O Flautista de Hamelin

A Praga

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Cidade de Hamelin,
perto de Hanover, sim,
com rio de profundo azul
a banhar seu lado sul.
Há mais de seiscentos anos
seu povo, apesar de lhano,
sofria muito, de fato,
com uma praga de ratos.

Em profusão, esses ratos
enfrentavam cães e gatos,
comiam na prateleira
e lambiam, da cozinheira,
a colher pingando sopa.
E iam morder a popa
do pobre bebê na esteira.
Em barris faziam fendas,
ninhos em chapéus de festa,
calavam o papo das prendas
guinchando ruido à beça.

Finalmente o povo todo
invadiu a prefeitura.

“O nosso prefeito é tolo;
e essas tristes figuras
que chamam de autoridades
não sabem nem têm vontade
de nos livrar das agruras.”

“Acaso têm esperança
que por ter avantajados
ambos, idade e pança,
não serão prejudicados?”

“Acordem os seus pendores!
No cérebro dêem revirada;
encontrem, para os horrores,
a solução adequada.
De outro modo os senhores
rolarão por essa escada.”

Os senhores, mal refeitos,
tremeram apavorados,
e se puseram trancados
até que enfim o prefeito
desabafou do seu jeito:

“Por um guilder venderia
este meu traje de arminho,
para me ver no caminho,
bem longe, na alforria.”

“É muito fácil deixar
que outros quebrem o coco;
o meu já está a quebrar
e nada achei, nem um pouco.”

O Trato

Então na porta se ouviu
uma bem leve batida.
O prefeito logo abriu
os olhos em desmedida:

“É apenas arrastar,
no piso, de um sapato,
ou é sim um ressoar
produzido por um rato?”

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“Entre!” gritou o distinto.
E viu adentrar o recinto
a mais estranha figura:
Era de mui boa altura,
e muito magro, sem pelo
no rosto, e o seu cabelo
era bem solto e leve,
sorriso frequente, breve,
olhos azuis e agudos,
contrastando sobretudo
com sua pele trigueira.
Mas a impressão primeira,
da sua roupa é que veio:
um longo casaco, meio
amarelo, meio vermelho,
que ia dos pés ao cabelo.

O homem se aproximou
da mesa de reunião:

“Senhores, capaz eu sou
de resolver a questão.
Por secreta habilidade
faço qualquer criatura
cumprir a minha vontade,
e sem qualquer desventura,
seguir pra onde eu mandar.”

“Em geral gosto de usar
esse poder singular
contra os que causam danos
aos pobres seres humanos:
sapo, tritão e toupeira,
cobra e o que mais se queira.”

“É de Flautista Malhado
que o povo tem me chamado.”

Então as autoridades
daquela bela cidade
notaram que o cachecol
com cores do arrebol,
no pescoço do artista,
tinha na ponta uma flauta,
de que os dedos do flautista,
inquietos de dar na vista,
pareciam sentir falta.

“Dia de junho, restrito
à tal Tartária do Cham,
várias nuvens de mosquitos
eliminei de manhã.”

“Morcegos-vampiros, entes
que na Ásia de Nizan
atacavam muita gente,
exterminei na rechã.”

“Voltando a falar do fato
que atormenta esta plaga:
livrando o povo dos ratos
ganho mil guilders de paga?”

O prefeito da cidade
e demais autoridades
falaram sem hesitar:

“Mil guilders? Vamos pagar
muito mais: cinquenta mil!”

A Flauta

Logo o flautista saiu,
e vez por outra sorria,
certo de que a Magia
na flauta apenas dormia.

Então a flauta subiu
aos lábios, que ele franziu,
regendo sopros maneiros;
seu olhar, antes faceiro,
soltava chispas, igual
borrifos de puro sal
nas chamas do candieiro.

Murmúrio então se ouviu,
e logo foi aumentando
com outros ruídos mil
de exército chegando.

E os ratos, multidão,
saiam de ruas, vielas,
abandonando panelas,
e queijos, petiscos, pão.
E tomavam direção,
seguindo a sonora pista
que levava ao flautista.

Grandes e pequenos ratos,
magrelos e fortes ratos,
velhos ratos pesadões,
com bigodes a alisar,
ratos jovens brincalhões,
com rabos a empinar,
marrons e cinzentos ratos,
trigueiros e negros ratos.

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E pela rua, a tocar,
o flautista prosseguia,
encantando a rataria.
E ele somente parou
na margem do rio; sem pejo
aos ratos do seu cortejo
que prosseguissem mandou.
E todos, sob o encanto
mergulharam sem espanto
nas águas frias do rio.
Nenhum deles emergiu.

Entretanto, em certo ninho
ainda restou a presença
de um único ratinho;
era surdo de nascença…

O Distrato

Com o sumiço dos ratos,
aquele povo pacato
saiu às ruas, feliz.
E os sinos, nem se diz,
bimbalhavam alegria.
O prefeito, na sacada,
fingindo sabedoria,
deu curso à sua jogada:
exortava aquele povo
a limpar ninhos de ratos,
tapar frestas e buracos,
sem falar nada de novo.

O alcaide, de repente,
viu parar, à sua frente,
o tal Flautista Malhado,
que dizia, confiado:

“Vim buscar, senhor prefeito,
os mil guilders de direito.
Cumpra sua parte no trato,
já que livrei-o dos ratos…”

O prefeito, assim cobrado,
respondeu, todo assustado:
“Mil guilders, você falou?!”
Virou-se e confabulou
com demais autoridades.
E todos se deram conta
que seus jantares de monta,
como elite da cidade,
pediam bebidas raras,
e porisso muito caras.
Metade dessa quantia,
cochichavam, compraria
um estoque rico, pleno
do melhor vinho do Reno.
Porque então concedê-la
a um mero andarilho
com casaco maltrapilho
de cor vermelha-amarela?

“Além disto”, sussurrou
o prefeito aos seus pares;
“vimos com nossos olhares
que no rio se afogou
toda aquela rataria;
e nunca, jamais, poderia
alguém, para se vingar
pela quebra de um contrato,

fazê-la à vida voltar
e castigar o distrato.”

O prefeito se virou
de novo para o flautista
e, cara dura, falou:

“Meu caro amigo artista,
não fugimos do dever
de lhe oferecer um trago
e no seu bolso de mago
colocar algum haver.
Mil guilders, disse você,
cinquenta mil, nós dissemos;
mas nada foi pra valer:
como piada entendemos.
Mil guilders? Se isto o alenta,
receba apenas cinquenta,
paga justa, embora grácil,
para tarefa tão fácil.”

O flautista se quedou
indignado e falou:

“Não seja tão leviano!
Eu não posso esperar:
em Bagdá, sem engano,
me aguardam pro jantar.
Lá esbanjam gratidões
por eu haver acabado
com ninhos de escorpiões
na área do Califado.
Lá, pechincha nunca houve,
e aqui eu não mereço
perder centavo do preço
que combinar nos aprouve.”
Eu faço uma advertência:
considere a consequência.
O povo, que justo agora
aplaude essa melhora,
pode depois me escutar
outra música tocar,
e nem um pouco gostar…”

O prefeito começou
irritado a grasnar:

“Acaso pensa que vou
um vagabundo deixar
venha, com roupa malhada,
e uma flauta calada,
a nós todos insultar?
E ainda nos ameaça?!
O pior que puder, faça!
Não vai nos intimidar
apenas com seu assoprar…”

E aqueles nobres senhores
viraram os seus costados,
rindo e falando horrores
do tal casaco malhado.

As Crianças

E o flautista, outra vez,
nas ruas perambulava,
e sua flauta soprava,
agora com altivez.

Eram notas usuais,
qual de músico capaz,
mas o sopro da Magia
resplandecê-las fazia.

Ouviu-se um farfalhar
em modo de alvoroço
e viu-se então o chegar,
em esbarrões e balouço,
de pequena multidão
de meninos e meninas,
com seus corpos, pés e mãos
livres de suas rotinas.
Pezinhos nus a flanar,
tamancos em tlac-tlac,
mãozinhas a aclamar,
em sonoros clap-claps.
Saíam de todo lado
crianças em correria;
com inaudita alegria,
desse Flautista Malhado
seguiam a melodia.

O prefeito ficou mudo
e os seus pares pançudos
permaneciam parados
como se transformados
em estátuas de sal.
Não podiam dar um passo,
gritar já não era normal;
um olhar apenas crasso
podiam dar, pra seguir
aquele alegre partir.

Mas como se torturou
o patético prefeito,
e como então desabou
o moral dos escorreitos,
quando o Flautista Malhado
deixou a principal via,
como se direcionado
ao rio que se entrevia!
Entretanto esse cortejo
logo de novo infletiu,
indo agora sem bordejo,
se afastando do rio,
para o lado da montanha.
Foi a alegria tamanha
que o prefeito logrou
sua voz recuperar.
E otimista sonhou:

“Sua sorte mudará.
Ele nunca poderá
a montanha escalar
e concomitantemente
a sua flauta assoprar.
E assim, eu tenho em mente,
interrompido o tocar,
se interrompe o encanto
e as crianças vão voltar.”

A previsão, no entanto,
não ia se confirmar.
Ao chegarem na encosta,
porta mágica foi posta
para o cortejo passar.
O flautista e as crianças
adentraram as entranhas
daquela alta montanha,
e então a porta fechou,
e nem um traço deixou.

Falei “todas as crianças”?
Não; uma delas restou,
e até certo ponto andou,
mas perdeu a esperança
de as demais alcançar.
Era um menino a criança;
seu destino, manquejar.
Anos depois, se você
lhe perguntasse o porquê
dele ser sempre tão triste,
dizia, sem um despiste,
das famosas peripécias
de um flautista malhado,
e logo após, sem facécia,
de como tinha achado
enfadonha a sua vida
após a triste partida
da alegre criançada.

E ele dizia: “Nada
me consola de haver
perdido a chance de ter
conhecido um novo mundo,
que a música mostrava
cheio de encanto profundo,
onde tudo melhorava
e este meu pé direito
logo estaria perfeito.
Mas quando a abertura
na montanha se fechou,
a tal música parou;
e eu me vi na amargura
de voltar para a cidade,
mancando, contra a vontade.”

Os Paliativos

A cidade procurou
encontrar alguma pista
da parada do flautista.
O prefeito divulgou
prêmios em ouro e prata
para a volta imediata
de toda a criançada.
Mas tudo não valeu nada.
Pra ser menos acusado
da falta de resultado,
o alcaide logo fez
várias coisas de uma vez.
E a rua do mercado
um novo nome ganhou:
Rua Flautista Malhado.
E também se decretou
que nessa rua, pra sempre,
nunca mais se tocaria,
nem mesmo discretamente,
o tubo da vilania.
E todos os advogados,
nos ofícios e petições,
fariam as datações
acrescentando o recado:
“após os tristes eventos
aos vinte e dois dias do mês
de julho de mil trezentos
e setenta e seis.”
E defronte ao local
onde se abrira o portal,
numa pedra empinada
se entalhou a história,
nem um pouco ilusória,
das crianças sequestradas.

Epílogo

Décadas depois, havia
em terras da Transilvânia
uma gente muito estranha.
Esse grupo atribuía
roupa e modos diferentes
aos seus queridos parentes
da geração precedente.
Eles haviam escapado
de um aprisionamento
a ele todos levados
através de encantamento
por músico perpetrado.

Final

A quem é criança, fica,
sincera, a minha dica:
confiança pouca tenha
em qualquer homem à vista.
Menos ainda em flautista.
E se um dia algum venha
nos livrar de uma praga,
melhor que o homem tenha,
se prometida, sua paga.

__________

Texto original em inglês, com ilustrações, em Indiana University Libraries .

Não achei na Internet tradução portuguesa para esse belo poema de Robert Browning (1812-1889) contando a bela história do Flautista de Hamelin. Tentei fazer uma tradução a mais fiel possível ao espírito do original, mas, evidentemente, com algumas inevitáveis derrapadas (que normalmente são chamadas de “soluções quebra-galhos” ou “licenças poéticas”). Espero não ter feito feio.

Gostaríamos de haver mantido as magníficas ilustrações de Kate Greenaway (1846-1901) feitas para a edição original em inglês. Mas há problemas de copyright, não em relação aos desenhos, mas às fotos dos desenhos. Assim, modificamos o projeto inicial e optamos por desenhos originais, assinados por Jarbas Similevinsk, que serão apostos paulatinamente.

Campo Grande, fevereiro de 2013.

Valdir Dala Marta.

Incongruências na Tradução

1. Não levei em consideração os versos de 46 (“(With the Corporation…”) a 51.  A comparação se vale de preciosismos gastronômicos pouco compreensíveis para quem não mora na Inglaterra.

2. Outro trecho cortado foi o dos versos 67 (“Quoth one: . . . “) a 69. É mais uma das muitas referências bíblicas (aqui, Juizo Final) do autor. Se essas referências eram reconhecíveis por todos em sua época, hoje isto não mais ocorre, apenas atravancando a narrativa.

3. Robert Browning utiliza rimas irregulares (às vezes aabb, às vezes abba, às vezes abbba). Como o resultado é interessante, dispus-me a fazer o mesmo, até porque isto aproxima a tradução do espírito do original.  Por outro lado, o poeta começa com versos de 7 sílabas e passa, mais à frente, para 9 ou 10 sílabas.  Tentei fazer o mesmo, mas não consegui bons resultados. Desisti e mantive tudo uniforme em 7 sílabas. Com isto temos uma tradução com muitos mais versos do que os 303 originais.

4. Na sequência de versos 124 a 145, Browning perde o fio da narrativa, novamente (e extensamente) enveredando por preciosismos culinários, desta vez pretensamente do ponto de vista dos ratos. Cortei-os, sem qualquer prejuízo (ao contrário, ao meu ver com ganho) para a narrativa ou o poema. Mas ao cortá-los tive de inventar um novo motivo para a salvação do ratinho.

5. Cortados também os versos de 240 a 248.  A descrição do mundo mágico  sugerido pelo sopro do flautista deixa muito a desejar.

6. Os subtítulos foram acrescentados por mim.

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3 Respostas to “O Flautista de Hamelin”

  1. Marcos Says:

    Traduzir rimado talvez altere muito, e, traduzir sem alterar, não rima. A escolha é difícil.

    __________

    Valdir diz:

    Obrigado pela visita, Marcos.

  2. Pimenta Says:

    Valdir, desconheço o original, mas a sua versão me parece bastante aprazível, gostosa de se ler. Parabéns!

  3. Kadu Mauad Says:

    Olá, Valdir.

    Sou um do trio de contação de histórias “Contaê”. Inauguramos o repertório com “O Flautista Misterioso e os Ratos de Hamelin” há dois anos. Como se vê o título é o mesmo da versão em cordel do Braulio Tavares que, aliás, adotamos de cor e salteado.

    Muito bem: meu propósito em deixar um comentário é para colaborar com sua busca ao “texouro”. Para ser honesto, ainda não li sua versão mas em breve a lerei.

    Olha: tenho comigo uma tradução primorosa do poema-narrativo de Robert Browning que saiu pela editora Iluminuras: “O Flautista de Manto Malhado em Hamelin” (livros da tribo). Quem responde por esta, além das notas e posfácio, é Alípio Correia de Franca Neto. Tatiana Belinky faz a apresentação e Carmen Thiago assina as Ilustrações.

    Espero que lhe tenha sido alvissareiro.

    forte abraço
    kadumauad

    ps1: fiz uma breve busca no saite da editora. O campo para digitar o título que lhe interessar possa está do lado esquerdo logo abaixo. Boa sorte!

    ps2: consegui! cá estão os línques para ter acesso ao livro!

    O LIVRO
    http://www.iluminuras.com.br/v1/busca.asp?txtBusca=Robert%20Browning

    SINOPSE
    http://www.iluminuras.com.br/v1/verdetalheslivros.asp?cod=398&txtBusca=Infantojuvenil&autor=Robert%20Browning

    __________
    Valdir diz:

    Kadu:

    Obrigado pelas dicas.

    Encomendei, há mais de uma semana, os dois livros citados (do Bráulio e do Alípio), numa livraria local. Devem estar chegando. O Bráulio faz uma espécie de reconto (li a parte disponível na Internet, e é realmente de alta qualidade, como, aliás, os textos em prosa desse autor). Quanto à tradução do Alípio, estou curioso para ver como ele resolveu certas passagens difíceis do texto original.

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