Ainda Há Médicos em Berlim

Kólia Krasótkin, dirigindo-se ao empolado e aristocrático médico:

“Sabe, Curandeiro, que Carrilhão poderia muito bem mordê-lo?”

O Correio do Estado de hoje trouxe dois excelentes artigos.

Num deles a doutora Maria Ângela Coelho Mirault, colocando-se num ponto de vista parecido com o que resultou na elaboração da famosa Janteloven dinamarquesa (as 10 Leis de Jante), sugere alguns corolários para o Juramento de Hipócrates, que a maioria dos médicos brasileiros recém-formados faz com os dedos cruzados. Eis algus dos oportunos corolários:

“A Medicina não é caminho para o enriquecimento, e muito menos para a Política.”

“Eu não sou mais do que ninguém, só porque cursei o curso superior de Medicina (…); e não valho mais, nem tenho mais direitos do que os outros profissionais.”

Não é preciso ser um gênio para constatar, mesmo sem nunca ter assistido aos programas de medicina ou mistérios do Discovery, que o conhecimento médico é do mesmo nível de dificuldades e importância dos outros conhecimentos humanos. Curar a doença de um paciente vale tanto quanto obter uma alface sadia (e os dois procedimentos são igualmente raros e difíceis). E às vezes um curandeiro é bem mais médico do que um médico diplomado (embora não revalidado).

Abaixo, o outro artigo, de um médico que certamente fez o juramento sem cruzar os dedos da outra mão:

BEM VINDOS, COLEGAS CUBANOS

MANOEL DIAS DA FONSECA NETO

Médico, especialista em Saúde Pública e Mestre em Gestão de Sistemas Locais de Saúde

Estive em Cuba em 1986, junto com uma centena de brasileiros, para participarmos do 1º Seminário Internacional em Atención Primaria de la Salud, promovido pela Organização Panamericana de Saúde (OPS), Organização Mundial de Saúde (OMS) e Ministério de Saúde Pública de Cuba.

Há quase 30 anos o Programa de Saúde da Família de Cuba era o destaque deste Seminário Internacional, exemplo de estratégia de incorporação de baixa densidade tecnológica, centrada na pessoa humana, na família e no vínculo permanente de uma equipe com a população de um território, com resultados significativos na melhoria de indicadores de saúde. Qual era o segredo desta estratégia?

Os médicos cubanos aprendiam o que os nossos mestres Dr. Paulo Marcelo, Dr. Elias Salomão, Dr. Oto, Dr. Pessoa, Dr. Haroldo Juaçaba nos ensinavam: ouvir o paciente e sua história familiar, examiná-lo, palpá-lo, auscultá-lo, observando sinais e sintomas, fazer, enfim, uma anamnese e exame clínico detalhado e sistemático. Respeitando o ser humano, que nos procura em sofrimento, e a sua individualidade, com ética e humanismo.

Médicos cubanos são excelentes médicos de família e vêm aperfeiçoando o seu conhecimento há 30 anos. Os brasileiros estarão em muito boas mãos aos seus cuidados. Fico muito triste ao presenciar expressões de xenofobia e até etnofobia, arrogância, preconceito e agressividade de presidentes de algumas CRMs, do CFM e AMB contra médicos estrangeiros, especificamente cubanos.

Xenofóbico é quem demonstra temor, aversão ou ódio aos estrangeiros. Será que esta não é uma forma camuflada de expressar aversão ou ódio aos pobres do Brasil? Porque tememos os médicos cubanos? Porque são disciplinados e cumprirão a carga horária contratada? Porque são excelentes médicos de família e cuidarão com carinho, respeito e sabedoria do nosso povo? Porque se fixarão num só emprego e dedicarão todo o seu tempo às famílias sob a sua responsabilidade?

Espero que nossos colegas médicos cubanos e demais estrangeiros não sejam hostilizados por senhores da “casa grande e senzala” da modernidade e sejam acolhidos com simpatia e respeito, como fui por eles, quando estive em Cuba há 30 anos.

A propósito, apresentamos abaixo dois vídeos que mostram a atuação de alguns desses médicos brasileiros que se julgam com moral para espinafrar médicos estrangeiros que eles não conhecem e nunca viram (estilo “não li e não gostei”). Lembrando que em Campo Grande temos exemplos semelhantes de tais “profissionais”, a começar por um autoproclamado “médico da família”, ex-presidente da Câmara Municipal, que faz muita política mas, de acordo com noticiário recente, pouca medicina.

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: