A Grama Eleitoreira

Campo Grande – MS. O Córrego Prosa, no trecho entre a Rua Ceará e o ponto em que ele se torna subterrâneo (junto à Rua Padre João Crippa), não apresentava, em 2008, nenhum problema especial. Em chuvas excepcionais alguns metros de gabião descolavam do talude e tombavam sobre o leito, mas eram facilmente refeitos alguns dias depois.

Mas 2008 era ano de eleição (quando o atual prefeito seria reeleito), e havia na cidade, principalmente no segundo semestre, um frenesi de obras públicas em execução. No Brasil, como se sabe, a pauta eleitoral não versa sobre as qualidades de administrador do prefeito (funcionamento adequado de escolas, transporte público, sistema de saude, trânsito, justiça da tributação), mas sim, sobre as suas qualidades de movimentador de verbas públicas em direção a empreiteiras.

Desde o início daquele ano havia muitas verbas para gastar e poucos problemas que urgissem obras de engenharia. Então começou-se a inventar problemas para essas verbas desviadas da administração mas “devidas”, por algum direito divino (ou por algum acordo da divindade com os humanos), às empreiteiras. Foi assim que se lembraram dos córregos da cidade. Na bacia que corta o centro da cidade, o Sóter estava realmente a exigir a construção de represas de contenção do ímpeto das enxurradas, mas o Anhanduí não pedia alargamento e o Prosa só pedia para ser deixado em paz. Entretanto, como havia verbas de sobra (provavelmente as mesmas que faltavam para Saúde, Educação, Transporte Público e Trânsito), resolveu-se intervir também no Prosa.

Criou-se, durante alguns meses, vários transtornos para a população, com interdições parciais das vias que margeiam o famoso córrego. Num trecho, operários faziam pequenas concretagens “de reforço” no leito; mais abaixo uma pesada retro-escavadeira ia, com seus deslocamentos desastrados, desbarrancando os taludes e afrouxando o enraizamento das árvores. Como era época de chuvas, cada chuva maior começou a causar mais estragos do que aqueles da fase anterior à “obra”. E como a eleição se aproximava, surgiu a brilhante idéia de aplicar, nos gabiões, antigos e novos, um fino jateamento de cimento de endurecimento super-rápido. Isso pareceu dar uma trégua à empreiteira, mas deixou nos muros de arrimo o atual aspecto de trabalho de marreteiros de vila, um retrocesso em relação ao belo aspecto dos gabiões originais.

Como nesse negócio de obras públicas a aparência é tudo, resolveu-se retificar o perfil dos taludes malgramados existentes, dividindo-os numa metade superior agora plana e em outra metade mais íngreme do que o talude anterior. O novo perfil foi conseguido com o assentamento de sacos de terra, firmados em alguns pontos por estacas de madeira. Depois, camada superficial de terra solta. E tacaram tapetes de grama esmeralda (procedimento rápido e prático, porém inadequado), porque as eleições seriam daí a alguns dias.

Realmente, no dia das eleições a obra estava “pronta”.

Ora, sabe qualquer Zé Mané que essa grama esmeralda é própria para jardins e gramados planos; seu sistema de raízes não se aprofunda no solo, concentrando-se nos primeiros 5 centímetros da superfície. Até as empreiteiras sabem que em taludes se deve plantar grama Mato Grosso, ou Braquiária, ou mesmo um coquetel de gramíneas e leguminosas (como fizeram nos taludes do Córrego Sóter, conforme se vê na última foto desta postagem). Conclusão, na primeira chuva forte depois das eleições, a enxurrada levou largos pedaços do tapete verde e do solo superficial, deixando à mostra a triste imagem dos sacos empilhados, alguns já dilacerados. A empreiteira (ou a prefeitura?), que no começo logo refazia os estragos, depois da décima vez cansou-se e desistiu.

As imagens abaixo mostram a situação do Córrego Prosa na manhã do domingo, 21 de março de 2010, consequência da mega enxurrada do dia 27/02/2010. Até agora ninguém se animou a reparar os desmanches no talude malfeito. Aposto que vão gastar mais um milhão para resolver o problema criado pela obra da época eleitoral, que deixou como saldo negativo, além desse talude insustentável, a morte de pelo menos 20 árvores e o enfeiamento dos gabiões (agora impedidos de drenar) por grosseira camada de cimento.

Abaixo, um talude, à margem direita do Córrego Sóter, fixado com coquetel de gramíneas e leguminosas. Essas plantas têm raizes que se espalham profundamente no solo, tornando-o estável.


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P.S. 08 maio 2012:

Em abril-maio de 2011, há 1 ano portanto, finalmente a Prefeitura mandou construir gabiões nos lugares mais vulneráveis à força das enxurradas. A situação atual do trecho do Prosa é mostrada nas fotos abaixo.

Gabião novo sobre gabião antigo (este, inutilmente jateado com mistura de areia e cimento). Uma enxurrada mais forte levou terra e grama da área acima dos dois gabiões.

O mesmo trecho. A margem direita não é vulnerável, pois só recebe remansos da correnteza.

Trecho pouco adiante. Na margem direita as Leucenas proliferam por conta própria. A Prefeitura deveria deixá-las crescer, apenas raleando a alta concentração das mudas.

Os novos gabiões apenas deslocaram a vulnerabilidade do talude para outros pontos.

Jateamento de concreto armado (!). Só serviu, do ponto de vista das boas práticas administrativas, para enfeiar ainda mais a margem do córrego.

Aqui vai se formando uma cratera.

O lixo de uma enxurrada só é retirado… pela próxima enxurrada. Que deixa um lixo novo no lugar do antigo.

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