A Causa da Paz

Transcrição do artigo de Carlos Marum, engenheiro civil e advogado, publicado no Correio do Estado de 10/01/2009.

Estado Palestino – A Causa da Paz

Mais uma vez Israel afronta o mundo civilizado e lança uma operação genocida contra o povo palestino. Há quatorze dias submete a Faixa de Gaza a um bombardeio indiscriminado, levado a efeito por navios, tanques e aviões. Se desconfiarem que um militante do Hamas se encontre em um apartamento, destroem o edifício inteiro, sem se importar com o fato de ali também residirem homens, mulheres e crianças que nada tem a ver com os combates. Mataram até o motorista de um caminhão de um comboio humanitário que levava remédios durante o período estabelecido como trégua humanitária. Bombardearam uma escola da ONU, matando cerca de 60 civis, a maioria crianças, que ali se escondiam julgando-se protegidas. Não tenho conhecimento de uma outra guerra onde crianças tenham sido 1/3 das vítimas fatais. Pois Israel está conseguindo esta proeza nesta nova ação de “auto-defesa”.

Tenho acompanhado as reações internacionais em relação ao conflito e ouso dizer que elas são completamente equivocadas. Não se enfrenta a verdade, ou seja, o fato de a maioria dos israelenses ainda não desejarem a paz. Em Israel, matar palestinos ainda “dá voto”. Façam a cronologia das últimas blitzkriegs judias e verificarão, como no caso atual, uma estranha coincidência com as datas das eleições.

Penso que as vitórias israelenses criaram no seu povo uma necessidade biológica pelo sucesso militar. Esta guerra já era para ter acabado, e com a vitória de Israel. Os sucessos nos campos de batalha em 48, 56, 67 e o não insucesso em 73 consolidaram a existência do Estado Judeu. A maioria dos países árabes reconheceu esta realidade. A comunidade internacional, liderada pelos E.U.A., garantia esta situação. Dali para frente eram acertos que viriam naturalmente nas mesas de negociações. Daí veio a tragédia. Israel, que havia vencido heroicamente a guerra por sua existência, decidiu começar uma outra, ou seja, a guerra pela não existência do Estado Palestino.

Não devemos buscar as razões desse conflito em causas milenares. É equivocada a idéia da inexorabilidade desta luta. Esqueçam Abraão, Isaac e Ismael, pois eles não têm nada a ver com isso. Desconsiderem a Diáspora, o Holocausto e até 1948. Tudo é coisa superada. A causa é bem mais próxima. Vamos a 1993 e ao histórico aperto de mãos entre Arafat e Rabin. Ali se evidencia a verdadeira razão do que está acontecendo hoje. Diante do olhar determinado de Bill Clinton, um constrangido, mas decidido Rabin apertou a mão de um Arafat que não cabia em si de tanta felicidade. Naquele instante a “terrorista” OLP abandonava a luta armada e reconhecia a existência do Estado de Israel e Israel reconhecia o direito dos palestinos de terem a sua pátria. O problema vem depois. Arafat volta a Palestina, é recebido como herói e eleito presidente da Autoridade Nacional Palestina com mais de 90% dos votos. Rabin volta a Israel e é assassinado pelas costas por um judeu e este assassinato é apoiado pelo eleitorado israelense que desautoriza os Acordos de Oslo e elege primeiro ministro Netanyahu, um simpatizante do assassino. Trata-se de um raro caso de assassinato referendado pelas urnas. Neste caso matar um judeu “deu votos” em Israel.

Após o assassinato de Rabin, a história de Israel é a materialização do terrorismo de Estado. É um terrorismo sem homens-bomba, mas que joga bombas de forma muito mais letal. Além disto, sua atuação governamental pró-guerra é constante e evidente. Começaram a sabotar a ANP, desmoralizando seus líderes, destruindo sua infra-estrutura e confinando Arafat até a sua mal explicada morte. O Hamas, movimento com o qual não simpatizo, só é forte porque Israel quis assim. Desocuparam algumas colônias em Gaza, é verdade. Mas imediatamente a cercaram e depois vieram a construção do vergonhoso muro, passando pela implantação de novas colônias na Cisjordânia e chegando aos bombardeios genocidas da atualidade, tudo acontecendo em conformidade com o desejo de um eleitorado que quer a guerra. E é isto que tem que mudar.

Quanto ao atual massacre, Israel, que já saiu do Líbano com a aura de invencibilidade de seu exército terrivelmente chamuscada, vai sair de Gaza com outra meia vitória. Já estão por lá há duas semanas e ainda não conseguiram derrotar um movimento que vive há anos cercado e confinado em uma das mais miseráveis porções de terra do planeta. Já mataram bastante gente, é verdade, mas convenhamos que isto seja pouco para uma máquina de guerra que não faz muito derrotou inapelavelmente em seis dias os exércitos de vários países árabes. A verdade é que muitos palestinos passaram a preferir a morte a continuar vivendo sob tanta humilhação e isto os está fazendo fortes. A ponto de ser hoje, a não ser que se mate a todos eles como querem alguns, impossível vencê-los.

Sem Estado Palestino, não haverá paz !

A única solução é o fortalecimento da posição daqueles homens e mulheres de bem que em Israel já entenderam que não é possível a solução militar e que os palestinos também têm o direito a terem sua pátria livre e soberana, até para que tenham algo a perder além da própria vida. Falo dos autênticos e não daqueles que ficam hipocritamente falando em paz, mas que têm a “cara de pau” de defender operações de “auto-defesa” como esta.

Considerando o que aconteceu com Rabin, fica evidente que, em Israel, para fazer a paz é preciso mais coragem do que para fazer a guerra. Restará ainda a necessidade de promover-se o isolamento dos radicais que existem dos dois lados, mas só no dia em que estes corajosos forem a maioria do eleitorado judeu é que estará verdadeiramente aberto o caminho para a paz.

Opinião do blog:

Comentário perfeito, bem equilibrado. O blogueiro esclarece que não tem (acha) raízes árabes ou islâmicas e nem (acha) raízes judáicas, sendo mero cidadão brasileiro que acredita que individualmente os árabes são bons, os judeus são bons, os japoneses são bons, os brasileiros são bons, gente de qualquer lugar do mundo é boa, mas que todos devem, e podem, melhorar um pouco (ou muito).

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