Archive for the ‘Planeta Terra’ Category

Cuba, Pala, Cuba

maio 9, 2011

Incentivado pelas noticias recentes sobre inevitáveis mudanças políticas em Cuba, reli “Furacão Sobre Cuba”, de Jean Paul Sartre, e depois “Cuba – Uma Nova História”, do inglês Richard Gott.

Sartre, escrevendo nos primórdios da Revolução de Fidel Castro, foi compreensivelmente indulgente com o novo regime, desde o início fustigado pelo gigante estadunidense (ou dunidense, para homenagear o tradicional reducionismo capitalista) , que tem uma pata, a Flórida, bem pertinho da Ilha de Fidel. Gott, por sua vez, tem uma visão mais equilibrada dessa ilha, não escondendo que o pequeno país do Caribe veio passando, desde os tempos de Colombo, pelas mãos de sucessivos colonizadores: primeiro os espanhóis, depois os dunidenses e finalmente os soviéticos, dos quais se livrou, involuntariamente, ainda nos idos dos anos 1990. Cuba acabou finalmente livre, mas embargada, assediada, boicotada e “empobrecida”.

Lidos esses livros, por associação livre me veio à mente a obra de Aldous Huxley, “A Ilha”, exatamente sobre um país-ilha (“Pala”) pobre mas feliz, rodeado de inconfiáveis vizinhos destrambelhado-capitalistas. Fico tentado a imaginar que Huxley se inspirou na Revolução Cubana para descrever, em 1962, a sua utópica ilha; e também que a Revolução Cubana se inspirou largamente (e em alguns casos com sucesso) nas notáveis experiências da fictícia ilha palanesa.

As experiências bem sucedidas em Cuba se referem à Saúde (com sua Medicina Preventiva), à Educação (com seus indicadores provavelmente finlandeses; o PISA/OECD finge que a ilha não existe) e à virtual erradicação da Criminalidade (devido ao desestímulo à competição capitalista e à imunização do país contra o consumo de drogas, exceto álcool e tabaco). A Grande Imprensa (e até a imprensa alternativa) tem se preocupado, entretanto, em apenas mostrar os pontos fracos da Ilha caribenha. Assim, dão ênfase à minguante frota automotiva daquele país, com seus carros modelo 1958, à ausência de i-phones, i-pads e i-pods, e à falta da liberdade para conspirar (a favor de potências estrangeiras).

Parece-me evidente que um regime político verdadeiramente civilizado seria um misto de capitalismo e comunismo. Ou, melhor dizendo, um regime que combinasse o melhor do Capitalismo (melhor para a maioria) e o melhor do Comunismo (apenas lembrando que Jesus Cristo, para mim mero profeta de suas próprias ideias, pode ser considerado um forte simpatizante da idéia igualitária). Isto foi até tentado, com a Social-Democracia européia. Mas a Vontade de Poder, citada por Nietszche e depois explicada por Adler, de uns poucos (relativamente à população humana da Terra) decrepto-psicóticos impede essa mistura, preferindo combinar o pior do Capitalismo (eficiência em devastar o Planeta) e o pior do Comunismo (manipulação das massas por vigilância onipresente e técnicas de “lavagem cerebral”). E assim a Social-Democracia acabou esvaziada, tornando-se uma caricatura de si mesma (vejam, no Brasil, o PSDB…).

A experiência cubana devia ser analisada por todos os ângulos, podendo certamente oferecer um rico material para o benefício de todos os países da Terra, seja pelo aproveitamento das idéias que deram certo, seja pelo descarte das idéias e projetos mal conduzidos. Tomara que os citados e senis “donos do planeta” sejam logo substituidos por pessoas mais jovens e de mente mais aberta, ascendidas por méritos próprios e por consensos democráticos…

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Livros citados: 1. “Furacão sobre Cuba“, Jean Paul Sartre, Editora do Autor, Rio, 1986; 2. “Cuba – Uma Nova História“, Richard Gott, Jorge Zahar Editor, Rio, 2006; e 3. “A Ilha“, Aldous Huxley, Editora Globo, Rio, 13a. edição, 1987.

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Uma Voz vinda de Israel

janeiro 11, 2009

Transcrição de texto (traduzido por Caia Fittipaldi e publicado no blog Amálgama) de Gideon Levy, do jornal israelense Haaretz.

Tempo dos virtuosos

9–01–2009

Gideon Levy, no Haaretz (Tel Aviv, 9 de janeiro)

Essa guerra, talvez mais que as anteriores, está expondo as veias profundas da sociedade de Israel. Racismo e ódio erguem a cabeça, [assim como] a sede de vingança e de sangue. A “tendência do comando” no exército de Israel hoje é matar, “matar o mais possível”, nas palavras dos porta-vozes militares na televisão. E ainda que falassem dos combatentes do Hamas, ainda assim essa disposição seria sempre horrenda.

A fúria sem rédeas, a brutalidade é chamada de “exercitar a cautela”: o apavorante balanço do sangue derramado – 100 palestinos mortos para cada israelense morto é um fato que não está levantando qualquer discussão, como se Israel tivesse decidido que o sangue dos palestinos valesse 100 vezes menos que o sangue dos israelenses, o que manifesta o inerente racismo da sociedade de Israel.

Direitistas, nacionalistas, chauvinistas e militaristas são o bom-tom da hora. Ninguém fale de humanidade e compaixão. Só na periferia ouvem-se vozes de protesto – desautorizadas, descartadas, em ostracismo e ignoradas pela imprensa -, vozes de um pequeno e bravo grupo de judeus e árabes.

Além disso tudo, soa também outra voz, a pior de todas. A voz dos cínicos e dos hipócritas. Meu colega Ari Shavit parece ser o seu mais eloquente porta-voz. Essa semana, Shavit escreveu neste jornal (”Israel deve dobrar, triplicar, quadruplicar a assistência médica em Gaza” – Haaretz, 7/1): “A ofensiva israelense em Gaza é justa (…). Só uma iniciativa imediata e generosa de socorro humanitário provará que, apesar da guerra brutal que nos foi imposta, nos lembramos de que há seres humanos do outro lado.”

Para Shavit, que defendeu a justeza dessa guerra e insistiu que Israel não poderia deixar-se derrotar, o custo moral não conta, como não conta o fato de que não há vitória possível em guerras injustas como essa. E, na mesma frase, atreve-se a falar dos “seres humanos do outro lado”.

Shavit pretende que Israel mate e mate e, depois, construa hospitais de campanha e mande remédios para os feridos? Ele sabe que uma guerra contra civis desarmados, talvez os seres mais desamparados do mundo, que não têm para onde fugir, é e sempre será vergonhosa. Mas essa gente sempre quer aparecer bem. Israel bombardeará prédios residenciais e depois tratará os feridos e mutilados em Ichilov; Israel meterá uns poucos refugiados nas escolas da ONU e depois tratará os aleijados em Beit Lewinstein. Israel assassinará e depois chorará no funeral. Israel cortará ao meio mulheres e crianças, como máquina automática de matar e, ao mesmo tempo, falará de dignidade.

O problema é que nada disso jamais dará certo. Tudo isso é hipocrisia ultrajante, vergonhoso cinismo. Os que convocam em tom inflamado para mais e mais violência, sem considerar as consequências, são, de fato, os que mais se auto-enganam e os que mais traem Israel.

Não se pode ser bom e mau ao mesmo tempo. A única “pureza” de que cogitam é “matar terroristas para purificar Israel”, o que significa, apenas, semear tragédias cada vez maiores. O que está sendo feito em Gaza não é desastre natural, terremoto, inundação, calamidades em que Israel teria o dever e o direito de estender a mão aos flagelados, mandar equipes de resgate, como tanto gostamos de fazer. Toda a desgraça, todo o horror que há hoje em Gaza foi feito por mãos humanas – as mãos de Israel. Quem tem mãos sujas de sangue não pode oferecer ajuda. Nenhuma compaixão nasce da brutalidade.

Pois ainda há quem pretenda enganar todos todo o tempo. Matar e destruir indiscriminadamente e, ao mesmo tempo, fazer-se de bom, de justo, de homem de consciência limpa. Prosseguir na prática de crimes de guerra, sem a culpa que os acompanha sempre. É preciso ter sangue frio.

Quem justifica essa guerra justifica todos os crimes. Quem prega mais guerra e crê que haja justiça em assassinatos em massa perde o direito de falar de moralidade e humanidade. Não existe qualquer possibilidade de, ao mesmo tempo, assassinar e reabilitar aleijados. Esse tipo de atitude é a perfeita representação das duas caras de Israel, sempre alertas: praticar qualquer crime, mas, ao mesmo tempo, auto-absolver-se, sentir-se imaculado aos próprios olhos. Matar, demolir, espalhar fome e sangue, aprisionar, humilhar… e sentir-se bom, sentir-se justo (sem falar em não se sentir cínico). Dessa vez, os senhores da guerra não conseguirão dar-se esses luxos.

Quem justifica essa guerra justifica todos os crimes. Quem diz que se trata de guerra de defesa, prepare-se para suportar toda a responsabilidade moral pelas consequências do que faz e diz. Quem empurra os políticos e os militares para ainda mais guerra, saiba que carregará a marca de Caim estampada na testa, para sempre. Os que apóiam essa guerra, apóiam o horror.

* tradução: Caia Fittipaldi

Publicação original:

amalgama

A Causa da Paz

janeiro 10, 2009

Transcrição do artigo de Carlos Marum, engenheiro civil e advogado, publicado no Correio do Estado de 10/01/2009.

Estado Palestino – A Causa da Paz

Mais uma vez Israel afronta o mundo civilizado e lança uma operação genocida contra o povo palestino. Há quatorze dias submete a Faixa de Gaza a um bombardeio indiscriminado, levado a efeito por navios, tanques e aviões. Se desconfiarem que um militante do Hamas se encontre em um apartamento, destroem o edifício inteiro, sem se importar com o fato de ali também residirem homens, mulheres e crianças que nada tem a ver com os combates. Mataram até o motorista de um caminhão de um comboio humanitário que levava remédios durante o período estabelecido como trégua humanitária. Bombardearam uma escola da ONU, matando cerca de 60 civis, a maioria crianças, que ali se escondiam julgando-se protegidas. Não tenho conhecimento de uma outra guerra onde crianças tenham sido 1/3 das vítimas fatais. Pois Israel está conseguindo esta proeza nesta nova ação de “auto-defesa”.

Tenho acompanhado as reações internacionais em relação ao conflito e ouso dizer que elas são completamente equivocadas. Não se enfrenta a verdade, ou seja, o fato de a maioria dos israelenses ainda não desejarem a paz. Em Israel, matar palestinos ainda “dá voto”. Façam a cronologia das últimas blitzkriegs judias e verificarão, como no caso atual, uma estranha coincidência com as datas das eleições.

Penso que as vitórias israelenses criaram no seu povo uma necessidade biológica pelo sucesso militar. Esta guerra já era para ter acabado, e com a vitória de Israel. Os sucessos nos campos de batalha em 48, 56, 67 e o não insucesso em 73 consolidaram a existência do Estado Judeu. A maioria dos países árabes reconheceu esta realidade. A comunidade internacional, liderada pelos E.U.A., garantia esta situação. Dali para frente eram acertos que viriam naturalmente nas mesas de negociações. Daí veio a tragédia. Israel, que havia vencido heroicamente a guerra por sua existência, decidiu começar uma outra, ou seja, a guerra pela não existência do Estado Palestino.

Não devemos buscar as razões desse conflito em causas milenares. É equivocada a idéia da inexorabilidade desta luta. Esqueçam Abraão, Isaac e Ismael, pois eles não têm nada a ver com isso. Desconsiderem a Diáspora, o Holocausto e até 1948. Tudo é coisa superada. A causa é bem mais próxima. Vamos a 1993 e ao histórico aperto de mãos entre Arafat e Rabin. Ali se evidencia a verdadeira razão do que está acontecendo hoje. Diante do olhar determinado de Bill Clinton, um constrangido, mas decidido Rabin apertou a mão de um Arafat que não cabia em si de tanta felicidade. Naquele instante a “terrorista” OLP abandonava a luta armada e reconhecia a existência do Estado de Israel e Israel reconhecia o direito dos palestinos de terem a sua pátria. O problema vem depois. Arafat volta a Palestina, é recebido como herói e eleito presidente da Autoridade Nacional Palestina com mais de 90% dos votos. Rabin volta a Israel e é assassinado pelas costas por um judeu e este assassinato é apoiado pelo eleitorado israelense que desautoriza os Acordos de Oslo e elege primeiro ministro Netanyahu, um simpatizante do assassino. Trata-se de um raro caso de assassinato referendado pelas urnas. Neste caso matar um judeu “deu votos” em Israel.

Após o assassinato de Rabin, a história de Israel é a materialização do terrorismo de Estado. É um terrorismo sem homens-bomba, mas que joga bombas de forma muito mais letal. Além disto, sua atuação governamental pró-guerra é constante e evidente. Começaram a sabotar a ANP, desmoralizando seus líderes, destruindo sua infra-estrutura e confinando Arafat até a sua mal explicada morte. O Hamas, movimento com o qual não simpatizo, só é forte porque Israel quis assim. Desocuparam algumas colônias em Gaza, é verdade. Mas imediatamente a cercaram e depois vieram a construção do vergonhoso muro, passando pela implantação de novas colônias na Cisjordânia e chegando aos bombardeios genocidas da atualidade, tudo acontecendo em conformidade com o desejo de um eleitorado que quer a guerra. E é isto que tem que mudar.

Quanto ao atual massacre, Israel, que já saiu do Líbano com a aura de invencibilidade de seu exército terrivelmente chamuscada, vai sair de Gaza com outra meia vitória. Já estão por lá há duas semanas e ainda não conseguiram derrotar um movimento que vive há anos cercado e confinado em uma das mais miseráveis porções de terra do planeta. Já mataram bastante gente, é verdade, mas convenhamos que isto seja pouco para uma máquina de guerra que não faz muito derrotou inapelavelmente em seis dias os exércitos de vários países árabes. A verdade é que muitos palestinos passaram a preferir a morte a continuar vivendo sob tanta humilhação e isto os está fazendo fortes. A ponto de ser hoje, a não ser que se mate a todos eles como querem alguns, impossível vencê-los.

Sem Estado Palestino, não haverá paz !

A única solução é o fortalecimento da posição daqueles homens e mulheres de bem que em Israel já entenderam que não é possível a solução militar e que os palestinos também têm o direito a terem sua pátria livre e soberana, até para que tenham algo a perder além da própria vida. Falo dos autênticos e não daqueles que ficam hipocritamente falando em paz, mas que têm a “cara de pau” de defender operações de “auto-defesa” como esta.

Considerando o que aconteceu com Rabin, fica evidente que, em Israel, para fazer a paz é preciso mais coragem do que para fazer a guerra. Restará ainda a necessidade de promover-se o isolamento dos radicais que existem dos dois lados, mas só no dia em que estes corajosos forem a maioria do eleitorado judeu é que estará verdadeiramente aberto o caminho para a paz.

Opinião do blog:

Comentário perfeito, bem equilibrado. O blogueiro esclarece que não tem (acha) raízes árabes ou islâmicas e nem (acha) raízes judáicas, sendo mero cidadão brasileiro que acredita que individualmente os árabes são bons, os judeus são bons, os japoneses são bons, os brasileiros são bons, gente de qualquer lugar do mundo é boa, mas que todos devem, e podem, melhorar um pouco (ou muito).

Discurso de Severn Cullis Suzuki na Rio Eco 92

maio 4, 2008

Olá! Sou Severn Suzuki. Represento a ECO – a organização das crianças em defesa do meio ambiente. Somos um grupo de crianças canadenses, de 12 a 13 anos, tentando fazer a nossa parte: contribuir. Vanessa Suttie, Morgan Geisler, Michelle Quigg e eu. Todo o dinheiro que precisávamos conseguimos por nós mesmos. Viemos de tão longe para dizer que vocês, adultos, têm que mudar o seu modo de agir.

Ao vir aqui hoje, não preciso disfarçar meu objetivo: estou lutando pelo meu futuro. Não ter garantia quanto ao meu futuro não é o mesmo que perder uma eleição ou alguns pontos na bolsa de valores.

Estou aqui para falar em nome das gerações que estão por vir. Estou aqui para defender as crianças com fome, cujos apelos não são ouvidos.

Estou aqui para falar em nome de incontáveis animais morrendo em todo o planeta porque já não têm mais lugar para onde ir.

Não podemos mais permanecer ignorados. Hoje tenho medo de tomar sol por causa dos buracos na camada de ozônio; tenho medo de respirar esse ar porque não sei que substâncias químicas o estão contaminando. Eu costumava pescar em Vancouver com meu pai, até o dia em que pescamos um peixe com câncer.Temos conhecimento de que animais e plantas estão sendo destruídos a cada dia, e estão em vias de extinção.

Durante toda a minha vida eu sonhei ver grandes manadas de animais selvagens, selvas, florestas tropicais repletas de pássaros e borboletas, mas agora eu me pergunto se meus filhos vão poder ver tudo isso.

Vocês se preocupavam com essas coisas quando tinham a minha idade ?

Todas essas coisas acontecem bem diante dos nossos olhos e, mesmo assim, continuamos agindo como se tivéssemos todo o tempo do mundo e todas as soluções.

Sou apenas uma criança e não tenho as soluções, mas quero que saibam que vocês também não têm. Vocês não sabem como reparar os buracos da camada de ozônio. Vocês não sabem como salvar os salmões de águas poluídas. Vocês não podem ressuscitar os animais extintos. Vocês não podem recuperar as florestas que um dia existiram onde hoje é deserto. Se vocês não podem recuperar nada disso, então por favor parem de destruir !

Aqui vocês são os representantes de seus governos, homens de negócios, administradores, jornalistas ou políticos. Mas na verdade são mães e pais, irmãos e irmãs, tias e tios, e todos também são filhos. Sou apenas uma criança, mas sei que todos nós pertencemos a uma sólida família de 5 bilhões de pessoas, e ao todo somos 30 milhões de espécies compartilhando o mesmo ar, a mesma água e o mesmo solo. Nenhum governo, nenhuma fronteira poderá mudar essa realidade.

Sou apenas uma criança, mas sei que esse problema atinge a todos nós, e deveríamos agir como se fôssemos um único mundo, rumo a um único objetivo. Apesar da minha raiva, não estou cega; apesar do meu medo, não sinto medo de dizer ao mundo como me sinto. No meu país, geramos tanto desperdício, compramos e jogamos fora, compramos e jogamos fora, e os países do Norte não compartilham com os que precisam. Mesmo quando temos mais do que o suficiente, temos medo de perder nossas riquezas, medo de compartilhá-las.

No Canadá temos uma vida privilegiada, com fartura de alimentos, água e moradia. Temos relógios, bicicletas, computadores e aparelhos de TV. Há dois dias aqui no Brasil ficamos chocados quando estivemos com crianças que moram nas ruas. Ouçam o que uma delas nos contou: “Eu gostaria de ser rica, e se fosse daria a todas as crianças de rua alimentos, roupas, remédios, moradia, amor e carinho.” Se uma criança de rua, que não tem nada, ainda deseja compartilhar, por que nós, que temos tudo, somos ainda tão mesquinhos?

Não posso deixar de pensar que essas crianças têm a minha idade e que o lugar onde nascemos faz uma grande diferença. Eu poderia ser uma daquelas crianças que vivem nas favelas do Rio. Eu poderia ser uma criança faminta da Somália. Uma vítima da guerra do Oriente Médio. Ou uma mendiga da Índia.

Sou apenas uma criança, mas ainda assim sei que se todo o dinheiro gasto nas guerras fosse utilizado para acabar com a pobreza, para achar soluções para os problemas ambientais, que lugar maravilhoso a Terra seria!

Na escola, desde o Jardim da Infância, vocês nos ensinaram a sermos bem comportados. Vocês nos ensinaram a não brigar com os outros, resolver as coisas de forma adequada, respeitar os outros, arrumar nossas bagunças, não maltratar outras criaturas, dividir e não ser mesquinho. Então, por que vocês fazem justamente o que nos ensinaram a não fazer?

Não esqueçam o motivo de estarem assistindo a estas conferências, e para quem vocês estão fazendo isso. Vejam-nos como seus próprios filhos. Vocês estão decidindo em que tipo de mundo nós iremos crescer. Os pais devem ser capazes de confortar seus filhos, dizendo-lhes: “Tudo ficará bem. Estamos fazendo o melhor que podemos”. Mas não acredito que possam nos dizer isso. Será que estamos na sua lista de prioridades ?

Meu pai sempre diz: “Você é aquilo que faz, não aquilo que você diz”. Bem, o que vocês fazem, nos fazem chorar à noite. Vocês adultos nos dizem que vocês nos amam. Eu desafio vocês. Por favor, façam as suas ações refletirem as suas palavras. Obrigada.

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1. ECO é a sigla para Environmental Children’s Organization, criada por Severn quando tinha 9 anos de idade.

2. Cinco bilhões era a população da Terra em 1992; agora já passou dos 7 bilhões de pessoas.

3. Saite com notícias biográficas e atividades recentes de Severn, com muitas fotos: A Celebration of Women .

4. Vídeo do discurso (em inglês, com legendas em português) pode ser visto clicando aqui . A tradução aqui exposta foi retirada desse trabalho.