Capítulo 3

UM FURTO DE DIAMANTES

 DAQUELE DIA EM DIANTE, Tom e eu estávamos com Jake quase todo o tempo. Uma vez ele pediu que a gente descrevesse os passageiros comuns, que não viajavam nas cabinas. E quando nós contamos, ele pediu mais detalhes. Mas quando Tom caprichou na descrição de um passageiro vestido com roupas velhas, Jake novamente pareceu apavorado, e balbuciou:

– Oh, Deus, é um dos meus perseguidores! Então eles estão mesmo no barco!…

E quando Tom descreveu minuciosamente as roupas de outro passageiro, Jake ficou ainda mais trêmulo, e gaguejou:

– É ele! É o outro!

E começou a caminhar, muito nervoso, de um lado para o outro da apertada cabina. E pouco depois começou a desabafar, explicando porque estava sendo perseguido:

JAKE – Eu e esses dois homens aplicamos um golpe numa joalheria de Saint Louis. Nós estávamos de olho num belíssimo par de diamantes, que todos queriam ver. Então, reentramos na cidade em grande estilo, muito bem vestidos. Do hotel onde ficamos, conseguimos que a joalheria nos enviasse, por um funcionário, as referidas pedras, para que as pudéssemos examinar. Já tinhamos conosco duas pedras falsas, mas muito parecidas com os diamantes. Assim, e de acordo com o nosso plano, fingimos examinar os diamantes e depois comunicamos ao funcionário que não os iríamos comprar, pois certamente não valiam os doze mil dólares pedidos…

TOM – Doze mil dólares?! – admirou-se Tom.

JAKE – Exatamente doze mil dólares. E os diamantes de fato valiam tudo isto. Mas fingimos desdenhar da mercadoria, e devolvemos a maleta ao funcionário. Mas junto com a maleta foram as duas pedras falsas; os dois diamantes, ficaram conosco…

TOM – E o funcionário da joalheria não percebeu a troca?

JAKE – Ele não percebeu nada, porque nós fomos muito habilidosos. E acho que até mesmo o proprietário da joalheria demorou algumas horas, ou mesmo um dia, até descobrir o logro.

– E então vocês fugiram da cidade? – perguntei ingenuamente.

JAKE – É claro! Nós trocamos nossas roupas finas por roupas simples, que não chamassem a atenção, deixamos o hotel e tomamos um barco que seguia para o norte.

Após uma pausa, Jake continuou narrando a sua aventura:

– Vocês vêem, o problema era que a gente não podia dividir dois diamantes por três pessoas. Então eu pensei comigo mesmo: “ Eu vou pegar esses diamantes na primeira oportunidade que tiver, e vou sumir no mundo!”. Mas os meus parceiros estavam com as mesmas intenções; cada um pensava enganar os outros dois.

– O quê? – revoltou-se Tom Sawyer – Só um levar tudo, quando o trabalho foi realizado pelos três?

JAKE – Naturalmente!

TOM – Mas isto é uma grande sacanagem!

Então Jake explicou que entre os ladrões isso era uma coisa normal. Disse que quando um sujeito estava nesse tipo de negócio procurava sempre pensar apenas em si mesmo. E continuou:

JAKE – Cada um de nós desconfiava dos outros dois. E o pior é que já antes do roubo nós três vivíamos nos desentendendo! Pois bem, depois do jantar nós três ficamos andando pelo tombadilho do barco, fumando nervosamente, até quase meia-noite. Finalmente nós fomos até a nossa cabina e trancamos a porta. Em seguida Bud Dixon tirou um embrulho do bolso e o abriu para nos mostrar que os diamantes ainda estavam lá. E voltou a fechar o embrulho, colocando-o no chão, ao lado da cama, num local bem visível para todos. E então nós ficamos ali, parados e sem dizer nada; mas a cada momento era mais difícil permanecer com os olhos abertos. Até que o Bud dormiu. Pouco depois, percebendo que ele estava realmente num sono profundo, Hal Clayton fez um sinal para mim, indicando o embrulho no chão. Eu me abaixei lentamente e peguei cuidadosamente o embrulho. Hal e eu nos levantamos e ficamos algum tempo muito quietos, olhando para Bud Dixon. Então virei a chave da porta, bem devagar, para não fazer barulho. E depois saímos, pé ante pé, e fechamos a porta bem devagar.

– Ufe! Que sufoco! – comentou Tom Sawyer. E Jake continuou:

– Lá fora não havia ninguém à vista, e o barco ia deslizando rápido e firme pela grande água, sob a esbranquiçada luz da lua. Hal Clayton e eu não dissemos uma só palavra, mas fomos direto ao piso superior do barco. Nós dois sabíamos que isto significava preparação para luta. Com efeito, Bud Dixon poderia acordar a qualquer momento e, ao notar a nossa ausência e o sumiço do embrulho, certamente viria como um louco atrás de nós, pronto para nos atacar. O nosso plano era atirá-lo por cima da amurada, para fora da embarcação, ou morrer tentando. Isto me fez tremer, pois não sou um cara corajoso. Eu tive a esperança de que o barco de repente encalhasse em algum lugar próximo da margem, dando chance a que eu e Clayton saltássemos para a terra com os diamantes. Mas logo vi que isto não aconteceria, pois o barco era perfeitamente adaptado às águas rasas do alto Mississipi.

JAKE – Bom, o tempo foi passando, e o cara não aparecia. O dia amanheceu, e nada do Bud Dixon aparecer. “ Isto é muito estranho, você não acha? ” – perguntei a Clayton. Ele retrucou : “ Você acha que o Bud nos pregou uma peça ? Abra o embrulho!”. Eu abri, e lá dentro não havia nada além de uma pequena bala doce ! Certamente Bud tinha preparado outro embrulho igual ao dos diamantes, e na cabina havia trocado um pelo outro sem que eu e Clayton percebêssemos…

JAKE – Ficamos arrasados, mas logo decidimos que o melhor a fazer era voltar à cabina, devolver o embrulho ao seu lugar e fingir que não havíamos descoberto o truque do Bud. Combinamos também que, depois de desembarcarmos, nós o faríamos ficar bêbado, depois o revistaríamos e pegaríamos os diamantes. Então, como havia tirado minhas botas para descansar os pés, peguei-as para calçá-las de novo. Mas por um acaso meus olhos se fixaram no salto de uma das botas, onde havia, como reforço, uma chapinha de ferro aparafusada. Isto me fez lembrar que eu vira, ainda em Saint Louis, uma pequena chave-de-fenda entre as coisas do Bud. Naquela ocasião eu tinha me perguntado que utilidade teria uma chave-de-fenda para o meu colega, mas logo esqueci do fato. Pois agora, ao calçar as botas, me veio a idéia de que a pequena chave serviria perfeitamente para desaparafusar a chapinha do salto! E a idéia seguinte foi esta: “ Talvez ele tenha escondido os diamantes em pequenos buracos abertos sob as chapinhas! ”.

– Caramba! – admirou-se Tom Sawyer.

– Bom – prosseguiu Jake – Eu calcei minhas botas e voltei com o Clayton para a cabina. Lá nós colocamos o embrulho no seu lugar, e ficamos algum tempo observando e ouvindo os roncos do Bud Dixon. Clayton logo dormiu, mas eu havia perdido o sono. Sem fazer movimentos bruscos, comecei a observar cada ponto da cabina, à procura de pequenas lascas de couro. Depois de muito tempo, quando eu já estava a ponto de desistir, achei uma rodelinha de couro bem junto à parede. Ela era do tamanho da ponta do dedo minguinho. E eu falei para o pedacinho de couro : “Deve ter um diamante no lugar de onde você saiu!”. Pouco depois, eu achei a outra rodelinha de couro, tirada do outro pé da bota para dar lugar ao segundo diamante. Pensem na frieza e na esperteza daquele sujeito! Ele adivinhou o que Hal e eu faríamos! Previu que nós levaríamos o embrulho e ficaríamos no alto do barco horas e horas esperando por ele, e que assim ele teria tempo de sobra para desaparafusar as chapinhas, cortar as rodelinhas de couro, colocar em cada buraco um diamante, e tornar a aparafusar as peças de metal… Eu acho que ele foi muito esperto!

– Você pode apostar sua vida que ele foi! – garantiu o Tom.

Uma resposta to “Capítulo 3”

  1. Eu Says:

    esse livro é muito bom.eu to lendi nesse sirte pela segunda vez.

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