Arrocho, Extraterritorialidade e Mentira

Arrocho

O Correio do Estado, numa ação meritória, vem publicando uma série de editoriais sobre a nova investida autoritária do prefeito Nelsinho Trad. É a chamada “Taxa do Poste”, que está sendo enfiada guela abaixo na população de Campo Grande. A Câmara de Vereadores se apressou a aprovar os dispositivos legais enviados pelo Executivo, aparentemente na surdina, sem qualquer discussão preliminar.

Esses dispositivos legais pretendem cobrar das empresas de energia, telefonia e outras (inclusive dos vendedores de coco gelado nas calçadas) uma “taxa” pela utilização do logradouro público. É claro que os prejudicados repassarão os custos adicionais em suas operações para o consumidor final. É legal e é justo.

O prefeito argumenta que as empresas de energia e telefonia “não poderão repassar os custos ao consumidor”. Isto ocorreria se Campo Grande fosse uma cidade-estado, sem vínculos com o resto do Brasil e com a Constituição Federal. Aí Nelsinho, na qualidade de ditador, imporia sua própria constituição aos cidadãos que acreditaram na sua fala mansa (e mão pesada).

Extraterritorialidade

Mas há uma questão que ainda não vi ser levantada por ninguém, nem mesmo pelos economistas. É a questão do alcance prático da nova lei municipal. A Enersul, por exemplo, irá, garantida pela Justiça, incorporar essa “taxa” extra aos seus custos de operação. Como não pode cobrá-la à parte na conta mensal dos consumidores campograndenses, ela será diluída nos custos gerais de operação da empresa. Assim, o consumidor de Coxim, de Dourados, de Nova Andradina e das outras municipalidades interioranas, irão arcar em parte substancial com a manutenção da arcaica e ineficiente administração nelsinhista. Que não se sabe onde enfia o dinheiro (reportando-nos de novo ao Correio, praticamente todas as obras do município são oriúndas de verbas federais).

Considerando que Campo Grande representa cerca de 30% da economia de Mato Grosso do Sul, vemos que, dos 30 milhões que a prefeitura espera arrecadar dos postes em 2009, 70%, ou seja, cerca de 21 milhões, serão arcados pela sofrida e abandonada população interiorana. Quer dizer, Nelsinho, o Bonzinho, quer arrancar dinheiro até de quem não mora em Campo Grande. Ou principalmente de quem não mora em Campo Grande.

Um deputado da base nelsinhista/andrezista previu, em projeto de lei recente, a fiscalização dos manguezais, recifes e ilhas oceânicas de Mato Grosso do Sul, generosamente concedendo, por medida legal, um litoral ao Estado pantaneiro. Achamos que Nelsinho ainda vai aproveitar a deixa e estender a tributação dos postes àqueles que sustentam as luminárias de Camboriú, Florianópolis, Guarujá, Itaparica, etc.

Imagino um turista argentino em seu apartamento no litoral catarinense, observando as ondas, tomando sua cervejinha e desembolsando sem sentir (através de suas contas telefônicas e de energia elétrica) alguns reais para a manutenção de potentados sul-matogrossenses!… Bom, nessa linha de raciocínio, Nelsinho deveria pensar em Nova York, Paris, Tóquio, Caracas e Teerã. Seria o Brasil, mais especificamente Campo Grande, colonizando o mundo!

Mentira

Nelsinho engana a população.

Na campanha eleitoral da reeleição apregoava que Campo Grande tinha “o melhor ensino público do Brasil”. Este blog mostrou que era “menas verdade”. Aparentemente (não queremos ser pretensiosos) alguém viu, soprou aos ouvidos dos marqueteiros da coligação quilométrica, que por cautela tiraram a mensagem do ar nas últimas semanas. Mas depois, analisando melhor, e vendo que o blog atinge principalmente internautas de São Paulo, Rio e Sul do Brasil, resolveram arriscar e, no último debate, Nelsinho requentou a velha peta. O pior é que Pedro Teruel deveria saber da mentira, já que lhe foi encaminhada, por terceiros, citação do artigo Timblindim; mas deixou passar em branco, ou preferiu não desestabilizar o tanque-de-guerra dos donos do poder guaicuru.

Acontece que agora o prefeito novamente requenta a mentira do candidato à reeleição, e fala que Campo Grande está, no quesito Ensino Público, “em Primeiro Lugar no IDEB”. Só que não fala de que lista. Na verdade, Campo Grande está em 1º lugar na Lista dos Rebaixados. Seria como, numa comparação futebolística, um clube vangloriar-se de ser o melhor colocado dentre os quatro que desceram para a série B do Brasileirão…

Com médias de 4,9 (séries iniciais do Ensino Fundamental) e 4,2 (séries finais), Campo Grande só ganha em Mato Grosso do Sul. Lembro que as melhores médias do Brasil foram respectivamente 7,7 e 6,1 (obtidas respectivamente em São Paulo e Rio Grande do Sul), estas sim dignas do Primeiro Mundo e de rasgados elogios. 4,9 (posição 832 no Ideb) e 4,2 (posição 931 no Ideb) são notas de rebaixamento, o que indica que a educação pública em Campo Grande continua um desastre (você, eleitor campograndense, pergunte ao seu filho se ele gosta da escola pública em que estuda, do ambiente sala-de-aula). E só vai melhorar quando o prefeito reconhecer que crianças brasileiras não são crianças japonesas, e portanto deveriam ser empilhadas no máximo 20 em cada classe, e não 30 ou 40. No ambiente Brasil (nada contra; em tudo há vantagens e desvantagens), 30 alunos numa classe fazem da professora uma babá impotente e neurótica, e não uma educadora. Mas o prefeito, como já frisou o Correio, prefere gastar dinheiro em obras e terceirizações, e não com pessoal concursado…

As palavras abaixo, pronunciadas há poucos dias pelo prefeito (provavelmente futuro governador), revelam a situação educacional do MS:

Estou em uma administração que precisa ser concluída, até sob o ponto de vista legal, da Lei de Responsabilidade Fiscal, mesmo sendo eu o próximo prefeito, eu quero entregar pra mim mesmo, sendo eu uma pessoa diferente, pra eu poder me habituar a fazer isso e quando for fazer de fato e de direito fazer dentro de como deve ser feito, para não deixar nenhum problema, como o meu antecessor fez.

Bom, o prefeito deve ter estudado nas escolas públicas de Campo Grande. Isto explica tudo, ou pelo menos uma grande parte…

Alguns Conceitos

a) figuras de proa

Muita gente não sabe, mas como J. Kenneth Galbraith assevera, em seu livro “Anatomia do Poder” (Editora Pioneira), hoje em dia o Poder não é exercido por uma pessoa, mas por um grupo organizado (e bota organizado nisso). Grupo que nunca aparece. Na esfera política, o que parece ser o “chefe” da administração, poderoso guerreiro que procura conciliar o interesse da maioria com os da minoria poderosa, na verdade é mera figura-de-proa, pau-mandado, que atende às variadas demandas daquela minoria que providenciou (ou aceitou, mediante cláusulas muito bem explicadas) a sua eleição.

A figura-de-proa é extremamente descartável, e poderá ser substituída a qualquer momento, ou na próxima eleição, por outra figura-de-proa. Mas os poderosos não esquecerão de dar o nome do defenestrado a variados viadutos, dispositivos de acesso, penitenciárias, banheiros públicos, etc., numa homenagem que complicará a vida de todos os munícipes (comparem, por exemplo, “Viaduto do Km 453”, que todo mundo entende, com “Viaduto Ebenegastro Antilókio Grotowski ”, que ninguém imagina onde fica).

Mas não se desesperem. Uma vez em cada 100 anos (talvez 200) aparece algum administrador que realmente se interessa pelo bem público e sabe como intermediar os interesses da maioria amorfa e os da minoria organizada. Temos então um Estadista. Mas por aqui tal figura é considerada mítica, pois nunca se topou com uma…

b) Parâmetros de Eficiência das Administrações

Uma boa administração pública é aquela que reduz custos (pela crescente eficiência) e estabiliza ou diminui impostos; quando aumenta a sua receita o faz pela expansão dos negócios privados.

O que resolve os problemas da administração pública são as boas idéias e o bom trabalho, e não dinheiro (dinheiro, apenas subsidiariamente). Gastar “R$ 23.753.454,37” na resolução do problema das enchentes, não resolve necessariamente o problema das enchentes. Aplicar inteligência e conhecimento sobre o problema das enchentes, resolve o problema das enchentes. Provavelmente com o gasto de R$ 5.345.773,19.

Administrador que precisa sempre de “mais dinheiro” não quer resolver os problemas da comunidade; está apenas atendendo a demandas sempre crescentes da sua “tchurma”…

c) Privilégios Excessivos das Capitais

Nota-se que todos os prefeitos de capitais, independentemente dos partidos a que pertencem, são extremamente populares (com exceção do Rio de Janeiro, eterno reduto de iconoclastas – mas nem tanto quanto seria preciso). É que sobra dinheiro público nas capitais (sobram até migalhas para serem aplicadas na compra direta ou indireta de – calcula-se – 30% dos votos). Capital, na prática, é parasita do Interior. Nela se concentram os órgãos diretivos do governo estadual, e assim, os melhores salários, a maior frota de veículos, os prédios mais suntuosos (ou apenas mais caros) que exigem dispendiosa manutenção…

O Interior (com exceção de alguns polos) morre à mingua.

Em Mato Grosso do Sul, você vem de São Paulo ou Paraná, pelo sul/sudeste, rumo a Campo Grande. Nas entradas do Estado, só buraqueira nas estradas, desolação nas cercanias (exceção: rodovia MS-134, que liga Nova Andradina à BR-267, cinquenta e cinco quilômetros de boa estrada, parabéns ao injustiçado José Orcírio Miranda dos Santos). O interior de MS não tem hospitais adequados, não tem postos de saúde adequados, não tem escolas adequadas, não tem estradas adequadas (as do Paraná, ao contrário, pedagiadas ou não, são muito boas), não tem nem postos de gasolina adequados (exemplo, os postos da BR 267, quase todos bombarbeados – talvez pelos terroristas islâmicos, mais provavelmente por petistas e peemedebistas). Enquanto isto, na Capital, sobra dinheiro para uma impressionante multiplicidade de obras inúteis ou francamente prejudiciais (querem que o blog especifique?)…

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: