Pedras Esculpidas

Meados de setembro, na região da Serra da Bodoquena, entre as cidades de Bodoquena e Bonito.

A rodovia ligando as duas localidades já estava quase toda asfaltada, e às suas margens podia ser visto como foi difícil retirar dali alguma terra para a pista elevada. As máquinas começavam a cavar e logo encontravam grandes pedras rasamente enterradas no solo. Pedras entre 1 e 3 metros de espessura.

Nas estradas rurais podia-se observar o mesmo fenômeno das pedras enterradas e semi-expostas por excavações.

Fico imaginando o que aconteceu em priscas eras geológicas. Hoje o Pantanal se interpõe entre as terras altas da Bolívia, a Serra da Bodoquena e a Serra de Maracaju.  Mas outrora esse espaço já foi ocupado por um Mar Platino, extensão do atual Mar Del Plata (entre Uruguai e Argentina) e depois, talvez,  por um verdadeiro Mar de Xaraés (que seria aprisionamento da parte norte do antigo Mar Platino).

Talvez no início da atual Era Cenozóica, num tempo restrito, um portentoso vulcão se ergueu nas terras onde hoje se assenta a Serra da Bodoquena, despejando lavas contínuas que tomaram o rumo norte, solidificando-se depois num manto de basalto.

Passados alguns milhões de anos, com o intemperismo dos ventos, das chuvas e dos contrastes de temperatura, esse extenso manto fraturou-se em bilhões de pedaços, de todos os tamanhos, justapostos, com as fraturas formando o desenho de uma rede.

Mais alguns milhões de anos e as pedras menores foram se soltando e rolando pelo declive suave, rumo  à asa norte do Mar Platino.

Ainda outros milhões de anos e as pedras maiores, agora soltas, foram sendo modeladas pelas violentas intempéries daquela época, tomando formas arredondadas. Pareciam um infindável exército em marcha para o Mar de Xaraés, recém-formado pelo fechamento, ao sul, da garganta do Mar Platino (*).

Finalmente, nos milhões de anos mais recentes, as rochas friáveis da montanha ficaram expostas,  foram se dissolvendo e seus fragmentos (em forma de argilas, areias e elementos livres) foram descendo o declive, sempre no rumo norte. Uma parte desse material ficava retida entre as pedras, encobrindo-as lentamente; mas a parte maior continuava a descida, indo ajudar vertentes bolivianas e maracajuanas a assorear o Mar de Xaraés e a lentamente transformá-lo nas  terras alagáveis do Pantanal.

Trecho em pavimentação da rodovia MS-178, que liga Bodoquena a Bonito, num percurso de 70 km.

À margem da estrada para a Fazenda Boca da Onça, bela pedra aflorando do solo.

A mesma pedra, vista de outro ângulo.

Conjunto de pedras com perfis que lembram animais marinhos e... uma perna humana.

Grupo de pedras com espessuras em torno de 1 metro. Provavelmente foram retirados do campo para permitir a aração.

Uma pedra do grupo mostrado na foto anterior.

Outra pedra do grupo.

Um grupo interessante.

Um bloco com camadas de sedimentos prensados.

Não parecem batatas quentes retidas na malha?

Mais sedimentos prensados.

De novo na estrada de acesso à fazenda citada.

Detalhe da foto anterior.

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Notas:

(*)  Isto é hipótese, claro. A imaginação me fez ver esse elo transicional entre o Mar Platino, de existência real em priscas eras, e o “Lago de Xarayés” visto pelos primeiros exploradores da área pantaneira.

Sobre a origem do nome “Mar de Xaraés”, e sobre a história geológica da região, ver o trabalho de Mário Cezar Silva Leite, Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, Mar de Xaraés ou As Reinações do Pantanal, publicado na revista Sociedade e Cultura, janeiro-junho 2002, da Universidade Federal de Goiás. Linque.

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