Um Poema de Manoel de Barros

Se você tem veleidades poéticas, ou seja, se gostaria, em tese, de escrever poemas, tem pelo menos duas opções. A primeira é ter algum conhecimento de Inglês e desembolsar 420 Libras (na cotação de hoje R$ 1.159,96) fazendo, na Open University ( http://www3.open.ac.uk/study/undergraduate/course/a175.htm ), o curso Start Writing Poetry. A segunda é grátis, mas nem porisso menos valiosa. Consiste num exercício de imaginação (e como se sabe, imaginação é quase tudo, em Poesia) com um poema de Manoel de Barros.

Nesse poema, denominado “Eras” (desinência nada ortodoxa do verbo Ser, no universo infantil do poeta), o bardo matogrossense, que acaba de receber um prêmio internacional (“Grande Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen”, da Câmara Municipal de São João da Madeira, Portugal), traça um paralelo entre o “faz-de-conta” infantil e proposições mentais muito parecidas, solenemente perpetradas por adultos. Na primeira parte do poema, Manoel de Barros conta como os infantes de sua vida rural (ou suburbana) faziam uma pedra virar sapo ou um menino virar tatu. Por essa Mágica, o sapo (na verdade pedra), eras, e o tatu (possivelmente um menino desvalido mais dócil) também eras. E depois lança uma frase “adulta”, para comparar e perguntar, perplexo, se tudo “não é o mesmo faz-de-conta?”.

Pois bem: o desafio é fazer-de-conta (coisa muito compatível com o universo manoeldebarriano) que o poema só tem uma versão – constante em painel na Avenida do Poeta, em Campo Grande (que na verdade suprimiu um verso da obra). Mais. Fazer-de-conta que dessa versão só existe um manuscrito, achado numa garrafa boiando no Rio Paraguai, próximo de Corumbá, e que em tal manuscrito dois versos (e parte de um terceiro) aparecem totalmente ilegíveis, manchados por alguma infiltração d’água (bom, não seria poético dizer “infiltração de água”…).

O leitor-futuro-poeta vai ter que completar o poema furtado e manchado. Abaixo, o poema de Manoel de Barros, sem o verso “esquecido pelos insondáveis meandros dos processos licitatórios governamentais-onguiásticos-capitalistas” e sem os versos borrados pela má vedação da garrafa:

ERAS

.

Antes a gente falava: faz de conta que

este sapo é pedra.

E o sapo eras.

Faz de conta que o menino eras um tatu.

A gente agora parou de fazer comunhão de

pessoas com bicho, de entes com coisa.

A gente hoje faz imagens.

Tipo assim:

“ … … … … … … … … … … … “

“ … … … … … … … … … … … “

[Mas na verdade] A [(ou O)] . . .  eras [ou seja,

é mero fruto da imaginação].

Então é tudo faz de conta como antes?

.

Bom, para quem preencher, com a sua experiência e imaginação, a parte reticenciada (ops, baixou o espírito do poeta!), o blog vai premiar com uma pequena lembrança. E para quem fizer a melhor frase (ou frases), supondo-se que haja mais de um participante, o blog dará uma lembrancinha um pouco mais valiosa (se não for um tatu, o premiado deverá considerar que eras um tatu…).

Uma dica: o verso, ou versos, deve descrever uma frase (ou frases) comumente dita por nós, adultos, e que esconda uma ficção do tamanho de um mamute.  Seria mais ou menos do tipo: “O Sílvio Santos é São Francisco de Assis” (onde São Francisco eras), porém de caráter mais genérico, sem a citação de uma pessoa em particular e, importante, utilizando imagens e metáforas, e não simples adjetivos.

____________________

Observações:

(1) No trabalho “A Representação da Infância na Poesia de Manoel de Barros”, de Maria Tereza Scotton, da PUC-RJ, consta uma frase a mais: “Estavas um caramujo – disse o menino.” Link: http://www.anped.org.br/reunioes/27/gt07/t075.pdf . Para ver o texto disponível no painel, clique aqui .

(2)  –  Como apresentador, o Sílvio Santos é bom, e o blog até curte. Aliás, o blogueiro assiste muito o SBT: é fã também do Roberto Justus (“Um contra 100”) e do Jornal da Band (o Joelmir Beting lembrou outro dia como o MST, além de municiar a Extrema-Direita de (maus) argumentos,  faz brilhantemente, com o esquema “Índices de Produtividade”,  o jogo… das multinacionais transgênico-agentelarânjico-tratorais) …

(3) – Ops, não há na observação anterior uma licença poética em relação às redes SBT e Band?!…

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2 Respostas to “Um Poema de Manoel de Barros”

  1. pimentinha Says:

    Que postagem deliciosa, Timblindim. Este blog um bálsamo a aliviar a ferida aberta das nossas carências intelectuais, e de beleza (em todos os sentidos).
    Quanto ao desafio, não sabemos se conseguimos nos desincumbir, mas tentaremos.
    _____
    do blog:
    Pimentinha:
    Estamos aguardando. Sabemos que a tarefa não é fácil; o projeto do poema é bom, mas o poeta aparentemente deu um exemplo provisório, para substituir mais tarde. Só que deve ter esquecido. Dê a sua dica; se ela não for perfeita, certamente vai inspirar outros internautas; se for perfeita, vai receber o prêmio DPP (“Dica Poética Perfeita”)…

  2. lins Says:

    ERAS

    Antes a gente falava: faz de conta que
    este sapo é pedra.
    E o sapo eras.
    Faz de conta que o menino eras um tatu.

    A gente agora parou de fazer comunhão de
    pessoas com bicho, de entes com coisa.
    A gente hoje faz imagens.

    Tipo assim:
    um jacaré de boca aberta
    fingindo ser céu de passarinho
    estavas jacaré – repetia o menino
    e limpava os dentes no vazio da vergonha
    o jacaré eras o sorriso acanhado das moças.

    E tudo é faz de contas, contas que não contas a ninguém.

    _____
    do blog:

    Lins:

    Boas imagens! Interpreto, na minha ótica de iniciante nos meandros da Poesia, que “os dentes se faziam limpar” pelo(s) passarinho(s). Se é que jacaré precisa de um tal serviço (talvez tenha um serviço próprio de bactérias bucais, mas nesses tempos de terceirizações, tudo é possível). E era só o que faltava: um jacaré desavergonhado, fingindo ser moça donzela (talvez fosse; talvez fosse “ela”; talvez ela fosse donzela)…

Comentários encerrados.


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