Fios Que o Prendem à Infância

Na postagem anterior fizemos uma rápida análise dos dois primeiros livros publicados (respectivamente em 1937 e 1942) por Manoel de Barros. Deles dissemos:

“A impressão que ficou é a de uma sequência aleatória de visões fugidias, da infância e da juventude do autor, permeadas por sentimentos vagos que não se querem mostrar por inteiro (e nem mesmo pela metade). Coisa talvez de um poeta indeciso, ainda à procura de suas Musas ou do Universo que irá construir ou recriar.”

O terceiro livro (“Poesias”, publicado em 1956) é muito mais denso, mas também mais rico em disfarces e negaças. Comecei a lê-lo e fui me enredando em cipoal, clareira, carrascal, clareira e floresta impenetrável. Esta se mostrou na forma do soneto “A Viagem”, na metade do livro. Tive de parar e buscar auxílio na Internet, por sorte logo encontrando um artigo publicado em 2002, na Revista Letras, de Curitiba, edição 58. O título do trabalho é “Estilo e Regressão em Poesias (1956): a Dicção Infantilizada em Manoel de Barros” e seu autor Edson Soares Martins, na época Mestre e atualmente Doutor em Letras pela UFPB.

Martins concentra a análise exatamente no soneto e no poema “A Boca”. Consegue desvendar o contexto que dá sentido a esses poemas (e a quase todos os outros), observando o reaproveitamento, a repetição, de certas imagens (exemplos: boca, mãos, seco, podre, morto), o que configura, para o articulista, um mecanismo compulsivo. E este empurraria o eu-lírico (ou seja, Manoel de Barros enquanto poeta) a uma demanda regressiva (na teoria freudiana), responsável pelo enfoque menino de suas obras posteriores.

Enquanto o escrever pretensamente infantil não se materializa, em “A Viagem” o eu-lírico estaria submetido a uma compulsão masoquista, ou seja, à necessidade de autopunir-se pelo “pecado” (infantil) de haver obtido prazeres proibidos (“mãos envenenadas de ternuras” é bem sugestivo). Outra vertente do mesmo “pecado”, ou de “pecado” moralmente equivalente, é dada pelo poema “A Boca”, designando esta palavra (e aqui nós vamos um pouco além do articulista) uma outra fenda feminina (“grota rasa” no dizer do poeta), a única que povoa o imaginário dos meninos…

Mas vamos ao soneto, que descreve cenas oníricas e que ao adquirir sentido se torna belo:

A VIAGEM

Rude vento noturno arrebatou-me

Para longe da terra, nu e impuro.

Perdi as mãos e em meio ao oceano escuro

Em desespero o vento abandonou-me.


Perdido, rosto de água e solidão,

Adornei-me de mar e de desertos.

Meu paletó de azuis rasgões abertos

Esconde amanhecer e maldição…


Um deserto menino me acompanha

Na viagem (que flores deste caos!)

E em rosa o sol me veste e me inaugura.


Dou às praias de Deus: a alma ferida,

As mãos envenenadas de ternuras

E um buquê de carnes corrompidas.

É claro que uma boa parte dos poemas do terceiro livro não resultam de inspiração do Inconsciente do autor. Essa parte é compreensível de imediato (exemplos, “Olhos Parados” e “Pedido Quase uma Prece”). Mas a outra parte, a interessante, só ganhou sentido, pelo menos para nós, a partir da aposição do contexto freudiano.

Quanto aos elementos de estilo, um destaque vai para o uso da construção tipo “As portas emitiam mulheres portuguesas” (em lugar de “Mulheres portuguesas saiam pelas portas”), em que o substantivo do objeto ou complemento (no caso,  portas) substitui o elemento que normalmente é dado como sujeito (no exemplo, “Mulheres portuguesas”). Essa figura de estilo é utilizada num bom número de poemas.

Outro elemento de estilo é o uso de complementos verbais “quebrados”, cujos sentidos são difíceis de captar, talvez um ensaio para a futura verbalização dos substantivos (“A rã me pedra”). Um bom exemplo é o do poema 14, enigmático mesmo à luz da teoria aventada por Martins (os complementos verbais aparecem em negrito):

Seria homem ou pássaro?

Não tinha mãos.

Vestígios de sua boca iam para flor.

Havia uns sonhos

Dependurados como roupa.

Uns podres ornamentos de pano e móbiles

Gâmbias dispersas,

Cata-vento. Perto

Havia um barco.

Barco ou peixe?

Não pude precisar.

Vi o homem andando para semente

E a semente no escuro remando para raiz.

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Linque para o artigo de Edson Soares Martins: Estilo e Regressão em Poesias .

Linque para pequena biografia de Manoel de Barros: www.releituras.com .

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