Arquiteto 102

Aí está Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho comemorando os seus 102 anos de vida. O arquiteto, seguramente o mais famoso do Brasil, é uma figura controvertida. Pela opinião dos internautas ele costuma, numa ponta, ser alçado a alturas divinais; na outra, ser rebaixado a simples “comunista insincero que se locupleta com as benesses do Capitalismo”.

Dizem os orientais que a virtude está no meio, e é no meio da escala vertical referida que este blog coloca o sisudo projetista. Vejamos por que.

É estúpido e preconceituoso desqualificar a atuação profissional de alguém apenas considerando sua ideologia política que, se pode vagamente influenciar o seu estilo e as suas idiossincrasias, não deixa em sua obra quaisquer marcas identificáveis. Essas pessoas considerariam (caso tenham alguma pitada de bom gosto) a Catedral de Brasília um projeto belíssimo de se ver, caso lhe dissessem que o projeto é de um arquiteto não-comunista…

Igualmente estúpido é pautar-se bovinamente pelo que diz a Grande Mídia, cuja cumplicidade visceral com o Engodo está sendo nestes últimos anos revelada pelos blogs da Internet. Em 1953 já a revista Manchete, em edição monocromática, chamava Oscar Niemeyer de “genial arquiteto”, sendo que nessa época o seu projeto individual mais conhecido era o da Pampulha, em Belo Horizonte, um trabalho polêmico (a igreja levou 16 anos para ser consagrada) mas nada excepcional.

Na verdade o Oscar Niemeyer que vai ficar na História da Arquitetura Brasileira é aquele da época da construção de Brasília. Ali estão os seus projetos que impactaram em termos de beleza e plasticidade exterior: a Catedral de Brasília (esta, também interiormente), o Palácio da Alvorada, os palácios da Justiça e do Itamaraty, e finalmente os edifícios do Congresso. Depois disto, temos dezenas de projetos majestosos pelo porte mas carentes de maior criatividade (com exceção do tapete voador da Universidade de Constantine, na Argélia). É o caso do Museu Niemeyer de Curitiba, um olho kitsch precariamente sobreposto a uma enorme caixa de concreto. É o caso da “taça” de Niterói, corpo estranho na bela paisagem fluminense. A “mão” do Memorial da América Latina, em São Paulo, parece mão de afogado, como aquelas que assustam os visitantes que chegam à cidade de Dourados, aqui em Mato Grosso do Sul. E os exemplos se multiplicam.

Mas não foi o “comunismo” da mídia brasileira (quase toda ela, na verdade, ferrenha anti-comunista e anti qualquer coisa que cheire a restrições à ação do Capital) que procurou, em todas estas décadas, endeusar o arquiteto. Não sabemos o motivo, mas um dos corolários dessa ação combinada dos meios de comunicação foi a criação kafkiana, num incerto momento, de um mercado brasileiro de obras públicas não essenciais (alguns diriam supérfluas, desnecessárias) e a sua reserva ao escritório do agora mais-que-centenário arquiteto.

Na verdade, as muitas obras realizadas sob a égide dessa reserva de mercado pouco acrescentaram às belas realizações dos anos brasilienses (1956-1961), o que comprova a impropriedade desse regime de contratação. Mas mesmo com as recorrentes comprovações do fato, parece que cada um dos tentáculos ou instâncias do Poder Público brasileiro sempre tem algumas dezenas (ou centenas, ou mesmo milhar) de milhões de reais sobrando para tentar engrandecer no concreto armado a biografia de Niemeyer. Assim é que aqui em Campo Grande primeiro encarregaram o tal escritório de projetar um Observatório; logo em seguida, encomendaram o projeto de um Aquário gigante, cujo edifício vai parecer uma bola-de-futebol-americano achatada. Acho que vão acabar pensando num mega-hotel para recepção de tripulantes de discos voadores…

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Abaixo apresentamos algumas fotos de uma obra em Campo Grande (a da Escola Estadual Maria Constança Barros Machado, inaugurada em 1954) projetada originalmente por Oscar Niemeyer para a cidade de Corumbá. É bonitinha no arco frontal preenchido com brises, mas chama a atenção também pelo mal acabamento do concreto na laje desse mesmo arco.

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Notas

1. Lemos, no sítio “Victoria Quae Sera Tamen” o interessante epíteto “Meu Altíssimo Jesus, Meu Niemeyer Mais Novo”, comprovando o endeusamento em certas áreas do imaginário popular (ou melhor, na Second Life, ou Realidade Paralela, impingida à população pela Grande Mídia).

2. Lemos no sítio RevistaAU notícias passadas sobre o novo prédio da Biblioteca Nacional, projetado por Niemeyer. Inaugurado 2 vezes em 2006, pelos governadores do Distrito Federal (Roriz e depois Maria Abadia), continuava, em dezembro/2007, fechado para o público, devido a “vazamentos e excesso de insolação nas fachadas longitudinais”, este último porque os cobogós teriam sido executados num tamanho maior do que o previsto pelo projeto “como forma de contenção de gastos”.

Bom, decerto muita gente botou a culpa no Niemeyer pela troca dos cobogós e até pelo alto preço da construção – cerca de 42 milhões de reais, ou 4 mil por metro quadrado -, mas isto é tão injusto quanto a oposta insinuação de divindidade. E muita gente (exemplo, a turma do sítio gaúcho Nova Corja) botou a culpa, também injustamente, em Lula e no PT, quando todas as contratações e pagamentos foram feitos pelo governo do Distrito Federal (unidade autônoma da Federação, como um Estado), cujos últimos mandatários (Roriz, Maria Abadia e Arruda – este, o dos vídeos da corrupção democrata) não são nada amigos do Filho do Brasil…

3. Há quem aponte, nas obras projetadas por Niemeyer, casos recorrentes de mau acabamento e impropriedades construtivas. Nada que seja da responsabilidade do arquiteto ou de seu escritório, mas é fácil concluir que muita gente “pega carona” na exagerada fama, e mais ainda na intocabilidade, do bom velhinho, e consegue um lucrinho extra com serviços de segunda e materiais inadequados. Seria bom para o país que apenas o arquiteto fosse intocável, não se estendendo essa condição a qualquer malandro que dele se aproxime…

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Uma resposta to “Arquiteto 102”

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