Velhas Histórias Rodoferroviárias

1 – Estação Bolicho

Na época das desapropriações das faixas de terra necessárias para a construção do ramal ferroviário Campo Grande – Ponta Porã, Clemente Raimundo Pereira, mais conhecido como Clemente Cangussu, era o grande proprietário rural da área onde depois foi construida a Estação Bolicho. Seus antepassados eram de Minas Gerais, e haviam chegado no topo do futuro Estado de Mato Grosso do Sul na leva de José Antonio Pereira, o fundador de Campo Grande.

Procurado pelos agentes do Governo Federal, em 1938 ou antes, Clemente Cangussu, depois de se inteirar dos objetivos dos funcionários, e do projeto de instalar uma estação a 4 quilômetros de distância dali, disse algo como: “A ferrovia vai trazer o progresso, não vai? Pois então podem ficar com essa faixa de terra. Não quero receber nada por ela. Mas construam a estação aqui, junto às minhas terras”. Por esse trato honesto e satisfatório para ambas as partes, os engenheiros alteraram os planos originais. A primeira construção, preparatória, no ano de 1938, foi a do catavento para bombear de um poço a água para o abastecimento da futura estação. Embora o neto de Clemente (Almir Vieira Pereira) nos tenha dito que o catavento atual (fotografado pelo blog para a postagem anterior a esta) é o mesmo instalado em 1938, não temos outros elementos que o confirmem.

Instalado o catavento, e depois (as fontes divergem se em 1941 ou 1944) construidas a estação e as dependências auxiliares (alojamentos e caixa d’água), a Estação Bolicho passou a fazer parte da vida dos moradores da região. O transporte rodoviário, entretanto, também chegava, quase pari-passu, com jardineiras e pequenos caminhões trafegando pelas precárias estradas da região, ligando-a à progressista cidade de Campo Grande, na parte sul do então Estado de Mato Grosso.

Correm sobre esse Clemente Cangussu várias histórias interessantes. Uma delas, contada pelo neto, diz que uma vez o velho desbravador tinha o compromisso de pagar em Campo Grande, ao comerciante Naim Dibo, em determinado dia, um empréstimo anteriormente contratado. Um desses contratos firmados “no fio do bigode”. Na época o trem de passageiros vinha de Campo Grande num dia e voltava no outro. E calhou de ser o dia acertado com o comerciante justamente o da vinda do trem. Mas Clemente não se preocupou, pois havia também a opção da Jardineira, que circulava todos os dias no curto trajeto entre Sidrolândia e Campo Grande.

Na hora da Jardineira chegar, lá estava o Clemente Cangussu com a sua bolsa abarrotada de dinheiro. O veículo automotor, entretanto, parecia estar atrasado, o que, após algumas horas, causou grande nervosismo e aflição, mais ainda quando veio a notícia de que a Jardineira havia quebrado e não circularia naquele dia. O velho, então, voltou para a sede da fazenda, mandou encilhar um burro e pôs-se na estrada a caminho de Campo Grande. Enfrentando agruras e perigos, finalmente chegou à cidade a altas horas, mas ainda antes da meia-noite. Na manhã seguinte o comerciante notou, ao abrir sua loja, a presença de um homem que dormia recostado à parede, com as mãos presas às rédeas de um burro. Era Clemente Cangussu, pronto para quitar a sua dívida…

2 – Estação Guavira

Na década de 50, muitas fazendas nas proximidades da Estação Guavira pertenciam à família Baís, de Campo Grande. Um pouco mais longe, pelas bandas dos córregos Varadouro e Barreirinho, hoje pertencentes ao município de Terenos, o engenheiro Amélio de Carvalho Baís empreendia o desbravamento de terras virgens. Extraída a madeira de lei porventura existente, adotava um sistema muito usado na colonização do oeste paulista, ou seja, a cessão de lotes por período certo (5 anos), no fim do qual o cessionário devolveria o lote com as terras transformadas em pastagem já plenamente utilizável.

No início daquela década o agricultor Mário Rodrigues Leite e sua esposa Edith Daniel Leite assinaram, com Amel Baís (como era conhecido popularmente o engenheiro) um desses contratos, encarregando-se inicialmente de um lote de terras de 5 alqueires (12,1 hectares). O casal, com foice, enxada, enxadão e matraca, “deu um duro danado” e depois dos 5 anos obteve, pelo bom desempenho, renovação do contrato, com um novo lote para utilizar e ao final entregar “formado”. E essa renovação ocorreu pelo menos mais duas vezes.

Os agricultores produziam, naquelas terras férteis, principalmente milho e arroz, negociados ao final da safra com comerciantes de Campo Grande que possuíam máquinas e equipamentos para estocar, beneficiar e ensacar esses cereais. No transporte para a cidade, a novel ferrovia era solenemente desprezada, entrando em ação, apesar das estradas precárias, o ágil caminhãozinho do comerciante, que retirava os cereais ensacados da propriedade rural e os deixava na firma beneficiadora.

Com muito trabalho e, com ele, muita saude, o casal de agricultores ia economizando um dinheirinho a cada ano, deixando entretanto o maior ganho para os intermediários da cidade, cuja esperteza lhes valeram riquezas e afixações de seus nomes em logradouros públicos. Isto quando os maiores beneméritos foram os que trabalharam duro na terra. A propósito, uma vez o Mário, já chegando à meia idade, resolveu conferir a pesagem de um desses comerciantes, que como é notório, já ganhavam muito no preço (que era estabelecido por eles) e no vício da balança. Pesa aqui, pesa ali (com a balança do intermediário), o agricultor constatou, na anotação da carga de um caminhão, a falta de meio quilo por saca; no outro caminhão, 1 quilo por saca. O comerciante ainda quis argumentar que era o desconto pelo peso do saco vazio (que na verdade seria de 250 gramas), mas o Mário não quis saber: ou recebia pelo peso integral ou retiraria a mercadoria, nem que fosse para perdê-la ao relento da rua. O maquinista, ciente de que um escândalo faria sua “credibilidade” afundar, apressou-se a despachar o agricultor com o pagamento integral que ele merecia…

Por incrível que pareça a quem acha que o mundo piorou nos últimos 50 anos, na década de 60, num lote vizinho ao do casal, começaram a se fazer notar movimentos suspeitos de pretensos “agricultores” vindos da cidade. Fim de semana sim, fim de semana não, apareciam dois elementos, um sargento e um mecânico, ficavam ali algumas horas e depois voltavam para a “civilização”. Crianças dos lotes vizinhos resolveram averiguar e encontraram, num coberto de palha, uma carcaça de automóvel, com a lataria e as partes maiores do motor, mas sem as rodas. Meses depois, quando as duas primeiras rodas já haviam sido colocadas, ocorreu um tumulto, com a presença de muitos oficiais, que recolheram o “veículo” para Campo Grande. Não se sabe se o ladrão-a-conta-gotas (ou a-conta-peças) foi punido ou se já haviam inventado a “terminação em pizza”…

Driblando as doenças e os comerciantes, o casal finalmente tinha debaixo do colchão uma boa quantia em dinheiro. Somada a uns diamantes obtidos por Mário em priscas eras garimpeiras, deu para comprar, à vista, uma pequena fazenda a noroeste e a 100 quilômetros dali, às margens do Rio Aquidauana. As novas terras não eram tão boas quanto as que deixavam para trás, mas com elas garantiram o futuro da nova geração dos Leite. Os honestos contratos firmados com o engenheiro serviram, mais tarde, para provarem ao INSS que eles eram, de fato, agricultores, e que mereciam receber, em sua velhice, uma pequena e justa aposentadoria. Mário aproveitou-a muito pouco, e morreu em 1998; Edith continua lúcida, com boa saúde, boa memória e muitas histórias para contar.

A veneranda senhora de 79 anos.

3 – Rodovia Versus Ferrovia

Vimos, nos dois itens anteriores, como já nos anos 50, nos percursos curtos, as rodovias, ainda que extremamente precárias, iam vencendo a concorrência com a ferrovia. Sobravam para as Estradas de Ferro os percursos médios ou longos, de 100 quilômetros ou mais. Nesses percursos as ferrovias brasileiras ainda imperaram por um bom período (até o final da década de 60 para o transporte de passageiros, até o final da década de 80 para o transporte de cargas).

E enquanto as rodovias se tornavam cada vez mais abrangentes (privilegiando o capitalismo rodoviário dunidense), os caminhos de ferro (instalados para privilegiar o decadente capitalismo ferroviário britânico) paravam no tempo, sem expansão e sem substituição de maquinários e instalações, antecipando um destino de sucatas. Sem contar que as antigas regiões fornecedoras de produtos exportáveis (café, por exemplo), servidas pelas ferrovias, foram se tornando, com o esgotamento da fertilidade original dos solos, campos para pastagens ou lavouras de consumo precipuamente regional.

No caso de Mato Grosso do Sul, nunca houve, em qualquer ponto das linhas férreas, uma produção em massa que justificasse economicamente a ligação ferroviária com o porto de exportação paulista (Santos). Mesmo a demanda por transporte de passageiros era precária, pois não havia um grande centro regional que atraisse passageiros de média distância. Campo Grande era ainda muito pequena; Cuiabá estava longe demais e sem ligação ferroviária; Bauru e São Paulo, a distâncias inviáveis, mais propícias a aventureiros esporádicos e mascates do que a passageiros habituais.

Interessante é que agora o governo federal volta a pensar em novas ferrovias para Mato Grosso do Sul. Uma ligando Porto Murtinho (entreposto de exportação de minérios) a Panorama (ponto final de uma ferrovia paulista sucateada e inoperante em pelo menos 200 quilômetros). Outra ligando Maracaju e Dourados a uma ferrovia do governo paranaense. Ambos os projetos são inviáveis economicamente. Porto Murtinho é ponto de chegada de produtos exportáveis (minérios de ferro e manganês) que vêm de outra direção (morrarias de Urucum, ao norte, no município de Corumbá). Requereria, portanto, uma ferrovia que a ligasse a Porto Esperança, de forma a não interromper a exportação de minério nos períodos em que o Rio Paraguai está muito raso a montante (como acontecia até há poucas semanas). Quanto à ligação ferroviária com o Paraná, as cidades de Maracaju e Dourados já têm ligação ferroviária com porto de exportação (Santos), através de ramal da ALL, atualmente desativado. Se há demanda para o transporte ferroviário de produtos agrícolas da região, porque não reativar o ramal, até mesmo modernizando-o com bitola larga e máquinas modernas, de maior velocidade? Sairia bem mais barato do que construir um ramal novo para a estrada de ferro paranaense. O mesmo raciocínio vale para a linha-tronco Corumbá-Três Lagoas (que prossegue até Bauru-SP). Bitola larga e máquinas compatíveis reavivariam de fato o Trem do Pantanal (atualmente uma paródia do antigo) e o transporte de passageiros em geral. E aumentaria a competitividade da ferrovia nos médios e longos percursos.

Como frequentemente acontece no Brasil, desde priscas eras, parece que o governo federal recebe o encargo (pagando talvez o pecado de o país não ser superpotência) de fazer obras inúteis e inviáveis, apenas para satisfazer necessidades de grupos internacionais (que fornecerão as máquinas e equipamentos, ou parte significativa deles), empreiteiras nacionais (sempre sequiosas de obras inúteis) e políticos de todas as extrações (que querem ver as empreiteiras e os trustes felizes, mesmo ao custo da infelicidade de seus eleitores e da inviabilização do país).

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4 Respostas to “Velhas Histórias Rodoferroviárias”

  1. Jack Lourenco Says:

    De minha estadia em Campo Grande MT em 1963/65, tive conhecimento do valoroso comerciante Sr. Nain Dibo ao que soube que ele era o concessionário da Mercedes Benz, da petrolifera Esso, etc. etc. Me disseram que ele começou a ser negociante vendendo bananas em uma bicicleta, etc, etc. Onde posso obter mais informações de este ilustre Sr. Aguardo por novidades. Jack Lourenco

    __________

    resposta do blog:

    Jack:

    Não temos conhecimento pessoal com a família Dibo, mas há na Internet algumas informações adicionais (geralmente laudatórias ou meramente folclóricas, e portanto com lacunas historiográficas). Por exemplo:

    1. Imigração Sírio-Libanesa em Campo Grande e o Clube Libanês (dissertação apresentada à UFGD por Marcia Regina Cassanho de Oliveira em 2010);

    2. A Cidade dos Mortos: da monumentalidade do mármore aos cemitérios parques na cidade de Campo Grande – MS (de Fabio William de Souza)

    Você poderá estender a pesquisa rastreando outras fontes da Internet referentes a Naim Dibo ou talvez entrando em contato com esses acadêmicos (a fonte 2, acima, apresenta e-mail do autor do texto).

  2. JORGE Says:

    SOU FILHO DESTA CIDADE!
    SOU JOVEM EM RELAÇÃO A ESTA HISTÓRIA, MINHA TIA ERA VIZINHA DESTE GRANDE HOMEM CHAMADO NAIM DIBO.
    TRABALHADOR, PRÓSPERO, HUMILDE E CARIDOSO.
    O QUE FALAM DE BEM É VERDADE TALVEZ O MAIOR ICONE DE CAMPO GRANDE MS.

  3. Edson Gil Motti Says:

    sou a terceira geração de imigrantes italianos.. que eram atraidos pela mao de obra eficiente no esforço fisico no desenvolvimento da ferrovia do oeste do brasil… pessoas de pensamento forte e decidida naquilo que quer fazer, pessoas de força como a colonia japonesa. porem os unicos rusticos homens a aguentar o tranco… sou neto de WALDOMIRO MOTTI… um dos pioneiros a fabricar tijolos para o desenvolvimento desta cidade… podendo citar … alguns renomados predios que foram feitos com tijolos da familia dos oleiros italianos MOTTI… WALDOMIRO MOTTI, onde hj se encontra o bairro José Abrão… foram feitos o colegio joaquim murtinho… a escola maria constancia de barros machado, o comando militar na av. afonso pena. .e alguns armazens na rua 14 de julho… muito amigo do então NAIM DIBO, o qual muitas vezes, quase sem tempo de pegar dinheiro, oferecia terrenos onde é o estadio belmar fidalgo a troco de cada 3.000 tijolos… e sempre o humilde italiano negava aquele lote de capim coloniao dizendo que tinha q pegar dinbheiro para pagar seus empregados. . .hj 3.000 tijolos comuns nao compram a grama do estadio… rssss… relatos da vida real…

    __________
    O blog diz:

    Obrigado pelo depoimento, Edson Gil! Indagaremos por e-mail se você tem fotos dessa olaria e de seu avô…

  4. edson gil motti Says:

    sim tenho as fotos da olaria. .dos caminhoes velhos casa dos empregados casa do patrão .funcionarios fazendo tijolos. e tambem estregas.
    recebendo dinheiro no escritorio do nahin dibo.
    __________
    Valdir diz:

    Edson:

    O blog gostaria de ver as fotos e saber mais informações sobre elas e as pessoas fotografadas. Pode me telefonar? Meu celular é 9664-1226 (fixo, 3342-4436). Obrigado.

Comentários encerrados.


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