Voto de Cabresto

Dolores recebeu a visita de Mercedes, uma “conhecida”, alguns dias antes das eleições. Foi informada de que receberia R$ 100,00 se apusesse numa folha de papel, já parcialmente preenchida com dados de outras pessoas, o seu nome e o número do seu título eleitoral.

Dolores ditou o seu nome completo para a visitante e entrou em outro cômodo da casa, à procura do documento. Procurou, procurou, e não achou o seu título. Lembrou-se então de que mantinha, no pequeno oratório de seu quarto, documentos e fotos de seu filho Walterson, falecido no ano passado num acidente de carro. Pegou o título de eleitor do finado e o entregou à “conhecida”, que anotou criteriosamente o número ao lado do nome anteriormente coletado. Dolores deveria, no mesmo dia ou no dia seguinte, procurar Semíramis, no endereço X, perto dali, apresentando-se como um dos nomes da lista.

No dia seguinte (já que não precisava tanto assim do dinheiro) Dolores foi ao citado endereço, citou seu nome e exigiu os cem Reais. Semíramis examinou uma pilha de listagens até que encontrou o nome procurado. Abriu uma bolsa e retirou uma reluzente nota de cem, que entregou a Dolores, recomendando: “Não se esqueça de levar a “cola” no dia 3!”

No dia da eleição a mulher agraciada notou que tinha um sério problema: Mercedes, cujo endereço Dolores não conhecia, não lhe entregara nenhuma cola. Abriu-se então com a vizinha da frente, amiga de muitas horas difíceis, terminando por confessar que, malgrado toda a propaganda eleitoral das últimas semanas, não sabia o número de nenhum candidato, nem mesmo o do cargo majoritário principal.

A vizinha então propôs: “Olha, eu tenho aqui uma cola pronta para meu uso. Se você quiser, posso fazer uma igual para você.” E foi detalhando, para ver se a outra não tinha alguma objeção, o nome e o número de cada candidato da cola já pronta. Dolores asseverou que gostaria de votar nos mesmos candidatos da amiga, e esta fez uma cópia de sua cola.

E assim Dolores votou: voto de cabresto, mas não voto vendido…

Cumprido o dever cívico, veio-lhe um remorso insidioso como a intermitência de uma dor-de-dente. “Não é justo! Eu devia ter votado no candidato Cenzão!”

Voltou então à amiga da casa da frente, contou o seu novo drama, e recebeu o seguinte conselho: “Amiga, dinheiro de corrupção é maldito! Deus castiga! Transforme esse dinheiro maldito num dinheiro abençoado: vá até o barraco do seu Legário, que deve estar “passando necessidade”, e dê o dinheiro a ele!”

Dolores achou um envelope branco, embora um pouco amassado, colocou dentro a nota azul (não a azul de R$ 600,00 do Serra, mas a verdadeira, de R$ 100,00) e saiu em expedição rumo ao barraco do velho homem, que aos 73 anos era obrigado a arranjar dinheiro extra para sustentar o crack de um filho e três netos (mas desses detalhes nem Dolores nem a amiga sabiam).

Seu Legário ia saindo e recebeu o envelope amarrotado com um gesto de mau humor. “Velho ingrato!” saiu resmungando a Dolores. “Mulher esquisita!” resmungou o velho voltando ao barraco e destrancando o cadeado (há muitos ladrões no bairro). Entrou pesadamente, contornou o grande recipiente onde armazenava latinhas vazias de cerveja, achou o recipiente dos papéis, acabou de amassar o envelope usado e ali o jogou, com raiva e desgosto…

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2 Respostas to “Voto de Cabresto”

  1. ana Says:

    Olá, hoje achei o blog de vocês enquanto pesquisava alguma coisa sobre ipê amarelo. Estou numa duvida tremenda e gostaria de saber se vocês têm algum email que eu possa enviar uma foto pra vcs verem se essa mudinha é de ipê. Eu levei a semente para ser plantada em outro país e nunca tinha plantado nada antes, agora a semente germinou e eu to em duvida se é a mudinha de ipê ou se é “mato”. Posso contar com a ajuda de vocês?
    _____
    do blog:

    Claro, Ana! Mande as fotos para valmardala@top.com.br , como anexos.

  2. ana Says:

    Oi, obrigada pela ajuda! Eu já mandei o email… fico esperando sua resposta!

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