Mini-aventura no Inferninho

Manhã de domingo, 07/08/2011. Como deixei insinuado numa postagem anterior, voltamos ao canyon do Inferninho, na zona suburbana de Campo Grande. Desta vez, além da parceria habitual da Rosangela, na companhia de dois adolescentes (Léo e Fabrício). Esperávamos topar com praticantes de rapel, mas nesse dia eles não apareceram. O que não foi bom, pois o lugar oferece algum perigo, pela eventual presença de marginais das vilas mais próximas, a seis quilômetros dali.

Resolvemos descer por um ponto, a cem metros da cachoeira, que recebe enxurradas e tem as rochas em degrau desnudas da sua cobertura original de terra. Deve ser o ponto em que o córrego atinge a sua maior profundidade em relação à borda do canyon. Talvez os 36 metros que quase todos atribuem à cachoeira (que na verdade tem apenas 15 metros de queda, pelo olhômetro do blogueiro). Os degraus, formando uma descida com ângulo de aproximadamente 45 graus, vão se sucedendo, irregulares quanto aos patamares (mais largos, mais estreitos ou em ponta) e altura. O desenho abaixo, de um futuro desenhista, procura dar uma ideia:

O caminho que percorremos, hipotenusa de um triângulo retângulo imaginário, com altura 36 e largura também 36, deu 50 metros. Aos trinta metros de percurso deparamos com um degrau rochoso muito alto (2 metros e meio), dividido em subdegraus de patamares muito estreitos (15 e 20 centímetros) e com ligeira inclinação para a frente. Os adolescentes, na inconsciência do perigo, e nas ondas de sua agilidade e equilíbrio, desceram rapidamente, mas os adultos empacaram. O blogueiro analisou a situação três vezes, e os três vereditos foram: “não vá!” E o blogueiro não foi. Procurou pelos lados e viu que era mais seguro descer pela parte com terra e cobertura vegetal (troncos de pequenas árvores e suas raízes expostas). Rosangela ficou no patamar superior, esperando Godot.

Depois desse ponto perigoso o caminho se mostrou relativamente suave, com muitas pedras roladas entre as raízes expostas das árvores. Chegamos ao córrego e constatamos que não seria possível seguir adiante com os tênis, pois deveríamos alternar passagens pelas pedras pontiagudas e pelo leito do riacho. A profundidade deste era mínima, mas havia muitas bacias onde a água chegava aos joelhos. A uns 20 metros da cachoeira começa uma sucessão de pequenas quedas, com a água vindo serpenteando entre grandes pedras. Num ponto entre duas rochas o Fabrício encontrou uma caveira humana. Eu fotografei de longe, mas a foto não saiu nítida.

O ponto da caveira.

Chegamos à cachoeira, que desce por um belíssimo paredão, onde algumas formações rochosas sugerem rostos de almas penadas. O vídeo abaixo mostra as belezas do lugar.

Pedras modeladas pelas águas das grandes chuvas. À direita, a pequena piscina que recebe as águas da cachoeira.

Na hora de voltar o Fabrício se adiantou, e então Léo e eu resolvemos subir pelo caminho geralmente utilizado pelo pessoal do rapel. A altura a percorrer é muito menor do que aquela da nossa descida, e o percurso começa pelas exuberanes raízes de uma árvore:

Um ponto de subida. Os primeiros 5 metros são facilitados pelas raízes.

Enquanto havia raízes, a subida foi fácil. Mas chegamos a um ponto em que havia vários patamares de pedra, todos com finas camadas de areia, e um desses patamares estava a cerca de 1 metro e quarenta de altura. O obstáculo exigia um firme pulo com o apoio das mãos, de forma que um joelho (com a perna dobrada) pudesse alcançar a borda do patamar. Isto não seria problema se estivéssemos ao nível do chão, mas estávamos num patamar estreito (uns 50 cm), e estreito também era o patamar que teríamos de atingir. O lugar seguro estava a 10 metros ladeira abaixo. Pintou o medo, pois faltava coragem para ensaiar o pulo, e faltava coragem para descer de volta. Acabei me lembrando que Deus protege os loucos e as crianças, e decidi impulsionar o corpo para cima e para a frente. Léo, que hesitara bem pouco, já estava lá em cima e quase fora do alcance da vista. Alcançado o patamar alto, suspirei aliviado e agradecido, rezando para que dali para cima o caminho fosse melhor. E era: logo reapareceram raízes expostas, e logo eu estava em terra firme.

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6 Respostas to “Mini-aventura no Inferninho”

  1. roselene Says:

    nossa que lugar lindo! quero ir ai, descer e tomar banho nessa cachoeira!

  2. pimentinha Says:

    Curiosa. Indique o lugar da caveira, por favor.
    _____
    do blog:

    Pimentinha:

    Foi naquele ponto, “mais ou menos”. Na verdade, talvez 1 metro antes das primeiras pedras da foto onde aparecem cachoeira e pequenas quedas. Aí vai a foto. Sobre a “testa” da caveira incidia uma “mancha” de raios solares diretos; no fim da mancha, mais ao fundo, o buraco onde um dia esteve o olho direito de alguém. Aparecem na foto alguns respingos da água do córrego.

  3. ISP_PORTES@HOTMAIL.COM Says:

    SEMPRE FAÇO ESSE TIPO DE TURISMO AVENTURA COM UMA AMIGA MINHA, SERIA BOM CONHECER MAIS GENTE PRA PODER ARRISCAR IR EM ALGUM LUGAR COMO O INFERNINHO QUE SO VI DE CIMA.. FIQUEI MEIO GRILADO DE DEIXAR A MOTO LA NO ALTO E DESCER, ACHO MAIS SEGURO IR COM MAIS GENTE EM ALGUM LUGAR ASSIM….! TENHO COSTUME DE IR ATÉ A ANTIGA USINA ABANDONADA A DÉCADAS NO CORREGO CEROULA.. ONDE POSTEI FOTOS NO MEU FACE.. ( ISP_PORTES@HOTMAIL.COM) IGOR PORTES. AMANHA MESMO COM FRIU PRETENDIA IR ATÉ O INFERNINHO E SEGUIR MAIS PRA FRENTE PRA PROCURAR A TAL DE PISTA DE SALTO DE PARAPENTE E O LEITO DE UM BALNEÁRIO QUE TEM A UNS 10 KM PRA FRENTE… VCS TEM ALGUMA DICA? GOSTARIA DE MANTER CONTATO.. ADD NO FACE.. E COMENTEM!
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    do blog:

    Igor:

    A dica é apenas a que você já está seguindo: andar em grupos (no mínimo, 3 pessoas), tomar todas as precauções possíveis e… curtir da natureza!

  4. Dante Sempiterno Says:

    Entre muitas coisas para dizer; seu trabalho faz tal palavra muito digna e liberta do comum; e a poesia está a cada passo, dizendo: sou do comum, do dia, da noite, dos segundos e da ausência deles. Rapaz, teu blog é um deleite pleno. A propósito, obrigado pela honra que me deste em listar-me em Mato Grosso do Sul. Abraços, continue assim, forte, poderoso, no que tem essas palavras de tão bom.

  5. Valdir Says:

    Obrigado, Jorge! Um ex-sogro meu, useiro e vezeiro em deliciosos ditos populares, sempre me dizia: “Pra encontrá o Sataná, não precisa madrugá!” Felizmente, Para Encontrar a Poesia, vale o mesmo. E para encontrar a Ciência, a mesma coisa (não precisa de laboratórios caríssimos, como muitos pensam).

  6. jorge Says:

    Vim aqui passear… Foi um ótimo passeio, refrescante, nesses dias de calor tão intenso e pouca trégua nos trabalhos. Abraço, caríssimo!
    _____
    resposta do blog:

    Bem vindo, Jorge! E aguardamos a volta das suas manifestações literárias filosófico-poéticas.

Comentários encerrados.


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