CAMPO GRANDE 2009-2012 (1)

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Capítulo 1 : A “Reforma Administrativa”

Cronologia

Nas eleições de 5 de Outubro de 2008, Nelsinho Trad conseguiu o seu segundo mandato com uma vitória esmagadora nas urnas: 71,41% dos votos válidos.

 Poucos dias depois o prefeito decidiu que iria inaugurar o seu segundo mandato com uma “reforma administrativa”, formando dessa vez um “quadro técnico”, já que seria isso “o que a população quer” (1).

 Assim, em 1º de janeiro de 2009 a administração municipal tinha uma nova estrutura, com menos secretarias (e algumas delas passando a subordinar as autarquias, agências e fundações) e menos cargos de primeiro escalão. Os novos secretários assumiram seus postos com a obrigação de cortar 30% dos cargos comissionados de suas pastas. Tudo em nome da economia, pretensa reação aos reflexos da Crise do Subprime estadunidense. “Temos que nos prevenir em função dessa tal Crise que todo mundo fala para não sermos pegos de calças curtas”, disse o prefeito. Além desses cortes, Nelsinho afirmou que iria estabelecer outras metas para cada secretaria, e o secretário que não as atingisse deveria “pegar o boné e ir embora”. (2)

 Embora o número de secretarias tenha encolhido, praticamente nenhum dos antigos secretários saiu dos primeiros escalões. Alguns foram mantidos em suas secretarias e outros foram remanejados para outra secretaria ou para outro órgão. Apenas 4 novatos passaram a integrar a nova administração; e dentre esses, um era o vice-prefeito Edil Albuquerque e outra a esposa do prefeito, Maria Antonieta Amorim Trad. (3)

 Em 5 de janeiro Nelsinho decidiu incluir empreiteiras e firmas de terceirização de serviços no seu plano de contenção de despesas. “As obras do PAC e as lançadas”, disse ele, “não serão mexidas. Outros contratos, como o da RDM e o de combustível, tudo isso vamos repactuar”. As reduções dependeriam da análise de cada caso, e poderiam variar de 20 a 30%. (4)

 Em 11 de março só os cortes dos cargos em comissão haviam ocorrido. O prefeito reforçou, para o Correio do Estado (5), a premência dos outros cortes, relativos ao custeio das secretarias e aos contratos com fornecedores, terceirizadas e empreiteiras. Citou números:

 a) somente considerando 4 rubricas, a prefeitura teria recebido, nos dois primeiros meses do ano, R$ 9 milhões (1,5 do ITBI, 1,6 do ISS, 2,4 do FPM e 3,5 da cota-parte do ICMS) a menos do que esperava . Esse valor representaria 10,3% “dos quase R$ 90 milhões que o Executivo havia previsto arrecadar” sob essas rubricas nesse período.

 b) O prefeito explicitou que nesse primeiro bimestre foram registradas quedas de 9% na receita do ICMS, de 12,5% na receita do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) e de 28,5% nas demais transferências da União, em relação à estimativa de arrecadação do município.

 c) Ainda de acordo com o prefeito, “das 21 fontes de receita da prefeitura”, em 14 houve queda contínua da arrecadação, de novembro de 2008 até fevereiro de 2009. “O que compensou isso foi o IPTU. Conseguimos amenizar o impacto porque houve aumento de 8% na receita do IPTU”, ressaltou.

 Em 14 de março Nelsinho, segundo o Correio do Estado (6), “reuniu-se com seu secretariado e uma comissão da Câmara Municipal de Campo Grande para comunicar-lhes a necessidade de um choque de austeridade que permita reduzir as despesas do Executivo municipal em até 30%.”

 “A medida”, continua o jornal, “ vem no intuito de combater a queda de receitas que está ocorrendo desde o início do ano, como reflexo da crise econômica mundial. Segundo o prefeito, foram registradas quedas significativas nos repasses constitucionais do FPM – de 18%, cerca de R$ 3 milhões por mês – e do ICMS – de 8,9%, cerca de 5,5 milhões por mês.”

 Asseverou o alcaide: “Identificamos todos os contratos, quanto custa por mês, e cada gestor terá que chamar os contratados e dizer que os custos terão de ser reduzidos sob pena de, no meio do ano, não termos como pagá-los”.

 Depois desses encontros o alcaide, em maio, ainda usou a crise (7) para limitar o reajuste de salário dos servidores municipais em 5,5%. Apenas 3 vereadores, dos 21, não concordaram, e um destes ainda pediu que pelo menos se igualasse o percentual de reajuste ao índice de inflação dos 12 meses anteriores, próximo de 6%. Sem sucesso.

 E não se falou mais em crise, cortes de despesas ou bonés.

 Em 4 de agosto (8) o vereador Paulo Pedra (PDT) renunciou à sua função de líder do prefeito na câmara municipal, criticando acerbamente a “reforma administrativa” implementada por Nelsinho. Segundo o vereador, a prefeitura teria economizado apenas R$ 50 mil por mês, “valor insignificante comparado ao impacto sofrido pelos servidores atingidos pelas medidas”. “Como no período a receita subiu”, as medidas contra os funcionários não teriam sido justificáveis. No entender de Pedra, a reforma de Nelsinho foi desastrosa e desnecessária, resultando em “tremendo fracasso”.

 Nesse período, nenhum órgão de imprensa, falada, escrita, televisada ou blogada, se deu ao trabalho de analisar e conferir os dados, muitas vezes contraditórios, apresentados pelo prefeito na sua campanha catastrofista. Mas a História merece uma análise do caso, e é o que farei, em caráter preliminar, a seguir.

Engano

Nota-se, de início, que os números do dia 14 de março não combinam com os números do dia 11 de março. No dia 14 o prefeito deve ter se confundido. Não vou explicitar, porque me parece bastante evidente.

Sofisma

Da comparação de dados reais de arrecadação (exemplo, arrecadação de ITBI de janeiro/2009) com a estimativa (feita alguns meses atrás) dessa mesma arrecadação, não se pode concluir que houve queda ou inclemento de arrecadação. Pode-se concluir apenas que a arrecadação ficou abaixo, igual ou acima do estimado. Se ficou abaixo, o nome correto da comparação é “frustração de expectativa”, e não “queda de arrecadação”. São situações muito diferentes, que não devem ser confundidas. A não ser por um eventual sofista.

 O prefeito cita, por exemplo, a “queda” de 9% no aporte da cota-parte do ICMS em relação ao valor esperado. Fazendo a comparação entre dados reais (9), ou seja, entre os valores reais obtidos no primeiro bimestre de 2008 (R$ 35.269.531,15) e os valores reais do primeiro bimestre de 2009 (R$ 37.753.006,90), constata-se, não uma queda da arrecadação, mas sim, um bom aumento de 7,04%, portanto acima da inflação do período.

 Quanto aos aportes do FPM – Fundo de Participação dos Municípios, o primeiro bimestre de 2009, com R$ 16.737.301,08, teve ligeira queda (- 3,25%) em relação à arrecadação real do primeiro bimestre de 2008 (R$ 17.300.235,15).

 Quanto à arrecadação do ITBI, de pequeno peso no quadro geral, temos: primeiro bimestre de 2008, R$ 2.560.121,01; primeiro bimestre de 2009, R$ 2.017.251,60, com queda de 21,21%.

 Quanto ao ISS, importante fonte de receitas da prefeitura, temos, na comparação dos primeiros bimestres de 2008 (R$ 16.225.527,49) e 2009 (R$ 16.463.170,13), um pequeno aumento de 1,46%.

 Vamos somar os números dessas 4 rubricas. Temos então: soma obtida no primeiro bimestre de 2008, R$ 71.355.425,80; no primeiro bimestre de 2009, R$ 72.970.729,71. Aumento pequeno, de 2,26%, abaixo da inflação do período e portanto com pequena queda em valores corrigidos monetariamente.

Meias Verdades

Nelsinho cita apenas as rubricas das quais pode extrair confirmação para a sua crença numa crise mundial chegando ao Brasil (tese exaustivamente propagandeada, na época, pela grande mídia). Só foge desse padrão ao citar o IPTU, uma das principais fontes de receita da prefeitura (juntamente com o ISS e a cota-parte do ICMS). E mesmo assim, naquele contexto sofismático. Na verdade, o IPTU foi a grande estrela do ano de 2009. Se compararmos a sua arrecadação no primeiro bimestre de 2008 (R$ 53.802.652,37) com a do primeiro bimestre de 2009 (R$ 68.622.306,45), veremos um espetacular crescimento de 27,54%!

 Analisando todo o quadro de receitas próprias da prefeitura (excluindo, por exemplo, os valores do IRRF retido na fonte, que é direcionada ao Governo Federal), oriundas de tributos, temos três rubricas de Receita Tributária e 7 rubricas de Transferências Correntes. Somando todas essas 10 rubricas, temos: primeiro bimestre de 2008, R$ 86.233.l798,63; primeiro bimestre de 2009, R$ 94.969.636,42. Crescimento, em 2009, de belíssimos 11,07%, pintando um céu de brigadeiro.

 Mas vamos à verdade inteira, comparando a soma de todas as Receitas Correntes dos dois bimestres: em 2008, R$ 258.144.785,25; em 2009, R$ 288.717.060,85. Aumento de R$ 30.527.275,60, ou seja, de 11,84%!

 Conclusão

 Todos os valores por mim citados neste capítulo foram extraídos dos documentos oficiais da Prefeitura de Campo Grande (com a assinatura do prefeito Nelsinho Trad), publicados no Diogrande em formato pdf, disponíveis para consulta conforme linques anotados abaixo (10).

 Não ocorreu, no início de 2009, nada parecido com recessão ou queda de receitas para a prefeitura. Nada que justificasse qualquer corte nas despesas e nos contratos vigentes em 2009 mas firmados no ano anterior. Nada que justificasse o arrocho salarial (ainda que pequeno) dos servidores. Quanto às empresas que tinham contratos com a prefeitura, aparentemente não levaram o prefeito a sério e porisso não sofreram quaisquer danos.

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(1) http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=346123
(2) http://www.diarioms.com.br/leitura.php?can_id=36&id=88355
(3) http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=379426
(4) http://www.campograndenews.com.br/cidades/nelsinho-quer-economizar-até-30-ao-repactuar-contratos-01-05-2009
(5) Correio do Estado, 12 de março de 2009, página 7a, matéria “Capital perde 10,3% da receita com os principais impostos”.
(6) Correio do Estado, 19 de março de 2009, página 6a, matéria “Capital terá mapeamento da crise”.
(7) http://www.campograndenews.com.br/politica/aprovado-reajuste-de-5-5-a-servidores-municipais-05-07-2009
(8) http://www.edicaoms.com.br/noticias/46940
(9) Fonte 1: Diogrande, Diário Oficial de Campo Grande, suplemento do número 2719, de 30 de janeiro de 2009, página 11, Demonstrativo da Receita Corrente Líquida, Janeiro a dezembro/2008.
Fonte 2: Diogrande, Diário Oficial de Campo Grande, suplemento do número 2962, de 29 de janeiro de 2010, página 3, Demonstrativo da Receita Corrente Líquida, Janeiro/2009 a dezembro/2009.
(10) Linques para detalhamentos e comprovações:
Diogrande: http://www.pmcg.ms.gov.br/diogrande/diarioOficial .
Reprodução da Fonte 1, acima: https://timblindim.files.wordpress.com/2013/03/pmcgreceitascorrentes2008.jpg
Reprodução da Fonte 2, acima: https://timblindim.files.wordpress.com/2013/03/pmcgreceitascorrentes2009.jpg

Capítulo 2 :
Escolha da 12ª Subsede para a Copa 2014

Cronologia

2008:

Campo Grande e Cuiabá se candidataram para preencher a única vaga de subsede da Copa do Mundo de 2014 que a CBF/FIFA reservou para o “Pantanal”. A partir daí, criou-se uma rivalidade artificial entre as duas cidades, com blogueiros (estava-se no auge da “blogomania”) de ambas as capitais se digladiando via Internet.

Um blog sul-matogrossense de bom nível foi o Dedo em Riste, comandado por um campograndense super-anônimo, em cujo perfil no Blogger constava apenas o pseudônimo Dedo em Riste e a cidade de origem.

29/12/2008:

 Após relatar, mais uma vez, as inúmeras potencialidades de Campo Grande, só lembrando de Cuiabá para espinafrá-la com negatividades, o blogueiro conclui:

“O que não consigo constatar é um envolvimento efetivo do povo sul-matogrossense, um engajamento coletivo que tenha a capacidade de comover os mandatários do projeto Copa do Mundo 2014.” (1)

09/01/2009:

 O blogueiro deixa escapar:

 “As otimistas aparições do Governador André Puccinelli e do Prefeito Nelson Trad [Filho] são impressionantes, mas parecem não contagiar o povo.” (2)

12/01/2009:

Nelsinho diz que população está “entusiasmada” com Copa

Mesmo que nas ruas de Campo Grande ainda não seja possível ver nenhuma manifestação de apoio à Copa do Mundo de 2014, o prefeito Nelsinho Trad (PMDB), disse hoje pela manhã que sente o entusiasmo da população campo-grandense quanto à expectativa de receber o evento na cidade.

A declaração foi uma resposta às palavras do repórter do Fantástico, Maurício Kubrusly, que em entrevista ao MS TV, da TV Morena, disse que a possibilidade de Campo Grande ser uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, não entusiasma os moradores.

Em uma comparação com nossa principal concorrente, Cuiabá (MT), o repórter disse que lá a população está “adorando, comentando e tem até camiseta”. (3)

23/01/2009:

Campanha de MS pela Copa “mexe” com Cuiabá

Agora a disputa começa para valer entre Campo Grande e Cuiabá para escolha como sub-sede da Copa do Mundo de 2014. As manifestações mornas dos sul-matogrossenses, de ontem para hoje, deram lugar a ações concretas da prefeitura e do governo do Estado e repercutiram também em jornais de Mato Grosso.

O site 24 Horas News, um dos principais jornais on line mato-grossense, lembra de uma antiga rivalidade entre os dois Estados que promete voltar à ativa com força total. (4)

Campo Grande terá campanha agressiva contra MT na Copa

A disputa entre Campo Grande e Cuiabá (MT) por uma das sub-sedes da Copa do Mundo de 2014 será muito agressiva. Mato Grosso do Sul já decidiu que irá fazer comparativos com o Estado vizinho e a cidade adversária.

“Se você entrar em bola dividida com a canela mole, quebra a tua, não quebra a dele. Pode ser que a nossa quebre, mas não por vontade nossa. Tem que entrar rasgando”, afirmou nesta manhã o governador André Puccinelli. (5)

03/02/2009:

 Blog campograndense Timblindim, matéria “Euforia Futebolística” (6):

 “Os poderes estadual e municipal armaram uma grande campanha publicitária para estimular o povo a ir às ruas nesta terça-feira, 3 de fevereiro de 2009. Além disso, boa parte dos funcionários públicos (principalmente os municipais) foram liberados de seus serviços no período da tarde. É que às 15 horas chegaria uma comitiva composta por dirigentes e técnicos da FIFA e da CBF, e prefeito e governador acham que a participação popular pode impressionar os visitantes (juntando-se essa boa impressão àquela produzida pelas grandes e caras obras prometidas), fazendo-os escolher Campo Grande como uma das 12 sub-sedes da Copa do Mundo de 2014.

Pois é, o povo correspondeu à expectativa e quem pôde (vinte mil pessoas, estimativa do blog, contraposta à maluquete estimativa da Mídia, que falou em duzentas mil), foi às ruas. As fotos abaixo mostram o movimento no ponto mais central da Av. Afonso Pena.”

Abaixo, 4 das 12 fotos apresentadas nessa postagem, todas tiradas na Avenida Afonso Pena, defronte à Praça Ary Coelho, local da maior aglomeração popular:

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03/02/2009:

Vídeos no YouTube:

 Aeroporto:

Afonso Pena, altura do Senai:

Afonso Pena – Praça do Rádio Clube :

Afonso Pena próx. Rua Bahia (30 pessoas):

Afonso Pena – Shopping Campo Grande :

03/02/2009   19 h 55:

Campo Grande se apoia no Pantanal e na força popular para ser sede

 Do UOL Esporte

Em São Paulo

 A cidade de Campo Grande recebeu nesta terça-feira a comitiva de inspeção da Fifa que visita todas as 17 cidades brasileiras que postulam ser uma das 12 subsedes da Copa de 2014. Segundo a assessoria do evento, cerca de 200 mil pessoas com bandeiras do Brasil e camisas de clubes foram às ruas demonstrar a mobilização em torno da candidatura. (7)

 04/02/2009:

 Jornal O Estado de São Paulo, em matéria de Livio Oricchio:

 200.000 recebem comitiva da Fifa em Campo Grande

“Os representantes da Fifa certamente se sensibilizaram com o impressionante interesse demonstrado pela população de Campo Grande em receber a Copa do Mundo de 2014. Nada menos de 200 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, recepcionaram a equipe de inspetores que vai decidir quais serão as 12 cidades-sede do Mundial. “Nem quando o papa esteve aqui houve tamanha mobilização popular”, afirmou Neri Kaspary, editor-chefe do jornal Correio do Estado. E Rodrigo Paiva, assessor de imprensa da CBF, também comentou: “Manifestação como essa nunca vi.” ”(8)

 09/02/2009:

 Do blog Dedo em Riste, já desconfiando de que, por algum motivo, Cuiabá estava com mais chances de ser escolhida, ao mesmo tempo em que chuta uma alternativa para a estimativa dominante na Mídia:

 “Daí, em se confirmando que a visita a Campo Grande foi meramente protocolar, objetivando apenas o atendimento a formalidades do processo de escolha, poderemos entender que fantoches serão as 100.000 pessoas que os recepcionaram em Campo Grande, assim como as autoridades paraguaias e os mais de 2.000.000 de habitantes do MS. ” (9)

06 a 08/03/2009:

O Comitê pró Copa 2014, patrocinado pelo governo de Mato Grosso do Sul (2 terços) e prefeitura de Campo Grande (1 terço), mandou publicar na revista Veja (página dupla) e nos jornais O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, O Globo, Correio Braziliense e Jornal do Brasil (páginas inteiras), matéria produzida pelo marqueteiro Chico Santa Rita. O custo não foi revelado, mas calculou-se um valor próximo a 1 milhão de reais (10).

Matéria publicada na revista Veja que circulou em 06/03/2009 (data de capa, 11/03/2009):

copantanal2

09/03/2009

Radar On-line, de Lauro Jardim:

 COPA 2014

Bola Fora

 Hoje, o governo de Mato Grosso do Sul desperdiça verba pública com um anúncio de página inteira nos três principais jornais do país (O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo) para dizer que “a escolha de Campo Grande como subsede Pantanal da Copa do Mundo de 2014 é uma decorrência natural da sua localização geográfica, do seu potencial eco-turístico (…)” etc. etc. etc.

 O texto leva a crer que a escolha já está sacramentada. Mentira. A decisão será anunciada dia 20. Mas, o.k., deve estar sobrando dinheiro do Mato Grosso do Sul… Então, por que não gastar, não é mesmo?

 Na CBF o tal anúncio causou irritação e desconforto, não necessariamente nesta ordem. (11)

11/03/2009:

Fifa adia para maio anúncio das 12 subsedes

A Fifa divulgou comunicado hoje, informando nova data e local onde serão anunciadas as 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, que será disputada no Brasil. Com isso a disputa entre Campo Grande e Cuiabá (MT) será estendida por mais dois meses. Isso porque, o anúncio, que seria feito durante a reunidão do Comitê Executivo nos dias 19 e 20 de março, em Zurique, agora será no fim de maio, durante outra reunião da entidade. (12)

31/05/2009:

Várzea Grande Notícias:

Com Lágrimas nos Olhos…

Com lágrimas nos olhos, o prefeito de Campo Grande, Nelson Trad Filho, lamentou a derrota na disputa por uma das vagas de subsede da Copa do Mundo de 2014 e agradeceu à população que foi à avenida Afonso Pena acompanhar através de um telão a divulgação das cidades-sedes.

“Quero saber onde eu errei porque acredito que minha cidade é superior. Campo Grande deveria estar entre as escolhidas. Em todos os critérios apresentados Campo Grande era superior”, afirmou à imprensa. (13)

Campo Grande News:

Campo Grande perdeu por politicagem

“Foi tapetão”, afirmou, categórico, o governador André Puccinelli (PMDB) sobre a decisão da Fifa (Federação Internacional de Futebol), que escolheu Cuiabá e excluiu Campo Grande da Copa 2014.

“Cumprimos os critérios técnicos, o Pantanal é no Estado, o legado da Copa seria para os universitários, a Folha de São Paulo mostrou que temos 2 mil leitos a mais que Cuiabá”, citou o governador durante entrevista ao jornal Bom Dia MS, da TV Morena.

Emocionado, Puccinelli enfatizou que os quesitos técnicos favoreciam a capital. “Foi tapetão, foi politicagem e disseram que não haveria politicagem”, lamentou. (14)

01/06/2009:

Correio do Estado, página 9a:

Campo Grande está fora da Copa de 2014

Os indícios da semana passada foram confirmados ontem pela Fifa: a exclusão de Campo Grande da lista de candidatas a uma das 12 subsedes da Copa de 2014. A Fifa escolheu Cuiabá (MT) para ser a cidade que sediará os jogos na região do Pantanal.

Do saite de Chico Santa Rita:

Chico Santa Rita é chamado por André Puccinelli, governador do Mato Grosso do Sul e por Nelsinho Trad, prefeito de Campo Grande, para coordenar a campanha Copantanal 2014, em que o objetivo era fazer da capital de MS, uma das doze cidades sedes da copa, em 2014. Mesmo tendo sido alertado que haviam sérios indícios de que as cidades sede estavam previamente escolhidas, pela CBF/FIFA, é feita uma grande campanha de mobilização, que coloca mais de 200 mil pessoas nas ruas da cidade clamando pela escolha, que acabou não acontecendo. (15)

Interpretação Literária:

O Blefe

No início do ano de 2009 se delineava que Cuiabá há já um bom tempo fazia articulações políticas para obter a indicação como 12ª subsede para a Copa do Mundo de 2014.

Parece que setores das cúpulas dos Poderes do Estado de Mato Grosso do Sul e da Prefeitura de sua capital acharam que a situação desfavorável para Campo Grande só poderia ser revertida se uma excepcional, nunca vista, fantástica participação popular comovesse irresistivelmente a comissão cbf-fifeana (que viria à cidade no dia 3 de fevereiro de 2009), atraindo a subsede para a Cidade Morena.

Acharam que o prefeito Nelsinho Trad, do alto da sua esmagadora vitória eleitoral em 5 de outubro de 2008, tinha tudo para empolgar a população. Armou-se então uma grande campanha publicitária para motivar o populacho. “Quantos você consegue trazer para as manifestações nas ruas? Cem mil? Duzentas mil pessoas? Duzentas mil seria perfeito!”

No dia 3 de fevereiro, entretanto, à medida que as horas da tarde corriam, a grande massa esperada para a Avenida Afonso Pena parecia ter preferido ficar em casa, aproveitando o feriado imprevisto, ou, em ponto menor, ir às compras no Shopping e na Rua 14. Havia grande concentração popular apenas em pontos esparsos da avenida (Senai, Praça Ary Coelho, Praça do Rádio); no restante do percurso, do aeroporto até o Parque dos Poderes, apenas grupelhos de esportistas entusiasmados.

O desastre se anunciava; 20 mil pessoas no trajeto não impressionaria ninguém. Foi quando um Professor Pardal  acrescentou um zero no número disponível e disse a frase salvadora, enquanto a comissão da FIFA-CBF, ainda no aeroporto, acabava de se instalar na parte superior (aberta) do ônibus da CityTour. “A Polícia Militar estimou a presença de 200 mil pessoas na avenida!”

A partir daí a cifra 200.000 foi repetida por todos, como um mantra. Nenhum jornalista se deu ao trabalho de avaliar por si mesmo ou de procurar confirmação junto à entidade citada. Importante não era a verdade, mas “vestir a camisa” bairrista…

Os membros da comissão visitante, porém, tinham olhos para ver por si mesmos, e certamente não viram multidões nos longos trechos onde só havia gatos pingados. Mas guardaram as suas impressões para si mesmos e engoliram em seco o blefe acintoso. E as autoridades locais continuaram repetindo o mantra salvador, certos de que a repetição criara a realidade sonhada.

E os saites de notícias, e os jornais da cidade, e os correspondentes dos jornalões paulistas também repetiram o mantra dos 200 mil. Mas não havia fotos em grande angular ou aéreas, básicas na mostra de grandes multidões. Só tomadas curtas, rasteiras, limitadas. Nesta nossa Era Visual, as palavras por si só não convencem ninguém. A não ser os que já estão convencidos, os crentes. E no noticiário pouca gente acreditou. Entre estas, as autoridades locais, que não queriam “dar o braço a torcer”.

E a crença das autoridades foi ainda mais longe. Certos de que a “realidade” deles contaminara não apenas a sociedade sul-matogrossense, mas o Brasil inteiro, resolveram montar, como coup de grâce nos pretensos simplórios da FIFA-CBF, a campanha publicitária na mídia do Rio e São Paulo. Um movimento digno dos grandes generais, devem ter pensado. Mas era apenas uma extensão daquele blefe manjado, uma e outro incapazes de enganar os experientes jogadores do outro lado.

Conclusão

Não acredito que a perfomance do prefeito e do governador nestas tramas futebolísticas tenha trazido ao Estado e Prefeitura danos outros que não o do gasto injustificável do milhão de reais. Como subsede, Campo Grande veria o surgimento de um novo elefante branco (a “arena”), sobreposto ao elefante branco antigo (o “Morenão”). Sem a subsede, as verbas que não foram aplicadas na “reforma” do Morenão se direcionaram a outras construções e projetos (se não em elefantes brancos menores ou em sumidouros diversos).

 Mas do episódio todo sobraram não apenas lições preciosas para o eleitor atento como também um bom texto literário. Refiro-me ao conto, ou crônica, ou stand-up, de Guto Dobes, intitulada “Eu, o taxista, a minha inveja e a Copa de 2014”, que merece leitura em voz alta (16).

____________________
(1) http://dedoemriste.blogspot.com.br/2008/12/copa-2014-campo-grande-x-cuiab.html
(2) http://dedoemriste.blogspot.com.br/2009/01/copa-2014-novo-round.html
(3) http://www.campograndenews.com.br/politica/nelsinho-diz-que-populacao-esta-entusiasmada-com-copa-01-12-2009
(4) http://www.campograndenews.com.br/politica/campanha-de-ms-pela-copa-mexe-com-cuiaba-01-23-2009
(5) http://www.campograndenews.com.br/politica/campo-grande-tera-campanha-agressiva-contra-mt-por-copa-01-23-2009
(6) https://timblindim.wordpress.com/2009/02/03/euforia-futebolistica/
(7) http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas/2009/02/03/ult59u186363.jhtm
(8) http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,200-mil-recebem-comitiva-da-fifa-em-campo-grande,317968,0.htm
(9) http://dedoemriste.blogspot.com.br/2009/02/copa-2014-escolha-jogo-viciado.html
(10) http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=474603
(11) http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/arquivo/copa-2014bola-fora/
(12) http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=475231
(13) http://www.olhardireto.com.br/noticias/exibir.asp?id=28101
(14) http://www.olhardireto.com.br/noticias/exibir.asp?id=28195
(15) http://www.chicosantarita.com.br/site/index2.php?pagina=principaisCampanhas-c
(16) http://www.midiamax.com/pontodevista/?pon_id=511

Capítulo 3: A Voçoroca da Avenida Lino

AnacheTaquaral6

Localização

No rumo Nordeste, a partir do centro da cidade, localizam-se as vilas Jardim Anache – Jardim Colúmbia (ao norte do trevo da saída para Cuiabá), e Estrela D’Alva – Taquaral Bosque (a oeste do anel rodoviário que demanda o citado trevo). As voçorocas que surgiram nesses locais distavam, uma da outra, cerca de 4,5 quilômetros.

Cronologia:

09/03/2008:

A Avenida Lino Villachá, que nasce no trevo da saída para Jaraguari, tangencia o Jardim Anache (quando se abre para o início da Rua Faride Georges) e sobe suavemente até a entrada das terras do Hospital São Julião, 800 metros depois.

Na parte da tarde, bem próximo da bifurcação, no ponto em que a avenida recebia uma carga fortíssima das águas pluviais do Anache, o solo do lado direito, que avançava em declive pela mata, começou a derruir. Mais tarde a erosão chegou ao asfaltamento e o foi solapando, abrindo, ao final, cratera com 50 metros de largura e, naquele espaço, 10 metros de profundidade.

As águas barrentas (das ruas sem calçamento e portanto sem bueiros) também alagaram, na sua passagem, várias casas próximas da avenida e das ruas adjacentes.

Na manhã seguinte o prefeito Nelsinho Trad e técnicos da Secretaria Municipal de Obras Públicas (SESOP) visitaram esse local e um outro, a alguns quilômetros dali, na Avenida Cônsul Assaf Trad, onde se formara cratera um pouco menor. (1)

13/03/2008:

O Diário Oficial do Estado, desse dia, traz decreto em que o governador André Puccinelli homologa o decreto municipal que estabelece situação de emergência (por 90 dias) relativa às áreas afetadas pela forte pluviosidade do dia 9. (2)

01/07/2008:

Foi assinado, nessa data, convênio entre a prefeitura e o Ministério da Integração Nacional, no valor de R$ 9.690.401,55, em que o ministério entraria com R$ 8.721.361,39 e o município, como contrapartida, com R$ 969.040,16.

Objeto: Prevenção a Desastres – Infra-Estrutura Urbana – Bacia do Córrego Botas 2 – Jardim Anache e Jardim Colúmbia em Campo Grande/MS, Local: Rua Elias Chacha, Rua Manche Catan David, Rua Sebastião Gomes Monteiro, Rua Jacob Georges, Rua Farid Georges, Avenida Lino Villachá, Rua Pixuana, Rua Urariocara, Rua Tapauá, Avenida Carumã, Avenida Uraçá. (3)

Daquele valor o governo federal liberou, entre 7 e 13 de julho de 2008 (4), R$ 7.053.360,44.

06/08/2008:

Aviso de Resultado sobre a Concorrência nº 053/2008, informa que a empresa Pactual Construções Ltda. foi escolhida para executar as obras relativas ao Convênio supracitado. (Diário Oficial de Campo Grande – MS nº 2597, de 06/08/2008).

O semanário “A Crítica” de 07/09/2008 asseverava que, tendo saído o resultado da licitação, “em seis meses devem estar prontas as obras de prevenção de enchentes, com drenagem, pavimentação e controle da erosão”.

26/01/2009 (5):

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Avenida Lino Villachá. Ao fundo, no centro, entrada para as terras do Hospital São Julião.

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A mesma cratera, vista do outro lado. À direita, escola municipal.

A voçoroca adentrando a mata da reserva legal do São Julião.

A voçoroca adentrando a mata da reserva legal do São Julião.

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A degradação se repetia na outra ponta da mata.

19/05/2009:

O prefeito Nelsinho Trad visitou as obras e asseverou (6):

“A obra está em fase final. Fizemos a drenagem de todos os bairros vizinhos, recuperamos a escola municipal Nazira Anache e estamos prestes a fechar definitivamente o buraco. Com este trabalho, a água vai correr de forma correta, para onde sempre deveria ter corrido, através da organização do sistema de drenagem, caindo no Córrego Botas. Em mais três meses a obra estará concluída”.

18/03/2010:

O Capital News visitou o Jardim Anache, constatando que a voçoroca ainda estava aberta, “atrapalhando o acesso de moradores”. Instado por esse saite, a prefeitura informou que “o buraco permanece porque é preciso terminar a terceira e última barragem necessária para conter o córrego que passa naquela região”. Se não chovesse, em 15 dias o buraco deveria ser tapado. (7)

06/08/2010:

A cratera foi tapada. Na parte da manhã o prefeito inaugurou a tubulação que liga a Avenida Lino Villachá ao local, 300 metros abaixo, no interior da mata, onde o terreno se apresenta estável e com pequena declividade. Nesse local (parte mais ao fundo da área assoreada mostrada na foto acima), também inaugurado, foi construída uma lagoa (com área de aproximadamente 3.000 m2) para recepção das águas dos tubos e dissipação de sua velocidade. Desse ponto as águas são direcionadas para uma câmara de retenção temporária, e daí para um piscinão (com paredes de 3,5 metros de altura) capaz de armazenar, liberando-as lentamente na direção do Córrego Botas, até 25 milhões de litros de água. A ilustração abaixo procura mostrar a situação do local quando da inauguração.

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Para dar melhor idéia do conjunto de obras, vali-me de uma abstração: “retirei” os taludes que sustentam o muro de gabião próximo aos bovinos e a parede mais próxima do reservatório de concreto.

Segundo o Secretário de Obras, Antonio de Marco, ainda faltava pavimentar 50 mil m2 das ruas e avenidas do Jardim Anache e do Jardim Colúmbia, o que deveria “ser feito em breve”.(8)

28/02/2012:

O Ministério da Integração Nacional liberou a parcela final do Convênio, no valor de R$ 1.668.000,95. (3)

01/03/2012:

Informa o Correio do Estado que a prefeitura iria executar drenagem e pavimentação de 7,4 quilômetros de ruas no Jardim Anache, nas proximidades do Hospital São Julião, com a liberação de R$ 1.668.000,95 pela Secretaria Nacional de Defesa Civil, saldo do convênio 374 de 2008. Pelo projeto estaria previsto o asfaltamento das ruas Elias Chacha, Manche Catan Davi, Sebastião Gomes Monteiro, Jacob Georges, Farid Georges, Pixuana, Tapuá e o recapeamento da Rua Lino Villachá, acesso ao Hospital São Julião. (9)

A matéria do jornal aproveita para informar que os recursos do Convênio de 9,6 milhões “se destinaram às obras de controle da erosão (…), incluindo drenagem e pavimentação de 75 mil metros quadrados nos bairros Jardim Colúmbia e Anache. Com os 7 milhões que já tinham sido liberados (…), a prefeitura executou as obras” no fundo de vale “e fez 25 mil metros quadrados de pavimentação das avenidas Carumã e Uraçá e a rua Urariocara”, obras inauguradas em agosto de 2010.

10/12/2012:

O prefeito em exercício, Edil Albuquerque, inaugurou “cerca de 10 quilômetros de asfalto e rede de drenagem nos bairros Colúmbia e Anache”, dando por concluídas as obras que visavam resolver o problema da voçoroca da região.(10)

11/03/2013 (11):

AvenidaLino

Avenida Lino Villachá, com a área da antiga cratera agora recuperada. À direita, ponta do muro da escola municipal, na Rua Faride Georges.

RuaPurus

Fim do primeiro trecho da Rua Purus. A área após o colchete (porteira de arame) é da Prefeitura, cedida em comodato. O muro de 2,5 metros de altura protege a mata.

ProlongamentoPurus-Piscinao

Continuação do muro mostrado na foto anterior. Ele inflete para a esquerda, acompanhando a mata, e tangencia a câmara de retenção e área norte do piscinão.

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À esquerda, a câmara de retenção; à direita, o piscinão. Foto tirada do ponto 1 da ilustração.

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Entre duas paredes de gabião, o vertedouro de concreto. Foto tirada do ponto 2 da ilustração.

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O vertedouro do piscinão. Foto tirada do ponto 3 da ilustração.

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O piscinão. Ao fundo, próximo ao muro, a câmara de retenção. Foto tirada do ponto 4.

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Piscinão. Um fio d’água corre para o vertedouro. À esquerda, parede de gabião coberta por lianas e trepadeiras. Ao fundo, casas do Jardim Colúmbia. Foto tirada do ponto 5.

Conclusão

Parece que foram montados, para resolver o problema da voçoroca, um bom projeto e, apesar da excessiva e inexplicada demora, uma boa execução, como se pode ver pelas fotos acima, tiradas 2 anos e meio depois da conclusão das galerias e piscinões do fundo de vale. A Natureza está se recompondo bem nos locais antes degradados.

Faltou a Prefeitura informar o valor parcial do orçamento do Convênio que ficou com essas galerias e piscinões, e o outro valor parcial que foi destinado ao asfaltamento e construção de guias, sarjetas e tubulação nas vias públicas do Jardim Anache e do Jardim Colúmbia. Informou a metragem total dos asfaltamentos (75.000 m2), mas não a metragem (linear) das galerias e das guias e sarjetas.

Quanto à divisão dos valores, pode-se apenas especular, com base nas informações das fontes 8 e 9, que o asfaltamento de 75.000 m2 e a implantação de guias e sarjetas nas suas laterais levou cerca de R$ 2.500.000,oo, enquanto a construção de galerias e tubulações (quantos metros lineares de cada?), lagoa e piscinão, consumiram cerca de R$ 7.100.000,00.  De qualquer forma, conseguiu-se extrair das autoridades (se forem corretas as nossas ilações) pelo menos um parâmetro: o custo de R$ 33,36 por metro quadrado de asfaltamento (incluidas as obras complementares, de guias e sarjetas) das ruas do Jardim Anache (Elias, Manche, Sebastião, Jacob, Farid e Lino) e do Jardim Colúmbia (Tapauá e Pixuana). O asfaltamento anterior, em 2010, de três vias no Jardim Colúmbia (avenidas Carumã e Uraçá, rua Urariocara) deve ter tido o mesmo custo ou custo inferior.

____________________

(1) http://www.midiamax.com.br/noticias/318400

(2) http://www.capitalnews.com.br/ver_not.php?id=44395&ed=Geral&cat=Not%C3%ADcias

(3) http://www.portaldatransparencia.gov.br/convenios/DetalhaConvenio.asp?CodConvenio=627041&TipoConsulta=0

(4) http://www.correiodoestado.com.br/noticias/prefeitura-vai-asfaltar-trecho-entre-columbia-e-anache-com-r_142699/

(5) https://timblindim.wordpress.com/2009/01/26/vocoroca-suburbana/

https://timblindim.wordpress.com/2009/01/27/ainda-a-vocoroca/

(6) http://www.pmcg.ms.gov.br/cgnoticias/noticiaCompleta?id_not=2129

(7) http://www.capitalnews.com.br/ver_not.php?id=89271&ed=Geral&cat=Not%EDcias

(8) http://www.capitalnews.com.br/ver_not.php?id=97404&ed=Geral&cat=Geral

(9) http://www.correiodoestado.com.br/noticias/prefeitura-vai-asfaltar-trecho-entre-columbia-e-anache-com-r_142699/

(10) Correio do Estado, 11/12/2012, matéria “Edil inaugura obras…”, página 14.

(11) Fotos do autor.

Capítulo 4 : A Voçoroca do Taquaral Bosque

A vila Taquaral Bosque situa-se na zona nordeste da cidade, fazendo divisa com as vilas Estrela D’Alva (a oeste) e Jardim Montevidéu (ao norte), e também com o Anel Rodoviário (a leste).

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Cronologia

01/02/2005:

O saite Midiamax dava conta de que “uma cratera de quatro metros de profundidade e mais de 12 metros de extensão engoliu metade da rua Getuliana”, no Taquaral Bosque, periferia nordeste de Campo Grande.

Segundo um morador, “o último reparo realizado pela prefeitura no local ocorreu há 1 ano. Porém, após as chuvas de janeiro” o problema retornou.

Outro morador “revelou que há dois anos a mesma cratera tomou conta da rua (…) e chegou até o portão da residência dele”. (1)

26/12/2007:

Informava o saite Campo Grande News que nesse dia o prefeito Nelson Trad Filho conseguira, junto ao Ministério da Integração Nacional, R$ 1.800.000,00 para obras de pavimentação na Vila Nhá-Nhá (1 milhão) e para “as obras de combate à erosão existente” no Taquaral bosque (800 mil). (2)

29/02/2008:

O Ministério da Integração Nacional empenhou R$ 750 mil solicitados pelo senador Delcídio do Amaral e o prefeito Nelson Trad Filho para obras de macro-drenagem no Taquaral Bosque.(3)

22/07/2008:

Contrato 277, celebrado entre a prefeitura e a empresa Nautilus Engenharia Ltda., extrato no Diogrande 2590, de 28/07/2008, pág. 5:

Objeto: Execução de obras visando o programa PPI – Intervenção em favelas obras de saneamento integrado complexo Vila Popular – Taquaral Bosque, em Campo Grande – MS.

Prazo: 270 (duzentos e setenta) dias consecutivos, a contar do recebimento da Ordem de Execução dos Serviços pela CONTRATADA.

Dotações: (…) FR: 03 200721 CONT. 21859596/07/CEF/SANVP-PAC

26/02/2009:

Cratera com “40 metros de largura e aproximadamente 10 metros de profundidade”, junto à nascente do Córrego Desbarrancado estava ameaçando as casas de cinco famílias. A voçoroca começava junto à ponte do Anel Rodoviário e avançava até as proximidades dessas casas.

De acordo com moradores, “o problema começou depois de obras, quando foram instaladas duas linhas coletoras” de águas pluviais, nas vilas Montevidéu e Estrela D’Alva e no próprio Taquaral Bosque.

Conforme uma moradora, “a cratera, há 10 anos, estava a 100 metros de sua casa. Hoje, 15 metros separam a porta de sua residência do buraco gigantesco”. (4)

28/02/2009:

Técnicos da Emha, empresa municipal de habitação, começaram a retirar 22 famílias com casas nas proximidades da voçoroca. Essas casas estavam construídas nas áreas cedidas em comodato pela prefeitura. (5)

10/03/2009:

Do Campo Grande News:

“Sem parar de avançar contra as casas do Taquaral Bosque, a cratera formada às margens do córrego Desbarrancado continua a aterrorizar as famílias que ainda não foram removidas do local”

A forte chuva do dia anterior fez com que parte de uma das casas, já desocupada, “fosse engolida pelo buraco que só aumenta a cada chuva.

A voçoroca já estava a 5 metros da Rua Getuliana.(6)

12/03/2009:

Do Correio do Estado (7):

“A prefeitura espera assinar, na próxima semana, o contrato com a Caixa Econômica Federal para a liberação de R$ 8,5 milhões. O dinheiro será investido nas obras de drenagem e pavimentação dos bairros localizados na região. (…) a obra está incluída no PAC, principal programa do governo” federal.

O valor investido em caráter emergencial (força-tarefa) para conter a erosão “não foi divulgado pela prefeitura”.

12/03/2009: (8)

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A voçoroca chegava aos limites da Rua Getuliana, vista ao fundo.

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O mesmo local, visto da Rua Getuliana. Em primeiro plano, casa demolida. Ao fundo, carreta passando pelo Anel Rodoviário, a 350 metros de distância.

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Aqui, a 120 metros da ponte do Anel Rodoviário, havia uma precária barreira de terra (com mantas asfálticas para estabilizar o talude e com escoadouro de concreto). Essa obra do Dnit, realizada 1 ano atrás, havia desabado dias antes.

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A mesma barreira desmantelada, vista do outro lado da voçoroca. A grande caixa de concreto, agora tombada, era o escoadouro.

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Do local contíguo à antiga represa tinha-se esta vista do Anel Rodoviário e da ponte sobre o Córrego Desbarrancado.

24/03/2009: (9)

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Murundum feito para impedir a passagem de novas enxurradas em direção à voçoroca. Localiza-se onde deveria estar o passeio da Rua Getuliana.

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Avançando-se alguns passos a partir do ponto de vista da foto anterior, tinha-se esta vista da voçoroca. O final das duas tubulações, que vêm de ruas asfaltadas (a algumas quadras de distância) foi reconstituído.

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Aqui não havia escoadouro. A água encontrava passagem entre as pedras. Ao fundo, braço da voçoroca principal.

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A mesma barragem. Ao fundo e mais à direita, manilha exposta, no referido braço.

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A barragem, com cerca de 4 metros de altura, vista da ponte do Anel Rodoviário.

30/03/2009:

Do Campo Grande News:

O prefeito Nelsinho Trad afirmou que a partir desta segunda-feira irá fiscalizar as obras que estão sendo executadas.

“A partir de hoje vou tirar um turno por dia para ver as obras in loco, para cobrar das empresas responsáveis agilidade”, declarou. A prefeitura tem sido criticada pela morosidade na entrega.

O secretário João Antonio de Marco informou ao saite que a prefeitura fez uma barragem de pedras, provisória, num ponto da voçoroca, mas que em seguida iria fazer “a obra definitiva” e recuperar integralmente a área degradada. Já estariam garantidos recursos do PAC do governo federal, no valor de 9,2 milhões de reais. (10)

19/05/2009:

Do saite da prefeitura:

A erosão do Taquaral Bosque, que ameaçava muitas famílias na região, está com os dias contados. A força-tarefa que a Prefeitura Municipal de Campo Grande mobilizou para dar um fim ao problema está trabalhando para concluir as obras de drenagem e pavimentação da área degradada, e para finalizar as 56 casas que receberão as famílias ameaçadas, em um período máximo de seis meses.

“Em breve, a famosa erosão do Taquaral Bosque será coisa do passado. Em 30 ou 40 dias as obras das casas estarão concluídas e a drenagem e pavimentação asfáltica de todo o Taquaral Bosque e Jardim Montevidéu serão concluídas em mais seis meses, no máximo”, assegurou o prefeito Nelson Trad Filho, que na manhã de hoje visitou as obras.

12/06/2009:

Nada mais havia sido feito, no Taquaral Bosque, além do empedramento do ponto, junto à Rua Getuliana, em que duas tubulações lançavam águas pluviais na voçoroca, e além da construção da barreira de pedras a 120 metros do Anel Rodoviário.

Esclarecia o saite Mídia Max News (11) que o problema surgira em anos anteriores, mas “com a pavimentação dos bairros vizinhos – e sem que a benfeitoria fosse acompanhada da tubulação para águas pluviais – a situação só fez se agravar. Toda a água da chuva que corre pelas ruas dos bairros asfaltados, como Carandá Bosque e Estrela D’Alva, desagua ali.”

01/07/2009:

O Diogrande 2819, de 02/07/2009 publicava extrato do primeiro aditivo ao Contrato 277/08. O valor sofria redução de R$ 50.700,11, por “diminuição de quantitativos”, passando ao valor de R$ 7.821.497,57, ratificadas as demais cláusulas e condições.

21/08/2009:

Ocorreu a entrega, pelo prefeito Nelson Trad Filho, de 56 unidades habitacionais construídas no Jardim Montevidéu. Uma parte delas foi destinada às famílias desalojadas (em março) da área de risco do Taquaral Bosque, vila vizinha. Nesse novo loteamento, cada lote tinha área construída de 31,56 m2, e custaram, no conjunto, R$ 789.664,40, oriundos do Tesouro Nacional e pagos à Conseng Consultoria e Engenharia Ltda., conforme Contrato nº 04/2009, celebrado em 09/03/2009. (12)

15/10/2009:

Do saite Campo Grande News (13):

Concluído recentemente, parte do asfalto do bairro Taquaral Bosque não resistiu à primeira chuva e cedeu no fim de semana. Pedaços da cobertura asfáltica que ficaram espalhados pelo local revelam a espessura do asfalto, que não ultrapassa dois centímetros.

Segundo moradores do bairro, a água desceu com tanta força que levantou manilhas da Rua Getuliana. O problema mais grave foi no cruzamento com a Rua Luciano Ota Peres.

19/10/2009:

Do saite da prefeitura (14):

Com as obras em 98% do asfalto e 90% de drenagem e barragem concluídas, o complexo do Taquaral Bosque entrou na reta final de execução. Na manhã desta segunda-feira Nelson Trad Filho vistoriou a obra.

“O principal objetivo desta obra foi a recuperação da erosão, ocasionada pela falta de drenagem. Vamos, assim, resolver mais um problema (…) e transformar este local em um espaço de lazer, com praça de múltiplo uso”.

O próximo passo agora é o início do parque linear, que contará com mais de 68 mil metros quadrados de área e, no local, está a nascente do Córrego Desbarrancado.

10/01/2010:

Do saite Midiamax News (15):

O antigo problema da cratera no bairro Taquaral Bosque (…) foi parcialmente resolvido, segundo moradores da região. A cratera [recebeu aterramento parcial e] agora está a cerca de cem metros de distância do conjunto de casas.

De acordo com o presidente do bairro, Antonio Chapurá, “existe um projeto na prefeitura para a construção de um parque aqui, além do término do asfaltamento. Falta apenas 10% para terminar o asfalto aqui no bairro.”

05/02/2010:

Na agenda do prefeito (16), ele daria como terminadas as obras de drenagem e asfaltamento do Taquaral Bosque e ruas das vilas vizinhas. De acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura, foram feitos 7.461 metros de drenagem e 120.018,45 m2 de pavimentação asfáltica.

O parque linear esperava pelos recursos federais do PAC-2.

20/03/2013 (fotos do autor):

Rua Panônia, em manhã chuvosa. Lá embaixo, à direita, o Taquaral Bosque.

Rua Panônia, em manhã chuvosa. Lá embaixo, à direita, o Taquaral Bosque.

Rua Getuliana, logo após o seus início, na Rua Panônia. À esquerda, na clareira, local do início da antiga voçoroca.

Rua Getuliana, logo após o seu início, na Rua Panônia. À esquerda, na clareira, local do início da antiga voçoroca.

A quadra de esportes construída. Pouco depois, rua que recebe parte da tubulação para águas pluviais.

A quadra de esportes construída. Pouco depois, rua que recebe parte da tubulação para águas pluviais.

A tubulação sob esta rua segue até o leito do Córrego.

A tubulação sob esta rua segue até o leito do Córrego.

Próximo à quina posterior-esquerda da quadra, o ponto em que o aterro parou, deixando à mostra braço da antiga erosão.

Próximo à quina posterior-esquerda da quadra, o ponto em que o aterro parou, deixando à mostra braço da antiga erosão.

Na parte não aterrada da antiga voçoroca, leucenas vão formando um bosque intricado.

Na parte não aterrada da antiga voçoroca, leucenas vão formando um bosque intrincado.

À esquerda da voçoroca "domada", árvores e pastagens. Mais ao fundo vê-se uma nesga do Anel Rodoviário.

À esquerda da voçoroca “domada”, árvores e pastagens. Mais ao fundo vê-se uma nesga do Anel Rodoviário.

Ao fundo, a barragem de pedras, vista da ponte do Anel Rodoviário.

Ao fundo, a barragem de pedras, vista da ponte do Anel Rodoviário.

Ainda a barragem. Como se vê, a Natureza vai recompondo a área. Formou-se uma lagoa estreita no leito do córrego Desbarrancado.

Ainda a barragem. Como se vê, a Natureza vai recompondo a área. Formou-se uma lagoa estreita no leito do córrego Desbarrancado.

Vista do alto da barragem de pedras. A lagoa estreita que substituiu o antigo fio d'água do córrego e, ao fundo, a ponte do Anel Rodoviário.

Vista do alto da barragem de pedras. A lagoa estreita que substituiu o antigo fio d’água do córrego e, ao fundo, a ponte do Anel Rodoviário.

Conclusão

As obras emergenciais de 2009 (a drenagem feita nas ruas dos bairros a montante da nascente do córrego, o empedramento dos locais onde a tubulação despeja as águas pluviais e a construção da barragem de pedras, a 200 metros da Rua Getuliana) resolveram o problema. Falta apenas a prefeitura não esquecer das vistorias periódicas, para impedir que alguma pequena ocorrência vá se repetindo, vá crescendo e vá preparando novo desastre.

Nota-se que a Natureza se recompõe em toda a área, sendo desnecessário repetir os caros piscinões da voçoroca da Avenida Lino (a barragem de pedras cria um piscinão natural, controlando adequadamente a velocidade e a vazão das águas em direção ao Córrego Botas). É verdade que o prefeito Nelsinho Trad, entre 5 de fevereiro de 2010 e o final de seu mandato, nunca desistiu de implantar no local caros projetos de macro-drenagem e de um parque linear. Felizmente, para os cofres públicos, não obteve êxito, apesar das inúmeras ameaças, ops, promessas.

____________________

(1) http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=135150

 (2) http://www.campograndenews.com.br/politica/trad-consegue-recursos-para-obras-na-nha-nha-e-taquaral-12-26-2007

 (3) http://www.campograndenews.com.br/politica/ministerio-libera-r-750-mil-para-drenagem-no-taquaral-02-29-2008

 (4) http://www.campograndenews.com.br/cidades/cratera-ameaca-engolir-casas-no-bairro-taquaral-bosque-02-26-2009

 (5) http://www.capital.ms.gov.br/cgnoticias/noticiaCompleta?id_not=1342

 (6) http://www.cidademorenanoticias.com.br/noticias/ver/15579

(7) Correio do Estado de 12/03/2009, página 11a.

(8) https://timblindim.wordpress.com/2009/03/12/vocorocas-anunciadas/

(9) https://timblindim.wordpress.com/2009/03/24/noticias-da-vocoroca/

(10) http://www.campograndenews.com.br/cidades/nelsinho-diz-que-vai-fiscalizar-obras-todos-os-dias-03-30-2009

(11) http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=515761

(12) http://www.capital.ms.gov.br/cgnoticias/noticiaCompleta?id_not=3757

(12) Fonte complementar: Diogrande nº 2757, de 27/03/2009, pág. 11.

(13) http://www.campograndenews.com.br/cidades/primeira-chuva-leva-asfalto-no-bairro-taquaral-bosque-10-15-2009

(14) http://www.capital.ms.gov.br/cgnoticias/noticiaCompleta?id_not=4526

(15) http://www.midiamax.com.br/view.php?mat_id=677186

(16) http://www.capital.ms.gov.br/cgnoticias/noticiaCompleta?id_not=5780

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Capítulo 5 : O Assalto à Casa do Prefeito

Cronologia

05/05/2009:

Pouco depois das 19 h 30 min o prefeito Nelsinho Trad chegava à sua casa, no Jardim dos Estados, em veículo dirigido por seu motorista. O prefeito entrou na casa, onde não havia outras pessoas, e o motorista se dirigiu à guarita do vigia. Sorrateiramente dois homens seguiram o motorista e o renderam juntamente com o vigia, amarrando-os com cordões de tênis.

Um dos bandidos ficou vigiando os empregados e o outro juntou-se a dois outros homens que se haviam aproximado, e rumaram os três para o interior da residência. Encontraram o prefeito fazendo a barba e o renderam, amarraram e fizeram com que se deitasse no chão. Disseram saber da existência de uma grande quantia na casa, e intimaram o prefeito a entregá-la. Nelsinho afirmou que esse dinheiro não existia e nem mesmo havia cofre na casa, o que provocou ameaças por parte do bando. Um dos homens chegou a pisar levemente em sua cabeça, afirmando-se disposto a cortar-lhe um dedo da mão caso não fosse atendido. Outro bandido fingiu repreendê-lo: “Não faz isto, Cara! O prefeito é do Bem!”.

Os bandidos, que não se preocuparam em esconder os rostos, reviraram apressadamente o quarto e se retiraram, “levando apenas algumas jóias que encontraram e um álbum de retratos” da família do prefeito.

Não se sabe como Trad se libertou das amarras, mas quando isto aconteceu ele telefonou para o vereador Paulo Pedra relatando os fatos. (1)(2)

07/05/2009:

O Correio do Estado desse dia informava que os bandidos estavam, durante o assalto, “fortemente armados” e levaram, além de algumas jóias e um álbum de fotografias, ternos, uma garrucha e uma espingarda de marca Rossi. Do segurança levaram o celular e um revólver calibre 38. Sobre o álbum, a Polícia aventou inicialmente a hipótese de ter sido levado para provar ao mandante que o assalto ocorrera efetivamente na casa da pessoa visada, procedimento que seria típico de facção criminosa.

“Durante a ação criminosa, que durou pelo menos 40 minutos, os bandidos se comunicavam por telefone celular na modalidade de teleconferência”, e com frequência um deles garantia a interlocutor do outro lado da linha que a ação estava sendo “coisa de profissional, não de amador”.

A Polícia Civil, que pretendia manter as investigações sob sigilo, acreditava que a quadrilha fosse composta por 5 ou 6 pessoas. Iria apresentar acervo fotográfico de criminosos, à espera de que algum deles fosse reconhecido pelas vítimas.

Segundo o deputado estadual Marquinhos Trad, irmão do prefeito, um delegado explicou, sobre o álbum, que, como o filho de Nelson havia sido assaltado alguns dias antes, em frente à casa, e o caso não fora divulgado, o mandante poderia ter ficado em dúvida se os criminosos haviam de fato cumprido a tarefa conforme a encomenda. “Por conta disso o mesmo grupo pode ter voltado”, sendo obrigado a apresentar algo que provasse terem estado de fato na casa do prefeito. Marquinhos ressaltou que os bandidos “não fizeram questão de esconder o rosto e deixaram impressões digitais por todo o quarto”. (3)

08/05/2009:

Pista falsa: a Polícia encontrou um Fiat Palio Weekend abandonado numa rua do bairro Jardim dos Estados. Achou que ele poderia ter sido usado na execução do assalto à casa do prefeito. Comprovou-se depois que ele fora roubado num bairro distante dali, sendo autores do roubo outros assaltantes, sem ligação com o crime investigado. (4)

09/05/2009:

Foi preso o marginal Anderson, tido pela Polícia como “cabeça de disciplina”, responsável pelo aliciamento de menores para uma facção criminosa. No dia anterior, na Vila Margarida, ocorrera a prisão de dois homens e a apreensão de um adolescente.

Aventou-se a hipótese de Anderson ter comandado o assalto à casa do prefeito. (5)

22/05/2009:

Moacir, pequeno empresário do ramo gráfico e dono de uma livraria que atua junto a um estabelecimento de ensino de Campo Grande, foi preso como suspeito de ter planejado o assalto à casa do prefeito. (6)

25 05/2009:

O GARRAS – Grupo Armado de Resgate e Repressão a Assaltos e Sequestros – informava ter esclarecido o crime, graças à informação, prestada por Anderson, de que a contratação dos assaltantes do filho do prefeito fora feita pelo marginal Sílvio César, a mando de um empresário conhecido como “Cora”.

O assalto ao filho do prefeito, em 30 de abril, e o assalto à sua residência, em 5 de maio, foram encomendados pelo empresário Moacir ***, de 49 anos, que justificou dizendo estar “com muitas dívidas tributárias e sem dinheiro”. Moacir teria contratado Sílvio César ***, 35 anos, conhecido como “Negão”, e este teria subcontratado outros bandidos para executar os crimes ou ajudá-lo na empreitada.

O adolescente apreeendido, 16 anos, confessou que no dia 30 de abril, juntamente com “Dede” (Deivison ***, 18 anos), roubou R$ 100,00 e o iPhone do filho de Nelsinho. Anderson ***, o “Pepe”, teria sido apenas o receptador do iPhone.

Como a dupla não cumprira corretamente as ordens de Moacir, nem chegando a entrar na casa do prefeito para “localizar o dinheiro”, Sílvio César decidiu agir diretamente e subcontratou outros três homens para ajudá-lo na ação do dia 5: Marcos Roberto ***, o “Marcão”, 38 anos, Paulo Henrique ***, 23 anos, e Marcos “Barriga”. (7)

De acordo com o delegado titular do GARRAS, Moacir “confessou que idealizou o assalto e disse que estava revoltado com o sistema e com a elevada carga tributária”. O empresário, que teria conhecido Sílvio César através de uma namorada, pretendia conseguir dinheiro para pagar as dívidas. Moacir teria transportado os quatro meliantes até as proximidades da casa do prefeito e ajudado na fuga.

Todos os suspeitos do assalto à casa já tinham sido reconhecidos pelas vítimas, que examinaram apenas fotos dos assaltantes, uma vez que todos eles se encontravam foragidos.

O GARRAS descartou o envolvimento da facção criminosa no crime. (8)

05/06/2009:

De acordo com a denúncia feita pelo Ministério Público Estadual, Moacir teria planejado os assaltos ao prefeito de Campo Grande e ao filho dele, certo de que na casa existiam R$ 6 milhões em dinheiro vivo.

Por outro lado, o adolescente apreendido na Vila Margarida informou que ele e Deivison haviam sido levados às proximidades da residência do prefeito por Anderson, o “Pepe”. Lá ainda se encontraram com Moacir e Sílvio César, e então partiram para o assalto ao filho de Nelsinho Trad. Como voltaram sem a dinheirama, Moacir, furioso, começara a arquitetar um novo plano, depois executado diretamente por Sílvio César e seus comparsas.

O processo seguiu em “segredo de Justiça”. (9)

14/06/2009:

Entrevistado pelo Correio do Estado, o juiz Odilon de Oliveira disse “ter quase certeza” do envolvimento da facção criminosa no assalto à casa do prefeito. (10)

08/06/2010:

Depois de 1 ano, com Marcão e Barriga ainda foragidos, foi realizada, na 3ª Vara Criminal do Fórum de Campo Grande a audiência para ouvir réus envolvidos no assalto à casa do prefeito, bem como as testemunhas de defesa e acusação. Os réus ouvidos foram: Moacir, denunciado como mandante do crime, Anderson (preso na Penitenciária de Segurança Máxima), Sílvio César e Paulo Henrique (ambos no Presídio de Trânsito) e Deivison.

Em frente ao fórum familiares dos réus, principalmente do empresário, protestavam contra a acusação e contra os jornalistas. Quando Moacir chegou ao prédio, seus familiares impediram o fotógrafo do Campo Grande News, João Garrigó, de fazer imagens. Os familiares, segundo o saite, alegaram que o empresário “é trabalhador honesto, mas não quiseram apresentar versões sobre o caso e ameaçaram a reportagem”. (11)

Sílvio César contou que a proposta inicial era assaltar a casa de um fiscal de rendas. Disse que Moacir queria assaltar o fiscal porque este o prejudicara. Quando o alvo passou a ser o prefeito, “o mandante passou a alegar que Nelsinho também o havia prejudicado, sem detalhar em que tipo de situação”. Explicou que Moacir dissera haver na casa 6 milhões de reais, mas nenhum dinheiro foi encontrado.

Paulo Henrique disse ter sido informado de que na casa do prefeito havia R$ 500.000,00, dos quais ele receberia R$ 5.000,00 pela participação no assalto. (12)

Conclusão

Eis uma história mal contada. E por várias razões:

1. Pelo que se sabe, a Polícia não aproveitou a excelente dica do deputado Marquinhos Trad, apontando as fartas impressões digitais deixadas pelos meliantes na cena do crime. A uma prova técnica, irrefutável, preferiu-se a “prova” medieval das delações e confissões “espontâneas”…

2. Segundo o Correio do Estado (26/05/2009), “todos os suspeitos já foram reconhecidos pelas vítimas”. Esse reconhecimento teria sido feito à vista de fotos dos meliantes suspeitos (na ocasião foragidos), com facilidade e certeza pouco usuais.

3. Não ficou explicada a questão da teleconferência. Pareceu que os bandidos seguiam um script rigorosamente monitorado, o que é incompatível com a suposta prioridade de apanhar os R$ 6 milhões (ou 500 mil).

4. Acusado por executores do assalto (Sílvio César e Paulo Henrique), com vários detalhes, o empresário Moacir apenas confessou generalidades. Aparentemente não lhe cobraram explicações sobre a origem da suposição de haver 6 milhões de reais (ou 500 mil, em outra versão) na casa do prefeito, ou sobre o intrigante furto do álbum de retratos da família do alcaide.

5. Também na fase de inquirição judicial, foram informadas as falas dos assaltantes, mas não as do pretenso mandante.

6. Nunca foi informado à imprensa o presídio ou dependência onde o empresário foi mantido prisioneiro. Quanto aos outros participantes do assalto, presos, essa informação foi passada como coisa corriqueira.

As informações incompletas e seletivas passadas à Imprensa (e mesmo o pouco interesse de certos órgãos pelo assunto) fizeram circular pela cidade várias interpretações oficiosas, desde a do juiz Odilon de Oliveira (que viu possível ação direta de uma facção criminosa) até a teoria conspiratória do “Fogo Amigo”, esta última reforçada pelo “segredo de Justiça” que pareceu proteger apenas o suposto mandante, quando normalmente é erigida para proteger as vítimas ou pessoas vulneráveis. Na dúvida, cortamos das informações acima os sobrenomes dos envolvidos.

____________________

(1) http://www.campograndenews.com.br/cidades/quadrilha-invade-casa-rende-e-agride-nelsinho-trad-05-05-2009
(2) http://www.campograndenews.com.br/cidades/empresario-imaginava-roubar-r-6-milhoes-do-prefeito-06-05-2009
(3) Correio do Estado de 07/05/2009, páginas 2A e 11A.
(4) Correio do Estado de 08/05/2009, página 12A.
(5) http://www.perfilnews.com.br/tres-lagoas/integrante-do-pcc-comandou-assalto-a-casa-do-prefeito
(6) http://www.campograndenews.com.br/cidades/empresario-e-preso-pelo-assalto-a-casa-de-nelsinho-05-22-2009
(7) http://www.perfilnews.com.br/tres-lagoas/preso-mandante-do-assalto-a-casa-de-nelsinho-trad
(8) Correio do Estado, 26/05/2009, página 11A.
(9) http://www.campograndenews.com.br/cidades/empresario-imaginava-roubar-r-6-milhoes-do-prefeito-06-05-2009
(10) Correio do Estado, 14/06/2009, página 5A.
(11) http://www.campograndenews.com.br/cidades/audiencia-ouve-testemunhas-e-reus-de-assalto-ao-prefeito-06-08-2010
(12) http://www.campograndenews.com.br/cidades/reus-nao-sabiam-que-alvo-de-assalto-era-casa-do-prefeito-06-08-2010

vdm

EM CONSTRUÇÃO

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