CGB Capítulo 1 – Janeiro de 2003

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Em janeiro de 2003 a vida seguia normal em Campo Grande. Assalariados desempenhavam suas funções, empresas lutavam por sobrevivência e expansão, instituições cumpriam seus rituais burocráticos. Nos finais de semana o Shopping, clubes, parques e balneários lotavam durante o dia, e à noite bares, o Shopping e igrejas recebiam seus fieis frequentadores.

A Cultura, em seu sentido assético e genérico, era assim homenageada:

Bairros periféricos recebiam oficinas de teatro e dança, patrocinados pela FUNCESP – Fundação Municipal de Cultura, Esporte e Lazer; 1

Na “Mostra de Verão” do Cinecultura, empreendimento do Governo Estadual, a Secretaria de Cultura pretendia “valorizar a Cultura do país” apresentando uma série de 24 filmes estrangeiros; 2

O “Projeto Viva Verão”, promovido pela Rádio Canarinho FM, contava atrair 10 mil pessoas para os shows, concursos, campeonatos e exposições apresentados na Via Parque duranto todo o domingo, 26; 3

O Governo do Estado promovia “oficinas culturais” nos parques Ayrton Senna e Jacques da Luz, com cursos de teatro, dança, capoeira, pinturas e artesanato para Carnaval;4

O ferroviário Valdemir Vieira lançava o seu livro “Noroeste do Brasil em Trilhos e Prosas”, onde se contam a saga da construção da ferrovia (principalmente em seu trecho paulista), a luta dos funcionários contra a privatização e alguns “causos” ocorridos durante a vivência ferroviária do autor.5

Permeando toda essa vida relativamente pacata e normal, tomávamos conhecimento dos dramas diários e pontuais promovidos principalmente pela desocupação, pela bebedeira e pelo Machismo. Não necessariamente nessa ordem e não necessariamente em causalidades estanques: os protagonistas, quase sempre do sexo masculino, poderiam sobrepor 2 ou 3 desses condicionantes, que resultavam em assaltos, atropelamentos e trombadas, e em ponto menor (quantitativamente) em estupros e brigas. Eis alguns exemplos:

Um taxista, entrando na Avenida Euler de Azevedo, após o cruzamento com a Avenida Tamandaré, encontra à sua frente, na faixa esquerda da pista que demanda o quartel do Exército, um veículo Gol. Como sempre fazem os taxistas, certamente “colou” no veículo, pressionando-o para que saísse da faixa, assim abrindo caminho para a ultrapassagem. O motorista do Gol não cedeu passagem, e o taxista então tomou a faixa da direita, tentando ultrapassar por ali. O veículo Gol convergiu bruscamente para essa pista, assim “fechando” o táxi e novamente impedindo a ultrapassagem. Esses movimentos de “fechada”, à esquerda e à direita, se repetiram até os dois veículos alcançarem a rotatória de acesso à Avenida Presidente Vargas. Aí o Gol novamente “fechou” o táxi, tendo seu motorista proferido palavras agressivas ao taxista. Os veículos acabaram parando, emparelhados, na Presidente Vargas, onde iniciou-se acalorada discussão, tendo o motorista do Gol chegado a cuspir dentro do táxi. Com isto o taxista tomou de um revólver e deu dois tiros, um deles acertando o motorista na nuca e levando-o à morte. No táxi havia dois passageiros, um homem e uma mulher grávida. No outro carro um sobrinho e outra pessoa acompanhavam o motorista, um comerciante.6

Numa tarde, na Rua Cândido Mariano, no Centro, 3 homens armados invadem a agência do Unibanco, rendem o vigia, fazem os clientes deitarem no chão e esvaziam os caixas, levando, segundo o gerente, pelo menos R$ 10.000,00. Depois fogem, dois deles numa motocicleta vermelha.7

Às 6 e meia da manhã, circulando pela Avenida Bandeirantes a bordo de uma caminhoneta Hilux, jovem de 24 anos “perde a direção” e o veículo se choca contra um poste da via. O jovem morre.8

No Indubrasil, uma adolescente de 13 anos sofre abordagem por 2 homens em uma moto, secundados por outros homens que vinham num carro. Ela é espancada, sequestrada, levada a uma casa do bairro e estuprada pelo grupo.9

Na Rua 26 de Agosto, no Centro, 2 homens invadem um apartamento e roubam R$ 5.000,00 em jóias, fugindo depois numa moto Titan vermelha.10

À tarde, na Avenida Tamandaré, um motoqueiro foge de uma blitz policial, mas termina batendo num caminhão e depois no portão de uma residência. É levado à Santa Casa com ferimentos graves.11

Cerca de meia-noite, na Avenida Mascarenhas de Moraes, um homem de 31 anos é atropelado por uma caminhoneta Pampa, cujo condutor se evade. Com politraumatismo, a vítima morre quando os Bombeiros a introduziam no Pronto Socorro da Santa Casa.12

Açodados Prefeitáveis

No campo político, acabávamos de sair de uma eleição (6 e 27 de outubro de 2002), com a vitória do PT (Lula) no plano nacional e a difícil reeleição de José Orcírio Miranda dos Santos (o Zeca do PT) no plano estadual. Mas já nos primeiros dias de janeiro aparecia um pré-candidato à Prefeitura de Campo Grande, que só vagaria dois anos depois. O senador Juvêncio César da Fonseca, ex-prefeito da capital, queria voltar ao cargo13, sonhando com o apoio do prefeito André Puccinelli. Juvêncio obtivera em Campo Grande, nas eleições de 1998, 117.164 votos, pouco mais do que o segundo colocado ao cargo de senador, Carmelino de Arruda Rezende (107.733 votos, sob a sigla PPS).

Poucos dias depois a Deputada Federal Marisa Serrano, candidata derrotada ao cargo de governador (obtivera 169.005 votos em Campo Grande) se colocava à disposição do PSDB para uma possível candidatura ao cargo de Prefeito.

A esse anúncio seguiu-se o de Nelson Trad Filho, o Nelsinho Trad, afirmando peremptoriamente ser pré-candidato ao cargo de Prefeito. Sua justificativa: “Saí de uma eleição como o mais votado, com resultado excelente na capital. Bati todos os recordes históricos em Campo Grande”. De fato, Nelsinho, que obtivera, para o cargo de vereador, 4.403 votos em 1996 e 7.155 votos em 2000, havia dado um salto e conseguido, como candidato a Deputado Estadual, a expressiva marca de 36.283 votos no Estado, dos quais 30.789 na capital.14 Esse salto deveu-se em grande parte à popularidade angariada pelo político desde que começou, em junho de 2001, a apresentação diária (15 minutos) do aveludado programa “Boa Saúde”, na TV Campo Grande.

Finalmente, o Deputado Federal Vander Loubet asseverava ao Midiamax “ser um forte candidato para disputar a Prefeitura de Campo Grande”. Mas admitia que o PT tinha outros bons nomes para apresentar ao eleitor: Delcídio do Amaral, Pedro Teruel e Pedro Kemp.15 Vander obtivera, nas eleições de 2002, a maior votação (101.815) para Deputado Federal, sendo 38.756 votos oriundos de eleitores campograndenses.

Atuações Político-Administrativas

O Prefeito André Puccinelli pagava antecipadamente (no dia 3) o salário dos funcionários municipais (9.860 na ativa, 254 aposentados e 116 pensionistas), numa soma total de 10,8 milhões de reais. Reassentava no Conjunto Paulo Coelho Machado, em casas com 28 m2, pelo Programa Mudando para Melhor, 14 famílias antes faveladas no Parati, e entregava 70 casas (53 com a metragem 28,8 e as restantes com 45,56m2) do Programa Casa da Gente (financiamento da Caixa Econômica Federal), no Jardim Mário Covas. Mas a Santa Casa acusava a Secretaria Municipal de Saúde de atrasar repasses oriundos do SUS.16

O Governo Zeca do PT pretendia terminar a grande obra abandonada do bairro Cabreúva, planejada originalmente (no início dos anos 90, governo Pedro Pedrossian) para ser “a nova estação rodoviária da capital”, adaptando-a para abrigar órgãos públicos e construindo no seu entorno um espaço para a prática de esportes. O orçamento previsto era de 2,5 milhões de reais.17

Pela Iniciativa Privada, a Kepler Weber, produtora de equipamentos para armazenagem e processamento de grãos, com sede em Panambi – RS, pretendia instalar filial em Campo Grande, numa área de 100 hectares doada pela Prefeitura. Contando com incentivos do Governo Estadual (que reduziriam significativamente o montante de ICMS a recolher pelas suas vendas), a empresa pretendia processar na filial, no primeiro ano de atuação, 20 mil toneladas de aço (contra 40 mil na matriz), aumentando depois para 50 mil. As obras, orçadas em 85 milhões de reais, estavam marcadas para iniciar em março, e contavam com financiamento do BNDES (40 milhões) e FCO (20 milhões), constituindo o restante aporte próprio da empresa.18

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1 Midiamax 30141.

2 Midiamax 30529.

3 Midiamax 33322.

4 Midiamax 33899.

6 Midiamax 30135. Detalhes no acórdão da Apelação Criminal TJMS APR3116.

7 Midiamax 30661.

8 Midiamax 31301.

9 Midiamax 31837.

10 Midiamax 32382.

11 Midiamax 32452.

12 Midiamax 34033.

13 Midiamax 30473.

14 Midiamax 32525. Os números das votações são do TRE-MS.

15 Midiamax 32783.

16 Midiamax 30071, 31426, 33197 e 31396.

17 Midiamax 31698.

18 Midiamax 30992.

 

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