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Um Poema de Álvaro de Campos

Outubro 22, 2009

Álvaro de Campos, para quem não sabe (e eu também não sabia até hoje), é um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa. No poema que transcrevo abaixo (disponível, como muitos outros do poeta, em http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16598 ), ele se mostra perplexo com a exagerada auto-estima das pessoas comuns, de tal forma que eu, blogueiro, me reconheço no sentir do poeta e reconheço, nos seus interlocutores, as pessoas comuns com quem tenho me relacionado. Mas vamos ao texto:

Poema em Linha Reta

Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Um Poema de Manoel de Barros

Outubro 10, 2009

Se você tem veleidades poéticas, ou seja, se gostaria, em tese, de escrever poemas, tem pelo menos duas opções. A primeira é ter algum conhecimento de Inglês e desembolsar 420 Libras (na cotação de hoje R$ 1.159,96) fazendo, na Open University ( http://www3.open.ac.uk/study/undergraduate/course/a175.htm ), o curso Start Writing Poetry. A segunda é grátis, mas nem porisso menos valiosa. Consiste num exercício de imaginação (e como se sabe, imaginação é quase tudo, em Poesia) com um poema de Manoel de Barros.

Nesse poema, denominado “Eras” (desinência nada ortodoxa do verbo Ser, no universo infantil do poeta), o bardo matogrossense, que acaba de receber um prêmio internacional (“Grande Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen”, da Câmara Municipal de São João da Madeira, Portugal), traça um paralelo entre o “faz-de-conta” infantil e proposições mentais muito parecidas, solenemente perpetradas por adultos. Na primeira parte do poema, Manoel de Barros conta como os infantes de sua vida rural (ou suburbana) faziam uma pedra virar sapo ou um menino virar tatu. Por essa Mágica, o sapo (na verdade pedra), eras, e o tatu (possivelmente um menino desvalido mais dócil) também eras. E depois lança uma frase “adulta”, para comparar e perguntar, perplexo, se tudo “não é o mesmo faz-de-conta?”.

Pois bem: o desafio é fazer-de-conta (coisa muito compatível com o universo manoeldebarriano) que o poema só tem uma versão – constante em painel na Avenida do Poeta, em Campo Grande (que na verdade suprimiu um verso da obra). Mais. Fazer-de-conta que dessa versão só existe um manuscrito, achado numa garrafa boiando no Rio Paraguai, próximo de Corumbá, e que em tal manuscrito dois versos (e parte de um terceiro) aparecem totalmente ilegíveis, manchados por alguma infiltração d’água (bom, não seria poético dizer “infiltração de água”…).

O leitor-futuro-poeta vai ter que completar o poema furtado e manchado. Abaixo, o poema de Manoel de Barros, sem o verso “esquecido pelos insondáveis meandros dos processos licitatórios governamentais-onguiásticos-capitalistas” e sem os versos borrados pela má vedação da garrafa:

ERAS

.

Antes a gente falava: faz de conta que

este sapo é pedra.

E o sapo eras.

Faz de conta que o menino eras um tatu.

A gente agora parou de fazer comunhão de

pessoas com bicho, de entes com coisa.

A gente hoje faz imagens.

Tipo assim:

“ … … … … … … … … … … … “

“ … … … … … … … … … … … “

[Mas na verdade] A [(ou O)] . . .  eras [ou seja,

é mero fruto da imaginação].

Então é tudo faz de conta como antes?

.

Bom, para quem preencher, com a sua experiência e imaginação, a parte reticenciada (ops, baixou o espírito do poeta!), o blog vai premiar com uma pequena lembrança. E para quem fizer a melhor frase (ou frases), supondo-se que haja mais de um participante, o blog dará uma lembrancinha um pouco mais valiosa (se não for um tatu, o premiado deverá considerar que eras um tatu…).

Uma dica: o verso, ou versos, deve descrever uma frase (ou frases) comumente dita por nós, adultos, e que esconda uma ficção do tamanho de um mamute.  Seria mais ou menos do tipo: “O Sílvio Santos é São Francisco de Assis” (onde São Francisco eras), porém de caráter mais genérico, sem a citação de uma pessoa em particular e, importante, utilizando imagens e metáforas, e não simples adjetivos.

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Observações:

(1) No trabalho “A Representação da Infância na Poesia de Manoel de Barros”, de Maria Tereza Scotton, da PUC-RJ, consta uma frase a mais: “Estavas um caramujo – disse o menino.” Link: http://www.anped.org.br/reunioes/27/gt07/t075.pdf . Para ver o texto disponível no painel, clique aqui .

(2)  -  Como apresentador, o Sílvio Santos é bom, e o blog até curte. Aliás, o blogueiro assiste muito o SBT: é fã também do Roberto Justus (“Um contra 100″) e do Jornal da Band (o Joelmir Beting lembrou outro dia como o MST, além de municiar a Extrema-Direita de (maus) argumentos,  faz brilhantemente, com o esquema “Índices de Produtividade”,  o jogo… das multinacionais transgênico-agentelarânjico-tratorais) …

(3) – Ops, não há na observação anterior uma licença poética em relação às redes SBT e Band?!…

Atchim !

Novembro 15, 2008

Poesia de Vânia Nogueira de Lara, 15 anos, de Rio Brilhante – MS, para a Olimpíada de Língua Portuguesa, do MEC. Publicada originalmente no Correio do Estado de 15/11/2008.

Hum!

Acordei cedinho

Abri a janela

Cadê o passarinho?

O passarinho voou.

Foi embora.

Aqui não mais voltou.

Que cheiro esquisito é esse?

De couro? Ah, é o progresso.

O curtume ali se instalou.

Dia de chuva

Cadê o passarinho?

Será que voltou?

Hum! Que cheiro esquisito é esse?

Azedo. Hum… A usina ali se instalou.

Que barulho é esse?

O asfalto passou.

A cidade cresceu.

O movimento gerou

Hum… Muito barulho.

Atchim! Atchim!

Que atchim é esse?

Gripe? Alergia?

É a fumaça da cana

É o pó de arroz do secador.

É o emprego de meu pai.

Hum… Atchim!

Segundo o jornal, “Em sua poesia, a aluna faz um retrato do crescimento urbano de Rio Brilhante, onde mora, e que agora tem muitos canaviais, usinas, curtume. ‘Meu pai trabalha na usina e eu resolvi escrever sobre o que eu vejo’.”

Vânia estuda na escola Centro Educacional Criança Esperança I, e escreveu seu texto sob orientação da Professora Mírian Hammes. Juntamente com Isaías Bonfim do Nascimento, do Assentamento Monjolinho, em Anastácio, ela é finalista sul-matogrossense do concurso do MEC.

Opinião do blog:

Vânia demonstra ser muito criativa. A sequência “Que barulho é esse? O asfalto passou, a cidade cresceu, o movimento gerou… hum… muito barulho.” é deliciosa!

Uma Poesia de Ellizene Lima

Junho 10, 2008

Percepção

Ellizene Lima

Deito porque minhas pernas
não suportam o peso da descrença humana.
Parece que de repente
não há motivos
para crer
em qualquer sentimento belo.

Apesar de ter entregue meu corpo
às suaves mãos do silêncio,
do conforto,
Morpheus recusa-se a acariciar-me com
suas suaves mãos.
Tenho que continuar desperta . . .
ouvindo o som apressado, de pés que se
afastam, cruzam, topam . . .
mas nunca se tocam, se afagam.

Quando abro os olhos,
vejo sorrisos forçados,
tatuados no rosto,
bem representados . . .
Se os fecho . . .
sinto insegurança, desconfiança,
mentiras ensinadas, falsidade cultivada.
O ar
é denso,
é de todos, mas nem todos o aproveitam.

Coloco novamente os pés na terra . . .
Não é chão, não é natureza, não é vida . . .
é asfalto,
é pólvora,
é sangue animal, é sangue HUMANO!

Não tenho pra onde fugir . . .
Não tenho a quem contar . . .
Natureza virou esporte . . .
Seres vivos, objetos . . .
Amor, lenda . . .
Deus, um bom negócio!

Avenida do Poeta (2)

Junho 7, 2008

Concluindo, mais alguns poemas de Manoel de Barros, expostos na Avenida do Poeta, em Campo Grande. Clique nas fotos se quiser vê-las em resolução maior.