Como Decifrei um Texto Codificado (1)

“A Jangada”, romance de aventuras escrito por Júlio Verne, tem grande parte do enredo dependente da decifração de um texto codificado. Dessa decifração, de que dependia o personagem João da Costa para livrar-se da forca, ocupou-se, no dizer do romancista, toda a Manaus de 1852, no decorrer de quatro dias. O texto codificado, adaptado à língua portuguesa, era o seguinte:

Todo o tempo as milhares de pessoas, inclusive o juiz Henriques (que tinha particular interesse por esse tipo de quebra-cabeça), se empenharam em achar, entre milhares de combinações possíveis, a chave numérica para a decifração. Essa chave, contudo, só foi descoberta por um golpe de sorte, uma vez que foi necessário:

a) que o personagem Fragoso finalmente descobrisse, num acampamento longínquo, o nome do autor do texto (“Ortega”);

b) a coincidência de, no texto cifrado, o nome de Ortega estar como última palavra, e ter sua primeira letra cifrada pelo primeiro algarismo da chave.

O condenado, na verdade inocente, foi salvo nos últimos minutos, tão logo o juiz Henriques percebeu haver encontrado a chave da decodificação. Entretanto, uma análise atenta do caso revela que o bom homem demorou tanto a descobrir a solução porque se envolveu em equívocos. O primeiro foi supor que os nomes “da Costa” ou “Ortega” deveriam necessariamente ter a primeira letra correspondente ao primeiro algarismo da cifra. O segundo foi supor que, no caso de não existirem esses nomes no texto, o único caminho seria tatear às cegas entre milhões de combinações numéricas possíveis, em busca da solução.

Vejamos o primeiro equívoco. Calculo que se o juiz e mais onze pessoas se houvessem encarregado, cada qual de uma parte do texto, em não mais que duas horas o enigma estaria desfeito. Bastaria ir comparando “da Costa”, nome disponível desde o início, com cada grupo de sete letras do texto, sucessivamente. A primeira comparação seria :

Vemos que a distância entre as letras D e S é 15, ou seja, S é a décima-quinta letra após D. Prosseguindo, a distância entre A e Y é 24; entre C e G, 4, e assim por diante. Adotando o pressuposto do juiz Henriques de que a distância, nesse tipo de criptograma, não ultrapassa 9, ou seja, se reduz a números de um só algarismo, constatamos que SYGWEDH não pode corresponder a DACOSTA. A segunda comparação inicia-se na segunda letra do texto codificado:

A diferença entre D e Y é 21, e também aqui a correspondência se descarta de imediato.

Mas acompanhemos, a partir daqui, o sexto suposto ajudante do juiz, ajudante que teria ficado com a sétima linha:

Aqui não pode haver correspondência, pois, embora a diferença entre D e E seja 1, a diferença entre A e R é maior que 9 (ou seja, dezessete). Continuemos:

syg04

A diferença entre D e R é 14. Vamos em frente:

syg05

A primeira diferença, entre D e F, é 2; a segunda, entre A e F, é 5; a terceira, 1; a quarta, 3, a quinta, 4; a sexta, 3; a sétima, novamente 2. Desta vez não há incompatibilidades, já que as diferenças são todas menores que 9. É preciso, entretanto, testar a seqüência numérica encontrada ( 2 5 1 3 4 3 2 ), e ver se ela decifra o texto.

Voltemos à linha inicial, invertendo o processo anterior e anotando a letra que está n posições antes daquela indicada pelo texto cifrado:

syg06

Constata-se que a segunda letra anterior a S é Q, a quinta letra anterior a Y é T, e assim por diante. Percebe-se que a seqüência obtida, QTFTAAF, não faz sentido. Não desanimemos e façamos o teste a partir da segunda letra da cifra:

syg07

Novamente, WBVBZEF não dá sentido. Vamos à terceira letra:

syg08

Aqui parece que temos parte de uma palavra, que pode ser VERDADEIRA, ou VERDADEIRO, ou de uma expressão, como por exemplo PERDA DE INTERESSE. Tentemos VERDADEIRA, agora anotando as diferenças numéricas:

syg09

A restrição dos dois dígitos atinge a duas letras A. Vamos substituí-las por O:

syg10

Parece que agora encontramos os limites da seqüência. Deve ser 432513, já que logo após se repetem o 4, o 3, o 2, o 5 e o 1. Teste final:

syg11

Falta demonstrar o segundo equívoco do juiz. Mas isto fica para a segunda parte deste trabalho.

Mas teria o leitor, ou leitora, a pachorra de decifrar o texto original das outras onze linhas da cifra? Então, continue utilizando a chave 432513. Como na primeira linha foram utilizados, no final, os dígitos 4 e 3 dessa chave, comece a segunda linha com os dígitos seguintes, 2513.

************

Autor: Valdir Dala Marta, Campo Grande – MS. Publicado em 24/09/2007.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: