Capítulo 6

PLANOS PARA PEGAR OS DIAMANTES 

TOM E EU SEGUIMOS Jim e Lem, até chegarmos nos fundos do quintal do Tio Silas. Ali havia uma passagem junto à cerca, e quando chegamos os cachorros se aproximaram de nós, nos reconheceram e fizeram muitas festas. Eu já ia passar para o outro lado, quando Tom disse:

– Fique aqui! Espere um minuto!

– Qual é o problema? – perguntei.

TOM – Você, Huck, decerto acha que nós seremos os primeiros a contar à família sobre o assassinato no bosque, sobre os idiotas que fizeram isso, e sobre os diamantes que eles surrupiaram do cadáver. E você espera que a gente enfeite bastante a história, para que todos fiquem impressionados com os nossos conhecimentos, não é?

HUCK – É claro que sim! Você não seria Tom Sawyer se deixasse passar uma chance dessas!

TOM – Bom! – disse ele, perfeitamente calmo. – E o que você diria, Huck, se eu garantisse que não vamos contar nenhuma história?

HUCK – Eu diria que você está brincando!

TOM – Huck, você logo vai compreender. O fantasma tinha os pés descalços?

HUCK – Não, ele não tinha. Mas porque pergunta?

TOM – O fantasma andava com as botas dele?

HUCK – Sim, eu vi isto perfeitamente.

TOM – Tem certeza?

HUCK – Sim, tenho certeza que vi.

TOM – Eu também tenho certeza. E você sabe o que isto significa ?

HUCK – Não. O que significa?

TOM – Significa que aqueles ladrões não estão com os diamantes!

HUCK – Caramba! Mas o que te fez pensar assim?

TOM – Eu não apenas penso; eu tenho certeza. Não é verdade que as calças, o bigode, os óculos, a mochila e todas as coisas pertencentes a Jake se tornaram fantasmas? Ora, se as botas também se tornaram fantasmas, é porque Jake estava com elas quando virou assombração!…

Fiquei de boca aberta. Eu nunca vi uma cabeça tão boa como a de Tom Sawyer! Porque eu tenho olhos e posso ver coisas, mas essas coisas não significam nada para mim. Mas com Tom Sawyer é diferente. Quando ele vê uma coisa, essa coisa se levanta nos calcanhares e fala com ele – e conta tudinho o que Tom quer saber!…

– Mas porque eles não levaram os diamantes? – perguntei. – Você tem alguma idéia?

TOM – Porque quando iam tirar as botas do cadáver de Jake, surgiram aqueles outros dois homens e os fizeram fugir.

HUCK – É mesmo! Deve ter acontecido isto! Mas porque, Tom, a gente não pode contar logo todos esses acontecimentos?!

TOM – Que droga, Huck! Você não vê? Pense bem. O que vai acontecer quando o dia clarear ? Vai acontecer um inquérito. Aí o juiz vai chamar as testemunhas, e os dois homens vão dizer que ouviram gritos de socorro quando passavam pela estrada. Depois vão esclarecer que não chegaram a tempo de evitar o assassinato do homem desconhecido. Então o júri vai enrolar, enrolar, enrolar, e vai concluir que o estranho foi morto por um tiro ou uma paulada, ou que alguma coisa atingiu sua cabeça e que ele morreu porque estava na sua hora de morrer. E então o defunto será enterrado, e certamente vão leiloar seus pertences para cobrir os custos do enterro. E é aí que teremos a nossa chance.

HUCK – Como, Tom?

TOM – Nós compraremos as botas por dois dólares!

HUCK – Minha Nossa! Aí nós pegaremos os diamantes!

TOM – Você pode apostar. E algum dia a joalheria de Saint Louis irá oferecer uma grande recompensa para quem recuperar os diamantes; uns mil dólares, por exemplo. E esse dinheiro será nosso! Mas agora vamos andar e ver o pessoal. E faça de conta que nós não sabemos nada sobre nenhum assassinato, sobre nenhum diamante, sobre nenhum ladrão. Fique de bico calado!

Eu não entendi porque Tom Sawyer complicava tanto as coisas. Por mim a gente pegava os diamantes e os vendia por doze mil dólares. Mas eu mudei de assunto:

– Tom, como nós vamos explicar à Tia Sally porque demoramos tanto para vir do rio até aqui?

– Ora, Huck! Vou deixar isto por tua conta – respondeu ele. – Eu calculo que você pode explicar isto de algum modo…

Tom Sawyer era sempre assim, muito correto: era incapaz de contar uma mentira por si mesmo.

Então nós passamos pela cerca e logo entramos na casa.

Tia Sally andava nervosamente de um lado para o outro da sala, enquanto as crianças se agrupavam num canto e o Tio Silas rezava no outro. Quando nos viu ela correu para nós, rindo e chorando ao mesmo tempo. A boa velha ora nos beijava, ora simulava bater em nossas orelhas.

– Por que vocês demoraram tanto, seus inúteis? Faz horas que o barco atracou, e eu fiquei esperando, agoniada, sem saber o que fazer! Eu esquentei a comida quatro vezes, para que ela estivesse apetitosa quando vocês chegassem! Vocês merecem que eu lhes arranque o couro! Mas venham cá, pobres coisinhas! Vocês devem estar mortos de fome! Sentem, sentem, não vamos perder mais tempo!

Era muito bom estar de novo à frente daquela comida gostosa de Tia Sally. E enquanto Tio Silas fazia uma interminável oração de agradecimento, eu pensava no que ia falar sobre o nosso atraso. Quando começamos a comer, ela tocou no assunto e eu comecei a dizer:

– Bom, você sabe, err, a senhora sabe…

TIA – Huck Finn! Desde quando eu sou “senhora” para você?! Será que alguma vez eu poupei tapas e beijos para você, desde aquele dia em que você apareceu nesta sala, e eu o tomei pelo Tom Sawyer, e agradeci a Deus por me havê-lo enviado, apesar das quatro mil mentiras que você me contou e em que eu acreditei como uma tola? Me chame de Tia Sally, como você sempre fez.

Então eu pude continuar. E disse :

– Bom, eu e o Tom resolvemos vir andando devagar, sentindo o cheiro do mato. E nós encontramos Lem Beebe e Jim Lane, e eles nos convidaram para catar amoras à noite, e disseram que poderiam pedir ao Júpiter Dunlap que emprestasse o seu cachorro, porque o Júpiter lhes tinha dito há pouco que …

– Onde eles viram o Júpiter?! – perguntou Tio Silas, subitamente interessado.

A reação do velho, que de repente ficou muito ansioso e com os olhos lançando chispas, me deixou muito perturbado. Mas logo me recuperei e respondi:

– Foi quando o Júpiter estava na plantação de fumo com o senhor, hoje ao entardecer…

Tio Silas pareceu desapontado com a resposta, resmungou qualquer coisa e não mais se interessou pela minha conversa. Eu continuei explicando:

– Bom, como eu estava dizendo…

Foi então que Tia Sally interveio, cheia de raiva :

– Não precisa continuar! Huck Finn, desde quando há amoras para colher, num mês de setembro?!

Eu vi que tinha pisado na bola. E a Tia Sally continuou:

– E além disso, como esses homens tiveram a estúpida idéia de colher amoras à noite?!

HUCK – Bom, eu … quer dizer … eles disseram que tinham uma lanterna , e …

TIA – Oh, cala a boca, Huck Finn! E o que eles iriam fazer com um cachorro? Caçar amoras com ele?!

HUCK – Hum… eu penso que…

Tom Sawyer, nessa altura, parecia muito perturbado com o rumo das coisas. E resolveu intervir:

TOM – Tia Sally, é uma pena que o Huck tenha cometido um pequeno engano ao contar a história…

TIA – E que engano foi esse?

TOM – É que o Huck disse amoras, quando deveria ter dito morangos.

TIA – Tom Sawyer, se você me irritar mais um pouco, eu…

TOM – Tia Sally, mesmo sem querer, a senhora está errada! Se a senhora tivesse estudado Ciências, saberia que em todos os lugares do mundo sempre se caça morangos com um cachorro – e uma lanterna…

Aí Tia Sally ficou uma fera. No início não conseguia nem falar direito, de tão furiosa com a palhaçada dos meninos. Mas era exatamente isto o que Tom Sawyer queria. Quando ela começou a se acalmar, Tom resolveu abrir a boca de novo:

TOM – E mesmo assim, Tia Sally…

TIA – Cala a boca! – trovejou ela. – Eu não quero ouvir nem mais uma palavra de vocês dois!…

E assim, graças à habilidade de Tom, não mais tivemos que nos preocupar com explicações sobre a demora.

 

2 Respostas to “Capítulo 6”

  1. Mr.Red Says:

    parece que isto que você escreve ( parece um resumo ),e o resumo ( parece o resumo do que você escreve ),,,,,se voce quer um codenome que tal ( Mr.Blue )!!!

    Como voce sabe de seu amigo ( Mr.Red )
    _____
    do blog:
    Não entendi. Isto é linguagem cifrada?

  2. Mr.Red Says:

    como disse anteriormente , voce resumiu isto acima ?
    _____
    resposta do blog:
    Mr. Red: isto não é um resumo; é a tradução de um capítulo original da obra “Tom Sawyer, Detective”, de Mark Twain.

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