Capítulo 4

OS DIAMANTES MUDAM DE PÉS 

 JAKE RETOMOU A NARRATIVA:

– Durante todo o dia nós três fingimos vigiar uns aos outros, como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Quando anoiteceu novamente, o barco atracou junto a uma cidadezinha. Nós jantamos na taverna do lugar, e em seguida pegamos um quarto no andar de cima. Nós levamos algumas garrafas de uísque e começamos a beber e a jogar cartas; e tão logo o álcool começou a fazer efeito, eu e Hal paramos de beber, continuando porém a servir uísque ao Bud. E ele bebeu tanto que, uma hora, caiu num sono pesado, despencou da cadeira e ficou no assoalho, roncando.

JAKE – Eu disse a Hal que era melhor tirarmos as nossas botas, para não fazermos barulho enquanto revistássemos Bud. Hal concordou. Quando tiramos também as botas de Bud e examinamos o seu interior, eu as coloquei ao lado das minhas. Então nós tiramos as roupas do bêbado, revistando cuidadosamente os bolsos, as costuras e o interior das meias. Não apareceu nenhum diamante, mas apenas a pequena chave-de-fenda. “O que você acha que ele queria fazer com isto?” perguntou Hal. Eu respondi que não sabia, mas, quando ele não estava olhando, enfiei a pequena ferramenta em meu bolso.

JAKE – Depois que a busca terminou, Hal parecia muito desanimado. Então eu disse a ele : “Há um lugar onde ainda não procuramos . . .”. Ele perguntou que lugar era esse, e eu respondi : “O estômago dele! . . .”. Hal achou que Bud poderia mesmo ter engolido os diamantes. E quis saber como faríamos para recuperá-los. Eu expliquei : “Fique aqui tomando conta dele. Vou procurar uma farmácia e comprar um purgante para o Bud. Assim ele vai botar tudo o que comeu para fora, inclusive as pedras . . .” E enquanto Hal olhava fixamente para mim, querendo desconfiar de alguma coisa, mas sem saber o que, eu calcei as botas do Bud em lugar das minhas e saí do quarto. Sorte que as botas eram grandes e, se não eram confortáveis, pelo menos não me machucavam os pés . . .

JAKE – Um minuto depois eu havia saído da taverna e já estava caminhando apressadamente pela estrada que margeava o rio. E não me sentia nada infeliz pisando em duas pedras de diamante . . . Quinze minutos depois, eu disse pra mim mesmo : “Já estou dois quilômetros longe da taverna, e tudo ainda está quieto!”. Mais cinco minutos, e eu pensei : “Agora já estou um pouco mais longe, e lá na taverna o Hal já deve estar preocupado com a minha demora . . .”. Outros cinco minutos : “Ele deve estar muito inquieto, caminhando de um lado para o outro do quarto . . .”. Ainda outros cinco minutos: “ Agora já estou a quase quatro quilômetros da taberna, e o Hal deve estar amaldiçoando minha demora . . .”. Mais um pouco e minha caminhada completou quarenta minutos: “Ele desconfia que alguma coisa está errada! . . .”. Cinquenta minutos: “Agora ele tem certeza. Ele está calculando que eu achei os diamantes enquanto revistávamos Bud, e que eu os guardei disfarçadamente no meu bolso. E já deve estar fora da taverna, procurando pegadas na areia, para ver que caminho eu tomei . . .”.

JAKE – Lá pelas três horas da madrugada eu cheguei a Alexandria e vi este barco atracado no cais. Subi a bordo e tomei esta cabina. A primeira coisa que fiz foi pegar a chave-de-fenda, desaparafusar as chapinhas dos saltos das botas e retirar os dois diamantes. Depois de admirá-los por algum tempo, devolvi-os aos seus esconderijos e fiquei à espera de que o barco saísse. Mas o tempo passava e o barco não saía. Na hora do desjejum, ao amanhecer, um novo passageiro subiu a bordo. De longe parecia ser o Hal Clayton! Foi porisso que eu não saí mais da cabina. E pensar que agora o outro também está a bordo! . . .

Tom e eu procuramos acalmá-lo, prometendo que o ajudaríamos a fugir. Depois dessa conversa o barco parou duas vezes para consertos na maquinaria, a última delas à noite. Mas não estava escuro o suficiente, e Jake teve medo de pular para a terra.

Horas depois o barco atracou novamente, desta vez junto a um bosque, a uns sessenta quilômetros da fazenda do tio Silas. Nuvens pesadas escureciam ainda mais a noite, e uma tempestade se aproximava. Jake achou que poderia tentar a fuga. Lá fora, vários carregadores iam até o bosque e de lá voltavam trazendo lenha para o barco. Logo começou a cair uma chuva pesada, com fortes rajadas de vento. Tom e eu conseguimos obter um saco de tecido grosseiro, igual aos que os carregadores colocavam sobre a cabeça e as costas, como proteção. Jake colocou o saco e se juntou aos carregadores que voltavam ao bosque, sem despertar suspeita.

Mas a nossa alegria não durou mais do que dez minutos. Alguém deve ter denunciado a fuga do Jake, porque vislumbramos, na escuridão, dois homens que saíam do barco em desabalada carreira. E não eram carregadores . . .

A nossa esperança era que Jake conseguisse despistar seus perseguidores. Havíamos combinado encontrar-nos com Jake no pôr-do-sol do dia seguinte, num bosque de sicômoros junto à plantação de fumo do tio Silas. Lá o informaríamos se o caminho estava livre para ele se encontrar com seus irmãos Brace e Júpiter. Mas se os dois homens o alcançassem, provavelmente o matariam e depois lhe tirariam as botas . . .

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: