e lenhadores estavam agindo, mas, a desculpa foi de que não havia viaturas disponíveis, para deslocamento do local, bem como, pessoal para atender as ocorrências.

A partir daí, resolvemos agir sozinhos, expulsando pessoal caçando e desmanchando muitas armadilhas. Observei algumas florações e colhi sementes. A dedicação foi mais para o brejão, que está atacado de capim navalha (Cynodon sp), devido ao excesso de sol e falta de algumas árvores de mata ciliar. Vimos muitas serpentes e urutus (Bothrops alternatus). Fizemos plantio de jalapa (Operculina sp), louro (Ocotea sp), persicária (Polygonum sp), poejo do brejo (Mentha pulegium), sucupira-preta (Bowdichia virgilioides), pinha do brejo (Talauma ovata), sensitiva (Mimosa humilis), tanchagem (Plantago major), mata-pasto (Cassia sp) e imbaúba (Cecropia pachystachya).

No dia 12/05, encontrei uma ossada humana, abaixo dos eucaliptais, devia ser muito antiga e estava parcialmente semi-enterrada, na areia seca do cerrado. Avisei a policia civil, que não veio averiguar o fato. Posteriormente, cavei um buraco mais fundo ao lado e enterrei os ossos.

No dia 24/05, fiz a edição do Boletim Informativo nº 01/92 “El Segredo” da Associação de Moradores do Jardim Presidente.

Em junho, recebi a visita do engº Agrônomo REGINALDO GOMES YAMACIRO da SEMA/MS, que elogiou nosso trabalho, meu e do Geô, e incentivou-nos a continuar nesta árdua tarefa ecológica; prometendo-nos ver emprego na SEMA e recebemos de doação; 2.000 sacos de mudas.

Ganhei de um floricultor, 04 sacos de 50 kilos de sementes de cinamomo (Melia azedarach), uma exótica. Joguei-as no campo sujo da área, pensando em recolonizar o local. Mas, as formigas cortadeiras, destruíram todas de uma só vez. Não nasceu um só pé de cinamomo.

No dia 08 de junho, nos eucaliptais (Eucalyptus globulus), vi um fenômeno terrestre ou extra; luzes muito intensas de coloração variada, saíam do chão, como riscos coloridos, que chegavam a uma altura de 3,00m e durou cerca de duas horas. No outro dia, fui verificar e recolhi alguns ossos de animais pequenos e um pedaço de imã limpo, ali deixado. Não comuniquei nada a ninguém. Não havia traços de fogueiras ou que tivesse passado fogo na área.

Ajudei no acabamento e na pintura do posto policial e no dia 13 de junho o posto foi inaugurado, com o Cabo Paulo e sua família, já morando dentro.

Assistindo a ECO/92, pela TV, no dia 10/06, o índio Marcos Terena declarou: “Vocês têm a tecnologia, a máquina, nós temos a sabedoria da natureza”.

Neste dia, plantamos 50 mudas de pindó (Syagrus romanzoffiana). Dia 15/06 teve eclipse parcial da lua. Plantio de Pau-jangada (Apeiba tibourbou), bardana-carrapichão (Arctium minus), bucha (Luffa sp), cabaça amargosa (Cayaponia sp), urucum (Bixa orellana), verbasco (Buddleja brasiliensis). Dia 23/06, vi o corte de árvores: 03 aroeira (Myracrodruon urundeuva), 04 angelim (Andira inermis), 05 faveiro (Dimorphandra mollis), 04 castelo (Calycophyllum multiflorum), 08 cumbarú (Dipterix alata), 06 angico-branco (Albizia niopioides) e 05 ipê-roxo (Tabebuia avellanedae). Comuniquei o posto, mas, novamente não puderam se deslocar.

Em julho de 92, no dia 01/07, fiz a edição do boletim informativo nº 00/92 do Campo Belo, na qual foi distribuído aos moradores, daquele bairro. No dia 12, teve queimada perto do posto florestal, mas, felizmente controlado a tempo pelo Cabo PM Paulo, onde queimou perto de 150m² de área.No dia 13, recolhi amostras de solo para verificação de PH, em vários pontos da mata. Enviei para São Paulo e fiquei aguardando o resultado.

No dia 26/07, foi fundado o Clube de Mães do Jardim Presidente, pela esposa do CB PM Paulo, a Senhora Redima e como sempre fui procurado para bater os estatutos e dar apoio. No dia 29, subi no jatobazão (Hymenaea courbaril var. stilbocarpa), por meio de cordas. A vista de lá é linda. No dia 30/07 houve eclipse total do sol e os animais e aves corriam e voavam assustados com o evento. Foi plantado neste mês: Centaurea-menor (Erythroea centaurium), pinhão-do-Paraguai (Jatropha curcas), pião-roxo (Jatropha gossypiifolia), peroba-rosa (Aspidosperma polyneuron), paracari (Marsypianthes chamaedrys), sangra d’-água (Croton urucurana), lixeira (Curatella americana), língua-de-tucano (Eryngium sp), imbiri (Canna sp), golfo-de-flor-branca (Nymphaea alba), estramônio (Datura stramonium). Pesquisado a parasita de raiz Flor-da-terra (Langsdorffia hypogaea), que era comida por ratos, cutias e capivaras. Inclusive, quando da visita de alguns índios da Tribo Terena, fui informado que os mesmos, quando queriam caminhar nas florestas à noite; colhiam a flor-da-terra e no seu “miolo”, punham resina de almécega (Protium heptaphyllum), acendendo fogo por cima. Segundo o Marcos (índio terena), o lume ficava aceso por muito tempo, o que permitia que os mesmos, andassem tranqüilamente, iluminando muito bem os seus caminhos.

Em agosto de 92, fui procurado pelo radialista Miltinho Viana, para lhe fazer um suplemento especial nº 01/92, o “Jornal do Miltinho”, que além de contar sua biografia, coloquei uma coluna específica de um programa de fitoterapia e um questionário de “Você Curte a Natureza?”.

No dia 05/08/92, foi fundado o NHMS – Núcleo Habitacional Mata do Segredo, um assentamento ao lado do parque, sendo o seu 1º presidente o Paulo Faustino de Oliveira. No dia 07/08, fiz o semanário nº 01/92 do Clube de Mães do Jardim Presidente. Nos dias 18, 19, 20, 21/08 e 16/09/92, a comunidade fez um curso de Educação Ambiental; administrada pelo SEMA; onde todos os participantes, receberam diplomas.

No dia 26/08 houve uma queimada nos fundos do Assentamento do Segredo e ao procurar a causa, um morador disse-me que ao limpar seu fogão à lenha, jogou as cinzas rentes à cerca de proteção da mata. Queimou quase 02 ha.

Plantamos cipó-escada (Caulotretus sp), cocleária (Cochlearia officinalis), cordão-de-frade (Leonotis nepetaefolia), cruá (Cucurbita odorifera), curraleira (Croton antisyphiliticus), dente-de-leão (Taraxacum officinale), azedinha-das-pedras (Oxalis densifolia), cuambú (Bidens pilosus), guapuruvú (Schizolobium parahyba) e tarumã (Vitex cymosa).

Em setembro de 92, realizamos manutenções com água nos plantios anteriores, pulverizei com água de fumo (Nicotiana tabacum) e folhas de cinamomo (Melia azedarach), as plantas atacadas por cochonilhas e pulgões, afastei as formigas com suco de pimenta-cumari (Capsicum sp), pincelado nos caules. A mata toda está em flor na Primavera. É um espetáculo fascinante. Tem abelhas de toda parte e os passarinhos são lindos e variados. É empolgante. Sinto-me como uma alma no paraíso. Só vivendo com eles, para senti-los bem no fundo d’alma e compartilhar o seu sucesso. A mãe natureza os abençoe.

Em outubro de 92, no dia 15/10 recebi diploma do SEMA-MS.

Problemas das eleições do bairro, e o Cabo PM Paulo, entra em crise com o presidente atual; o Senhor Joaquim Duran da Silva, que vai ao comando geral e reclama da conduta do soldado; e este o transfere. Damos nosso testemunho pessoal do trabalho do CB PM Paulo, na construção do posto, além de pedidos de doações de materiais para seu acabamento. Parabéns. A comunidade deste bairro se entristece neste momento, pois foi o CB PM Paulo, que mais ajudou este povo, inclusive com a distribuição de peixes apreendidos e com seu apoio logístico e policial, nos casos de socorro médico e a luta pela permanência dos moradores, na favela do Segredo. Sentiremos muito a sua falta.

Qualquer pessoa que estiver lendo este, deve comentar assim: “Esse cara vivia de brisa”? Como não estava empregado, sempre produzi mudas de ornamentais, para venda em floriculturas ou para jardineiros de Campo Grande. Além disto, tenho meu filho Diego, que enche os saquinhos de substrato e realiza a manutenção do viveiro. Minha esposa Oneide vende produtos cosméticos de vários catálogos do Brasil e ajuda no sustento da casa. Minha filha Diana faz alguns trabalhos de artesanato, além de promover eventos, como bailes, shows, discotecas, etc. Só o vagabundo aqui é que catava latinha de alumínio na rua, para poder posteriormente vender e transformar o dinheiro em arroz, feijão.

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Em junho de 93, iniciou-se a construção da cerca da mata, por funcionários da Champion Celulose, da Chamflora de Três Lagoas-MS, através de uma compensação ambiental. Vieram motoniveladoras, tratores com buldozeres, maquinas de esteira, motoserras e 40 homens, para cavocar e enterrar postes de concreto, ao longo dos mais de 6.000m de divisas.

O barulho era infernal, o cheiro de diesel e fumaça percorria a mata de fora a fora. Os homens trabalhavam das 6:30 até 11:00hs, quando então paravam para comer, no rancho improvisado, dentro da mata. Voltavam ao trabalho às 13:00 para parar às 17:00hs, depois desciam até a cachoeirinha e tomavam banho nas águas da nascente, com sabões e sabonetes, ali lavavam até peças de uso profissional, sujando as águas com óleo e gasolina.

Montaram acampamento dentro da mata, cortaram muitas árvores para fazer barracas cobertas de lona plástica preta. Andaram, nos finais de semana, caçando no local, pois sempre encontrava peles de animais carneados.

Esta cerca acarretou inúmeros problemas. As máquinas que realizaram o aceiro, destruíram 30% do meu trabalho junto das velhas cercas, como os cipós plantados em janeiro de 92; árvores nobres e em fase de extinção, como o castelo (Calycophyllum multiflorum), faveiro (Dimorphandra mollis), imburana (Amburana cearensis), ipê-roxo (Tabebuia avellanedae), pau-d’-arco amarelo (Tabebuia ochracea) e guarantã (Esenbeckia leiocarpa). Elas foram arrancadas violentamente do solo, sem dó ou piedade. Os animais corriam esbaforidos e acho que 60% deles abandonaram o lugar. Sabia que dali para frente a segurança da mata do Segredo, iria melhorar, inclusive com o Posto Policial Florestal e as visitações públicas seriam menores. Os meninos que caçavam passarinhos e os lenhadores agora teriam que maneirar, mas o dano que a poluição sonora causou foi enorme.

Até parece que nosso trabalho de campo, ao longo das cercas não adiantou muito. Tentei o fechamento natural, mas, o trabalho mecanizado foi mais forte. Mas, começamos tudo novamente e enquanto Deus me dá forças para trabalhar, continuo a plantar.

Um parecer favorável, depois que a mata foi fechada, é a de que as trilhas (muitas delas), estão se fechando (regenerando), inclusive, estou plantando nelas e fechando suas entradas, com o Arranha-gato (Mimosa adenocarpa), que impede qualquer aproximação de curiosos.

Também em junho de 93, nosso trabalho não parou. Plantamos 50 mudas de pitanga-cabaça (Eugenia sp), duas de imburana (Amburana cearensis), 100 de pindó (Syagrus romanzoffiana), 2 aroeira (Myracrodruon urundeuva), canafistula (Peltophorum dubium), cedro (Cedrela sp) e tarumã (Vitex cymosa), além de semear quebra-pedra (Phylanthus niruri), vassourinha (Scoparia dulcis) e cipó-mil-homens (Aristolochia cymbifera).

Em julho de 93, no dia 3, teve o II° Encontro dos Lobisomens do MS, que foi até o dia 10/7 e recebi visitas das mais estranhas, por estes sete dias. Muitas pessoas fantásticas, altamente ecologistas, verdadeiros amantes da natureza. Aplaudiram nosso trabalho. Conheci vários “lobisomens”. Gente fina mesmo. Todos os dias, vinham sete homens e dormiam na mata fechada, sem rede, sem cama, sem colchão, sem nada e não faziam fogueiras. Tudo muito bonito.

No dia 10/7 fiz outra cartilha para raizeiros, que distribuí na cidade. No dia 15/7 fiz o Boletim Informativo nº 03/93 do bairro Visão Ecológica e documentário sobre os pássaros. No dia 19/7 foi o Dia da Proteção da Floresta. No dia 20/7 fiz a edição do nº 01/93 Jornal do Terminal, falando sobre Meio Ambiente, Poluição do Ar e sobre o Jardim Botânico, e Geô e eu fomos distribuir no terminal General Osório. Foi uma boa alternativa de unir a divulgação do nosso trabalho ecológico, com a falta de dinheiro que estávamos necessitando tanto. Aceitei propagandas de comerciantes no jornalzinho e ganhamos um bom dinheiro com isto, pois o jornal era distribuído gratuitamente aos usuários dos ônibus que serviam a região do Segredo e Mata do Jacinto.

Em agosto de 1993, no dia 01, a SEMA, através de seu laboratório CCA, coletou água das nascentes e tirou o PH 5,9 e a temperatura da água 23º, outros dados não foram fornecidos.

No dia 03 dei falta de uma anta (Tapirus terrestris) que nadava sempre no brejão do Albino. Ao comentar o fato, o Sr. Albino disse que talvez a sucuri a tenha engolido. Fui procurar sua loca no interior da mata e a vi esticada com um enorme “caroço” no seu meio; calculei ser a anta. Aproveitei para medi-la, estava com 9,50m. Nem se mexeu quando me aproximei dela, mas, fui embora, pois se ela engoliu uma anta, eu seria a sobremesa.

No dia 05 fiz o n° 02/93 do Jornal do Terminal, com desenhos ecológicos, um documentário sobre as queimadas e transcrevi o manifesto do chefe seatle de 1855. No dia seguinte, fomos distribuir o jornalzinho no terminal General Osório.

Neste mês fizemos manutenção de espécies plantadas, mas, também plantamos alecrim do campo (Scoparia dulcis), alfavaca (Ocimum gratissimum), angelicó (Aristolochia cymbifera),araticum (Annona coriacea), beldroega (Portulaca oleracea), carrapichinho (Urena sinuata), catinga de mulata (Tanacetum vulgare) e catinga de negro (Cleome gigantea). Recebi a visita da JUNAC da igreja católica do Jd. Campo Belo, um grupo de jovens que não queria só falar de religião, mas, também de meio ambiente, assim como também ajudar a plantar mudas na região.

Em setembro de 93 para comandar o posto florestal veio o CB PM DINIZ, que me pediu autorização por escrito da SEMA, para que pudesse entrar na reserva. Para evitar confrontos, pois o mesmo não quis escutar minhas explicações, comecei a adentrar na mata pela casa do Albino ou pelos fundos da Avenida Marquês de Herval.

Neste mês coletei fava-branca (Dyphisa flava), escova (Combretum loeflingii), fedegoso (Senna occidentalis), ingá (Inga uruguensis), jaborandi (Piper aduncum), jurubeba (Solanum paniculatum), juúna (Solanum verbascifolium), erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides), ipê-roxo (Tabebuia avellanedae), lírio-do-brejo (Costus spiralis), melão-de-são-caetano (Momordica charantia), cumbarú (Dipterix alata), e pau-terrinha (Qualea parviflora). Continuei a retirar da mata do exército, epífitas e as amarramos junto ás árvores, nas nascentes, espécies como: imbé (Philodendron sp), dragão-fedorento (Monstera adansonii), folha-de-urubu (Philodendron laciniatum) e aningá (Philodendron sp). Fui picado por aranha–marrom (Loxosceles) na perna esquerda; deu uma febre violenta e no local da picada se formou uma necrose muito grande, mas fui atendido no P.S. Nova Bahia, que com antibióticos, fui curado.

Faltam equipamentos para mim e para Geô: calças de brim, botas de borracha, camisas de manga comprida, luvas, chapéu, lanterna, etc. Apesar de estarmos ali por idealismo, gostaríamos de receber ajuda de alguma empresa.

Corremos todo o aceiro, arrancando pés de mamona (Ricinus comunis) para tentar a sua erradicação, nos dias 23, 24 e 25. A SEMA, no dia 29, soltou duas falsas corais (Anilius scytale), no Segredo.

Em outubro de 93, realizamos vários plantios de escova (Combretum loeflingii), fedegoso (Senna occidentalis), ingá-do-brejo (Inga uruguensis), jurubeba (Solanum paniculatum) e juúna (Solanum verbascifolium), amor-agarradinho (Antigonon leptopus), papo-de-perú (Aristolochia elegans), flor-do-cardeal (Ipomoea pinnata), flor-de-são-joão (Pyrostegia venusta), sete-sangrias (Cuphea carthagenensis), canjerana (Cabralea polytricha), almeirão-bravo (Hieracium commersonii), saco-de-adão (Physalis sp).

No dia 10 teve uma queimada do lado da Avenida Marquês de Herval, foi feio, chamei os bombeiros, o CB PM Diniz e o SD PM Damotta, que por sua vez chamaram os canais de TV e repórteres de jornais da cidade, para documentarem o fato. Foi quando O SD PM Damotta declarou à imprensa que patrulhava sozinho a mata, etc. Tenho guardado o recorte do jornal. Os bombeiros não puderam agir, devido à ineficiência dos portões pequenos e da falta de pátio de manobra, no portão três. Os aceiros estão todos cobertos por braquiária e a falta de tráfego no local, deixa a areia fofa, não permitindo o acesso de veículos pesados. Os bombeiros ficaram inúteis no ocorrido. Vendo isto, corri para o bairro e chamei os moradores e o presidente da Associação de Moradores do Jardim Campo Belo: Jorcy Neves Luiz, que correu e trouxe cerca de 45 voluntários, para ajudar a apagar o fogo. Quem sofreu foi a mata, que queimou mais de 40 hectares. Vai demorar uns dois anos para se refazer, pelo meu método.

Foi quando vimos a ineficiência dos soldados, do posto que a comunidade ajudou a construir. Não permitiam a entrada de ninguém na área, nem, nas épocas de seca, quando faltava água nos canos da rua, e precisávamos da água da nascente, para abastecermos nossas casas. Lutamos tanto, fizemos abaixo-assinado, etc., para transformar aquela área em unidade de conservação e agora, éramos proibidos de entrar lá. Fizemos uma reunião extraordinária na associação para discutir o problema, pois toda vez que pegava fogo na mata, quem apagava na realidade, era a comunidade, enquanto os soldados entravam na mídia como heróis, sem fazer nada para controlar os sinistros.

CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DE MEU TRABALHO:

Sucessão de Comunidades (teoria de Kageyama)

Numa extensa área resultante da queimada de uma mata, quando abandonada, observa-se as etapas de recolonização natural:

1. Inicialmente, surgem gramíneas rasteiras, recobrindo o solo nu (duração média 10 anos).

2. Posteriormente formações arbustivas. Já então, o solo não está mais superaquecido e superiluminado, conservando melhor a umidade. (duração média 15 anos).

3. O solo se modifica.

4. Certas sementes que antes não podiam germinar, agora o fazem (duração média 5 anos).

5. Aí é que vão aparecer as primeiras árvores (duração média de 75 anos), para depois ressurgir a mata, os insetos, outros animais, para povoar o novo ambiente.

6. Houve uma lenta e progressiva sucessão e recolonização, até o estabelecimento da comunidade clímax, que é o predomínio de grandes árvores (floresta temperada decídua). Duração: 100 anos do início da sucessão.

Minha pesquisa e prática

Adianto o trabalho da natureza e a ajudo a se recompor, não a deixando trabalhar sozinha. Como ?

1. Realizo adubação orgânica, com restos orgânicos vegetais (folhas) já em estado de decomposição, misturados com o solo, esterco e palha de arroz para retenção de água.

2. Afofo a terra e semeio ervas rasteiras, para cobrir o solo nu e já planto espécies nativas produzidas no viveiro Herbarium, adiantando o processo natural de 25 anos para 30 dias.

3. O solo foi modificado, tornando-se fértil.

4. Época de águas , as sementes já podem germinar.

5. As primeiras árvores (processos naturais).

6. Houve uma rápida sucessão e recolonização, e em suas sombras aparecem as ervas umbrófilas. Daí, ressurge a mata, graças também à colonização feita a partir das áreas limítrofes não queimadas.(duração do trabalho: 10 anos, trabalhando em duas pessoas, sem infra-estrutura, sem ferramentas de alta tecnologia, sem apoio institucional). Hoje com a tecnologia em alta e o baixo custo operacional, para se reflorestar uma área de 160Ha, em duas pessoas, gastar-se-ia um ano, ou até seis meses, se as mudas já estivessem prontas para o plantio definitivo.

7. Os insetos retornam, outros animais são atraídos, e seus predadores naturais para povoar o novo ambiente, até o estabelecimento da comunidade clímax que será estável, dependendo dentre outras condições, das do clima.

Conclusão: é arregaçar as mangas da camisa e trabalhar pela natureza e com ela, não a deixando trabalhar sozinha em seus afazeres domésticos (ou silvestres). Apenas transmiti para a mata do Segredo, a experiência de 20 anos, no trato de espécies silviculturais.

Comentários:

O Engenheiro Florestal Reginaldo Brito da Costa, professor D.Sc. do Mestrado em Desenvolvimento Local da UCDB, atualmente tem se dedicado a pesquisas em fragmentos florestais, sendo que escreveu em seu livro “Fragmentação Florestal e Alternativas de Desenvolvimento Rural na Região Centro-Oeste”, página 70… “em uma paisagem cada vez mais fragmentada, a implantação de unidades de conservação que assegurem a persistência dos mecanismos ecológicos é fundamental, assim como o manejo da matriz e se necessário dos próprios fragmentos, complementados com a existência de corredores ecológicos que facilitem o fluxo gênico”.

Em nosso caso, a unidade de conservação é o Parque Estadual Matas do Segredo, que possue matrizes que “podem” e devem ser manejadas e os corredores ecológicos para facilitar o fluxo gênico, é o reflorestamento que os alunos da EEPG Padre João Greiner em parceria com o Projeto Segredo Vivo, querem fazer na prática, em viveiros florestais, e posterior plantio, como mata ciliar do córrego Segredo.

“Em fragmentos com área geográfica pequena, muitas espécies podem ter populações suficientemente diminutas para serem viáveis por longo prazo e, portanto, podem estar fadadas à extinção”.(HEYWOOD et al., 1994, MAGSALAY et al., 1995).

“Nesse contexto, as estratégias para a conservação da biodiversidade e dos recursos genéticos devem sempre contemplar grandes reservas” (Reginaldo Brito da Costa).

Daí, nossa insistência em se criar a APA da Bacia Hidrográfica do Segredo. Mas, isto é outro projeto.

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Em janeiro de 1994, fizemos plantio de jacarandá (Jacaranda sp), bambusa (Bambusa spp) e cipó-arranha-gato, além de inúmeras outras sementes que já estavam beneficiadas, com o plantio direto. As bromélias: Bromélia-espiga (Vriesea carinata), Barba-de-velho (Tillandsia usneoides) e a Bromélia-epífita (Tillandsia gardneri) e outros cipós epífitos estão maravilhosos. Há várias florações: araçá (Psidium guineense), sabugueiro (Sambucus nigra), dama-da-noite, lírio-do-brejo (Hedychium coronarium), gabiroba-moreninha (Campomanesia spp) (Campomanesia spp), trombeteira-branca (Datura sp), trepadeiras-de-balaio, escova-laranja (Combretum loeflingii), trepadeiras mimo e cálice-de-ouro.

Há muitas flores e a mata toda cheira a mel, o que atrai inúmeras abelhas. As chuvas continuam muito e visitando a trilha 4 e 5, vimos 3 árvores caídas. No dia 3 vi um despacho de umbanda, na nascente. Neste dia triplicamos as bambusas, na divisão de touceiras. No dia 5 fiz um curso com os meninos sobre plantio e replantio de mudas em areia. Colhi sementes de guanxuma (Sida rhombifolia), arnica silvestre (Porophyllum ruderale), picão (Bidens pilosa), gabiroba-moreninha (Campomanesia spp), pequi (Caryocar brasiliense). No dia 4 tentei circular pela trilha 10, mas, para minha felicidade, já está se regenerando. As trilhas já estão quase incapacitadas de se andar. Dia 23, fiz para os meninos um curso de educação ambiental.

Em fevereiro de 94, vi as florações do pau-pereira (Aspidosperma macrocarpon), aroeira-pimenta (Schinus terebinthifolius), alecrim-do-campo (Scoparia dulcis), arnica-vulgar (Solidago chilensis), carrapicho-rasteiro (Acanthospermum australe), melão-de-são-caetano (Momordica charantia), almécega-açu (Protium heptaphyllum), alfavaca (Ocimum basilicum), picão (Bidens pilosa), caferana (Vernonia condensata). Há a frutificação do marmelo-preto (Alibertia sessilis), juá-bravo (Solanum aculeatissimum), catinga-de-negro (Cleome gigantea), catinga-de-mulata (Tanacetum vulgare), cagaiteira (Eugenia desynterica). Vi raros algodãozinhos (Cochlospermum regium), na qual tirei muda e plantei em meu viveiro o Herbarium.

As águas da chuva têm carreado para a área, espécies exóticas, assim como o almeirão “japonês” (Hieracium commersonii), que é alimentício e serve como salada alternativa para os moradores da comunidade.

Há mais guardas circulando pelo local, trazendo segurança e reclamando do lixo que os moradores vizinhos jogam aqui.

O cheiro de terebintina no ar, é das almécegas (Protium heptaphyllum).

Diego e eu, fizemos nos dias 26 e 27, uma limpeza no buraco da cachoeira, pois tem muitas folhas e areia em seu fundo. Abrimos o dique, para que as águas do córrego carreassem o lixo orgânico e o excesso de areia, ajudando a natureza com enxadas e pás. Quando chegamos,a fundura era de 1,00m, ao sairmos era de 3,20m. Meu filho Diego tem só dez anos e é um grande companheiro. As aulas de educação ambiental, já estão surtindo efeito, pois os rapazes me procuram, para plantarmos na mata. Futuros ecologistas.

Em março de 94, as chuvas ainda são constantes. Observei cogumelos rosados, o “Chapéu-de-sol-do-diabo” (Agaricus sp). Como estava com gripe forte, retirei um galho de paricá (Acácia polyphylla) e outro de Cambuí (Eugenia spp) para preparar um remédio. Fizemos plantio direto de jambo, favas de Cambuí (Eugenia spp) e angico-vermelho (Anadenanthera macrocarpa), cipó-carolina (Thumbergia laurifolia), japecanga (Smilax sp), macela-da-terra (Egletes viscosa), caferana (Vernonia condensata) e folha-da-fortuna (Bryophyllum pinnatum).

No dia 28/03, a Elisabeth Burckhardt, veio em casa, a pedido do Sr. Reginaldo, para que fosse contratado pela SEMA, no regime CLT.

Vi muitas cobras coral (Micrurus frontalis) e caiçaca (Bothrops moojeni), nos aceiros. Plantamos também sementes de açafrão-do-mato (Curcuma longa); que é bom contra picada de cobra jararaca (Bothrops moojeni) e cascavel (Crotalus durissus) ; beldroega (Portulaca oleracea), bertalha (Basella rubra), caruru (Amaranthus viridis), inhame (Colocasia antiquorum var. typica), jambú (Acmella sp), língua-de-vaca (Talinum paniculatum), mangarito ou taioba (Colocasia antiquorum var. esculenta), ora-pro-nobis (Portulaca sp), no sistema de plantio direto, como forma de agricultura alternativa, junto com os meninos do GEMAS. A SEMA mediu a área de colocação do viveiro de mudas e da horta, onde teríamos apoio desta instituição, o que no futuro não aconteceu. Nos dias 29 e 30, fui na SEMA para tratar dos papéis, para ingresso no serviço.

Em abril de 94, adentrei a mata com um raizeiro (seu nome é Jaci da Silva), que conhecia árvores e ele foi esclarecendo algumas dúvidas, que ainda tinha: a macaúba (Acrocomia aculeata), gonçalo-alves (Astronium fraxinifolium), murici-de-flor-rósea (Byrsonima coccolobifolia),Murici de flor amarela (Byrsonima verbascifolia), canjerana (Cabralea canjerana), algodoeiro-do-campo (Cochlospermum regium), lixeira (Curatela americana) , caviúna-do-cerrado (Dalbergia violacea), faveiro (Dimorphandra mollis), paricá ou monjoleiro (Acacia polyphylla), jacarandá-do-cerrado (Machaerium opacum), buriti (Mauritia vinifera), bacupari (Pouteria sp), sucupira-branca (Pterodon polygalaeflorus). Foi muito importante este conhecimento.

No dia 4, entreguei a Marli da biblioteca da SEMA, a colaboração de “Florações e Colheitas de Plantas do Cerrado no MS”.

Comecei a trabalhar na SEMA, no dia 04/04/1994, indo direto ao viveiro da REPP e conhecendo o grande companheiro LUIS CARLOS TEIXEIRA, donde adquiri, com seus ensinamentos, a experiência prática, no reconhecimento de árvores nativas do cerrado, cerradão e mata ciliar, que ainda me faltavam. Como fui contratado para trabalhar na REPP, os meus relatórios diários, agora seriam do serviço de lá e aos sábados e domingos e dias de folga, relatava os serviços e observações da Mata do Segredo.

Quando cheguei ao viveiro florestal da REPP, tirei fotos do local, das instalações precárias, das pessoas que ali trabalhavam. Queria fazer um arquivo pessoal, de como era tudo antes de minha vinda e como ficaria após a minha saída ou vencimento do contrato de CLT. Tanto tempo desempregado, cheguei ali com muito gás e vontade de fazer; e foi o que fiz; até a minha saída da SEMA, por dois anos consecutivos.

Comecei enchendo saquinhos de substrato, para posterior plantio de sementes. Mas, com o tempo fui vendo a necessidade de remodelar o local. No dia 07/04 pintei e arrumei o barracão do viveiro, que só contava com duas peças de 3,00 x 3,00m. Não tinha banheiro e nada mais.

No dia 13/04, fiz inscrição para o concurso da SEMA, na vaga de Agente Administrativo. Reativei um banheiro abandonado e fiz pintura. Assisti palestras de Dalmo e Marcos sobre a Educação Ambiental. Tudo que aprendia, repassava aos meninos do GEMAS aos sábados e domingos. Comecei a atender pedidos de funcionários da SEMA: James e Anderson, Portela e Eliete. Nos finais de semana, plantava mudas no Segredo: mamica-de-cadela (Brosimum gaudichaudii), araticum-dos-grandes (Anonna coriacea), catuaba (Anemopaegma arvense), pimenta-do-mato (Piper sp), marolinho (Anonna sp), mangaba-brava (Hancornia speciosa), pêssego-do-mato, saco-de-adão (Physalis sp), pimenta-de-macaco (Xylopia aromática).

Os serviços da REPP eram: regar o viveiro, escarificar sementes, encher saquinhos, plantar estacas de ornamentais, capina, manutenções do viveiro, arrancar matos, limpeza, lavagem do barracão, podas de ornamentais, rastelar o viveiro, replantar mudas velhas e fazer permutas por materiais de precisão do viveiro por mudas prontas, a particulares.

No dia 29/04, a SEMA fez uma festa à tarde com cerveja e churrasco. Vi a necessidade de se fazer um barracão ou cobertura para depositar o substrato pronto, evitando que se molhasse, em dias de chuva. Pois, se o mesmo se molha, a gente ficava sem trabalhar por três ou quatro dias, até a terra secar. Quando o Luis Carlos Teixeira viajou para São Gabriel D’Oeste para coletar sementes, fiquei responsável pelo viveiro, no dia 25.

Ainda nos finais de semana, tinha a responsabilidade de cuidar do viveiro do Segredo junto com os meninos do GEMAS. Não descansava mais, era serviço para todo lado. Mas, pelo menos, alguém estava aprendendo a cuidar da natureza e este é o meu bem mais precioso, afinal a vida é curta e tenho que repassar às crianças, todo o meu conhecimento. Pois aí está uma profissão em declínio: Mateiro. Poucas pessoas conhecem as árvores como hoje conheço e quero deixar meu recado, nesta terra de Deus.

O Sr. Reginaldo e o engenheiro Florestal José Edmur Resende, vendo meu trabalho de 30 dias no viveiro da REPP, viram que meu potencial era grande e deram-me a oportunidade de estudar botânica, na biblioteca da SEMA.

Iniciei um manuscrito sobre “As Plantas Medicinais do Cerrado (1)”, na REPP, culminando com a doação deste à biblioteca da SEMA. Meu mal, é que ganhava pouco (69,00 URV), a moeda que antecedia o Real, e nunca pude tirar cópias xerox, de alguns manuscritos que entreguei à SEMA, pensando que ali arquivariam estas experiências, que tentava repassar aos leitores leigos.

Iniciei em 14/05/94, o manuscrito sobre “As Plantas Medicinais do Jardim Botânico”. Comecei a visitar departamentos de patrimônio da SEMA e outras secretarías de estado, pedindo doações de materiais de escritório. No dia 18, recebemos uma mesa escrivaninha e um arquivo de aço. De minha casa, trouxe um fogão e uma estante. No dia 21, fiz edição especial do Jornal Folha Silvestre, e mandei um exemplar, para sua criadora, a Elisa do DEAM. Não gostaram, A partir daí, procurei o Resende, nosso chefe e após conselhos, elaboramos o CORREIO DA MATA, com informes do viveiro. Distribuí em todas as salas da SEMA e a aprovação foi unânime. O viveiro começa a mudar de cara, também com novas ferramentas, materiais de escritório, etc. Algumas peças permutadas por mudas do viveiro.

No dia 01/06/94, distribuí o Correio da Mata, na SEMA, com 350 cópias. Começamos a receber inúmeras sugestões e crítica de quais matérias devia publicar e qual deveria tirar. Já o nº 02, foi só 50 cópias tiradas pelo João do Protocolo, que disse não ter autorização, para xerocopiar mais nenhuma cópia de nosso informativo. Como dava um boi, para não entrar em uma briga… dei uma boiada, para não sair mais.

Procurei a Assembléia Legislativa e relatei o ocorrido aos deputados, que gostaram do jornalzinho e me prometeram cópias, que seriam tiradas lá mesmo, através de requisições doadas pelos mesmos. Procurei o diretor de meu departamento, o DCRN – Departamento de Conservação dos Recursos Naturais, Sr. Reginaldo, que autorizou as tiragens do jornalzinho, na Assembléia. Tive que incluir, um espaço de agradecimentos aos deputados que nos ajudavam, com as requisições de cópias.

Não estou acostumado a ficar parado, vendo que a natureza precisa tanto de nós, para tratá-la e cuidar de seu manto sagrado. E precisava usar este meio de comunicação, para propalar a defesa do meio ambiente. Foi quando lançamos o logo: “A vida sem o verde não tem cor”. E aí a coisa pegou.

Em julho/94, buscamos esterco na fazenda Gabiroba, em Água Clara/MS. No sábado e domingo, fizemos uma patrulha, eu e o soldado DaMotta, em volta do Jardim Botânico. No dia 08 fiz uma doação de um mostruário de sementes na biblioteca da SEMA. No dia 09, descobri 50 cabeças de vaca, morta a tiro e carneada, na fazenda lindeira de Jorge Miyashiro e também na fazenda do Zahran. A ABIGEATO – Delegacia de Furtos de Bovinos, foi acionada pelo DaMotta, no que culminou com a prisão de uma quadrilha de ladrões de gado que agiam em Jaraguari-MS e Bandeirantes-MS. No dia 20, fiz minha primeira viagem pela SEMA, a São Gabriel D’Oeste, para trabalhos de campo e levantamento florístico de espécies arbóreas nativas, na Serra de Maracajú e à Rio Negro. Realizamos algumas autuações em desmatamentos e no dia 22, retornamos a Campo Grande.

Nesta viagem coletamos: barbatimão (Stryphnodendron adstringens), vinhático (Plathymenia reticulata), louro-rosa (Nerium oleander), faveiro (Dimorphandra mollis), jacarandá-bico-de-pato, ipê-verde (Cybistax antisiphyllitica), capitão (Terminalia argêntea), boca-boa (Buchenavia tomentosa), murta (Murraya exótica), jequitibá (Cariniana estrellensis), marmelada (Alibertia edulis), cajamanga (Spondias cytherea), cumbarú (Dipterix alata), canjerana (Cabralea canjerana) ,crindiúva (Trema micrantha), canafistula (Peltophorum dubium), munguba (Pachira aquática), sucupira-preta (Bowdichia virgilioides).

No dia 27, fiz o Correio da Mata n° 03. No dia 06/07, veio trabalhar na mata do Segredo, o soldado PM Marcus Vinicius Rodrigues da Silva; grande pessoa, que conseguiu inúmeras doações de madeiras tratadas, para construção de alojamentos e banheiro para os meninos do GEMAS, e ainda fez, do próprio bolso, uma varanda, na entrada do posto, que tem até hoje.

Em agosto de 94, meu conhecimento científico sobre as árvores, já merecia respeito, foi quando o Engº Florestal Ubirajara Domingos Lotufo e o Eng° Florestal Resende, me procuravam com mais freqüência, para realizar levantamentos florísticos e posteriormente, preencher relatórios completos de atividades, com nomes comuns, nomes científicos, famílias, etc de cada espécie identificada. Aos poucos, galgava uma escada de responsabilidades, que marcariam profundamente meu currículo pessoal.

A biblioteca da SEMA conseguiu de doação 06 volumes da obra de Manoel Pio Corrêa, o Dicionário de Plantas Úteis Cultivadas Nativas e Exóticas, que me ajudaram muito.

No aceiro do Jd. Botânico, o DERSUL passou a patrola e queimamos os matos à beira da cerca, numa queimada controlada, em parceria com o Corpo de Bombeiros. A ENERSUL aterrou os arames da cerca de proteção, para evitar os choques que os arames davam, talvez devido a raios, que lá caíam. De 9 a 12, extraí todos os dentes da boca, devido a uma doença, a piorréia (inflamação supurativa do alvéolo dentário), que fazia cair os dentes e amolecia as gengivas. Só poderia colocar uma prótese, após a cura completa da doença.

Abrimos, eu e Vinícius, uma trilha mais ecológica, no meio da mata, que passava pelas maiores árvores do local, inclusive um jequitibá (Cariniana estrellensis) de 48m, com CAP 3,70m. Hoje considerada a 4ª maior do país. A 1ª tem 58m de altura e está localizada em Congonhas-MG; a 2ª tem 56m de altura e está localizada, em Santa Rita do Passa Quatro-SP; a 3ª tem 52m altura e está localizada, em frente da Unicamp, em Campinas-SP. Como a 1ª está sendo destruída anualmente, por incêndios criminosos; a nossa, em breve será a terceira maior.

Fizemos uma pinguela, de Almécega (Protium heptaphyllum), sobre a cascata da nascente e formamos um novo dique, para represamento, para segurar as encostas do barranco.

No final do mês, viajando para Três Lagoas/MS, a serviço da SEMA, fizermos um Curso Prático, na Agroflorestal Três Lagoas, da Champion Celulose. Ficamos lá uma semana, com Ubirajara, Niltinho, Luis Carlos e eu. Aprendemos a trabalhar com tubetes e a construir casas de sombra, umidostato, bombas d’água para irrigação, termostato, trilhagem de mesas, etc.

Tínhamos conseguido uma carcaça de carro Engesa, de doação. No dia 14 de agosto de 1994, levaram o Engesa do posto, embora. Comento aqui, que ao se conseguir este veículo, ele não tinha nem motor, nem pneus. Conseguimos um motor de opala e pneus e nós reformamos todo o carro, inclusive com pintura da Policia Militar, azul e branco, para que o mesmo ficasse a nossa disposição no Jardim Botânico, pois precisávamos de uma viatura para nos deslocar e patrulhar a área. A Policia Militar Florestal, vendo como o carro ficou, foi buscá-lo, apesar de meus protestos inúteis.

Neste mês de agosto/94, coletamos em Rio Verde/MS: timbó (Magonia pubecens), imburana (Amburana cearensis), cedro (Cedrela fissilis), ximbuva (Enterolobium contortisiliquum), copaíba (Copaifera langsdorffii) , gabiroba (Campomanesia sp), angico-pururuca , boca-boa (Buchenavia tomentosa), carneiro (Pêra obovata). No dia 20, no Jardim Botânico ao estar coletando copaíba (Copaifera langsdorffii), levei uma picada de cobra na mão, comecei a sentir vertigens e vomitar muito, mas, mesmo assim fui andando calmamente até minha casa, onde Oneide me tratou com sementes de quiabo (Hibiscus esculentus) e querosene, tomando também guaco (Mikania cordifolia) e raiz de espelina (Perianthopodus spelina), comendo alguns frutos de juúna (Solanum lycocarpon), que ajudaram muito na purificação de meu sangue. Fiquei de molho até domingo e na segunda fui a uma reunião na SEMA.

Em setembro/94, já precisava fazer exames do coração, pois sentia falta de ar, dores no peito, cansaço. Fiz com Vinícius, o novo jardim do posto. Graças a Deus, começou a chover. Remodelamos todo o viveiro da REPP. Continua a colheita de sementes. Vendi a rifa de um relógio Dumont na SEMA e quem ganhou foi o Castelo do NSG, arrecadei cinqüenta reais para o CFV (Controle Financeiro do Viveiro). Fiz o Correio da Mata nº 4. Dia 18/09, junto com Vinícius, colocamos 08 postes de cerca, 09 postes de canteiro, formamos 35 canteiros de terra e esterco. Plantamos 34 mudas de frutíferas nativas e ornamentais. Fizemos o transporte no “muque” de um poste de jatobá, de 6,00m que ganhei de doação de uma serraria, para ser usado como suporte de caixa d’água, mas, que acabou ficando como assento de visitantes, na entrada frontal do posto. Vendi novas rifas de relógio e rádio 2 deck. Viajamos para São Gabriel D’- Oeste de 4 a 7/09. Construí um barracão para guardar sacos plásticos na REPP.

Em outubro/94, no dia 4, fundou-se a Patrulha Florestal Mirim, extinguindo o GEMAS; porque, segundo o DaMotta, não conseguiríamos recursos, para os garotos, se a entidade criada fosse fundada por um paisano, e já sendo fundada pela Policia Florestal do MS, ficava tudo mais oficial; composta de 11 meninos. Vinícius ensina sobrevivência na mata e defesa pessoal (judô), Da Motta ensina educação ambiental, moral e consciência ecológica, e eu ensino a coletar sementes, reconhecer árvores, plantas medicinais, plantar, etc. Em 03/10 teve eleições, mas, votei para presidente, governador, Ludio, Ramez, Leite e Moka.

De 09 a 11, o fogo comeu 20 ha de mata. Foi terrível, o calor destruiu muitas plantas que ali plantamos. Os meninos foram verdadeiros heróis, ajudaram a apagar o fogo, até de noite. Eles aprendem rápido. Autorizado pelo Sr. Reginaldo, os plantios de recuperação da área queimada, de 18 a 31/10. Os meninos fizeram 3.677 embalagens para plantio de sementes.

Neste mês coletamos: Dedal (Lafoensia pacari), jacarandá-caroba (Jacaranda cuspidifolia), paina (Pseudobombax longiflorum), caraíba (Tabebuia caraíba), barbatimão (Stryphnodendron adstringens), fruta-de-lobo (Solanum juripeba), quaresmeira (Tibouchina sp), paratudinho (Gomphrena officinalis), vinhático (Plathymenia reticulata), Chico-magro (Guazuma ulmifolia), carvão-vermelho (Diptychandra aurantiaca), escova (Combretum loeflingii), pitanga-cabaça (Eugenia spp), ipê-branco (Tabebuia roseo-alba). Na área queimada, plantamos as sementes de angelim-roxo ou maleiteiro (Vatairea macrocarpa) diretamente no solo, num total de 752 sementes. Nos dois viveiros, plantamos aroeira (Myracrodruon urundeuva), ipê-branco (Tabebuia roseo-alba), maracujá-açú (Passiflora quadrangularis), ipê-verde (Cybistax antisiphillitica), caraíba (Tabebuia caraíba), jequitibá (Cariniana estrellensis), ximbuva (Enterolobium contortisiliquum), imburana (Amburana cearensis), barbatimão (Stryphnodendron adstringens), murici (Byrsonima sp), cruá (Cucurbita odorata), caroba (Jacaranda cuspidifolia) e copaíba (Copaifera langsdorffii). No dia 24 estava com hidropisia na perna esquerda, fiquei de molho em casa, mesmo porque não havia ônibus de 24 a 27/10, devido à greve dos motoristas e cobradores.

Em novembro de 1994, dia 3, levei uma picada de escorpião amarelo, mas, tomei chá de guaco (Mikania cordifolia) e fiz cataplasmas de saião, carambola e trapoeraba (Commelina sp). Fiz a 1ª cartilha de plantas aos PFM (Patrulha Florestal Mirim) . No final do mês, de 21 em diante, abusei de uma gripe forte, entrando cedo e saindo tarde do serviço e não respeitando os finais de semana para descansar, meu corpo não agüentou, baqueou e caiu. Fui internado às pressas no Pronto-Cárdio, que me transferiu para o Prontomed, com pneumonia. Recebi toda a atenção da SEMA, principalmente de Tia Odete, que correu muito comigo, nas internações e visitas de amigos e funcionários da SEMA, ficando internado na Santa Casa, até 02/12, quando obtive alta.

No começo do mês, fizemos plantio de caferana, amoreira, lobeira, pitanga, murici, sucupira. No dia 4, recebemos visita de Elisa e do Secretário do SEMA/PR, que elogiou muito nosso trabalho no Jardim Botânico. No dia 13 fizemos um almoço para recepcionar os pais de alunos do PFM.

Em dezembro/94, houve festa na SEMA e no dia 05, os técnicos entraram em greve, só no DCRN. No dia 07 bati o Correio da Mata nº 7 e no dia 08 bati cartilha da árvore para os PFM. No recesso de Natal, dias 16 a 26, acabei de construir nossa casa. Não pagaremos mais aluguel, graças a Deus.

Tenho a única cópia do “Folha da Mata”, de abril de 1995 – ano 2 – nº 011, digitados em computador, pelo Celso Arakaki, da Fundação 3º Milênio-Pantanal. Foi quando fiz meu primeiro curso de informática.

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RESUMO DE 1994

Neste ano muito movimentado, com serviços mil, tanto na REPP, como no Jardim Botânico, além de meus estudos na biblioteca da SEMA, fiz muitos levantamentos florísticos no MS, viajando a muitas cidades antes desconhecidas. Em cada região, fui constatando espécies diferentes de arbóreas nativas, mas algumas se repetiam. Com isto fui levantando um catálogo destas árvores para identificações futuras.

Conheci muitas pessoas, da UFMS, como o Sr. Cláudio da Conceição, que me ajudou bastante no reconhecimento de nativas, comprovando a taxonomia vegetal. Incentivou-me também a publicar um livro, com minhas experiências práticas, dirigidas não só a leigos, como para formandos de biologia, que estudam mais na teoria e precisam da prática do mateiro.

Conheci a Rosangela Sigrist, que fazia Biologia Reprodutiva, inclusive ela enviava os estudantes do 2° ano, para a REPP, para que pudessem me acompanhar nas aulas práticas de reconhecimento da flora e alguns até ajudavam no viveiro, plantando sementes.

O Sr. Reginaldo Yamaciro enviava os alunos do 2º ano de biologia ou de agronomia ao Jardim Botânico, para andarmos nos cerrados e cerradões.

Em 30% dos projetos de desmatamentos, onde precisava se realizar a perícia ou reconhecimento da área a ser desmatada, a SEMA me enviava, para ajudar os técnicos a elaborar a ficha de campo. Às vezes, contatávamos mateiros da região, que trabalhavam no local, para nos acompanhar e novamente estava aprendendo, na prática, a conhecer mais madeiras.

Enquanto isto, a SEMA, através de seu departamento jurídico, realizava convênios e mais convênios, com a retentora da área do Jardim Botânico, que era o Previsul, para manter o “comodato” por mais tempo. Para isto, tenho um jornal “Correio do Estado” de terça-feira, 13 de junho de 1995, pagina 10, que tem em seu cabeçário: BUROCRACIA É AMEAÇA PARA JARDIM BOTÂNICO.

Neste jornal, inclusive o soldado Da Motta, declara que “criou” um grupo de ajudantes mirins que o auxiliavam, sem citar nosso nome, ou o que temos feito, mesmo antes de o mesmo ir para lá trabalhar. Ficou como se ele fosse o único responsável por tudo o que ali acontecia. Aquilo doeu para mim e para o Geoglemir.

Fizemos para Da Motta, 250 placas de conscientização, que foram colocadas por nós nas cercas de proteção e árvores da mata; fizemos jornalzinho para distribuição aos PFM e moradores vizinhos; e o ajudamos a reconhecer a mata, suas trilhas, a pintar o posto, a montar um veículo inteiro, a conseguir um cavalo de doação para o patrulhamento da área; nós o apresentamos a todos os moradores do bairro, enfim, o ajudamos muito e um reconhecimento pessoal não nos faria nenhum mal, ao contrário, estaríamos mais abertos a novas idéias e novos trabalhos conjuntos.

A coleta de sementes neste ano foi muito melhor que nos anos anteriores, talvez devido ao clima e à conservação do meio ambiente. As sementes estavam inteiras e com os embriões com saúde boa, facilitando sua germinação. A natureza nos foi pródiga e a polinização por abelhas foi muito maior que no ano anterior. Ganhamos de um fazendeiro, os materiais para escalada em árvores, como também um livro “Árvores Brasileiras”, do Harri Lorenzi, que a Marli da biblioteca, colocou-o em seu patrimônio, ficando para nós sòmente uma cópia que a PLANURB da Prefeitura nos arrumou de doação.

Aos poucos vou sentindo que a natureza nos agradece, no plantio das clareiras e fechamento de trilhas antigas. Hoje raramente, vejo armadilhas de caçadores ou raizeiros no local. A mata está em flor e o seu perfume inebria nossa alma; aos poucos cobrimos o solo nu da mata, protegendo-a com um manto verde perene, e isto é gratificante.

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Em janeiro de 1995, no dia 4, ganhamos um circulador de ar, fiz o Correio da Mata nº 8. Votei em diretor do DCRN, em Reginaldo Yamaciro. Assinei um termo de responsabilidade pela maquina de escrever Tekne 3 elétrica. Plantei árvores no CRAS e papola (Hibiscus sp) nas cercas. Com o salário de R$ 90,00 (noventa reais), comecei a morar no viveiro da REPP, para economizar dinheiro. Só dá para a família comer e pagar água e luz. Fizemos uma permuta com a Morena Vídeo, de Marcos Silveira e Eliza Zahran, por alimentos, em troca de 100 mudas, que usamos na casa do viveiro. Ganhamos um pluviômetro da Maria Antônia do CRAS e fiz o Jornal nº 9/fev/95.

Coletamos sementes de: curriola (Pouteria torta), Jamelão (Sizygium jambolanum), ingá (Ingá edulis), oiti , amora-branca (Maclura tinctoria), cruá (Cucurbita odorata) e guapuruvú (Schizolobium parahyba).

Em fevereiro, construímos uma estufa de secagem de sementes ao sol e uma elétrica. Fizemos uma permuta de mudas por um carrinho de mão de pneu e um estojo de primeiros socorros. Na contagem de mudas feitas pelos PFM, deu: 1.546, plantamos junto com os meninos, 1.000 mudas lá. Realizamos limpeza geral de podas de árvores e capina no terreno da REPP, espalhando no chão, serragem doada pelo Depósito Paranatinga. Permutei 80 mudas por tinta látex, esmalte sintético, pincel, lixa e aguarrás, para pintura do barracão do viveiro. Fizemos desmame de mudas grandes e recebemos cartilha adaptada do Resende, sobre desmame. Dia 17 fiz nova cartilha para os PFM. Realizamos outras permutas com mudas, pelos seguintes materiais: 02 cadeados, 01 morsa nº 2, 01 trena de 30 m, 01 tesoura de poda, 01 regulador de gás, 01 garrafa térmica, 20m de sombrite, 01 faca 6”, 02 canecões de 1 e 2 litros, 01 coador de pano para café. Neste mesmo mês, conseguimos a madeira necessária para a construção da varanda da terra. Fiz o Correio da Mata nº 10.

No dia 27 acompanhei Oneide, no Prontomed e corri atrás de dois doadores de sangue + R$ 40,00 em remédios. Fiz uma rifa de um relógio e todos da SEMA colaboraram. No dia 31 fiz o novo jornal com Celso Arakaki, a “Folha da Mata”. Dia 23/03 lancei meu livro “Poesias Guturais”, e o diretor do DEAM, Baldinir, tirou as cópias do livro. e no dia 31, lancei meu livro “Memórias I”.

Em abril de 1995, além das inúmeras tarefas do viveiro da REPP, como mexer em canteiros, escarificar sementes, fazer sementeiras, buscar serragem, arrumar canteiros, buscar palha de arroz, plantio de sementes, fizemos a Folha da Mata nº 12. Quando erguemos a caixa d´água do viveiro da REPP, pela Meta Metalúrgica, caí de lá de cima sobre a mão esquerda. Fiquei parado por 4 dias. No dia 29/04 entrei em férias e fui trabalhar exclusivamente no Jardim Botânico.

Coletamos crindiúva (Trema micrantha), aroeira-pimenta (Schinus terebinthifolius), ipê de jardim , catiguá (Trichilia catiguá), uva-japonesa (Hovenia dulcis), figueira-branca (Ficus sp), acerola (Malpighia glabra), sangra d´água (Croton urucurana), guandu (Cajanus indica), ximbuva (Enterolobium contortisiliquum) e cheflera (Scheflera sp). De 07 a 12/05 coletei sementes e amostras para pesquisa de farmacognosia para a UFMS. Iniciamos construção do LBS (Laboratório de Beneficiamento de Sementes). Queimei Palha de arroz (carbonização para mistura de substrato). Colocamos uma pia na cozinha, doação de terceiros. Feitio do jornal nº 13. Plantio de mudas grandes de aroeira-pimenta (Schinus terebinthifolius), canafistula (Peltophorum dubium), amora (Morus nigra) e ximbuva (Enterolobium contortisiliquum).

Em junho ficamos sem os mirins do IMPCG que nos ajudavam no viveiro da REPP. Todo o serviço pesado e os leves ficaram por nossa conta. No dia 09/06 caí da escada do barracão e desloquei a perna esquerda. Fui para a Santa Casa, que engessou a perna e fiquei de licença de 9 a 14/6. Final do mês fizemos o Folha da Mata nº 14. Neste mês fizemos coletas de olho-de-cabra (Ormosia arborea), sombreiro (Clitoria fairchildiana), tarumã (Vitex montevidensis), cedro (Cedrela fissilis), faveiro (Dimorphandra mollis), ipê-verde (Cibystax antisiphillitica), pimenta-de-macaco (Xylopia aromatica) e acácia-amarela (Cassia sp). Fizemos permuta com a Frigobrás, de 682 mudas por materiais de uso no viveiro, no valor de R$ 600,00.

Repicamos mudas de murta e beneficiamos sementes de timbó (Magonia pubecens), tarumã (Vitex montevidensis), carvão-vermelho (Diptychandra aurantiaca), erva-de-bugre (Casearia silvestrys), cedrinho (Cedrela sp) e munguba (Pachira aquatica). Nos dias 14 e 15, fiz coleta de frutos de pimenta-de-macaco (Xylopia aromática), com o Prof. Dirceu Martins – Químico da UFMS. Iniciamos a carpoteca com colagem e peletização de sementes.

Uma leoa no CRAS, mordeu minha mão direita, ao ajudar o Vandir, na alimentação desta, o ferimento foi superficial adentrando somente os caninos dela na mão. Joguei álcool e continuamos o trabalho, só à noite que a mão inchou. No dia 27, a Frigobrás mandou 01 furadeira elétrica, limas K&F, tela de galinheiro para cercar o viveiro contra os coatis que invadiam a área e uma morsa nº 3. No dia 31 fiz a Folha da Mata nº 15 e o Jornal Folha Especial, para o visitante.

Coletados: tarumarana (Buchenavia tomentosa), quebra-foice (Trichilla claussenil), pindó (Syagrus romanzoffiana), angico (Anadenanthera sp), faveiro (Dimorphandra mollis), colher-de-boiadeiro (Salvertia convalarieodora), pau-bosta (Sclerolobium aureum), cedro (Cedrela fissilis), carneiro (Pera obovata), vinhático (Plathymenia reticulata), quina-doce (Vochysia cinnamomea), guapuruvú (Schizolobium parahyba), cinamomo (Melia azedarach), cheflera (Scheflera sp), louro-pardo (Cordia sp), jacarandá-caroba (Jacarandá cuspidifolia) e guatambú-vermelho (Aspidosperma quebracho-blanco).

Em agosto de 95 estava com desidratação e vertigens. Tomei chá de macela-da-terra (Egletes viscosa) e aroeira (Myracrodruon urundeuva). De 6 a 15/08 trabalhei com o DEAM (Departamento de Educação Ambiental), no projeto Cheiro da Mata, onde prensamos 12 plantas e apresentamos em escolas.

No dia 11 a Frigobrás trouxe 09 sacos de cimento, mais telas de galinheiro, 01 liquidificador, materiais hidráulicos, câmera fotográfica, filmes e um binóculo.

Fizemos uma exposição no Shopping Center, de mudas, junto com o Jean do DEAM. No dia 21/08, recebi da Fundação Terceiro Milênio-Pantanal, pelo Sr. Elvio Garabini, uma autorização permanente de entrada, em qualquer lugar do estado de Mato Grosso do Sul, para coleta de sementes.

Com esta autorização em mãos, fui a locais, que antes não me permitiam a entrada e coletei: pau-pereira (Aspidosperma macrocarpon), mamica-de-porca (Fagara hassleriana), angico-vermelho (Anadenanthera macrocarpa) , pau-tucano (Vochysia tucanorum), pau-bosta (Sclerolobium aureum), puta-pobre (Dilodendron bipinatum), guatambú-vermelho (Aspidosperma quebracho-blanco) , sabão-de-soldado (Sapindus saponaria), angico-pururuca, falso-ingá, amendoim-bravo (Pterogyne nitens), Chico-magro (Guazuma ulmifolia), tamarindo (Tamarindus indica), caroteno ou pau-de-tinta (Caesalpinia sappan), ipoméia, canela-de-macaco, jatobá (Hymenaea stigonocarpa), guatambu-miúdo (Aspidosperma cilindrocarpon), pau-ferro (Caesalpinia ferrea), cerejeira (Amburana cearensis), ipê-roxo (Tabebuia avellanedae), carobão (Sciadodendron excelsum), ipezinho (Tabebuia sp), canudeiro (Mabea fistulifera), pindó (Syagrus romanzoffiana), aroeira (Myracrodruon urundeuva), camboatã-vermelho (Cupania vernalis), cumbarú (Dipterix alata), balsimin (Diptychandra aurantiaca), cabreúva, paina-do-cerrado (Pseudobombax longiflorum), angico-preto (Anadenanthera falcata), pau-terrinha (Qualea parviflora) e canela-de-veado (Helietta apiculata).

No dia 1 de setembro, o governador Wilson Barbosa Martins baixou um decreto, que não permite contratação, nem renovação de contratos até 1 de abril de 1996.

No dia 27, procurei o Dr. Frederico de Freitas Junior, Secretário do Meio Ambiente, para que o mesmo intervisse a favor do eng. Florestal José Edmur Resende, junto ao Governador, mas, no dia 06/10, Resende foi dispensado da SEMA. Aquilo me entristeceu muito, pois o mesmo foi um grande parceiro e conselheiro que tive.

Neste mês coletamos: barbatimão (Stryphnodendron adstringens), paratudo (Tabebuia caraíba), mangaba (Hancornia speciosa), fava-de-anta (Dimorphandra mollis), sucupira-preta (Bowdichia virgilioides), pau-bosta (Sclerolobium aureum), marmelo-preto (Alibertia sessilis), marmelada (Alibertia edulis), dedal (Lafoensia pacari), ipê-verde (Cybistax antisiphillitica), sete-de-copas (Terminalia sp).

Em outubro, no dia 3, levamos carpoteca com 48 sementes para a Expocriança, mais as 12 plantas do projeto Cheiro da Mata. Dia 19, aula prática de viveiro a 40 acadêmicos de Agronomia do CESUP, acompanhados por Rosangela.

Plantio de 100 mudas no Parque Airton Sena, junto com a FTM-P e FNV (Fundação Natureza-Viva). Nosso salário achatou em 30%, diminuiu horário de trabalho, agora das 12:00 às 18:00h, e não saiu o vale-transporte.

Fizemos vários plantios no viveiro e na reserva da REPP e coletamos as mesmas espécies do mês anterior.

Constatei voçoroca na Mata do Segredo I (Reserva do Exército), avisei a SEMA, o IBAMA e finalmente a Prefeitura que enviou técnicos para avaliar o impacto ambiental, constando que havia uma draga, que retirava areia do fundo do córrego, o que acarretava desbarrancamentos e solapamentos de encostas na área toda. Só quando a voçoroca atingiu a Av. Marques Herval, quase engolindo um ônibus que trafegava ali, é que tomaram providências, quanto à retenção do barranco e a canalização das águas pluviais do bairro Nova Lima.

No dia 1 de novembro, recebemos uma nova escrivaninha de aço. Permutamos mudas por cesta básica, pois os salários começaram a se atrasar.

Coletamos no período: curriola (Pouteria torta), pêssego-do-mato, pau-marfim (Maprounea guianensis). Repicamos aroeira (Myracrodruon urundeuva), angicos (Anadenanthera spp). No dia 24/11, entrei de férias. Férias mesmo. Retornei somente após o recesso do Natal, no dia 25/12.

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RESUMO DE 1995

Doamos no período, 7.500 mudas + ou -. Fizemos uma permuta de 3.000 mudas com a E. Michelin – Plantações de Itiquira/MT, por R$ 3.000,00 em materiais de construção. Com este dinheiro, pagamos um engenheiro civil para fazer a planta, e pagamos pedreiros e serventes para a construção e acabamento final do barracão do viveiro da REPP, que ficou com um quarto e WC interno, uma cozinha, uma sala para escritório, um laboratório e um depósito de ferramentas, além de uma varanda de terra. O total de área construída foi 27,00m².

Guardamos para a posteridade, os documentos relativos a esta permuta, assim como todas as outras, enviando cópias a SEMA, para registro.

Já no ano de 1996, não fiz relatório de atividades, devido à política interna, à mudança do nome da SEMA para SEMADES, à mudança de Secretário, que revolucionou o nosso trabalho, praticamente subjugando-o e o destruindo. Inúmeros projetos inacabados foram engavetados. O Jornal Folha da Mata foi terminantemente proibido e um clima de terror invadiu nossos departamentos; com as freqüentes reuniões de ameaça do Secretário todos foram perdendo o interesse em trabalhar.

Como ele era ruralista e fazendeiro, os processos de desmatamento não tinham mais burocracia e nem precisavam mais da análise dos técnicos, e os projetos foram aprovados normalmente, em grande escala.

Meu contrato de CLT venceu em 28 de junho de 1996 e fui demitido sumariamente, devido àquele decreto que o governador baixara. Assim mesmo, antigos funcionários da SEMA, pediram-me que permanecesse, como voluntário no viveiro, para que pudessem mexer os pauzinhos, com o governador, para que ali ficasse. Mas, resultou com minha saída definitiva, três meses após o meu desligamento da SEMADES.

Sobre a obra que havíamos feito e deixado na REPP, em uma reunião com este secretario, ele disse: “Quem mandou fazer filho na mãe dos outros, perdeu a paternidade”… e sorrindo, encerrou minha hora marcada com o mesmo, meses atrás.

Felizmente, tenho amigos, graças a Deus, pois o Resende ao me ver desempregado, procurou-me e disse para comparecer a SCJT Secretaria de Justiça, Cidadania e Trabalho, no ITEC (Instituto de Trabalho, Educação e Cultura), para menores delinqüentes, como viveirista florestal, no cargo de Agente de Segurança, ensinando-os a plantar, em Jaraguari/MS. Entrei em junho/96 e fui até junho/98, no regime CLT.

____________________

ADENDO

Em fevereiro de 92, fui procurado pela Emater – MT (Serviço de Extensão Rural), do governo do estado de Mato Grosso, para elaborar junto com técnicos agropecuários de lá, um modelo de Agricultura Alternativa. O que culminou com um folder elaborado do Sistema de Cultivo Ideal para Hortas Escolares, Comunitárias e Domésticas.

Os objetivos são:

Produzir sem poluir os alimentos e o meio-ambiente;

Produzir com menores custos unitários;

Diminuir a dependência do produtor de tecnologias e de produtos importados;

Promover a estabilidade da produção, de forma energeticamente sustentável.

Princípios:

Equilíbrio ecológico como fator condicionante da estabilidade da produção;

Administração de toda uma propriedade como um organismo vivo, integrada a uma bacia hidrográfica, que é a unidade de conservação ambiental;

O saber popular, para algumas culturas é tão importante quanto o saber acadêmico;

Considera que é importante, além da produtividade da área, a produtividade da mão-de-obra, do capital, da água, da energia, etc.

Estratégias:

Captação e uso de espécies rústicas e adaptadas, de tecnologias poupadoras de insumos e de materiais da região;

Controle de patógenos, insetos e plantas indesejáveis, através de métodos naturais e da manutenção do equilíbrio ecológico, pela diversificação e integração de explorações;

Melhoria e manutenção das características do solo, através da diversificação de culturas, do consórcio, da rotação, do manejo e da permanente cobertura do solo;

Considerar, na escolha das explorações, os aspectos de:

1. Alelopatia – (companheirismo e antagonismo de plantas);

2. Trofobiose – (efeito de adubos e venenos que promovem aparecimento de pragas e doenças nas culturas);

3. Homeostase – (capacidade do meio-ambiente reagir contra as agressões feitas pelo homem);

4. Reciclagem – (recuperação de nutrientes das camadas profundas do solo, através da rotação de culturas);

5. Manutenções: de populações de predadores e parasitas.

Hortaliças Alternativas para Hortas Escolares, Comunitárias e Domésticas:

Açafrão (Curcuma longa – Zingiberaceae)

Meio de propagação: raiz. Método de propagação: plantio direto. Espaçamento: 0,30 cm x 0,50 cm. Início da colheita: 180-210 dias. Período da colheita: 90-150 dias. Parte comestível: raiz. Forma de preparar: Ralar e desidratar (tipo farinha). Tipos de pratos: temperar sopas, molhos e cozidos. Substitui o colorau, dendê.

Beldroega (Portulaca oleracea – Portulacaceae)

Meio de propagação: ramos. Método de propagação: plantio direto. Espaçamento: 0,30cm x 0,50cm. Início de colheita: 60-120 dias. Período de colheita: 30-120 dias. Parte comestível: folhas e ramos tenros. Formas de preparar: Direto (cru) ou refogado. Tipos de pratos: saladas e refogados. Substitui: (cru) – alface, couve-flor, brócolis. (Refogado): couve, couve-flor e brócolis.

Bertalha (Basella alba – Baselaceae)

Meio de propagação: ramos e sementes. Método de propagação: plantio direto e semeadura e sementeira com transplantio em canteiro. Espaçamento: 0,50cm x 0,90cm. Início da colheita: 60-90 dias. Período de colheita: 30-180 dias. Parte comestível: folha e brotos. Formas de preparar: direto (cru); cortar e refogar. Tipos de pratos: saladas e refogados. Substitui: espinafre, couve, alface e agrião.

Caruru (Amaranthus sp – Amaranthaceae)

Meio de propagação: semente. Método de propagação: semeio em canteiro sem transplante. Espaçamento: 0,30cm x 0,90cm. Início de colheita: 60-90 dias. Período de colheita: 20-60 dias. Parte comestível: folha. Formas de preparar: cortar e refogar. Tipos de pratos: refogados e sopas e mingaus. Substitui: couve, repolho e chicória.

Inhame (Colocasia esculenta – Araceae)

Meio de propagação: rizoma. Método de propagação: plantio direto. Espaçamento: 0,20cm x 1,00m. Início de colheita: 150-240 dias. Período de colheita: 180 dias. Parte comestível: rizoma. Formas de preparar: descascar, cozinhar ou assar. Tipos de pratos: purês, sopas, cozidos ou assados. Substitui: batatinha e cará.

Jambu (Spilanthes acmella – Cichoriaceae)

Meio de propagação: ramo e semente. Método de propagação: plantio direto e semeio direto em covas ou linhas. Espaçamento: 0,30cm x 0,50cm. Início de colheita: 60-90 dias. Período de colheita: 30-180 dias. Parte comestível: folha. Forma de preparar: cortar. Tipos de pratos: tempero de tacacá e pato no tucupi. Substitui: pimenta, salsa e cebolinha.

Língua-de-vaca (Talinum triangulare – Portulacaceae)

Meio de propagação: ramo e semente. Método de propagação: plantio direto e semeadura direta em covas e linhas. Espaçamento: 0,40cm x 0,70cm. Início de colheita: 60-90 dias. Período de colheita: 30-90 dias. Parte comestível: folha. Formas de preparar: direto, cortar. Tipos de pratos: refogados e sopas e mingaus. Substitui: alface, espinafre, agrião e couve.

Mangarito (Xanthosoma violaceum – Araceae)

Meio de propagação: rizoma. Método de propagação: plantio direto. Espaçamento: 0,30cm x 0,40cm. Início de colheita: 210-300 dias. Período de colheita: 120 dias. Parte comestível: rizoma. Formas de preparar: descascar e cozinhar. Tipos de pratos: purês, sopas e cozidos. Substitui: batatinha e cará.

Ora-pro-nobis (Pereskia aculeata – Cactaceae)

Meio de propagação: ramo. Método de propagação: plantio direto. Espaçamento: 2,00m x 3,00m. Início de colheita: 120-150 dias. Período de colheita: 120-150 dias. Parte comestível: folha. Formas de preparar: cortar. Tipos de pratos: refogado e sopas e mingaus. Substitui: espinafre, repolho e couve.

Taioba (Xanthosoma sagitifolium – Araceae)

Meio de propagação: rizoma. Método de propagação: plantio direto. Espaçamento: 0,50cm x 0,50cm. Início de colheita: 50-80 dias. Período de colheita: 50-80 dias. Parte comestível: folha, pecíolo e rizoma. Formas de preparar: refogado, purês, sopas, cozido ou assado. Substitui: (folha e pecíolo: couve), (rizoma: batatinha e cará).

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