Apanharam da Estatística !

O Correio do Estado apresentou, em sua edição de 27/01/2009, um quadro estatístico, fornecido pela Assomasul – Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul, que informa, mês a mês, os repasses do governo federal, via Fundo de Participação dos Municípios, às 78 prefeituras do Estado e, pormenorizando, à prefeitura da capital. Os dados foram estes:

REPASSES DO GOVERNO FEDERAL AOS MUNICÍPIOS DE MS
2007 2008
MESES CAMPO GRANDE CAMPO GRANDE

CAMPO GRANDE

CAMPO GRANDE
+ 77 MUNICÍPIOS + 77 MUNICÍPIOS




Janeiro 4.373.312,19 39.721.898,99 5.575.269,18 51.694.044,77
Fevereiro 4.675.341,04 43.445.631,70 6.530.856,75 50.823.726,38
Março 3.884.662,28 36.098.244,76 5.812.060,63 45.229.988,79
Abril 4.816.685,63 44.759.076,68 6.734.335,29 52.407.215,22
Maio 4.780.714,39 44.441.100,49 7.088.532,73 55.163.611,92
Junho 4.883.933,70 45.400.617,78 6.111.576,63 47.560.848,86
Julho 3.857.030,88 35.854.620,05 5.536.273,78 43.083.788,14
Agosto 4.118.783,52 38.287.850,14 6.762.434,79 52.625.886,18
Setembro 4.151.223,15 38.589.401,60 5.955.431,59 46.345.712,56
Outubro 3.905.190,55 36.209.030,94 5.664.263,38 44.079.814,18
Novembro 4.578.887,68 42.455.569,22 7.182.780,53 55.897.052,25
Dezembro 6.627.209,90 61.447.668,34 6.974.677,78 54.277.577,65

Com base nesses elementos o jornal asseverou que os repasses aos municípios de Mato Grosso do Sul, no mês de dezembro de 2008, “despencaram 12%, se comparados com dezembro de 2007”. Até aí tudo bem, ressalvada a inconsistência analítica, que explicitaremos abaixo. Mas antecipadamente, e no chutômetro, o maior diário sul-matogrossense jura que isto foi resultado da “Crise Financeira Mundial”.

Bom, não vamos dizer que este blog é “bom em Estatística”, mesmo porque nos consideramos eternos aprendizes, sempre dispostos a reconhecer nossos erros e, com isto, aprender mais. Mas não costumávamos brigar com a Matemática em nossos tempos escolares. Assim, permitimo-nos apontar alguns erros clamorosos nessa visão do jornal, provavelmente baseada na visão da Assomasul. Iniciamos por acrescentar aos dados citados um elemento importantíssimo em tabelas estatísticas: as somas das colunas. Aí vão elas:

12 MESES 54.652.974,91 506.710.710,69 75.928.493,06 599.189.266,90

Bom, no cômputo dos 78 municípios, houve a citada diminuição de repasses, num mês específico. Mas vemos que :

1) Campo Grande (e provavelmente outros municípios progressistas, como por exemplo Três Lagoas) não amargou igual dissabor, ganhando um aumento de 5,24% (diferença percentual entre o repasse de dezembro/2008 e o de dezembro/2007). Assim, os dados da Assomasul não justificam a preocupação teatral do prefeito Nelsinho Trad, para quem “a situação não está para brincadeira”…

2) A comparação entre dezembro/2008 e dezembro/2007 atipicamente não indica uma tendência, uma vez que nos 5 primeiros meses do segundo semestre de 2007 ocorreu uma espécie de retenção de repasses (algum economista deve ter os detalhes), com os valores retidos finalmente desaguados no sexto mês (comparem a estratosférica – em termos de contas públicas – diferença entre o total de repasses de dezembro/2007 (61 milhões) e novembro/2007 (42 milhões)).

3) Aplicando uma boa técnica de análise estatística, devemos comparar o segundo semestre de 2008 (média mensal de repasses aos 78 municípios, R$ 49.384.971,83) com o segundo semestre de 2007 (média mensal de R$ 42.140.690,05). Percebe-se um excelente crescimento de 17,19%.

4) Comparando-se dezembro/2008 (54.277.577,65) com o mês anterior (novembro/2008, R$ 55.897.052,25), constata-se uma ligeira queda de 2,98%. Mas variações assim, para mais ou para menos, são normais em qualquer série estatística: em março de 2007, por exemplo, a queda foi de 16,91% em relação ao mês anterior (e naquela época nem se sonhava com o estouro da bolha do sub-prime norte-americano…).

5) Conclui-se que a crise econômica mundial ainda não se refletiu nos repasses do governo federal aos municípios, apesar da “torcida” de setores retrógrados da sociedade.

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