O Filho da Lavadeira

20/06/1989. Andei notando que o Robertinho vai mal na escola, como, aliás seus irmãos Sônia e Ana Célia. Como esses dois, mesmo por problemas visuais, manifestam ojeriza pela leitura, imaginei um meio de colocar pelo menos o Robertinho no trilho. Ele já está na lição do pato, mas não sabe ler nada – nem “pato”. Parece-me muito desmotivado.

Comecei, há dias, tentando ensinar-lhe duas palavras por dia, usando uma grande motivação: Ncz$ 0,05 por palavra. No primeiro dia escrevi com caneta hidrográfica uma palavra de grande significado para ele – “pão” – e outra – “não” – que inicia um dos avisos que coloquei na casa (“Não gosto que entrem neste quarto!”). No segundo dia “tomei a lição” do dia anterior e lhe mostrei duas novas palavras: “leite” e “nescau”.

Ontem, segunda-feira, apresentei “papai” e “mamãe”, já pensando em seguir o roteiro – com algumas adaptações – do antigo livro “Quem Sou Eu?”, de Terezinha Rocha. Nesse roteiro, à medida que aprende novas palavras a criança segue o desenvolvimento de um conto.

Hoje, antes de novas palavras, fiz um teste com as seis primeiras. Robertinho trocou tudo; só acertou no “não”. Agora à tardinha fiz um reforço; vamos ver se dá resultado.

Além da Sônia, nove anos, e Ana Célia, quinze, Robertinho tem outra irmã, Aline, de 13. Esta é a melhor figura do quarteto. Os outros três parecem debater-se com sérias situações de inferioridade. Ana Célia está ainda na terceira série e usa óculos de grossas lentes (miopia); aqui em Wemmick, sempre aparece, mas nada fala se eu não puxar conversa. Sônia vive insultando Ana Célia, e mais ainda Robertinho, como que querendo desvincular-se de dois pesos psicológicos. Robertinho, com sete anos, é muito pequeno para a idade. Na rua, sempre saiu-se bem pela esperteza, apesar de levar alguns tabefes ocasionais; mas a escola parece ter-lhe apontado novas inferioridades.

Hoje, na hora da escola, como sempre fazem, Robertinho e Sônia aqui fizeram escala. Numa discussão, Sônia fazia a Robertinho gestos obscenos, reforçando-os com a expressão “enfia no cu!”. A uma réplica do garoto ela ia dar-lhe um tabefe (é bem mais alta, e ligeiramente gordinha). O menino ao saltar para trás, escorregou e caiu de boca no chão. Chorou e foi lá para fora cuspir o sangue de um pequeno corte.

21/06. Ontem ainda ensinei ao Robertinho as palavras “e” e “é”, chamando-lhe atenção para o som aberto desta última. Depois, mais à noite, achei melhor reduzir as oito fichas iniciais a “mamãe”, “papai” (que logo aparecerão na “Quem Sou Eu?” adaptada), “e” e “é” (idem).

Hoje, na hora do almoço, peguei uma folha de sulfite, com pequena transparência, e dobrei-a ao meio. A primeira nova folha coloquei-a sobre a página 2 do livro-cartilha, copiando a figura de Dudu. Ao lado da figura, em vez de “Sou Dudu”, escrevi, em letras (as maiúsculas) de 7,5 mm, “Este é Dudu.” Na segunda folha, novamente a frase, e ao seu lado a repetição em cursivo. Abaixo desta, 8 linhas para Robertinho copiar a frase.

Agora à tardinha o Robertinho apareceu, querendo “apostar” (Ele aposta que acerta os exercícios de leitura e escrita, e eu devo apostar o contrário; se ele ganhar, leva Ncz$ 0,10). Junto com ele estava o Rodolfo, um loirinho de olhos azuis, muito bonito, do mesmo tamanho mas menos magro que o meu protegido. Parece que Rodolfo é ainda mais atrasado do que o Robertinho.

Pois bem, Robertinho, com as quatro palavras, saiu-se melhor, e resolvi passar ao “Dudu”. Depois de explicar-lhe as palavras, dei-lhe a tarefa de copiar a frase. Ele escreve ainda com muito dificuldade; talvez por segurar o lápis muito próximo à ponta. Vou averiguar isto. Rodolfo quis, também, fazer o exercício, e fez duas cópias estropiadas.

Antes da “aposta”, quando eu estava junto ao forno do quintal, Rodolfo, sem mais nem menos (assim me pareceu) disse que poderia bater no Robertinho. Este aceitou o desafio, e daí a pouco ambos rolavam pela terra. Depois que se separaram, a meu pedido, Robertinho cantou vitória, mas parece-me haver ocorrido empate, pois tanto um quanto o outro esteve ora por baixo, ora por cima. Mas Rodolfo reconheceu a derrota, culpando porém a sua bolsa de pano. “Se não fosse ela eu tinha ganhado”, garantiu ele. Logo estavam reconciliados, e já na sala, quando Robertinho mostrou-lhe aquelas quatro fichas de palavras, lendo-as corretamente, Rodolfo admirou-se de que Robertinho “sabia tudo!”.

Depois da “aposta”, insisti com Rodolfo para que fosse embora, pois já estava escuro e sua mãe ficaria preocupada. Ele quis que o Robertinho o acompanhasse. “Você tem medo de ir sozinho?”, perguntei. Ele assentiu.

Assar pão no forninho de barro é toda uma ciência. Hoje não deu certo: coloquei a assadeira com o forno quente demais, e daí a cinco minutos a parte de cima já estava quase preta e a debaixo e do meio, cruas. Um desastre. Só pude consertar o erro no forninho do fogão a gás, e mesmo assim só transformando o pão em fatias torradas.

Hoje, pela primeira vez nestes oito meses de solteirice, almocei na casa de outra pessoa, o colega de serviço Mauro, a quem talvez venda o meu Fusquinha. À tarde, quando chegava da repartição, lá me esperava Dona Joaninha, senhora de 93 anos. É que, e isto eu já sabia, os dois milheiros de tijolos que lhe prometi ainda não haviam sido entregues pela cerâmica. Esta havia prometido a entrega para terça ou quarta-feira passadas…

25/06. Ontem introduzi as palavras “Esta” e “Mimi”, chegando novamente ao total de oito. Planejei para hoje apenas exercícios de fixação. Mas nem chegamos a eles, pois desanimei. Na leitura inicial, Robertinho errou “Dudu” (a primeira ficha apresentada) e prosseguiu na pura adivinhação.

28/06. Acho que a motivação dos dez centavos por dia (mesmo sem palavras novas eu estou pagando) não foi suficiente. Em parte, talvez, por causa dos jornais lidos. Com três ou quatro dias, há um bom peso em jornais, e costumava dá-los ao Robertinho ou à Sônia. Outro dia Robertinho obteve Ncz$ 0,50; hoje, a Sônia obteve Ncz$ 1,10. É, para Robertinho Ncz$ 0,10 virou café pequeno. Dos Ncz$ 1,10, Sônia lhe deu Ncz$ 0,20, que ele rasgou e jogou fora!

Vou adotar nova estratégia. Não vou mais dar os jornais, mas usá-los como pagamento. Com o Robertinho, pagamento por palavra nova realmente aprendida. Com a Sônia, por pequenos serviços (duvido que ela tope) como varrer a casa ou lavar os pratos e talheres. Cada edição dos jornais deve valer uns Ncz$ 0,25 para as crianças; assim, posso dar, por tarefa, metade das folhas dos jornais.

Vou “cortar” as frutas, pois o Robertinho, generoso, acaba virando fornecedor de todo o bairro. Outro dia lhe expliquei que dava as frutas a ele, porque era amigo dele, e que não iria dar aos outros garotos que ele convidava. Pois bem, a partir daí ele pega as frutas e as entrega aos colegas lá na rua. Fiz uma re-análise e achei que o Robertinho, na verdade, não se encontra em situação de inferioridade e não precisa dessa ajuda extra, que só faz torná-lo excessivamente confiante. Tão confiante que a inferioridade na escola não o abala (tirou 2 numa prova e 4 em outra; é um dos mais atrasados de sua classe, segundo me informou sua irmã). Continuarei apenas com os pães, e assim mesmo com cotas restritas.

Ontem fiz pão de novo. Aumentei a receita, para aproveitar melhor a queima de lenha no forninho de barro. Em vez de 500 g de farinha, utilizei 850, separando a massa em dois pães. Controlei bem a temperatura do forno, e o pão saiu ótimo – talvez o melhor resultado que já consegui. Hoje, se tenho 2 fatias para amanhã cedo foi porque as encondi no forninho do fogão.

(Pois é, a solteirice acabou e as crianças já não podiam entrar livremente pela casa. Perdi contato com elas).

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