Arquivo da categoria ‘Manoel de Barros’

Uma Carta Extraviada

setembro 25, 2012

Ultimamente ando frequentando sebos, em busca de exemplares antigos relacionados com chaves de classificação para espécies vegetais e animais. Dias atrás visitei um desses estabelecimentos e adquiri, além de livros relativos aos campos citados,  a obra “100 Anos de Poesia — Um Panorama da Poesia Brasileira no Século XX”, em 2 volumes acondicionados em caixa, obra essa organizada por Claufe Rodrigues e Alexandra Maia. Edição O Verso Edições, Rio de Janeiro, 2001.  Paguei R$ 60,00.

A obra estava em ótimo estado. Li o primeiro volume e hoje dei início à leitura do segundo. Ao abri-lo notei uma folha solta, dobrada, que pensei ser alguma errata. Peguei a folha e percebi o meu erro:

Como se vê, os exemplares foram originalmente presenteados ao poeta Manoel de Barros, um dos literatos presentes na antologia (e aparecendo com destaque no início desse segundo volume). Presumivelmente, depois de lida a carta a obra foi aberta e, localizado o texto referente ao bardo, ali foi depositada a missiva.

Não sei o que fazer com essa carta. Alguma sugestão dos leitores?

O jovem Festival de Bonito e o Velho Poeta

julho 28, 2012

13º Festival de Inverno de Bonito, famoso destino do ecoturismo brasileiro (para quem não sabe, Bonito fica no Estado de Mato Grosso do Sul, junto à Serra de Bodoquena).

Tudo começou no dia 25 de julho de 2012, às 19 horas, com a apresentação, em pequeno desfile, de fanfarra, grupos de balizas infantis e juvenis, e ainda seis pernas-de-pau. Logo depois ocorreu, no palco Fala Bonito, armado junto à Praça da Liberdade, a abertura oficial, com os tradicionais discursos e louvações, seguidos de show pirotécnico e o sair de cena da fanfarra e balizas. E finalmente a apresentação de Sérgio Reis e banda familiar.

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Ligação da Praça ao Circo

Esse espaço (“Fala Bonito”) onde se apresentou Sérgio Reis fica numa das ruas que limitam a Praça da Liberdade. Desse espaço até o circo levantado na Praça do Festival, a 300 metros dali, montou-se um longo cordão de instalações em homenagem ao poeta cuiabano Manoel de Barros: tendas com pufs ladeados por versos do poeta, grupos de bancos indutores de clima poético, tenda com origâmis e por fim um túnel cenográfico, com mais poemas do referido bardo.

Bom, essa “indução de clima poético” é suposição nossa acerca do intento dos idealizadores do cordão. De fato, como mostram as fotos abaixo, aparecem no espaço vários grupos de poltronas de madeira dispostas em U, ladeando mesinha e, nesta, cestinha abarrotada de poemas avulsos. Se estivéssemos num campus de Harvard, próximo ao curso de Literatura, e fosse apresentado de chofre aos interessadíssimos estudantes (como os que aparecem em filmes de Hollywood) um novo, desconhecido e genial poeta, presenciaríamos, em cada U, estupefações radiosas se levantando das cadeiras para ler, em voz alta, pérolas encantadas do tal poeta.  E depois de algum tempo o grupo todo, entusiasmado, se levantaria, planando sobre chão, poltronas e vasos de plantas, numa dança coreográfica digna dos melhores musicais da Broadway.

Pena que não estávamos num campus hollywood-harvardiano e que o poeta escolhido represente o já senil movimento “modernista”.  E pena que, com os modernistas, a poesia desse bardo seja hermética e fragmentária e, característica própria, cheia de embaralhamentos surrealistas (¹), frequentemente  confundidos com “nova linguagem” ou, pior, com “linguagem infantil”. Nessa comédia de erros,  as dissertações acadêmico-burocráticas (²), alguns outsiders da crítica literária (³) e finalmente os generosos gestores de verbas públicas, todos  juram que se trata de um gênio, construtor de uma obra poética de abissal profundidade (4). Na encenação orwelliana montada em Bonito, caberia ao distinto público ( isto é, a nosotros, mortais comuns ) acatar a opinião dessas “autoridades”  e prostrar-se diante de tão fundo Buraco Negro.

O blog procurou verificar se o distinto público cumpriu o papel que lhe foi atribuído pelos iluminados burocratas. E postou-se nas imediações do espaço indutor entre 19 e 23 horas do dia 25, e durante algumas horas frio-ensolaradas do dia 26, e ainda durante momentos esparsos do dia 27. O que presenciamos nos dias 26 e 27 não desmente o que vimos no dia 25 (os fatos narrados não são sequenciais nem concomitantes):

Grupo de Poltronas de Oeste: um senhor dos seus 50 anos retira um dos papéis do cestinho à sua frente e lê atentamente um poema.

Grupo Nordeste:  três pares de namorados tomam refrigerantes em copos descartáveis, apoiando garrafa na mesinha central do U.

Grupo Sudeste: um visitante aproxima-se, vindo dos origâmis, apontando a máquina fotográfica para um grupo de adolescentes de 14 a 18 anos. Um destes acendia um baseado de maconha. O visitante chega mais e os rapazes, percebendo a filmagem incidental, aplicam manobra diversionista: o do baseado se ergue de chofre e sai gesticulando, enquanto dois outros se levantam, um deles dando uma cinematográfica tragada num cigarro normal. O cinegrafista, percebendo que invadira privacidades, desvia a câmera, constatando que se trata de garotos bem vestidos, provavelmente de classe média.

Grupo Sul: um senhor de cabelos grisalhos, duas mulheres mais jovens e um rapaz degustam pastéis envoltos em apropriados sacos de papel.

Grupo Oeste (novamente): um grupo de jovens compartilha discreto narguilé.

Grupo Leste: mãe e três crianças descansam.

Grupo Nordeste (novamente): casal de namorados (ver frame acima), aparentemente brigados ou sem assunto. A moça estica o braço e pega displicentemente uma das folhas do cestinho.

Nas tendas com pufs aparecem alguns livros ricamente encadernados, com poucas palavras perdidas entre grandes fotos coloridas. Uma ou outra criança se aproxima do estranho objeto, folheia-o e se detém numa onça pintada ou num caracol. Em seguida parte para empresas menos entediantes.

Naquele intervalo de quatro horas o blog apenas flagrou, lendo poemas de Manoel de Barros (5), as duas pessoas referidas acima. Parece que o bardo só é popular  em Modernístia ( terra vizinha a Pasárgada ), onde é amigo do rei.

No túnel cenográfico, onde o eventual leitor nem precisava esticar o braço para acessar um poema, o resultado nos pareceu ainda mais pobre. O vídeo abaixo, feito à noite (às 20 hs 10 min), pode dar uma ideia. Se as palavras ali dispostas fossem as de uma lista telefônica, ou se se juntassem como numa sopa de letrinhas, produziriam igual reação.

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Outros Artistas no Festival

“Cidade”, de Claudio Tozzi, 1984, serigrafia sobre papel, 50 x 70 cm.

Figura em palha de milho. Artesã Doralice Horns, de Rio Negro (MS).

Áuboni, artista de rua, fazendo caricaturas.

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(1) E, como variante,  recursos de Dislexia. Nada contra, desde que o contexto do poema comporte a adoção desse truque. Mas um dos destrambelhos da poesia modernista é justamente a falta de explicitação do contexto, de forma que os poemas se tornam frases soltas no ar, somente compreensíveis para quem as escreveu. E se passar tempo suficiente e a memória embaçar, nem para ele.

Exemplo de imitação da dislexia é o poema legível no vídeo acima, que diz o seguinte:

Afundo um pouco o rio com meus sapatos.

Desperto um som de raízes com isso.

A altura do som é quase azul.

Percebe-se, inicialmente, que os três versos não parecem formar um contexto. Sem contexto, temos no primeiro verso a dislexia: pode-se imaginar, com algum esforço, que o cidadão (talvez uma criança) está numa canoa ancorada, tira um sapato e o mergulha parcialmente na água do rio. Para não-disléxicos, o sapato afunda na água do rio; para o disléxico trocapalavras, é o rio que afunda. Nenhuma genialidade; apenas imitação de uma disfunção neurológica. A cena imaginada daria um bom haicai, se o poeta quisesse contá-la em termos poéticos. E sem dislexia.

Mas há outras interpretações. Uma delas, desfazendo um provável truque surrealista de trocar um sujeito/objeto (terreno pantanoso) por outro (rio), cria um contexto englobando os três versos:

A criança está num terreno pantanoso, pisando sobre a turfa, que afunda um pouco nas pegadas. Embora turfa seja matéria vegetal morta, uma criança imaginaria que embaixo da superfície dela há raízes. O som produzido pelo pisoteio teria uma intensidade azul. Aqui, novo surrealismo (transferência da qualidade própria de um objeto para um evento – a formação de ondas sonoras – incompatível com tal qualidade), recurso  que nada acrescenta e nada explica; apenas disfarça a pobreza da linguagem, baratinando acadêmicos desprevenidos.

(2) A maioria baseada no falso pressuposto de que se trata de um poeta infantomágico, espécie de geminada antinomia ingênuo-sábio. Os mestrandos/doutorandos são encarregados de descobrir a chave para essa “genialidade”, e o pior é que todos a acabam “descobrindo”, cada um de um modo diferente, o que provaria a também genialidade desses acadêmicos!

No entanto, a técnica do bardo é uma fórmula (como notou Gerardo Mello Mourão), muito simples e  mecânica. Consiste em imaginar uma cena, trivial e sem carga emotiva, formulá-la mentalmente e depois substituir ou eliminar alguma(s) palavra(s) ou categoria gramatical, embaralhando o sentido (v. exemplo na nota anterior)  e simulando abordagem surrealista. O surrealismo em si funciona bem em Pintura, como mostram os trabalhos do paulista Luiz Xavier Lima, o  Luxavli; mas transposto,  com casca e tudo, para a arte poética, apenas provoca ojeriza entre os leitores comuns, pretensos destinatários dessa literatura estrambótica. E quanto à referida paródia manoelina, não se tem notícia de boa utilização em nenhum campo da Arte; apenas em revistinhas de caça-palavras.

(3) Mas nem todos. Arnaldo Jabor, aparentemente por livre e espontânea pressão, escreve sobre um livro de Manoel de Barros, mas acha mais interessante uma lesma de seu jardim do que os escritos “surrealistas-minimalistas” do que ele, Jabor, denomina “poeta das insignificâncias e dos detritos”.

(4) Mas o poeta só trata do rés-do-chão. Parece reescrever continuamente uma história infeliz de criança às voltas com “os barros, os pequenos seres e os trastes” do abandono. Se é assim, MB criou (e então, palmas!) um ser lírico muito interessante; mas o desenvolveu de uma forma confusa e inepta.

(5) Ressaltamos que a nossa crítica vai para a obra do poeta e o uso equivocado de verbas públicas com o pretexto (inválido)  e a missão (impossível) de  popularizá-la. Nada contra a pessoa do bardo; pelo contrário, tudo a favor.  E a sua obra merece mais estudos sérios, fora do circuito babaovo.

Post Scriptum 30/07/2012:

No caderno especial do jornal O ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL, edição de hoje, Américo Calheiros, presidente da Fundação de Cultura de MS, afirma em artigo que “já em sua abertura um público de mais de dez mil pessoas fez coro ao consagrado repertório sertanejo de Sérgio Reis”. Bom, o simpático e competente homem público deve ter nascido em Itu, interior de São Paulo, para ter visto tanta gente assim nos logradouros públicos de Bonito. O blog avaliou o público presente no show do dia 25 em não mais do que 2.000 pessoas. Vídeos (inclusive os deste blog, que não pegaram bem o som e porisso não foram apresentados aqui) e fotos podem confirmar quem está com a razão. Apostamos R$ 1.000,00 em defesa do nosso número.

No mesmo artigo Calheiros fala de um público turista de 30.000 durante os cinco dias do festival. Bota exagero nisto! Nos três primeiros dias vimos pouca gente nas ruas e praças, e a estrutura hoteleira da cidade não comportaria uma compensatória invasão de turistas no fim de semana. Se é para chutar, o blog, incurável otimista,  chuta em 5.000 turistas.

Post Scriptum 25/09/2012:

Brincadeira das Musas do Olimpo, acabei recebendo uma carta, aberta, destinada ao referido poeta. Veja a postagem Uma Carta Extraviada.

O Delirante Racional

outubro 30, 2010

Manoel de Barros inicia sua carreira poética com os livros “Poemas Concebidos Sem Pecado” (de 1937) e “Face Imóvel” (1942). Nessas obras se apresenta como um poeta confessional, contando, no estilo modernista, episódios isolados aparentemente pinçados de sua infância, adolescência e juventude. São obras de repercussão insignificante nas épocas de lançamento e que mesmo agora são pouco citadas pelos estudiosos.

Em 1947 (segundo cronologia de sua “Poesia Completa”, livro lançado neste ano pela Leya) termina suas “Poesias”, obra que só seria divulgada em 1956. Nesse volume Manoel de Barros incorpora elementos surrealistas, com ele aprofundando e ao mesmo tempo mascarando episódios de uma presumível vida pessoal. É da análise desse livro, com ferramentas freudianas, que Edson Soares Martins, em artigo publicado em 2002 (revista Letras, Curitiba, edição 58), desvenda a “dicção infantilizada” (pretensamente presente nos livros posteriores) do poeta cuiabano como indicativo de regressão psicológica a uma fase confortável de sua vida. Assim, o eu-lírico teria voltado ao cenário pobre mas feliz de sua infância, para reviver aqueles tempos e expressá-los em versos e poemas. Martins (e muitos outros analistas) acreditam que isto de fato ocorreu, com MB utilizando uma linguagem de ingenuidade, inocência e (contraditoriamente) sabedoria, compatível com aquela época e aquela fase de sua vida. Vejamos se é isto mesmo o que ocorre.

Obra: Compêndio Para Uso dos Pássaros (1960)

Nesse livro Manoel de Barros usa como tema uma Natureza simplificada, conceitual (água, chão, árvores, ventos, aves, caracóis, sapos). Na primeira parte do trabalho introduz visões infantis e, ocasionalmente, visões adultas. Na segunda parte privilegia as visões adultas (incrustando aqui e ali visões infantis), tocando em muitos temas, mas sem desenvolvê-los.

( PARA LER O ARTIGO TODO, CLIQUE AQUI ).

 

Fios Que o Prendem à Infância

outubro 21, 2010

Na postagem anterior fizemos uma rápida análise dos dois primeiros livros publicados (respectivamente em 1937 e 1942) por Manoel de Barros. Deles dissemos:

“A impressão que ficou é a de uma sequência aleatória de visões fugidias, da infância e da juventude do autor, permeadas por sentimentos vagos que não se querem mostrar por inteiro (e nem mesmo pela metade). Coisa talvez de um poeta indeciso, ainda à procura de suas Musas ou do Universo que irá construir ou recriar.”

O terceiro livro (“Poesias”, publicado em 1956) é muito mais denso, mas também mais rico em disfarces e negaças. Comecei a lê-lo e fui me enredando em cipoal, clareira, carrascal, clareira e floresta impenetrável. Esta se mostrou na forma do soneto “A Viagem”, na metade do livro. Tive de parar e buscar auxílio na Internet, por sorte logo encontrando um artigo publicado em 2002, na Revista Letras, de Curitiba, edição 58. O título do trabalho é “Estilo e Regressão em Poesias (1956): a Dicção Infantilizada em Manoel de Barros” e seu autor Edson Soares Martins, na época Mestre e atualmente Doutor em Letras pela UFPB.

Martins concentra a análise exatamente no soneto e no poema “A Boca”. Consegue desvendar o contexto que dá sentido a esses poemas (e a quase todos os outros), observando o reaproveitamento, a repetição, de certas imagens (exemplos: boca, mãos, seco, podre, morto), o que configura, para o articulista, um mecanismo compulsivo. E este empurraria o eu-lírico (ou seja, Manoel de Barros enquanto poeta) a uma demanda regressiva (na teoria freudiana), responsável pelo enfoque menino de suas obras posteriores.

Enquanto o escrever pretensamente infantil não se materializa, em “A Viagem” o eu-lírico estaria submetido a uma compulsão masoquista, ou seja, à necessidade de autopunir-se pelo “pecado” (infantil) de haver obtido prazeres proibidos (“mãos envenenadas de ternuras” é bem sugestivo). Outra vertente do mesmo “pecado”, ou de “pecado” moralmente equivalente, é dada pelo poema “A Boca”, designando esta palavra (e aqui nós vamos um pouco além do articulista) uma outra fenda feminina (“grota rasa” no dizer do poeta), a única que povoa o imaginário dos meninos…

Mas vamos ao soneto, que descreve cenas oníricas e que ao adquirir sentido se torna belo:

A VIAGEM

Rude vento noturno arrebatou-me

Para longe da terra, nu e impuro.

Perdi as mãos e em meio ao oceano escuro

Em desespero o vento abandonou-me.


Perdido, rosto de água e solidão,

Adornei-me de mar e de desertos.

Meu paletó de azuis rasgões abertos

Esconde amanhecer e maldição…


Um deserto menino me acompanha

Na viagem (que flores deste caos!)

E em rosa o sol me veste e me inaugura.


Dou às praias de Deus: a alma ferida,

As mãos envenenadas de ternuras

E um buquê de carnes corrompidas.

É claro que uma boa parte dos poemas do terceiro livro não resultam de inspiração do Inconsciente do autor. Essa parte é compreensível de imediato (exemplos, “Olhos Parados” e “Pedido Quase uma Prece”). Mas a outra parte, a interessante, só ganhou sentido, pelo menos para nós, a partir da aposição do contexto freudiano.

Quanto aos elementos de estilo, um destaque vai para o uso da construção tipo “As portas emitiam mulheres portuguesas” (em lugar de “Mulheres portuguesas saiam pelas portas”), em que o substantivo do objeto ou complemento (no caso,  portas) substitui o elemento que normalmente é dado como sujeito (no exemplo, “Mulheres portuguesas”). Essa figura de estilo é utilizada num bom número de poemas.

Outro elemento de estilo é o uso de complementos verbais “quebrados”, cujos sentidos são difíceis de captar, talvez um ensaio para a futura verbalização dos substantivos (“A rã me pedra”). Um bom exemplo é o do poema 14, enigmático mesmo à luz da teoria aventada por Martins (os complementos verbais aparecem em negrito):

Seria homem ou pássaro?

Não tinha mãos.

Vestígios de sua boca iam para flor.

Havia uns sonhos

Dependurados como roupa.

Uns podres ornamentos de pano e móbiles

Gâmbias dispersas,

Cata-vento. Perto

Havia um barco.

Barco ou peixe?

Não pude precisar.

Vi o homem andando para semente

E a semente no escuro remando para raiz.

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Linque para o artigo de Edson Soares Martins: Estilo e Regressão em Poesias .

Linque para pequena biografia de Manoel de Barros: www.releituras.com .


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