As Represas de Mármore

Setor Privado . . .

Um amigo meu conhece um primo do cunhado da esposa de um seu amigo. Esse primo se tornou novo-rico depois que conseguiu, numa capital do Sudoeste, a concessão de certos serviços municipais terceirizados. O novo-rico adquiriu uma fazenda pelas bandas de Ribas do Rio Pardo, e essa fazenda tem um córrego das dimensões e relevo do Córrego Sóter, que corta a região nordeste de Campo Grande e depois desagua no Córrego Prosa.

Pois bem, depois de reformar a sede da fazenda, que não estava à altura de sua nova posição, resolveu o sr. Francisco (ele gosta de ser chamado de Franquinho, simplesmente) gastar mais algum dinheiro, que já estava pesando em suas burras. Encasquetou de mandar construir uma represa no tal córrego, encomendando o projeto a um conceituado engenheiro civil da capital.

“Quero coisa fina, seu dotô! Ou melhor, coisa fina e coisa grossa, porque tem que durar para toda a vida! Coisa de deixar os visitantes de queixo caido..”

O engenheiro elaborou detalhado projeto, que acabou, por vias transversas, caindo sob o olhar do meu amigo. Mas este, não sendo do ramo, anotou malemal alguns detalhes que lhe pareceram mais importantes. De suas precárias anotações este blogueiro, que de engenharia também entende pouco, pôde extrair o quadro abaixo:

Área da parede principal da represa: 175 m2;

Área das paredes do vertedouro: 70 m2;

Área do piso do vertedouro: 90 m2.

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ORÇAMENTO DE REPRESA DE CONCRETO ARMADO, NA FAZENDA SÃO FRANQUINHO

ITEM MEDIDA QUANTIDADE UNITÁRIO VR. TOTAL TOTAL SETOR
Estudos e Licença Ambientais 5.000,00
Estudos Geológicos 5.000,00
Projetos Estrutural e Arquitetônico 13.161,11
Outros Trâmites Legais 2.000,00
25.161,11
Cimento sc 50 kg 600 20,00 12.000,00
Pedra m3 80 70,00 5.600,00
Areia m3 54 45,00 2.430,00
Ferro barra 3/8 476 45,00 21.420,00





41.450,00
Mão-de-Obra Horas-homem 5000 10,00 50.000,00

50.000,00
Locação de Máquinas horas 100 100,00 10.000,00
Materiais Auxiliares 5.000,00
15.000,00
SUBTOTAL DO ORÇAMENTO


131.611,11 131.611,11
Empreiteira lucro bruto 50,00% 131.611,11 65.805,56 65.805,56
TOTAL DO ORÇAMENTO


197.416,67 197.416,67

Franquinho analisou o orçamento, viu uma maquete da futura represa e achou tudo muito simples e vulgar.

“E de que cor vocês vão pintar a represa?” perguntou ao engenheiro.

“Represas normalmente não são pintadas”, respondeu pacientemente o criterioso profissional.

“Mas isto está muito sem graça! Não dá pra botar mármore na obra? Mármore estrangeiro, daquela cidade lá das Europa!…”

“Bom”, retrucou o engenheiro; “não se usa revestir represas com lâminas de mármore, e muito menos com o caríssimo mármore de Carrara. Revestimento de mármore causará um escândalo dos diabos!…”

“Ah, é?! Pois falem mal, mas falem de mim! Mas tenho certeza de que os meus amigos só falarão bem de mim! Manda ver, seu dotô!”

O doutor mandou ver, e dias depois apresentou um novo orçamento:

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ORÇAMENTO DE REPRESA DE CONCRETO ARMADO, COM REVESTIMENTO DE MÁRMORE,
NO CÓRREGO FRANQUINHO, NA FAZENDA SÃO FRANQUINHO

ITEM MEDIDA QUANTIDADE UNITÁRIO VR. TOTAL TOTAL SETOR
Estudos e Licença Ambientais 5.000,00
Estudos Geológicos 5.000,00
Projetos Estrutural e Arquitetônico


45.383,33
Outros Trâmites Legais 2.000,00
57.383,33
Cimento sc 50 kg 600 20,00 12.000,00
Pedra m3 80 70,00 5.600,00
Areia m3 54 45,00 2.430,00
Ferro barra 3/8 476 45,00 21.420,00





41.450,00
Mão-de-Obra Horas-homem 5.000 10,00 50.000,00

50.000,00
Locação de Máquinas horas 100 100,00 10.000,00
Materiais Auxiliares 5.000,00
15.000,00
SUBTOTAL DO ORÇAMENTO


163.833,33 163.833,33






Mármore de Carrara m2 290 1.000,00 290.000,00





290.000,00
SUBTOTAL DO ORÇAMENTO


453.833,33 453.833,33






Empreiteira lucro bruto 50,00% 453.833,33 226.916,67 226.916,67
TOTAL DO ORÇAMENTO


680.750,00 680.750,00

Percebe-se que a inclusão do mármore entre os materiais básicos causou diretamente um enorme aumento (de R$ 290.000,00) no orçamento geral, e indiretamente grandes aumentos no preço dos projetos (de R$ 13.161,11 para R$ 45.383,33) e na remuneração (em termos de lucro bruto sobre custos diretos) da empreiteira, que saltou de R$ 65.805,56 para R$ 226.916,67. O capricho do empresário-fazendeiro havia feito o valor da obra triplicar…

Mas parece que o tal primo, além de gastador, era também instável, e acabou convencido pela mulher, pessoa que não perdera a sensatez dos tempos bicudos, a fazer a represa nos termos daqueles primeiros projetos. Isto daria à fazenda a represa de que ela de fato necessitava, e ao casal uma folga financeira merecedora de melhores aplicações (como por exemplo, a compra de um magnífico Land Rover)…

. . . e Setor Público

De acordo com o Correio do Estado (edição de 18/03/2010), a Prefeitura de Campo Grande pagou, há alguns anos, a estratosférica quantia de R$ 1.500.000,00 para obter, de uma empresa de consultoria, a elaboração de “projetos do conjunto de obras de contenção de enchentes na bacia do Sóter e Prosa”. Dentre outras recomendações questionáveis pelo senso comum dos eleitores, essa consultoria de ouro propôs a construção de 3 represas no Córrego Sóter (quando o correto seria 9, como agora a administração municipal, sem precisar pagar consultoria, reconhece), para evitar, a jusante, enchentes decorrentes da rápida (e ao nosso ver irresponsável) urbanização daquela área da cidade.

A Prefeitura resolveu atender a todas as recomendações. No caso das represas, parecia haver, destacada dos recursos obtidos através de financiamento da CEF, a quantia de R$ 2.100.000,00 para a sua construção. E como se percebe pela análise das demandas e preços enfrentados por aquele tal Franquinho, com esse dinheiro seria possível construir 9 represas, mesmo que as empreiteiras aumentassem, por conta de fatores só conhecidos dos deuses, o preço unitário de R$ 197.416,67 para R$ 233.333,33. Nesse caso, o lucro de sonho de qualquer capitalista (50% sobre o custo operacional) se tornaria ainda maior e mais atrativo.

Entretanto, foram construidas apenas 3 represas, ao custo de R$ 700.000,00 cada uma. Mas o leitor argumentará: “Decerto eles revestiram as paredes da represa com mármore de Carrara”. Bom, como vocês podem ver nas fotos abaixo, não existem tais revestimentos. Embora bem construídas (tendo já enfrentado, garbosamente, várias enchentes, desde a sua inauguração no ano eleitoral de 2008), essas represas se apresentam compostas por cimento, areia, brita e barras de ferro (e parte da água que deu liga ao concreto).

Nós, eleitores (os verdadeiros pagantes dessas generosidades dos “administradores” públicos), para contrapor ao sonho capitalista dos 50%-sobre-o-custo-operacional, temos o sonho de ver os diversos Tribunais de Contas, criados para investigar a lisura dos gastos públicos, examinarem casos como este, comparando os gastos públicos com os gastos privados em projetos equivalentes. Aí os revestimentos de mármore de Carrara (ou coisas moralmente equivalentes) teriam de aparecer. Mas parece que os citados tribunais se limitam a verificar se por acaso a Prefeitura tal não cometeu desperdícios maiores do que Prefeituras equivalentes de outros pontos do Brasil. Isto lembra a cobrança de falta em jogo de futebol: se um jogador da barreira se adianta um passo, o juiz indignado pára o jogo e manda-o voltar à posição anterior; mas se cada jogador da barreira vai avançando, centímetro a centímetro, o juiz pode alegar, fingindo sã consciência, que “não percebeu” a movimentação dos espertinhos…

Uma das Represas

Mostramos abaixo vista geral e detalhes da primeira das 3 represas construidas no Córrego Sóter. Ela fica bem próximo ao Parque Sóter. A régua que aparece em algumas fotos mede 20 centímetros.

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