Como Decifrei um Texto Codificado (2)

Faltou, na primeira parte, demonstrar o segundo equívoco do juiz Henriques, na estória de Júlio Verne, “A Jangada” (a propósito, filmada por Hollywood com o título, em português, de “800 Léguas pelo Amazonas”). Sem a pista dos nomes próprios, a dificuldade para a solução do problema não é muito maior. Vamos por etapas:

1. Já que não dispomos de nomes próprios a comparar, devemos nos valer de palavras comuns. Mas quais delas? Como escolher entre centenas de milhares? O melhor a fazer é tomar apenas as três primeiras letras das palavras ou expressões possíveis. Assim, não vamos utilizar a palavra “trabalho”, mas apenas “tra”, que constitui, também, o início de umas trezentas outras palavras; não utilizaremos “o relógio”, mas apenas “o re”, ou “ore”.

2. É preciso restringir drasticamente o número de inícios a empregar. Isto pode ser feito considerando que as três primeiras letras do texto cifrado não podem diferir, em relação às letras respectivas do texto original, em mais de nove unidades. Assim, S, a primeira letra do texto cifrado, não deve ser comparada com letras anteriores a J (S menos I resultaria em 10). O mesmo ocorre com Y, segunda letra do texto cifrado, em relação a P. Quanto a G, terceira letra do texto cifrado, só pode ter como contrapontos as letras de A a F e de X a Z (consideremos que, sendo A a sexta letra anterior a G, Z seria a sétima, Y a oitava e X a nona).

3. Como conseqüência, devemos escolher, para comparação com SYG, grupos de três letras onde a primeira se inclua entre J e S (inclusive essas duas), a segunda entre P e Y(idem), e a terceira entre A e G(idem) ou entre X e Z(idem). Esses grupos, é claro, devem formar sílaba (ex, “tra”), ou grupo de sílabas (ex, “o re”) reconhecíveis. Assim, JPA, ou JPX, ou JPY, ou qualquer grupo iniciado com JP, estão excluídos, uma vez que não há, na língua portuguesa, palavras ou expressões que contenham essas seqüências de letras.

4. Isto posto, tomamos como primeiro grupo JUA (lembre-se o leitor de que JAE, por exemplo, está excluída porque a segunda letra não se encontra entre P e Y). Depois JUB, JUC, JUD, JUE, JUF, JUG (lembrando que JUI está excluído, pois o I, terceira letra, está fora das faixas A-G e X-Z). Depois JUZ, LUA, LUB, LUC, LUD, LUE, LUF, LUG, LUZ, MUA, MUB, MUC, MUD, MUE, MUF, MUG, MUZ, NUA, NUB, NUC, NUD, NUE, NUF, NUG, NUZ, OPA, OPE, ORA, ORB, ORC, ORD, ORE, ORF, ORG, ORX, ORZ, OSA, OSB, OSC, OSD, OSE, OSF, OSG, OSX, OSZ, OTA, OTE, OUA, OUB, OUC, OUD, OUE, OUF, OUG, OUX, OUZ, OVA, OVE, OXA, OXE, PUA, PUB, PUC, PUD, PUE, PUF, PUG, PUX, PUZ, QUA, QUE, RUA, RUB, RUC, RUD, RUE, RUF, RUG, RUX, RUZ, SUA, SUB, SUC, SUD, SUE, SUF, SUG, SUX, SUZ. Teríamos, então, menos de 100 grupos a examinar.

5. Iniciemos comparando JUA com SYG:

sygw01

Ora, se JUA for realmente o início do texto original, 946 pode ser toda a chave, ou parte dela. Se 946 for toda a chave, o texto compreensível irá aparecendo à medida que formos substituindo as letras do criptograma. Vamos testar a hipótese “946 é a chave completa”:

sygw02

Vemos que, ou JUA não é o início do texto original, ou a cifra tem mais do que três algarismos. Adotemos a segunda hipótese, deixando em branco o lugar do quarto algarismo da cifra, desconhecido:

sigw03
Descartado. Imaginemos que a cifra começa com 946 mas tem cinco algarismos:

sygw04
Descartado. Vamos atribuir 6 algarismos à cifra:

sygw05

Também aqui, não há formação consistente de sílabas reconhecíveis.

6. Vejamos, porém, o que ocorre quando deparamos com uma seqüência (432) pertencente à cifra. Vamos supor, inicialmente, que a cifra tem apenas três algarismos:

sygw06

Não deu certo, mas percebe-se que, consistentemente, a seqüência 432 produz sempre sílabas reconhecíveis (ove, dei, uto, rou e os). Mas testemos a hipótese de a cifra possuir quatro algarismos:

sygw07

Continuam a surgir sílabas reconhecíveis, atestando que a hipótese é boa. Testemos cinco algarismos:

sygw08

Ainda não deu. Tentemos seis algarismos:

sygw09

Nesta hipótese, todos os grupos silábicos são compreensíveis. Deve-se descobrir agora de que palavra VE é o início, uma vez que está claro que a primeira letra, O, é o artigo definido. Pode-se tentar, por exemplo, VELHO, VERDE, VENTO, etc.

sygw10

Essas palavras não se inserem no texto original, porque têm letras diferindo, em mais de 9 unidades, das letras respectivas do texto cifrado. É necessário explicar que a diferença entre E de VERDE e D de YGWED é 25, e não 1: a letra cifrada é, aqui, sempre posterior à original.

Pode-se abandonar as palavras de cinco letras, como VERDE, e tentar alguma que englobe a sílaba seguinte, ou parte dela: O VE—DEI. Uma vez que VERDE esteve tão perto de ser a palavra correta, ocorre-nos facilmente VERDADEIRO:
sygw11

Percebe-se que não há incongruências. E, bom sinal, a sequência numérica 43251 aparece repetida. Teste final:

sygw12

Para terminar, apresento um texto cifrado para que os leitores o decifrem, aplicando o método exposto ou descobrindo um método próprio (neste caso, me contem! me contem!):

sygw13

Autor: Valdir Dala Marta, Campo Grande – MS.

Uma resposta to “Como Decifrei um Texto Codificado (2)”

  1. Sebastiana Says:

    Caro Valdir,

    Achei interessantes e gostei muito dos seus textos publicados neste blog. Pena que não consegui ainda decodificar nenhum, por um lado, falta de tempo, por outro falta tbém de boa concentração, mas vou continuar tentando.

    Aqui, vai uma frase para você e espero que goste:

    ” De tudo, ficaram três coisas:
    A certeza de que estamos sempre começando…
    A certeza de que precisamos continuar…
    A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar…
    Portanto, devemos:
    Fazer da interrupção, um caminho novo…
    Da queda, um passo de dança… Do medo, uma escada…
    Do sonho, uma ponte… Da procura, um encontro…”

    Fernando Sabino

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