O Rap, o Filósofo e os Políticos

Goiânia, segunda-feira, 08/12/2008. O jornal Diário da Manhã, daquela cidade, nos dá conta de que na Assembléia Legislativa de Goiás ocorreu a entrega de Medalhas a 18 cidadãos. Um deles, o cantor de rap Claudim (Cláudio Roberto dos Santos), 30 anos, por seus trabalhos na “afirmação da cultura negra, combate ao racismo e violência social realizados em escolas e comunidades carentes”.

Com o seu grupo de hip-hop, o cantor resolveu agradecer ao seu modo: cantando. E cantou estes versos:

Político rouba, político rouba

Dentre mil um roda

Os despolitizados viram massa de manobra

Estão tão acomodados que se viram com as sobras

Sobra de ignorância,

não têm pra onde correr

Existe um abismo entre o Povo e o Poder.

Pois é, a maioria dos deputados vestiu a carapuça e se indignou. Mas mesmo na geral, cheia de puxa-sacos, houve muito riso deliciado e até aplausos.

Depois Claudim explicou:

A música é uma das formas mais contundentes de manifestação. Aproveitamos a oportunidade para mostrar que o povo vota sempre nos mesmos corruptos. Não atacamos ninguém [individualmente] . Mesmo porque, se fôssemos fazer uma música para cada político corrupto, daria uma discografia gigante…

Teve “representante do povo” que queria cassar a medalha recém-concedida, mas, nas palavras do Diário da Manhã,

o rapper, que só concluiu o ensino médio, filho de uma dona de casa e de um metalúrgico, é morador do Setor Norte Ferroviário e diz que a medalha não passa de objeto simbólico. “É um metal preso em uma cordinha. Perguntaram se minha mãe não me ensinou que devemos ter educação na casa dos outros. Não entendem que a Casa não é deles, é do povo.

Bom, em primeiro lugar, percebe-se que apesar de possuir apenas o segundo grau, Claudinho se expressa muito bem na Língua Portuguesa, seja no estilo rap, seja no discurso comum. Bem diferente, por exemplo, do prefeito de Campo Grande, que apesar de “dotô”, costuma se enrolar todo quando tenta explicar alguma coisa, sendo isto sinal certo de confusão mental (ou, querem alguns, de insinceridade).

Mas, dirão os preconceituosos de sempre, “dessa raça não se poderia esperar outra coisa”. Então o blog dá a palavra a um pensador brasileiro cujo centenário de nascimento ocorrerá em janeiro próximo e que, apesar de “libertário”, nas palavras do colunista Pedro Porfírio, da Tribuna da Imprensa, é “curiosamente cultuado por arautos do pensamento conservador”. Trata-se do filósofo Mário Ferreira dos Santos. Suas palavras (em “Análise de Temas Sociais”, Editora Logos, vol. I, disponível online aqui) sobre o mesmo universo espinafrado por Claudinho:

O Estado, como o temos na História, é a falsidade organizada, como o mostrava Nietszche, é a mentira organizada, chame-se o que quiser, teocrático, aristocrático, democrático, cesariocrático (popular, democracia popular, ditadura do proletariado, fascismo, nazismo, justicialismo, desenvolvimentismo, o nome pouco importa). Porque sempre é organizado para servir grupos, minorias reduzidas, usufrutuárias do poder, combatidas por outras minorias, também desejosas do mando e da exploração estatal. Servem-lhes todos os ambiciosos de mando, todos os fracos de espírito, que se submetem mansamente ao seu poder, que o incensam e adulam como a nova divindade. Em toda história, os adoradores do Estado, os estatólatras organizaram cultos especiais ao deus supremo dos ambiciosos de mando, os falsos religiosos, os falsos crentes, os falsos idealistas, os falsos amigos do povo. Tudo é falso no estado, inclusive “os dentes com que morde são falsos e falsos também os seus intestinos” (Nietzsche).

O blog pergunta: o cantor de rap e o filósofo não disseram a mesma coisa, e igualmente bem?

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