Grafites e Antinomia Natal – Papai Noel

A Prefeitura de Campo Grande, através da FUNDAC – Fundação Municipal de Cultura – teve uma boa iniciativa, instituindo um concurso para grafiteiros atuarem nos tapumes que envolvem a praça Ary Coelho, atualmente em reforma. O tema foi um tanto árido (“Decoração natalina no centro da capital”), mas  felizmente os grafiteiros o ignoraram, produzindo bons trabalhos, parte deles apresentada abaixo.

Grafiteiro não identificado.

Giuliano Roberto.

Caio Mendes.

Patrícia Miranda.

Maycon dos Santos Silva.

Augusto Naveira.

Alice Hellmann.

Grafiteiro não identificado.

Welinton Monteiro.

Diogo Shogun.

Marilena Grolli.

Em outro local, junto ao Parque NI, outro setor da Prefeitura encarrega-se da montagem da chamada Cidade do Natal. Vamos percorrê-la?

Anunciando a "Cidade", essa bela instalação pretende, na novilíngua dos organizadores, ser uma "árvore de Natal". Mas o que ela lembra, vagamente, é a figura de um anjo. Ou de um foguete azul, prestes a ser lançado ao espaço.

Entrada da pretensa Cidade do Natal.

O que se vê é uma aldeia nórdica (com toques tropicais), que lembra Papai Noel, e não uma paisagem bíblica, que lembraria o nascimento (Natal) de Jesus.

Rematando o clima de "Samba do Crioulo Doido", a aldeia nórdica com toques tropicais ganha um castelo francês.

Bom, chamar de francês o estilo do castelo, é licença poética. Na verdade parece um castelo de Lego. Os compensados nem ao menos mereceram uma textura condigna. E Papai Noel tem castelo?!

Acaba a aldeia nórdica e começa o espaço dos brinquedos (patinação, trenzinho, etc.). Lá no fundo, fora da vila, no desprezo do Exílio, o que seria um Presépio.

Um presépio aparentemente feito por evangélicos, com o menino Jesus lembrando o Bezerro de Ouro e os outros personagens lembrando estátuas de sal.

Parece o surrealismo nihilista do poeta Manoel de Barros: a Palestina é substituída pelo Deserto do Saara e, Carnaval antecipado, aparece uma estrutura metálica de gosto bizantino brigando com moderníssimos spots de iluminação.

No centro desse anti-presépio, a fria estatueta dourada.

O blogueiro não é cristão e nem religioso (isto é, não acredita em intermediações divinais, principalmente aquelas pagas em percentuais fixos), embora tenha uma posição teísta (rigorosamente mono, sem o segundo deus-bode-expiatório). Mas essa arte minimalista-capitalista do Nelsinho Trad  parece ofensiva aos católicos. E aos amantes da arte verdadeira. Há artistas em Campo Grande que poderiam fazer, a preço de bananas, belas representações dessa humaníssima cena de um bebê recém-nascido em condições precárias mas abrigadas (nada a ver com o Deserto do Saara). Esculturas de gesso (ou mesmo de concreto), cuidadosamente pintadas e revestidas de tecidos, bem como a presença de elementos estáticos que lembrassem o cenário de Nazaré, poderiam resultar num presépio de verdade.

A propósito, Presépio é religião (católica, já que esse tipo de instalação foi criada pelo santo-louco-hippie Francisco de Assis) mas também é (ou poderia ser) arte. Vejam como os cariocas trataram o tema com humor e irreverência explícitas, no “Festival de Presépios do RJ” (clique aqui para acessar). Pena que em nenhum desses trabalhos aparece o ambiente em que os personagens se quedam – a manjedoura e a paisagem palestiniana. Mas pelo menos as montagens não são anti-católicas.

Para terminar, e voltando à antinomia do título desta postagem, um grupo de rock se vangloriava, há algumas décadas, de ser mais conhecido do que Jesus Cristo. Pois é: Papai Noel, na vestimenta coca-cola com que se apresenta, também é. Certamente porque nunca um ser humano foi perseguido e queimado na fogueira em nome de Papai Noel. E porque nunca um país ou continente foi invadido e espoliado para pretensamente agradar ao bom velhinho. Então, viva Papai Noel!

Anúncios

Uma resposta to “Grafites e Antinomia Natal – Papai Noel”

  1. Jarbas, o Prático Says:

    Bom artigo! Não sei onde há mais aridez: se na poesia de Manoel de Barros, se no Deserto do Saara transposto para Campo Grande, ou se na cabeça dos “administradores” locais!…

Comentários encerrados.


%d blogueiros gostam disto: