Campo Grande, Historiografia e Internet

Tenho, praticamente terminado, o que seria o primeiro volume de uma obra maior de historiografia. Estive empenhado nesse primeiro volume durante todo o ano de 2013, e também neste ano de 2014 dediquei a ele muitas horas de revisão e estudos de layout. Uma das capas propostas é esta:

CGnoN20032004O texto de introdução é o seguinte:

INTRODUÇÃO

No início deste ano de 2013 resolvi fazer um estudo sobre a segunda gestão Nelsinho Trad na prefeitura de Campo Grande. Tinha em mãos uma boa quantidade de material próprio, consistindo em textos e fotos publicados no blog Timblindim. Tinha também uma coleção do jornal Correio do Estado, que ia de abril de 2009 a dezembro de 2012. Era, como se vê, uma coleção quase completa referente ao período demarcado para o meu projeto.

Com relação aos três primeiros meses de 2009, comecei a procurar na Internet por fontes externas alternativas. Apelei para os saites de busca (Google, Yahoo, etc.), mas poucos resultados obtive. Palavras como “Nelsinho Trad” davam dezenas e dezenas de milhares de resultados, mas estes dificilmente se referiam ao período por mim procurado: eu precisaria analisar milhares de resultados para achar alguma coisa aproveitável. E não havia como refinar a busca, pois de nada valeria citar datas ou períodos, pois esses elementos se encontram, nos saites, à margem das manchetes e à margem das matérias propriamente ditas (e assim, não são detectados pelos mecanismos de busca).

Percebi então, comparando matérias antigas dos vários saites de notícias campograndenses, que o do Midiamax News trazia um diferencial: os linques para as matérias tinham, agregado ao início da manchete, um número sequencial. Exemplo: http://www.midiamax.com.br/ noticias/ 781632-nelsinho+trad+volta+brasilia+com+re-cursos+liberados+empenhados.html#.Um6gu1M-c_g. E constatei que para acessar a matéria era suficiente informar, após o nome do saite e o diretório “noticias”, o número sequencial, podendo-se descartar o título da matéria e o código de encerramento.

O linque acima e o número 781632 eram referentes ao dia 29 de dezembro de 2011. Tentei então, por ensaio-e-erro, achar a numeração correspondente aos três primeiros meses de 2009, e encontrei a numeração 379037 para o dia 1º de janeiro. Nesse período o saite publicava cerca de 100 matérias por dia, e as matérias referentes à administração municipal não passavam de 1 ou 2% do total. Isto significava que eu deveria ler todas as matérias do período, uma por uma, ou milhares e milhares no total, imprimindo apenas as que tinham interesse para o trabalho.

Era um trabalho imenso, e pensei em desanimar, mas logo me veio à mente que talvez eu pudesse, utilizando o recurso “macros” de uma planilha (Calc, da LibreOffice, software livre), automatizar a parte mais cansativa do trabalho. Pesquisei um pouco e encontrei, num saite dunidense, uma sequência de comandos para que a planilha acessasse o saite do Midiamax, mais especificamente a notícia 379037, do dia 1º de janeiro de 2009. Fiz o teste e ela carregou todo o conteúdo, em modo texto, incluindo todos os comandos de formatação.
Pesquisei a algaravia e vi que numa determinada linha (a de número 678!) estava o título da matéria, ladeado pelos comandos <h1> e </h1>, de abertura e encerramento. Na linha anterior (677) constava, também ladeadas por comandos, a data e a hora de publicação da matéria. Muitas tentativas e muitos dias depois, fiz uma “macro” que:

1 – acessava uma das matérias numeradas;
2 – ia à linha (que eventualmente variava) onde aparecia o comando <h1>, copiando todo o seu conteúdo e o da linha anterior;
3 – anotava esses conteúdos numa outra página da planilha;
4 – extraía desses conteúdos apenas os informes data e hora, número da matéria, título da matéria, transportando esses excertos para a primeira linha em branco de uma terceira página;
1 – recomeçando, acessava a matéria da próxima numeração, repetindo os outros passos.

Eram tarefas complexas, e, dependendo da velocidade da banda larga e da quantidade de acessos concomitantes de outras pessoas ao saite, os resultados saíam com velocidades variáveis, bem lentos nos horários de pico, bem mais rápidos durante a madrugada. A média girava em torno de 100 acessos por hora.

Depois de umas 90 horas, consegui uma listagem com 9.000 títulos. Descobri que, ao invés de ler matéria por matéria, na maioria dos casos eu poderia, apenas pelo título, identificar se a matéria era do interesse da pesquisa ou não. Se fosse, era o caso de acessar diretamente o saite e a notícia pelo browser, e em seguida imprimi-la.

Nesse manuseio, penoso e que não poderia ser delegado a ninguém e a nenhum programa de computador, fui fazendo novas descobertas:
1 – havia muitas matérias repetitivas. Exemplo: na quinta-feira o saite anunciava show do cantor X na “Noite da Seresta”, evento que ocorreria na sexta-feira. Na sexta-feira, nova chamada para o show. Para um pesquisador, só a notícia da sexta interessava, podendo a notícia anterior ser descartada por estar irremediavelmente datada.
2 – havia muitas matérias incompletas. Noticiava-se que tinha havido um acidente, mas não o local, os protagonistas e a gravidade. Era avançar para as próximas linhas até encontrar a notícia completa, ou pelo menos com alguns dados essenciais.
3 – Muitas matérias, principalmente as relativas a acidentes de trânsito ou a crimes, acrescentavam tão pouca informação à manchete, que essa informação poderia tranquilamente ser incorporada ao título. Exemplo: informava-se o assalto a um ônibus urbano, mas apenas a matéria, abaixo do título, acrescentava informações sobre o bairro e o valor roubado. Assim, o título poderia ser modificado e enriquecido, passando de
NA PERIFERIA, ÔNIBUS URBANO É ASSALTADO POR DUPLA ARMADA
para
NO SERRADINHO, DUPLA ARMADA ASSALTA ÔNIBUS E ROUBA R$ 47,00.
4 – Em algumas matérias mais complexas, o título da reportagem não exprimia bem o conteúdo informativo, às vezes deixando de lado a sua essência. Isto ocorria porque a notícia era colhida por um repórter e o título era formulado na redação, por outra pessoa.
5 – Ocorrências de ambiguidades. Exemplo típico é o da referência, na manchete, apenas a GOVERNO, sem especificar se se tratava do FEDERAL ou do ESTADUAL. O mesmo ocorre com CÃMARA, que pode ser a FEDERAL (ou DOS DEPUTADOS) ou a MUNICIPAL.
6 – Muitas matérias resultavam de press-releases, divulgando campanhas e eventos, como por exemplo as recorrentes campanhas para suprir o banco de sangue da Hemosul, ou para divulgar as atrações de fim de semana de bares e boates da cidade.

Acabei constatando, também, que as matérias desse excelente saite contemplavam praticamente todas as pautas constantes dos jornais impressos, muitas vezes com informações bem detalhadas. E, para um historiador, esses dados em formato digital e sequencial (subestimados pelos jornais impressos do MS) representam uma economia de 99% do tempo que seria normalmente dispendido com pesquisas no material físico (em papel).

Veio-me então a pergunta: por que não estender a pesquisa, abarcando TODO o período Nelsinho? E por que não abranger, na visão desse período, outros componentes da vida urbana de Campo Grande? E por que não contemplar o período anterior a essa gestão, para entendimento da trajetória meteórica que levou o ex-deputado estadual à cadeira de prefeito?

Como se vê, com a riqueza do material pesquisado, os escopos e os desafios só foram aumentando. Acabei concluindo que seria inviável fazer um bom trabalho de historiografia sem citar minuciosamente as fontes de pesquisa. Como pressenti o perigo de o saite Midiamax, seguindo o desastroso exemplo de outros saites (como o Campo Grande News) , apagar notícias “antigas” (mas historiograficamente preciosas), achei de bom alvitre fixar essas fontes, levando-as para registros impressos. Assim, desisti de elaborar um trabalho de análise e interpretação para a História de Campo Grande, optando por fazer este trabalho de historiografia básica, com dados referentes a 2003 e 2004. Foram consultadas 100.824 matérias do Midiamax News, das quais mais de 10 mil (com aproveitamento de 9.090, aqui mencionadas) eram relativas ao município de Campo Grande. Minha intenção é continuar a tarefa, publicando, em quatro outros volumes futuros, os dados noticiosos relativos ao período de 2005 a 2012.

No presente trabalho procurei sanar as ambiguidades, incorporar informações úteis e eliminar matérias irrelevantes para o escopo da obra (caso das matérias citadas no item 6, acima). Ele se estende em 3 colunas: a primeira, com a data e o dia da semana; a segunda com a manchete em si; e a terceira com o número MidiamaxNews que serviu de fonte à manchete.

Espero que ele seja útil, não apenas aos historiadores, mas a todos os que têm um interesse mais profundo pela Cidade Morena. Poderá ser útil também para se comparar situações atuais com situações análogas em épocas passadas, assim detectando contradições e hipocrisias (e eventualmente coerências e consistências) dos chamados “homens públicos”.

Campo Grande, novembro de 2013

Valdir Dala Marta

Não sei se, depois desse primeiro volume, o trabalho seguirá adiante. Iniciei o segundo, referente ao biênio 2005-2006, tendo já separado o material referente a Campo Grande da matéria geral, que engloba também notícias dos outros municípios do Estado do MS, notícias dos outros Estados, notícias esportivas e noticiário internacional. É trabalho para toda uma equipe de pesquisadores, mas o desânimo maior não vem daí, mas sim, da seguinte pergunta: “Alguém mais, neste Estado, está interessado nisto?” Se a resposta for negativa, ou se não houver resposta, é caso de desistência.

É claro para quem se disponha a gastar mais do que meia hora para analisar a questão, que seria importante se empenharem as pessoas dessa área de conhecimento no estudo sério (sem ranço partidário) das administrações municipais e dos componentes políticos que as permeiam, principalmente das cidades médias (como Campo Grande) ou grandes. É claro que as pessoas dessa área deveriam se empenhar em fazer estudos concretos, profundos, da História recente, ao invés de fazerem teses de perfumaria “para inglês ver”. História não é elencar governantes, citando uma ou outra “grande obra” que eles teriam realizado (esquecendo-se dos custos dessas obras e dos seus efeitos colaterais). Isto qualquer correligionário desses governantes poderia fazer, entoando loas e mais loas, como se todos os pretensos leitores fossem reencarnações da Velhinha de Taubaté…

Fazer História é aprofundar-se além da hipocrisia convencional, é esmiuçar o noticiário da imprensa, é perceber as brechas deixadas (propositalmente ou não) por esse noticiário e lançar alguma luz na escuridão das conveniências político-partidárias. É o que tenho tentado fazer nestes anos de Timblindim, sem nenhuma garantia de que não estou pregando no deserto.

A propósito, aqui vai (em arquivo pdf) o volume citado referente aos fatos noticiados pelo Midiamax em 2003 e 2004:

CampoGrandeNoNoticiario-2003-2004a

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