O Arrebanho

História e ilustrações de JARBAS SIMILEVINSK

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1. A Bicicleta

O pacato Gê, rapaz moreno de 16 anos, ajudante do pai numa oficina de automóveis, percorre uma rua do bairro com sua bicicleta de marcha única. De repente é abordado por outro rapaz, que empunha um estilete:

– Desce daí, que eu quero a tua bicicleta!

Gê já perdera, no bairro, tênis e bonés para assaltantes ocasionais, mas dessa vez resolveu resistir e não desceu. O bandido então guardou o estilete e empurrou o aprendiz de mecânico, tentando fazê-lo cair; o rapaz porém reequilibrou-se e pedalou para longe do assaltante, que começou a gritar:

– Você não me escapa: eu vou te matar!

A partir daí começou uma perseguição sistemática. Em muitas das saídas do laborioso rapaz, o jovem bandido surgia do nada para fazer novas ameaças, às vezes portando uma faca. Gê, esperto, corria a bom correr. Seu pai começou a acompanhá-lo em várias ocasiões, mas então o marginal não aparecia nem ao longe.

A perseguição terminou meses depois, quando o bandido foi preso ou recolhido, por outros crimes ou outras circunstâncias.

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2. O Garanhão Recalcitrante

Maicom é também um rapaz moreno, mas de pele mais clara que a do Gê, e uma boca grande, julgada atraente pelas meninas, o que lhe valeu o apelido de Bocão. Mesmos 16 anos, idade em que o instinto sexual exige seu tributo e os rapazes ficam “doidos” para arranjar a sua “mina”, ou mesmo a sua “cachorra”.

E o Bocão encontrou uma bela garota de 17 anos. Ou melhor, foi encontrado por uma bela garota de 17 anos, desejosa de experiências sexuais em que ela ditasse as regras, os avanços e os recuos dos órgãos do rapaz ainda virgem. Quando a mãe deste saia para um compromisso mais demorado, os pombinhos se reuniam na casa. Depois dos fracassos iniciais, cheios de lances que não honram qualquer biografia masculina, o rapaz se acertou… e se apaixonou. Assumiu o namoro publica e orgulhosamente.

Logo, porém, surgiu um novo e mambembe pretendente, coisa que a menina, quando sozinha, descartaria com um simples olhar de desprezo. Acompanhada, passou a queixar-se para o namorado que, sem coragem para “tomar satisfações” com o concorrente, limitou-se a “olhar feio” para ele. O rival não gostou e, macaco velho de outras contravenções, encarou o jovem apaixonado, desafiando-o com ameaças.

Bocão não podia perder a mina por pretensa covardia, mácula elencada com destaque no Código de Honra do Machismo. Conversar abertamente com a namorada e tentar uma estratégia em comum, nem pensar. Começou a sondar colegas, inclusive o Gê, para encontrar alguém que lhe vendesse uma arma. “Para me defender”, dizia.

Bocão não encontrou o vendedor de armas, mas encontrou um novo amigo. Ou melhor, foi encontrado por um novo amigo, o Dango, rapaz mais novo porém bem mais precoce. Dango era o novo morador da casa ao lado, onde há tempos o seu pai morava sozinho.

Para azar do Bocão, sua mãe (viuva) descobriu as andanças sexuais do filho através de espionagens e visões de camas desfeitas, e, enciumada, passou a pressionar o rapaz e… a mãe da moça. Os encontros sexuais se tornaram impossíveis. Justo agora que o novo amigo lhe garantira apoio (“Tem uns caras aí que vão te resolver esse problema!…”) contra o concorrente e este, “por medo”, desaparecera !…

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3. O Extorquido

Dinho era um garoto branquelo, de 13 anos, gordinho e irrequieto. A mãe, no passado usuária de drogas e por isso abandonada pelo marido, estava sempre ausente, porque precisava trabalhar duro. O rapaz vivia à solta pelas ruas. Na escola, constantes reclamações da diretora, o que obrigou a mãe a transferi-lo para outro estabelecimento de ensino, do outro lado do córrego.

Na nova escola, novos e piores colegas. Pegaram o malemolengo gordinho para Saco de Pancadas, mas ele conseguiu livrar as costas colaborando com os agressores em dinheiro vivo. Módicas prestações diárias. Dinho roubava da mãe, que atribuía o sumiço do dinheiro a forças ocultas. Quando a prestação deixou de ser módica, a mãe descobriu. E transferiu-o para uma terceira escola.

Aos 14 anos, Dinho arranjou novos amigos, compreensivos e leais. Eram antigos vizinhos, mas naquela ocasião vistos sob novo olhar.

Agora, aos 15, fuma maconha sempre que pode, mais para agradar aqueles novos amigos (fornecedores e protetores)  do que propriamente por vício.

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4. Machista e Cria

Nos antigos vizinhos de Dinho, o chefe da casa era o Nhac, moreno de bigodes, avesso ao trabalho regular e adepto de bicos esporádicos, muito esporádicos. Sua mulher, desde que os dois filhos chegaram à idade escolar, era quem de fato sustentava a casa, com seu trabalho de faxineira diarista. Tudo ia precariamente bem, até que, anos depois, Nhac resolveu trocar a cerveja dos fins-de-semana por aditivos mais excitantes. Aí o dinheiro da mulher e dos bicos já não era mais suficiente. O filho mais velho, aos 16 anos, arranjou um emprego fixo e estabilizou-se, mas logo arranjou mulher e a trouxe para a casa paterna, de modo que a situação voltou ao ponto de desconforto para Nhac. E não adiantava bater na mulher (ação que praticava frequentemente): o fluxo de dinheiro não aumentava.

Nhac então resolveu trocar as incertezas dos bicos mal realizados (e porisso mal pagos) pela estabilidade da Boca de Fumo. Seu filho caçula, o  Gambá, desde menino ladrãozinho contumaz, aderiu de imediato e com entusiasmo. Tornou-se ponta de lança do programa Traficante Jovem, contraponto fornecedor ao projeto Juventude Drogada.

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5. Dango

Consta que um empresário bem-sucedido, dono de franquias, é o proprietário de um terreno no bairro, terreno esse que tem uma edícula nos fundos. Essa edícula esteve alugada durante um bom tempo, mas depois nela alojou-se, sozinho, o Moisés, um parente desse empresário.

Ora, separado o Moisés da esposa, os dois filhos adolescentes ficaram com a mulher. Um deles, porém, começou a dar problemas, e a mulher encaminhou-o para morar com o pai. Era o Dango. Mas logo o pai arranjou nova companheira e sumiu do bairro, deixando o filho sozinho e livre na edícula.

Dango começou fazendo bicos de pintor, e quando não tinha trabalho chegava desesperado no serviço de colegas, louco para cheirar thinner. Tempos depois se enturmou com o Gambá, abandonando bicos e thinner e rendendo-se à maconha. E virou, como Gambá, e ainda mais que Gambá, amigo ad-hoc de jovens confusos ou perseguidos. “O amigo certo nas horas incertas”.

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6. A Garota Amaciada

Dango gostava de Marcilane, que gostava do Bocão, que era grato a Dango. Os dois rapazes combinaram que Bocão iniciaria um namoro com Marcilane, preparando a moça para uma futura abordagem de Dango. O namorico aconteceu, mas durou pouco, e terminou logo depois da primeira transa, ocorrida na edícula. O rapaz se disse enfastiado por ser a moça muito “grudenta”, isto é, sempre procurando introduzir temas românticos na conversa; a moça sentiu-se enfastiada pela insistência do rapaz em relatar as excelências e vantagens do amigo Dango.

Bocão jogou a moça para Dango, que a pegou depressinha. Marcilane achou tudo muito natural. A mãe dela, conhecida no bairro como A Gritadeira, pois grito é o seu modo de se comunicar (com as filhas, o marido quase invisível, a cadela pittbull e qualquer ser que passe à altura de sua fúria institucionalizada), concordou com tudo. E a moça passou a visitar diariamente o seu novo namorado.

A mãe só não gostou quando, ao voltar um dia para casa, flagrou o casal transando em sua casa e em sua cama. Fez um escândalo, alguns poucos decibéis acima dos 120 usuais, e chamou a Policia, que nada pode fazer porque o rapaz ainda era menor. No dia seguinte tudo voltou ao normal, com os pombinhos jurando por São Demônio nunca repetir o malfeito.

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7. Rito de Iniciação

Gê não sabia da prisão do seu perseguidor, e portanto continuava sentindo-se vulnerável. Bocão mostrou-se o amigo de todas as horas, garantindo que a partir daí o outro seria efetivamente protegido por ele, Bocão, por Dango e por “todos os nossos amigos”. Para selar o pacto, foi realizada uma festinha de confraternização, onde a maconha correu solta. Gê porém não quis experimentar a droga.

Na próxima ocasião, Gê foi repreendido pela falta de coleguismo no encontro anterior. Afinal, “amigo é amigo; e os amigos têm que fazer tudo junto”. Para se redimir, o tímido rapaz deveria provar a sua lealdade ao grupo, que naquele momento era composto por ele, por Dango, por Bocão, por Gambá e por Jone, adolescente de 15 anos, outra aquisição recente do grupo.

Sairam em direção ao Shopping, andando por ruas mal iluminadas, e quando chegaram na avenida bateram o olho num rapaz que, à frente, caminhava sozinho. Ia também ao Shopping. O rapaz foi escolhido como alvo.

– “Vai lá, dá um tranco no Cara e toma o boné dele!” Ordenou Dango.

Gê hesitava.

– “Você não é homem?! Vai lá, cara!”

E completou, virando-se para o outro neófito:

– “Vai com ele, Jone!”

Os dois foram, e deram um tranco no rapaz. Em inferioridade, o rapaz largou o cobiçado boné e fugiu em desabalada carreira. Perseguiram a vítima por alguns metros, e então cairam na gargalhada, felizes com o êxito da ação. Gê, feliz, sentiu-se vingado dos bonés que perdera para outros meliantes.

A vítima, porém, era filho de um policial, e logo voltou, devidamente acompanhado. Os PMs pegaram Gê e Jone, não vendo Dango e Bocão, que, preventivamente distanciados, disfarçaram e desviaram da rota.

Os dois neófitos foram apreendidos e encaminhados a uma UNEI. Os pais de Gê, honestos trabalhadores, não conseguiram liberar o rapaz, que ficou retido durante 1 semana. Saiu sob condicional de seis meses, prazo em que não poderia estar na rua após as 22 horas e em que sua conduta na escola (onde tinha boas notas) e no trabalho junto ao pai seria monitorada.

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8. O Rebelde Pusilânime

Casca também trabalhava em meios-períodos na oficina do pai do Gê. Mas esporadicamente (imitando o próprio pai, Gerson) e muito a contragosto. Gostava e tinha talento para desenhar, mas sempre as mesmas figuras de águias, demônios, caveiras e peixes. Tentou virar tatuador, adquirindo técnicas e instrumentos, mas desistiu. Foi quando apareceu Bocão para renovar e fortificar antiga e frouxa amizade.

Casca foi convencido das vantagens de pertencer ao grupo. Ainda mais quando agora namorava Ruana, na nova escola (para alunos atrasados) que Casca passou a frequentar, e que tem, em alguns círculos, o apelido de Fumódromo.

A partir daí, o comportamento do rapaz piorou muito. Passou a discutir com a mãe, quando antes só resmungava ódios contra o pai. Instado, sem reprovações, a apresentar a nova namorada, mudava de assunto ou simplesmente se afastava do questionador. Foi com Gê a um tatuador, e enquanto o outro marcava a parte lateral do tronco, escondida pela camisa, Casca mandava tatuar, bem grande, o nome da namorada no antebraço.

Consta que ele uma vez foi visto parado na praça do bairro vizinho, próximo a um posto policial, passando papelotes. Possivelmente um teste. E a amizade com Bocão e Dango continuava, apesar da proibição e restrições dos seus pais.

Casca e a mina sairam daquela escola que facilita as progressões até o nono ano. Ruana foi fazer 1º grau do Secundário num lado da cidade, Casca no outro lado, mais próximo à sua casa. O rapaz falta sistematicamente às aulas e refuga serviço tanto quanto pode. Ele só quer, só pensa em namorar. Sob o guardachuva dos amigos, quer transferir matrícula para a escola da menina (em curso noturno), o que parece vai acontecer. Mas ele não poderá acompanhar os novos colegas, já que acumula muitas faltas e atrasos.

Casca agora adota o linguajar e a postura do grupo de maconheiros. Todos se consideram Homens, isto é, adultos. E Casca ainda procura uma edícula deserta.

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9. Dominós e Gato Preto

A Polícia ocupou a vila vizinha, e com isso o movimento na casa do Nhac diminuiu drasticamente. Mas o grupo Dango, e a sua atração fatal, continuou crescendo. Caiu Hércules, filho da Hortência, e outros rapazes bem vestidos da redondeza. Até Lourival, outro bem vestido e com namorada regular (os dois bem relacionados com os respectivos pais e “sogros”) já vem pedir a “bênção” da gangue. O último baluarte é agora Gê, vigiado de perto por pais, irmãos, tios e Conselho Tutelar.

E a maré de azar do Nhac continuou. Sua mulher, após uma nova surra e ameaças de morte, fugiu de casa e foi morar com parentes, bem longe do Machista. E parece que desta vez, dois meses depois, ao contrário de várias outras debandadas, não vai voltar. O dinheiro das duras faxinas não mais apareceu, e Dango tomou o lugar de Gambá na presidência da promissora célula juvenil do tráfico maconheiro.

Mas a ressaca da maré também atingiu Dango. A Polícia fez uma batida, com revistas, na esquina da quadra, a 50 metros da edícula. Dango e Gambá ainda puderam assistir de camarote, botando a cara entre as grades do portão, e rindo muito da Polícia e da desgraça de eventuais maconheiros descuidados. Mas, advertido das estripulias do Dango, o pai resolveu voltar à casa, com a nova companheira a tiracolo. Marcilane arranjou emprego e não está mais tão disponível. E a edícula já não serve de motel. Bocão agora, já maior de idade, usa uma moita na calçada defronte à sua casa, com uma providencial Romanzeira a vedar os olhares da rua. Foi visto às 20 horas naquele escurinho, sentado numa cadeira, com uma adolescente no colo e outra ao seu lado, servindo de apoio ou estepe.

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10. A Bicicleta

Os pais do Gê o transferiram para uma outra escola, no período noturno, longe do “louco” perseguidor e das amizades maconheiras.

Não se passa uma semana e numa noite aparece, nas imediações da escola, o Hércules, um dos novos amigos do Dango. Fica dissimulado na penumbra de uma árvore. Um rapaz de bicicleta, com uma garota na garupa se aproxima dele. Hércules cochicha:

– É aquele cara ali, com a camisa amarela…

Gê chega despreocupadamente à calçada defronte ao estabelecimento, preparando-se para adentrá-lo. De repente achega-se a ele o ciclista com a namorada, tira um revólver 38, libera o tambor para rodá-lo e diz:

– Eu vou te matar, cara!

Surpreso, Gê inventa de responder:

– Por quê? O que foi que eu te fiz?! Eu nunca te vi na vida!…

– Ordem do Presídio, cara! Eu vou te matar!…

– Mas eu nem te conheço, cara! Se quiser atirar, atira logo!

Surge então o Hércules, puxando o Gê pelo braço:

– Você tá louco, cara?! Vamos correr!

Enquanto o bandido aponta a arma para o Gê, todos debandam, inclusive alguns outros assistentes da cena.

A garota desce da garupa, pois é aluna da escola. O bandido guarda o revólver e pedala rua abaixo, tranquilo e calmo.

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