Capítulo 5

TRAGÉDIA NO BOSQUE

 NESSA PARADA houve muita demora no conserto das máquinas. Porisso o barco só desatracou bem depois do meio dia, e nos deixou próximo à fazenda do tio Silas quando já era quase o pôr-do-sol. Assim, Tom e eu resolvemos parar no bosque de sicômoros antes de chegar ao nosso destino. Queríamos avisar Jake sobre o atraso do barco, e que ele devia esperar ali até que fôssemos à fazenda de Brace para ver como estavam as coisas por lá.

Estava ficando escuro quando chegamos a uma curva do caminho, já suados e ofegantes. Vimos o bosque de sicômoros, uns trinta metros à frente. E vimos também dois homens correndo para as árvores. Em seguida ouvimos dois ou três terríveis gritos de socorro, e depois o silêncio. Estávamos gelados de medo. “Pobre Jake!” – pensamos – “Decerto o mataram.” Então entramos na plantação de fumo, para nos esconder. Nem bem havíamos nos abaixado, e mais dois homens passaram correndo pela estrada, logo desaparecendo no bosque. Pouco depois ressurgiram do bosque dois daqueles homens, e logo atrás os outros dois em sua perseguição.

Nós continuamos abaixados, com as pernas bambas, procurando ouvir algum som vindo do bosque. Mas não ouvimos mais nada, a não ser as batidas dos nossos corações . . .  A lua começou a aparecer no horizonte, grande, redonda e brilhante. Agora a noite estava dividida entre zonas de sombra e zonas iluminadas pela lua. De repente, Tom sussurrou para mim :

– Olhe! O que é aquilo?!

HUCK – Não me mate de susto, Tom. Não quero ver mais nada! . . .

TOM – Olhe, Huck! – insistiu ele. – Tem alguma coisa saindo do bosque!

HUCK – Não quero ver, Tom!

TOM – E é bem alta!

HUCK – Oh, Deus, Deus! . . .

TOM – E está vindo para cá!

Então eu tive de olhar. E vi que um vulto vinha em nossa direção, esgueirando-se pelas sombras das árvores. Quando chegou mais perto, não havia mais sombras que pudessem escondê-lo, e então o clarão da lua o iluminou.

– O fantasma de Jake Dunlap! – falamos baixinho.

Nós ficamos paralisados pelo medo, vendo o fantasma passar por nós e se afastar rapidamente na outra direção. Mas quando nos acalmamos, Tom Sawyer comentou :

– Geralmente os fantasmas são esfumaçados, e a gente não distingue bem os seus traços. Mas esse que nós vimos era bem diferente . . .

HUCK – Pois eu vi direitinho o bigode e as costeletas dele!

TOM – E você percebeu se o cabelo era o mesmo de Jake Dunlap?

HUCK – Bom, primeiro me pareceu que era o mesmo, mas depois não tive certeza.

TOM – Eu também não vi muito bem. Mas eu notei que ele levava a mochila dele . . .

HUCK – Mas como pode haver uma mochila-fantasma?!

TOM – Ora, Huck! Não seja ignorante! Tudo o que um fantasma tem, se torna uma coisa-fantasma. Os fantasmas precisam ter suas coisas, tal como uma pessoa qualquer!

Isto me pareceu razoável; eu não pude descobrir nenhuma falha no argumento do Tom.

Então apareceram na estrada duas pessoas nossas conhecidas, Bill Withers e seu irmão Jack. Jack Withers dizia:

JACK – O que você acha que ele estava carregando?

BILL – Eu não sei, mas parecia bem pesado.

JACK – Deve ser saco de milho furtado do velho Silas.

BILL – Eu também acho. Mas não direi a ninguém o que vi.

JACK – Nem eu.

Então eles riram e se distanciaram de nós. Isto mostrou como Tio Silas tinha se tornado impopular, pois os irmãos certamente denunciariam se achassem que o milho roubado era de qualquer outra pessoa . . .

Nós ouvimos outras vozes, a princípio indistintas, mas depois mais altas e claras. Às vezes havia risadas. Vimos que eram Lem Beebe e Jim Lane. Jim dizia:

JIM – Quem? Júpiter Dunlap?

LEM – Sim.

JIM – Oh, eu não sei. Eu penso que sim. Faz apenas uma hora que eu o vi na plantação com o pastor. Disse que não aceitaria qualquer convite para esta noite; e que se alguém o procurasse, ele soltaria os cachorros.

LEM – Ele estava muito cansado, eu imagino.

JIM – Sim. Ele trabalha pesado.

LEM – Oh, você pode apostar!

Eles deram gargalhadas e se afastaram. Tom achou melhor a gente sair dali e seguir os dois homens. É que eles iam pelo caminho que nós devíamos seguir, e não seria conveniente, para nós, andarmos sozinhos, enfrentando fantasmas. E assim seguimos para a casa do Tio Silas.

Era dois de setembro, um sábado, e eu nunca mais esqueceria essa noite. Vocês verão porque, logo logo.

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Uma resposta to “Capítulo 5”

  1. Eu Says:

    Coitado do Jake Dunlap!

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