A distribuidora de energia frauda seus clientes ?

Imaginemos uma situação muito comum entre famílias da classe mais pobre. O cidadão paga aluguel por um cubículo em fundo de quintal, e sabe que não sobrará dinheiro para quitar a conta de energia. Resolve fazer uma gambiarra, ou ligação clandestina à rede de energia elétrica. Passa um mês, passa dois, passa três, passa dez. E o cidadão, que também está com o aluguel atrasado, resolve “dar no pé”. Vai embora, em busca de outro cubículo e de outra gambiarra.

Para sorte do dono do “imóvel”, este logo é ocupado por um cidadão de melhores (muito pouco) meios de ganhar a vida. Este cidadão, claro, não vai fazer uma gambiarra, pois respeita a Lei e a Companhia Distribuidora de Energia Elétrica. Vai à concessionária do serviço público e pede uma religação (anteriormente aos dez meses do fujão houvera um inquilino honesto). A distribuidora finge que está agradecida e aproveita para trocar o relógio por um modelo mais moderno, importado da China.

Daí a 1 mês vem a primeira conta de energia. E o inquilino correto se desespera com o valor astronômico ali indicado. “O relógio deve estar doido!” supõe ele, e vai reclamar. A poderosa companhia manda uma equipe para verificar o relógio. Mexem aqui, mexem ali, dizem que o equipamento não tem defeito e sugerem que o “cliente” reze para Santo Expedito (o santo das causas impossíveis, aquelas envoltas em soturnos mistérios).

“Decerto foi uma loucura temporária do relógio”, anima-se o consumidor correto. “Não dá pra vocês parcelarem esse débito? Em dez meses?” A generosa companhia parcela em 8 meses, para não parecer generosa demais com esses . . . com esses . . . “Bom, deixa pra lá!…”

Mais trinta dias e a nova conta repete a primeira quase que em gênero, número e grau. Diferença pouca, mas a maior. “Troquem o relógio, pelo amor de Deus! E parcelem “isso” em 20 prestações!…” Sai um parcelamento em 14 meses.

Então a companhia resolve trocar o relógio (que estava perfeito), e as novas contas de energia “milagrosamente” passam a apresentar-se com valores normais. Mas o calvário do “cliente” vai perdurar pelos 14 meses do parcelamento. Afinal, quem mandou ser honesto e pedir religação, ao invés de reforçar a Cultura da Gambiarra?!…

Uma, ou duas, ou mais companhias distribuidoras de energia elétrica fizeram desse “truque” um meio de “punir esses vagabundos” e obter bons lucros com isso, livres dos riscos e percalços de punir apenas os culpados, e livres dos limites impostos pelos procedimentos legais. Só que o truque, que já foi analisado por muita gente boa (o Picarelli recebe esse tipo de queixume quase todo dia), até aqui permaneceu com o seu segredo incólume. Com efeito, todos se debruçam, por indução das empresas, sobre o desempenho adequado ou inadequado do relógio, e alguns sobre a competência ou incompetência dos leituristas. Ninguém faz as perguntas certas aos funcionários das companhias, e assim estas perpetuam as injustiças, que ajudam a elevar seus lucros já bem altos.

A pergunta correta é: “O que está fazendo este “10” abaixo ou adiante da rubrica constante, ou constante x, ou, ainda mais enigmaticamente, const.(x) ?!” Alguma referência à camisa do Rei Pelé? Nada disso! Esse 10, ou melhor, a diferença entre esse 10 e a constante (1) que aparece nas contas dos cidadãos “normais” representa o percentual de 900% (novecentos por cento!) aplicado como multa (!) ou, segundo outra interpretação, como estelionato, ao infeliz consumidor correto! Mas o leitor pergunta: isto é legal? E o blog responde: apostamos que não, mas aguardamos a manifestação do Poder Judiciário que, mais cedo ou mais tarde, certamente será acionado.

Mas vamos a um caso concreto. O cidadão, honesto e trabalhador, tinha um consumo mensal de 100 kWh. Resolveu então presentear seus filhos com um computador usado e ligá-los à Internet, esperando melhoria no desempenho escolar dos pupilos. Se a melhora ocorreu não se sabe, mas a conta de energia foi subindo até os 150 kilowatts/hora mensais. Isto daria um débito mensal com a distribuidora de mais ou menos R$ 75,00. Em resumo, meses depois o cidadão começou a atrasar o pagamento da energia consumida, e o fornecimento foi cortado. Ao invés de fazer gambiarra, revendeu o computador e achou soluções legais porém incômodas para continuar com a energia. Com a melhora da situação, resolveu voltar ao antigo cubículo e pediu religação à concessionária. Então aconteceu mais ou menos igual ao relatado no início deste artigo.

Apresentamos abaixo parte da segunda fatura recebida por esse consumidor real e correto:

enersul_01

Como se sabe, o consumo a ser faturado num mês resulta da diferença entre a “leitura atual” (neste caso, segundo a própria Enersul, 251) e a “leitura anterior” (neste caso, segundo a própria empresa, 100). Não é preciso haver estudado em Harvard para concluir que o consumo de energia nesse mês foi de 251 menos 100, ou seja, de 151 kWh. Mas a empresa não cobrou por 151 kilowatts/hora; cobrou pelos 151 efetivamente consumidos MAIS 1.359 aparentemente imaginários (900 por cento de 151), num total de 1510 kWh e num valor de R$ 817,90. Ora, o cidadão não tem como pagar essa fatura e a do mês anterior, e não vai pagá-las, mesmo porque acha que só deve uma pequena parte delas.

enersul_02

O relógio do cliente não está com defeito. Vinte e três dias após a última “leitura” da empresa, o equipamento marca o consumo (correspondente a quase 3 meses) de 363 kWh.

P.S. 06/03/2009:

O cidadão supracitado (Edson) me telefonou informando que o caso foi resolvido. Ele conseguiu ultrapassar a barreira dos atendentes da empresa e falou com funcionário mais qualificado. Este mandou verificar a validade do argumento de que o medidor do Edson tinha constante 1, e não 10. Constataram os técnicos da empresa que a constante do relógio era realmente 1, e que o erro, portanto, decorrera de falha burocrática. Foram emitidas novas notas fiscais em substituição às 2 anteriores (falta corrigir a terceira, que acabou de chegar), e aberto novo prazo para recolhimento. Os parentes do rapaz fizeram uma “vaquinha” para acertar logo esses débitos reais, de modo que o moço possa recomeçar seu relacionamento com a empresa, desta vez em bases melhores de parte a parte. O cidadão jurou pela camisa 10 do Flamengo que nunca mais vai atrasar conta de luz.

Ponto para a empresa, que corrigiu um erro e acaba de ganhar um bom consumidor.

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