Capítulo 12

TOM SAWYER SOLUCIONA O CASO

NESSE MOMENTO O TOM fez um movimento estranho, como se houvesse descoberto, afinal, alguma coisa importante. Mas o pastor Silas continuava a falar:

Pois naquele momento, como eu já disse a vocês, eu esqueci o meu Deus, e lembrei apenas da amargura do meu coração. E eu bati para matar. Mas um segundo depois eu já estava miseravelmente arrependido e cheio de remorsos. Mas eu pensei em minha família, e por ela eu devia esconder o que havia feito. E então eu arrastei aquele cadáver para debaixo de um arbusto, e mais tarde o levei para a plantação de fumo. Ainda naquela noite, bem tarde, eu lá voltei com minha pá e o enterrei onde . . .

Nesse momento, Tom deu um salto e gritou:

Agora eu descobri!

A seguir, com as mãos fez um gesto para o Tio Silas, e disse com autoridade:

TOM – Sente-se! Houve um assassinato, mas o senhor não tem nada a ver com esse crime!

Bom, nesse momento, no tribunal, se poderia ouvir o ruído de um pingo d’água, tal o silêncio que se fez. O velho homem obedeceu a ordem e sentou-se, desorientado. E todos estavam de boca aberta, estupefatos com a espetacular intervenção do garoto. Eu nunca vi, na minha vida, pessoas tão atarantadas, sem saber o que pensar ou o que fazer. E nunca vi olhos tão arregalados de espanto, e sem piscar, como os das pessoas presentes. Mas Tom Sawyer, perfeitamente calmo, perguntou ao juiz:

Meritíssimo, posso falar?

E o juiz respondeu, sem saber ao certo do que se tratava:

Pelo amor de Deus! Sim, vá em frente!

Então Tom Sawyer aplumou-se, esperou um segundo ou dois (isto sem dúvida para causar um “efeito”, como ele costumava dizer), e começou, com a maior calma do mundo:

Já faz duas semanas que se encontra afixado um pequeno aviso na porta deste tribunal, oferecendo um prêmio de dois mil dólares por um par de diamantes roubados em Saint Louis, Missouri. Esses diamantes valem doze mil dólares. Mas não se preocupem com isto por enquanto. Agora o nosso assunto é o assassinato. Eu vou contar a vocês tudo sobre esse crime: como ocorreu, quem o executou, enfim, todos os detalhes.

Agora todos estavam bem acomodados em seus lugares, muito curiosos para ouvirem o que Tom iria dizer. E Tom continuou:

Este homem aqui presente, Brace Dunlap, que esteve chorando por um irmão pelo qual ele nunca levantou nem uma palha, queria se casar com aquela jovem senhorita ali, mas ela não o queria. Então ele disse ao Tio Silas que o faria arrepender-se dessa desfeita. Tio Silas sabia quão poderoso esse homem era, e porisso estava preocupado e assustado, e fez tudo o que pôde para apaziguá-lo. Chegou até a contratar o inútil Júpiter, tirando de sua própria família para pagar-lhe um salário. Mas Júpiter, obedecendo ao seu irmão Brace, fazia tudo para irritar o Tio Silas. E os dois irmãos conseguiram, através de intrigas, indispor todos os vizinhos contra o pastor. Assim, Tio Silas vivia amargurado, ficando às vezes extremamente irritado, quase fora de si.

TOM – Bom, naquele sábado, 2 de setembro, na hora do entardecer, duas das testemunhas presentes, Lem Beebe e Jim Lane, passaram próximo ao local onde Tio Silas e Júpiter trabalhavam, e uma parte do que eles disseram é verdade; o restante, mentiras. Eles não ouviram Tio Silas dizer que mataria o Júpiter; eles não ouviram nenhuma pancada; eles não viram nenhum homem morto; e eles não viram Tio Silas esconder ninguém nos arbustos. Olhem para eles agora; vejam como eles estão arrependidos de terem falado mais do que sabiam!

TOM – Naquele mesmo sábado, ao entardecer, Bill e Jack Withers viram um homem carregando outro, como fardo, às costas. Mas eles interpretaram a cena como a de um homem carregando um saco de milho recém roubado da fazenda do Tio Silas. Vejam como essas duas testemunhas estão agora com cara de bobo, porque já perceberam que alguém ouviu a conversa deles naquela noite. E naquela noite eles não reconheceram o Tio Silas; mas disseram essa mentira deliberadamente, mesmo depois de haverem jurado dizer a verdade.

TOM – Devido à claridade da Lua, um homem viu uma pessoa assassinada sendo enterrada na plantação de fumo. Mas não era Tio Silas a pessoa que estava enterrando o morto. O pastor, nessa hora, estava em sua cama.

TOM – Mas, antes de continuar, eu pergunto: vocês já notaram que geralmente as pessoas, quando preocupadas ou pensativas, quase sempre estão fazendo algo com as mãos? E que elas não têm consciência do que as suas mãos estão fazendo? Algumas pessoas afagam o queixo, outras coçam o nariz, outras ainda brincam com um botão da roupa. E há também aquelas que com o dedo desenham uma figura ou uma letra em sua bochecha, ou abaixo do queixo, ou abaixo dos lábios. Este último é o meu modo. Quando estou preocupado ou pensativo, eu desenho um “V” maiúsculo abaixo dos meus lábios, ou abaixo do queixo, ou em minha bochecha. E é sempre um “V”. E na maior parte das vezes eu não noto o que estou fazendo.

Tom Sawyer estava certo, porque eu também faço assim. Só que eu sempre desenho um “O”. E à minha volta, na sala, vi várias pessoas olhando umas para as outras e balançando a cabeça, como que dizendo: “É assim mesmo que acontece!”.

TOM – Agora eu posso continuar. Naquele mesmo sábado… não, foi no dia anterior, sexta-feira. Nesse dia, à noite, um barco atracou próximo à localidade de Flager, uns sessenta quilômetros rio acima. Havia um ladrão a bordo, e ele estava com os dois diamantes descritos no cartaz pregado aí do lado de fora. E ele, aproveitando a escuridão e o mau tempo (chovia, ventava e relampejava muito), escapou do barco com a sua mochila, desaparecendo entre as árvores. Ele queria chegar aqui neste lugar, sem que os dois homens que ele enganara, e que agora o perseguiam, descobrissem o seu rastro. Ele sabia que esses dois homens, se o pegassem, certamente o matariam para pegar os diamantes.

TOM – Bom, não haviam decorrido nem dez minutos, e os dois homens descobriram a sua ausência do barco. Então, correram apressadamente para a terra. Provavelmente eles queimaram muitos fósforos, até conseguirem achar as pegadas daquele fugitivo. De qualquer modo, eles o seguiram de longe durante todo o dia de sábado, sem que fossem percebidos. Ao entardecer, o fugitivo foi para o bosque de sicômoros, próximo à plantação de fumo do Tio Silas, para colocar alguns disfarces antes de se apresentar aqui no lugarejo. Vocês tenham em mente que a chegada do fugitivo ao bosque aconteceu pouco depois do momento em que o Tio Silas acertava uma cacetada na cabeça do Júpiter. Porque o pastor de fato feriu o irmão de Brace Dunlap.

TOM – Um minuto depois os dois perseguidores entraram também no bosque, seguindo o fugitivo. E logo cairam sobre ele, e o mataram a porretadas.

TOM – Sim, porque pelos gritos que o infeliz deu, os dois homens não tiveram nenhuma piedade, batendo mesmo para matar. E então, dois outros homens, que passavam pela estrada, ouviram os gritos de socorro e correram para acudir. Os assassinos, pegos de surpresa, trataram de fugir do bosque, e foram perseguidos durante algum tempo. Os homens que haviam acudido aos gritos, porém, voltaram depois para o bosque de sicômoros. Então, o que esses dois homens fizeram? Eu vou explicar tudinho para vocês. Eles revistaram a mochila do assassinado, e quando viram os disfarces, tiveram uma idéia. Assim, um deles colocou em si os disfarces que o morto pretendia utilizar.

Tom Sawyer esperou um pouco, para tomar fôlego e para aumentar o “efeito” de sua narrativa sobre o tribunal. E então prosseguiu:

O homem que colocou em si os disfarces do morto foi… Júpiter Dunlap!

Caramba! gritaram todos. E o Tio Silas estava ainda mais embasbacado que os outros.

TOM – Sim, era Júpiter Dunlap. E não estava morto, como vocês podem deduzir. E então Júpiter vestiu as roupas do morto, e nele colocou as suas; e calçou as botas novas do morto, e nos pés deste colocou as suas, que estavam bem velhas e puídas. E então Júpiter ficou no bosque, enquanto o outro homem carregava o cadáver em seu ombro, dirigindo-se à plantação de fumo do Tio Silas. E depois da meia-noite esse outro homem dirigiu-se ao alpendre da casa do Tio Silas, pegou o velho avental verde que ali estava pendurado, pegou uma pá de cabo longo e voltou à plantação de fumo para enterrar o cadáver.

Tom parou por meio minuto. E então perguntou:

E quem vocês acham que era o homem assassinado? Pois era Jake Dunlap, o gêmeo-ladrão desaparecido há muitos anos!

Caramba! gritaram todos.

TOM – E o homem que o enterrou era Brace Dunlap, seu próprio irmão!

Caramba!

TOM – E adivinhem quem é o idiota que durante todas estas semanas fingiu ser um surdo-mudo e um estranho? Ele é de fato o Júpiter Dunlap!

Foi incrível! Todos romperam a soltar exclamações de todo o tipo, numa tremenda algaravia. Tom Sawyer deu um salto na direção do surdo-mudo, e arrancou os seus óculos escuros e o seu falso bigode. E com isto, lá estava, bem vivo, o homem que todos julgavam assassinado! E Benny e Tia Sally abraçaram Tio Silas, e o beijaram, e choraram de alegria, e tornaram a abraçá-lo. O pobre velho estava quase sufocado pelos carinhos das duas mulheres, e mais confuso do que nunca.

Então, o povo começou a gritar:

Tom Sawyer! Tom Sawyer! Calem-se todos, e deixem ele continuar. Continue, Tom Sawyer!

Isto fez o meu amigo se sentir todo poderoso, ou um herói, como ele preferia dizer. E então, quando todos ficaram quietos, aguardando suas palavras, ele falou:

TOM – Não há muito mais para falar. Quando aquele homem, Brace Dunlap, conseguiu levar o Tio Silas à beira da loucura, e conseguiu fazê-lo ferir o Júpiter, eu imagino que ele decidiu pôr em prática a segunda parte do seu plano. Logo que o Tio Silas saiu do cenário da briga, Júpiter, apenas com um galo na cabeça, correu para o bosque para se esconder. Decerto ele ia desaparecer do lugar durante a noite, viajando para bem longe. E o Brace Dunlap faria todo o mundo acreditar que o Tio Silas havia matado o Júpiter e escondido o seu corpo em algum lugar. E isto causaria a ruína do Tio Silas, e o obrigaria a sair do lugarejo, talvez enforcado. Mas quando eles encontraram aquele homem morto no bosque, sem reconhecê-lo, porque os ferimentos haviam deformado seu rosto, eles viram que poderiam melhorar o plano inicial. Assim, enterraram o morto com as roupas e a bota do Júpiter, e convenceram Jim Lane, Bill Withers e os outros a prestarem falsos testemunhos neste tribunal. E lá estão essas testemunhas, agora com cara de arrependidas.

TOM – Bom, eu e o meu amigo Huck estávamos naquele barco com os três ladrões, e Jake, que era um deles, nos contou tudo sobre os diamantes, e achava que os outros dois o matariam logo que tivessem a chance. E nós íamos ajudá-lo tanto quanto possível. Nós estávamos próximos ao bosque de sicômoros quando ouvimos os gritos de socorro, e logo em seguida vimos dois homens perseguindo outros dois. Mas na manhã seguinte, após a tempestade, quando voltamos ao bosque, não encontramos nenhum cadáver, e porisso pensamos que não houvera um assassinato. E quando nós vimos Júpiter disfarçado com o mesmo disfarce que Jake disse que usaria, nós achamos que o surdo-mudo era o próprio Jake Dunlap, em pessoa. Porque Jake pretendia, também, fingir-se de surdo-mudo.

TOM – Bom, eu e o Huck fomos procurar o corpo, depois que todos os outros haviam desistido da busca. E nós logo o encontramos, com a ajuda do cão farejador. Ficamos muito orgulhosos do que tínhamos feito, mas o Tio Silas nos jogou um balde de água fria quando confessou ter matado o Júpiter. No dia em que ele foi para a prisão, nós elaboramos um plano de fuga para salvar o seu pescoço, mas o Tio Silas não concordou, preferindo permanecer na cadeia.

TOM – Durante todo o período em que aguardávamos o dia do julgamento, eu fiz tudo o que podia para descobrir um meio de salvar o Tio Silas, mas eu não consegui achar uma boa idéia. Assim, quando o julgamento começou, hoje, eu estava com a mente inteiramente vazia. Mas de vez em quando me vinha à cabeça um relampejo, como de uma idéia querendo aparecer. E isto me levou a pensar com muita força, e a observar muito, para que aquela idéia pudesse voltar com mais clareza. E quando o Tio Silas começou a acusar-se de haver assassinado Júpiter Dunlap, a idéia relampejou novamente, mas desta vez bem clara. E eu dei um salto e interrompi o curso normal do julgamento, porque de repente eu vi o Júpiter Dunlap. E eu o reconheci por um gesto que ele fez; porque eu o havia visto fazer esse mesmo gesto há cerca de um ano atrás, quando eu e Huck estivemos aqui neste lugarejo.

Ele parou de falar por um minuto, planejando obter um grande “efeito”. E depois falou, como quem ia descer do estrado:

TOM – Bom, eu acho que isto é tudo o que eu tinha para dizer.

Moço, você nunca ouviu um urro geral de protesto como aquele; toda a sala berrou ao mesmo tempo:

Qual foi o gesto que ele fez? Fique aí, fique aí, seu pequeno demônio! Você assanhou a nossa curiosidade, e agora quer nos deixar na mão?!

Mas o Tom esperava justamente por esse efeito: protestos gerais e pedidos desesperados para que continuasse a explicação. E então ele falou, displicente:

TOM – Oh, é coisa à toa! Eu percebi que o surdo-mudo ficou muito nervoso quando viu o Tio Silas preparando a corda para se enforcar por um crime que não havia cometido. E ele foi ficando cada vez mais nervoso e preocupado, enquanto eu o observava atentamente, mas de modo disfarçado. E então ele levantou a sua mão esquerda e seu dedo desenhou uma cruz na sua bochecha, e assim eu o peguei no pulo.

Então todos começaram a gritar, a assobiar e a aplaudir Tom Sawyer delirantemente. E o meu companheiro estava muito orgulhoso de si, e tão feliz que não sabia o que fazer.

E então o juiz disse, dirigindo-se a Tom Sawyer:

Meu rapaz, você presenciou todos os fatos dessa estranha conspiração que narrou?

TOM – Não, Meritíssimo. Eu não presenciei nenhum deles.

JUIZ – Não presenciou nenhum deles! Mas como você contou toda a história, tal como o faria se tivesse visto tudo com seus próprios olhos?

Tom Sawyer, muito satisfeito e seguro de si, respondeu:

Oh, apenas analisando as evidências e juntando as peças do quebra-cabeça, Meritíssimo. Um pequeno trabalho de detetive, que qualquer um poderia ter feito.

JUIZ – Nada disso! Nem duas pessoas em um milhão faria um trabalho desses. Você é, mesmo, um garoto extraordinário!

Ocorreram novos aplausos para Tom Sawyer, e ele certamente não trocaria isso nem por uma mina de ouro. Então o juiz perguntou:

Mas você está mesmo certo de que tudo aconteceu do jeito que você contou?

TOM – Perfeitamente, Meritíssimo. Aqui está Brace Dunlap; pergunte-lhe se ele vai negar a sua participação nessa história…

E após uma pausa, Tom continuou:

Bom, o senhor vê que o Brace está muito quieto. E o irmão dele está muito quieto. E aquelas quatro testemunhas que juraram em falso, em troca de algum dinheiro, também estão muito quietas. Quanto ao Tio Silas, ele não está em condições de dizer nada; e hoje eu não acreditaria nele nem se ele falasse sob juramento!

Todos riram, inclusive o juiz. De repente, Tom levantou novamente os olhos para o magistrado, e disse:

Meritíssimo, há um ladrão nesta casa!

JUIZ – Um ladrão?!

TOM – Sim, Meritíssimo. E ele traz consigo aqueles dois diamantes de doze mil dólares.

Isto provocou um novo tumulto na sala. Todos perguntavam uns aos outros: “Quem é ele? Quem é ele?”. E o juiz perguntou:

Diga quem é ele, meu rapaz! Xerife, você deverá prendê-lo. Quem é ele?

Tom disse:

O homem que estava morto e que agora está aqui bem vivo: Júpiter Dunlap.

Novo tumulto na sala. E Júpiter, que antes já estava aturdido, acabou ficando petrificado de espanto. Mas quando se recuperou, ele disse, quase chorando:

JÚPITER – Isto agora é uma mentira. Meritíssimo, isto não é justo; eu já sou mau o suficiente sem isto. Eu fiz as outras coisas: Brace me persuadiu, e prometeu que me faria rico, algum dia, e eu fiz o que ele mandou. E eu lamento ter feito tudo isso, e estou muito arrependido. Mas eu não roubei nenhum diamante, e eu não tenho comigo nenhum diamante. Eu quero virar um estátua se isto for verdade. O xerife pode me revistar à vontade.

Tom disse:

Meritíssimo, não é apropriado chamá-lo de ladrão, e portanto eu exagerei um pouco. Ele roubou os diamantes, mas não sabia disso. Ele os roubou do seu irmão Jake Dunlap quando este estava caído no chão, morto. Mas Júpiter não sabia que estava roubando essas pedras, e tem andado com elas já faz um mês. Sim, senhor juiz, ele se apresentou nesta sala quase que como um mendigo, mas traz consigo doze mil dólares em diamantes!

O juiz levantou-se e ordenou:

Xerife, reviste esse homem!

Bom, o xerife revistou o Júpiter de cima a baixo: revistou seu chapéu, meias, costuras, botas, tudo. Enquanto isso, Tom permaneceu em seu lugar, muito quieto, aguardando o momento de produzir um novo “efeito”. Finalmente o xerife desistiu de continuar revistando, e todo o mundo pareceu desapontado. E Júpiter gritou:

E agora? O que eu disse a vocês?!

E o juiz disse:

Parece que desta vez você se enganou, meu garoto!

Então Tom tomou uma atitude e fingiu estar em profundos pensamentos, como que procurando descobrir onde foi que tinha errado. De repente ele abriu um largo sorriso e disse:

TOM – Oh, agora eu lembrei. Havia me esquecido!

Eu sabia que Tom estava fingindo, só para aumentar o efeito do que faria a seguir. E então ele disse:

TOM – Alguém pode me emprestar uma pequena chave de fenda? Havia uma chavinha dessas na mochila que você surrupiou do seu irmão, Júpiter, mas eu calculo que você não a traz consigo.

JÚPITER – Não, não está comigo. Eu não precisava dela, e joguei-a fora.

TOM – Você fez isto porque não sabia qual a utilidade dela.

Quando uma pequena chave de fenda foi passada de mão em mão, por cima das cabeças, e chegou até Tom Sawyer, ele disse para Júpiter:

Coloque seu pé nesta cadeira.

E Tom ajoelhou-se, alcançou a sola da bota do Júpiter e começou a desaparafusar a chapinha que ali havia. As pessoas se acotovelavam em redor, observando com extrema curiosidade. E quando ele retirou o primeiro diamante do pequeno buraco cavado no salto, e a pedra mostrou seu brilho, as pessoas quase perderam o fôlego. E Júpiter parecia arrasado. E ficou pior ainda quando Tom retirou da outra bota o segundo diamante. O irmão de Brace estava pensando que poderia ter-se mudado para bem longe dali e iniciado uma nova vida, se apenas tivesse adivinhado para que servia aquela pequena chave que estava na mochila.

Aquele foi um momento de extrema excitação, e Tom alcançou a glória que almejava. O juiz recebeu os diamantes, permanecendo de pé atrás de sua mesa. Limpou a garganta, ajeitou os óculos e disse a Tom Sawyer:

Eu tomarei conta destas pedras preciosas e notificarei os seus verdadeiros proprietários. E quando eles pagarem a recompensa, será um prazer para mim passar às suas mãos os dois mil dólares. Você merece esse dinheiro. E merece os mais profundos e sinceros agradecimentos desta comunidade, porque livrou da ruína e da vergonha uma família inocente, salvou de uma morte cruel um homem bom e honesto, e expôs um odioso patife e seus comparsas à infâmia e à punição da Lei.

Bom, pessoal, se nessa hora houvesse ali uma orquestra para tocar alguma música apropriada, então teria sido a coisa mais perfeita que eu já vi. E Tom Sawyer, mais tarde, disse o mesmo.

O xerife prendeu Brace Dunlap e todos os seus comparsas. Um mês depois o juiz levou-os a julgamento e os condenou a permanecerem presos.

E todo o mundo voltou a frequentar a pequena e velha igreja do Tio Silas, e todos eram extremamente amáveis com ele e com a sua família. E o Tio Silas pregou os mais terríveis e confusos sermões que alguém já ouviu, sermões capazes de desorientar uma pessoa e fazê-la errar o caminho de casa. Mas as pessoas não deixavam o pastor perceber isto; pelo contrário, juravam que eram os sermões mais claros e elegantes do mundo.

Felizmente, depois de algum tempo o bom velho recuperou toda a sua razão, e assim a sua família ficou feliz como os pássaros. E ninguém poderia ser mais grato a Tom Sawyer do que eles. E eram gratos também a mim, embora eu não tenha feito nada.

E quando os dois mil dólares chegaram, Tom me deu a metade desse valor, e nunca falou a ninguém sobre isto, o que não me surpreendeu, porque eu conhecia muito bem o seu bom caráter.

FIM DE “TOM SAWYER, DETETIVE”

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