Bernal e a Falácia do Correio do Estado

.O Correio do Estado de hoje (9 de abril de 2013) estampa na primeira página, em letras garrafais:

Nem R$ 6,4 milhões a mais pôem fim à buraqueira

Na matéria interna avança mais explicitamente:

Tapa-buraco fica mais caro, mas morador não vê resultado

O que o leitor pode concluir é que o prefeito está pagando mais caro para as empreiteiras fazerem a mesma quantidade de serviço, e mesmo assim (certamente porque Bernal não pipila os belos trinados do prefeito anterior) essas empresas, embirradas, estariam “caprichando” no mal-feito.

Na verdade o jornal se vale de uma falácia, ou seja, equipara “aumento de despesa” (decorrente de aumento do consumo) com “aumento de preço”. Para isto esconde um parâmetro essencial, induzindo seus leitores ao erro. Coisa de jornalismo marrom.

Não é fácil explicar o óbvio, uma vez que, todos entendendo o óbvio, nunca é necessário explicá-lo. A não ser que pessoa muito ignorante o conteste ou outra pessoa, de má fé, finja não entendê-lo.  Mas vamos tentar explicar o óbvio. Preço é uma quantidade de dinheiro relacionada a uma unidade específica, certa,  de um produto ou um serviço. Comparar preços, e assim determinar se um produto ou serviço  está mais caro, ou com preço igual, ou mais barato, implica em verificar o preço que uma unidade (exemplo, 1 kg de feijão) tinha no dia 29 (por exemplo), e comparar com o preço que a mesma unidade (o mesmo 1 kg) tinha no dia 29 – x.

Exemplo:

Joana, dona de casa, vai ao supermercado no dia 4 de março e compra 1 kg de feijão, da marca Jãobão, lote A-475, safra 2012, por R$ 5,00.

Joana vai ao mesmo supermercado, no dia 20 de março, e compra 1 kg de feijão, da marca Jãobão, lote A-475, safra 2012, novamente por R$ 5,00.

Não houve, no exemplo, majoração do preço. O preço permaneceu estável.

Mas citemos outro exemplo, irritantemente didático.

Luzia, a vizinha de Joana, vai ao mesmo supermercado, no mesmo dia 4 de março e compra 1 kg de feijão, da marca Jãobão, lote A-475, safra 2012, por R$ 5,00.

No dia 20 de março, aproveitando uma carona que Joana lhe ofereceu, Luzia foi ao mesmo supermercado e comprou 2 pacotes de 1 kg do feijão Jãobão, lote A-475, safra 2012, pagando por eles R$ 10,00.

Luzia não se sentiu lesada, pois não tem motivos para rejeitar o óbvio. Mas o Correio do Estado diria, se estivesse em campanha contra o supermercado,  que houve aumento de preços.

A conclusão óbvia é que houve aumento da despesa de Luzia, mas 1 kg do tal feijão custava, no dia 20, os mesmo R$ 5,00 que custava no dia 4.

Luzia pagou mais porque levou mais feijão para casa.

Nesse início de mandato do prefeito, parece que o Correio do Estado acostumou-se a vasculhar o Diário Oficial do Município de Campo Grande, o Diogrande (argh! que sigla!), em busca de indícios de irregularidades. Como se algum prefeito, em algum buraco do mundo, fosse deixar uma irregularidade exposta no Diário Oficial, para ser pego pelo primeiro Inspetor Javert que pintasse no pedaço. É subestimar demais o adversário (prova de inteligência parca) ou, pior, subestimar demais os leitores do diário.

Pois bem, o Correio vai aos atos do prefeito conferir os contratos e aditivos por ele assinados. Examina extratos de aditivos feitos a contratos anteriores, com empreiteiras acima de qualquer suspeita (já que esses contratos vêem da administração anterior, queridinha do jornal). Está lá, em relação à empreiteira X, as seguintes informações paralelas: 1) aumento de R$ 1 milhão no valor original do contrato; 2) correspondente aumento de quantitativos (ou seja, de unidades trabalhadas).

O jornal pega apenas o primeiro elemento, sem se preocupar com o segundo. É como se Luzia chegasse em casa e dissesse ao marido: “João, dia 4 fui comprar feijão e gastei R$ 5,00. Hoje fui ao mesmo supermercado, comprei feijão de novo, mas paguei R$ 10,00” João, que mal terminou a 5ª série do Ensino Fundamental, obviamente estranha: “Mas nos dois dias você comprou a mesma quantidade, mulher?” E Luiza responde: “Claro que não, João! No dia 4 comprei 1 kg; hoje, comprei 2 kg”. E João: “Parece que a família vai ter mais feijão no cardápio!”.

O Correio do Estado deve estar se referindo aos aditivos abaixo (todos relativos a operações tapa-buracos), já que faz aproximação para “R$ 6,4 milhões”.

D.O. CG DATA EMPRESA ADITIVO CONTRATO D.O. CG
           
3732 25/03/13 GRADUAL 1.239.814,45 57, DE 05/03/2012 3492
3738 04/04/13 SELCO 1.208.658,99 59, DE 05/03/2012 3492
3737 03/04/13 JW 937.475,62 68, DE 05/03/2012 3492
3740 08/04/13 JW 927.183,00 69, DE 05/03/2012 3492
3739 05/04/13 JW 857.436,75 72, DE 05/03/2012 3492
3732 25/03/13 SELCO 1.337.068,30 75, DE 05/03/2012 3493
           
TOTAL     6.507.637,11    

Todos esses aditivos deixam bem claro (exatamente como deixavam na administração anterior) que ao “acréscimo do valor” corresponde o “acréscimo de quantitativos”. Tudo muito didático para quem examina de boa fé.

O mesmo diário oficial tem, para os 2 mandatos do ex-prefeito Nelsinho Trad, centenas desses aditivos, e em valores mais encorpados. Mas nenhum jornalista Javert se preocupou em examiná-los…

Anúncios

Uma resposta to “Bernal e a Falácia do Correio do Estado”

  1. maycon Says:

    Nossa meu amigo, que belo trabalho, fiquei impressionado!
    sou arquiteto, e vou repassar esse blog a meus amigos, com toda certeza !

    MUITO BOM, está de parabéns. uma abraço e sucesso !

    __________

    Valdir diz:

    Obrigado pela visita e pelas palavras, Maycon!

Os comentários estão desativados.


%d blogueiros gostam disto: