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Luanda, seu amigo Professor, o Preto Velho e o Paradoxo de Zenon

junho 13, 2013

Se surgisse o medo, ele inventava o aconchego.

Luanda

Flor-do-Quilombo

Só agora, mais de 8 anos depois do lançamento, tomamos conhecimento do livro Flor do Quilombo, de autoria de Sirlene Jacquie de Paula Silva.

Foi uma grata surpresa, já que se trata de muito boa literatura, apta a enriquecer as melhores bibliotecas brasileiras. A história, contada pela personagem Luanda, de 13 anos, avança por um tema central (onde entra o seu amigo Professor), contextualizado por informações sobre o ambiente (a comunidade rural das Furnas do Dionízio, no município de Jaraguari – MS)  e por “causos” contados por seus moradores.

Frequentemente a narradora, aparentemente a revel de si própria, alça voo de fada para o território da melhor Poesia, embora o texto se restrinja à Prosa. E quando volta a pisar no chão, enriquece a narrativa com bons diálogos e as deliciosas expressões populares da sua comunidade.

Não dá para falar mais do tema central, que é relativamente simples mas tomado de um ponto de vista surpreendente (como são surpreendentes algumas construções frasais da autora). Mas, falando dos “causos”, temos o de uma cavalgada do Tio Sebastião, visando alcançar um conhecido visto num ponto X mais adiante na estrada. Embora não conheça Zenon, o Preto Velho faz, nas entrelinhas,  uma linda citação do Paradoxo de Aquiles e a Tartaruga. O que mostra como Tio Sebastião, com esse fino humor,  se sentiria à vontade na Academia ou no Partenon de Atenas…

___________

Flor do Quilombo, de Sirlene Jacquie de Paula Silva, Editora Letra Livre, 2004, 96 páginas.

Isto sim é Poesia!

maio 17, 2013

Imagino:

O Clube da Esquina se reune em novo local, provavelmente no Rio de Janeiro. Milton, Lô e Márcio. Todos estupefatos com o sucesso repentino, principalmente do moço Milton Nascimento. E preparam novo álbum. Mas, longe das raízes mineiras, a inspiração demora, parece ter sido deixada atrás pela pressa da viagem. E depois do quinto dia, a consciência, a cada 24 horas, de que “lá se vai mais um dia”…

Então a Musa aparece, disfarçada de nostalgia, estranha e incompreensível para essa gente tão jovem. Saiu um primeiro acorde, ou saiu um primeiro verso, e depois tudo foi se encaixando pouco a pouco. Ora a Musa passava a peteca para Milton, ora para Lô, ora para Márcio.

E saiu uma música perfeita, em que melodia e letra se harmonizam de forma explêndida. Saiu “Clube da Esquina nº 2″.

Você ouve mil vezes e não tem coragem de separar letra e melodia. Mas quando a coragem vem, você percebe que a letra é um belo poema, que conta um pouco da saga do grupo:

CLUBE DA ESQUINA Nº 2

Por que se chamava moço
também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou prá trás
ao primeiro passo asso asso …

Por que se chamavam homens
também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos calmos calmos…

E lá se vai
mais um dia…

E basta contar compasso
e basta contar consigo
que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
e o coração na curva de um rio…

E lá se vai
mais um dia…

E o rio de asfalto e gente
entorna pelas ladeiras
entope o meio fio
Esquina mais de um milhão
quero ver então a gente gente gente…

A música (com muitas fotos do pessoal do clube) está disponível neste linque: letras.mus.br .

P.S.- A Wikipédia conta que a letra é de Márcio Borges, feita em 1979 (quando a melodia, de Milton e Lô, vem de 1972), a pedido de Nana Caymmi. Mas continuo apostando na minha versão.

Um Ecologista Verdadeiro

abril 10, 2013

JoseAntonioMCoelho

Ao par de suas atividades profissionais, que culminaram na atuação como Técnico Agropecuário, o paulista José Antônio Masiero Coelho, cedo (1977) chegado a Campo Grande, se destacou como Ativista Ecológico, primeiro, e Botânico, depois.

Ele escreveu, há alguns anos, as obras Levantamento Florístico do Parque Estadual Matas do Segredo e Histórias da Mata do Segredo.

A primeira tem valor documental e histórico, pois descreve a vegetação existente na área (depois parque) que abriga as nascentes do Córrego Segredo, curso d’água que hoje, em quase toda a sua extensão, corta região urbana da capital do Mato Grosso do Sul. A segunda, baseada em cuidadosas anotações feitas desde o início de 1990 até o fim de 1995,  conta a saga do autor na defesa das matas nativas da região norte da cidade. É uma peça de grande conteúdo ecológico e humanista.

O leitor poderá conferir as obras citadas (infelizmente ainda não transpostas a livro, como mereciam) nos linques abaixo:

Levantamento Florístico do Parque Estadual Matas do Segredo.

Histórias da Mata do Segredo.

Aproveitamos para dar uma olhada no Parque Estadual Matas do Segredo. Parece que após o cercamento da área, patrocinada por uma empresa de Três Lagoas há muitos anos atrás, nada foi feito de concreto pelos órgãos estaduais responsáveis. Moradores vizinhos continuam invadindo a área (há vários pontos de passagem), empresas de materiais de construção retiram ilegalmente areia da estrada contígua (provocando o seu afundamento), e cidadãos inconscientes jogam entulho e lixo próximo à cerca (facilitando o surgimento de incêndios).

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O canto mais distante do parque. Aquém do portão, estrada que prolonga a Avenida Marquês de Herval.

A estrada referida na foto anterior. À direita, entulho junto a portão do parque.

A estrada referida na foto anterior. Junto ao carro, José Antônio Masiero Coelho. À direita, entulho junto a portão do parque.

A mesma estrada, extenso limite de uma lado do parque.

A mesma estrada, extenso limite de um lado do parque.

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Junto ao carro, uma jovem Kielmeyera florida.

Uma flor da Kielmeyera citada.

Uma flor da Kielmeyera citada.

O Flautista de Hamelin

dezembro 31, 2012

A Praga

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Cidade de Hamelin,
perto de Hanover, sim,
com rio de profundo azul
a banhar seu lado sul.
Há mais de seiscentos anos
seu povo, apesar de lhano,
sofria muito, de fato,
com uma praga de ratos.

Em profusão, esses ratos
enfrentavam cães e gatos,
comiam na prateleira
e lambiam, da cozinheira,
a colher pingando sopa.
E iam morder a popa
do pobre bebê na esteira.
Em barris faziam fendas,
ninhos em chapéus de festa,
calavam o papo das prendas
guinchando ruido à beça.

Finalmente o povo todo
invadiu a prefeitura.

“O nosso prefeito é tolo;
e essas tristes figuras
que chamam de autoridades
não sabem nem têm vontade
de nos livrar das agruras.”

“Acaso têm esperança
que por ter avantajados
ambos, idade e pança,
não serão prejudicados?”

“Acordem os seus pendores!
No cérebro dêem revirada;
encontrem, para os horrores,
a solução adequada.
De outro modo os senhores
rolarão por essa escada.”

Os senhores, mal refeitos,
tremeram apavorados,
e se puseram trancados
até que enfim o prefeito
desabafou do seu jeito:

“Por um guilder venderia
este meu traje de arminho,
para me ver no caminho,
bem longe, na alforria.”

“É muito fácil deixar
que outros quebrem o coco;
o meu já está a quebrar
e nada achei, nem um pouco.”

O Trato

Então na porta se ouviu
uma bem leve batida.
O prefeito logo abriu
os olhos em desmedida:

“É apenas arrastar,
no piso, de um sapato,
ou é sim um ressoar
produzido por um rato?”

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“Entre!” gritou o distinto.
E viu adentrar o recinto
a mais estranha figura:
Era de mui boa altura,
e muito magro, sem pelo
no rosto, e o seu cabelo
era bem solto e leve,
sorriso frequente, breve,
olhos azuis e agudos,
contrastando sobretudo
com sua pele trigueira.
Mas a impressão primeira,
da sua roupa é que veio:
um longo casaco, meio
amarelo, meio vermelho,
que ia dos pés ao cabelo.

O homem se aproximou
da mesa de reunião:

“Senhores, capaz eu sou
de resolver a questão.
Por secreta habilidade
faço qualquer criatura
cumprir a minha vontade,
e sem qualquer desventura,
seguir pra onde eu mandar.”

“Em geral gosto de usar
esse poder singular
contra os que causam danos
aos pobres seres humanos:
sapo, tritão e toupeira,
cobra e o que mais se queira.”

“É de Flautista Malhado
que o povo tem me chamado.”

Então as autoridades
daquela bela cidade
notaram que o cachecol
com cores do arrebol,
no pescoço do artista,
tinha na ponta uma flauta,
de que os dedos do flautista,
inquietos de dar na vista,
pareciam sentir falta.

“Dia de junho, restrito
à tal Tartária do Cham,
várias nuvens de mosquitos
eliminei de manhã.”

“Morcegos-vampiros, entes
que na Ásia de Nizan
atacavam muita gente,
exterminei na rechã.”

“Voltando a falar do fato
que atormenta esta plaga:
livrando o povo dos ratos
ganho mil guilders de paga?”

O prefeito da cidade
e demais autoridades
falaram sem hesitar:

“Mil guilders? Vamos pagar
muito mais: cinquenta mil!”

A Flauta

Logo o flautista saiu,
e vez por outra sorria,
certo de que a Magia
na flauta apenas dormia.

Então a flauta subiu
aos lábios, que ele franziu,
regendo sopros maneiros;
seu olhar, antes faceiro,
soltava chispas, igual
borrifos de puro sal
nas chamas do candieiro.

Murmúrio então se ouviu,
e logo foi aumentando
com outros ruídos mil
de exército chegando.

E os ratos, multidão,
saiam de ruas, vielas,
abandonando panelas,
e queijos, petiscos, pão.
E tomavam direção,
seguindo a sonora pista
que levava ao flautista.

Grandes e pequenos ratos,
magrelos e fortes ratos,
velhos ratos pesadões,
com bigodes a alisar,
ratos jovens brincalhões,
com rabos a empinar,
marrons e cinzentos ratos,
trigueiros e negros ratos.

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E pela rua, a tocar,
o flautista prosseguia,
encantando a rataria.
E ele somente parou
na margem do rio; sem pejo
aos ratos do seu cortejo
que prosseguissem mandou.
E todos, sob o encanto
mergulharam sem espanto
nas águas frias do rio.
Nenhum deles emergiu.

Entretanto, em certo ninho
ainda restou a presença
de um único ratinho;
era surdo de nascença…

O Distrato

Com o sumiço dos ratos,
aquele povo pacato
saiu às ruas, feliz.
E os sinos, nem se diz,
bimbalhavam alegria.
O prefeito, na sacada,
fingindo sabedoria,
deu curso à sua jogada:
exortava aquele povo
a limpar ninhos de ratos,
tapar frestas e buracos,
sem falar nada de novo.

O alcaide, de repente,
viu parar, à sua frente,
o tal Flautista Malhado,
que dizia, confiado:

“Vim buscar, senhor prefeito,
os mil guilders de direito.
Cumpra sua parte no trato,
já que livrei-o dos ratos…”

O prefeito, assim cobrado,
respondeu, todo assustado:
“Mil guilders, você falou?!”
Virou-se e confabulou
com demais autoridades.
E todos se deram conta
que seus jantares de monta,
como elite da cidade,
pediam bebidas raras,
e porisso muito caras.
Metade dessa quantia,
cochichavam, compraria
um estoque rico, pleno
do melhor vinho do Reno.
Porque então concedê-la
a um mero andarilho
com casaco maltrapilho
de cor vermelha-amarela?

“Além disto”, sussurrou
o prefeito aos seus pares;
“vimos com nossos olhares
que no rio se afogou
toda aquela rataria;
e nunca, jamais, poderia
alguém, para se vingar
pela quebra de um contrato,

fazê-la à vida voltar
e castigar o distrato.”

O prefeito se virou
de novo para o flautista
e, cara dura, falou:

“Meu caro amigo artista,
não fugimos do dever
de lhe oferecer um trago
e no seu bolso de mago
colocar algum haver.
Mil guilders, disse você,
cinquenta mil, nós dissemos;
mas nada foi pra valer:
como piada entendemos.
Mil guilders? Se isto o alenta,
receba apenas cinquenta,
paga justa, embora grácil,
para tarefa tão fácil.”

O flautista se quedou
indignado e falou:

“Não seja tão leviano!
Eu não posso esperar:
em Bagdá, sem engano,
me aguardam pro jantar.
Lá esbanjam gratidões
por eu haver acabado
com ninhos de escorpiões
na área do Califado.
Lá, pechincha nunca houve,
e aqui eu não mereço
perder centavo do preço
que combinar nos aprouve.”
Eu faço uma advertência:
considere a consequência.
O povo, que justo agora
aplaude essa melhora,
pode depois me escutar
outra música tocar,
e nem um pouco gostar…”

O prefeito começou
irritado a grasnar:

“Acaso pensa que vou
um vagabundo deixar
venha, com roupa malhada,
e uma flauta calada,
a nós todos insultar?
E ainda nos ameaça?!
O pior que puder, faça!
Não vai nos intimidar
apenas com seu assoprar…”

E aqueles nobres senhores
viraram os seus costados,
rindo e falando horrores
do tal casaco malhado.

As Crianças

E o flautista, outra vez,
nas ruas perambulava,
e sua flauta soprava,
agora com altivez.

Eram notas usuais,
qual de músico capaz,
mas o sopro da Magia
resplandecê-las fazia.

Ouviu-se um farfalhar
em modo de alvoroço
e viu-se então o chegar,
em esbarrões e balouço,
de pequena multidão
de meninos e meninas,
com seus corpos, pés e mãos
livres de suas rotinas.
Pezinhos nus a flanar,
tamancos em tlac-tlac,
mãozinhas a aclamar,
em sonoros clap-claps.
Saíam de todo lado
crianças em correria;
com inaudita alegria,
desse Flautista Malhado
seguiam a melodia.

O prefeito ficou mudo
e os seus pares pançudos
permaneciam parados
como se transformados
em estátuas de sal.
Não podiam dar um passo,
gritar já não era normal;
um olhar apenas crasso
podiam dar, pra seguir
aquele alegre partir.

Mas como se torturou
o patético prefeito,
e como então desabou
o moral dos escorreitos,
quando o Flautista Malhado
deixou a principal via,
como se direcionado
ao rio que se entrevia!
Entretanto esse cortejo
logo de novo infletiu,
indo agora sem bordejo,
se afastando do rio,
para o lado da montanha.
Foi a alegria tamanha
que o prefeito logrou
sua voz recuperar.
E otimista sonhou:

“Sua sorte mudará.
Ele nunca poderá
a montanha escalar
e concomitantemente
a sua flauta assoprar.
E assim, eu tenho em mente,
interrompido o tocar,
se interrompe o encanto
e as crianças vão voltar.”

A previsão, no entanto,
não ia se confirmar.
Ao chegarem na encosta,
porta mágica foi posta
para o cortejo passar.
O flautista e as crianças
adentraram as entranhas
daquela alta montanha,
e então a porta fechou,
e nem um traço deixou.

Falei “todas as crianças”?
Não; uma delas restou,
e até certo ponto andou,
mas perdeu a esperança
de as demais alcançar.
Era um menino a criança;
seu destino, manquejar.
Anos depois, se você
lhe perguntasse o porquê
dele ser sempre tão triste,
dizia, sem um despiste,
das famosas peripécias
de um flautista malhado,
e logo após, sem facécia,
de como tinha achado
enfadonha a sua vida
após a triste partida
da alegre criançada.

E ele dizia: “Nada
me consola de haver
perdido a chance de ter
conhecido um novo mundo,
que a música mostrava
cheio de encanto profundo,
onde tudo melhorava
e este meu pé direito
logo estaria perfeito.
Mas quando a abertura
na montanha se fechou,
a tal música parou;
e eu me vi na amargura
de voltar para a cidade,
mancando, contra a vontade.”

Os Paliativos

A cidade procurou
encontrar alguma pista
da parada do flautista.
O prefeito divulgou
prêmios em ouro e prata
para a volta imediata
de toda a criançada.
Mas tudo não valeu nada.
Pra ser menos acusado
da falta de resultado,
o alcaide logo fez
várias coisas de uma vez.
E a rua do mercado
um novo nome ganhou:
Rua Flautista Malhado.
E também se decretou
que nessa rua, pra sempre,
nunca mais se tocaria,
nem mesmo discretamente,
o tubo da vilania.
E todos os advogados,
nos ofícios e petições,
fariam as datações
acrescentando o recado:
“após os tristes eventos
aos vinte e dois dias do mês
de julho de mil trezentos
e setenta e seis.”
E defronte ao local
onde se abrira o portal,
numa pedra empinada
se entalhou a história,
nem um pouco ilusória,
das crianças sequestradas.

Epílogo

Décadas depois, havia
em terras da Transilvânia
uma gente muito estranha.
Esse grupo atribuía
roupa e modos diferentes
aos seus queridos parentes
da geração precedente.
Eles haviam escapado
de um aprisionamento
a ele todos levados
através de encantamento
por músico perpetrado.

Final

A quem é criança, fica,
sincera, a minha dica:
confiança pouca tenha
em qualquer homem à vista.
Menos ainda em flautista.
E se um dia algum venha
nos livrar de uma praga,
melhor que o homem tenha,
se prometida, sua paga.

__________

Texto original em inglês, com ilustrações, em Indiana University Libraries .

Não achei na Internet tradução portuguesa para esse belo poema de Robert Browning (1812-1889) contando a bela história do Flautista de Hamelin. Tentei fazer uma tradução a mais fiel possível ao espírito do original, mas, evidentemente, com algumas inevitáveis derrapadas (que normalmente são chamadas de “soluções quebra-galhos” ou “licenças poéticas”). Espero não ter feito feio.

Gostaríamos de haver mantido as magníficas ilustrações de Kate Greenaway (1846-1901) feitas para a edição original em inglês. Mas há problemas de copyright, não em relação aos desenhos, mas às fotos dos desenhos. Assim, modificamos o projeto inicial e optamos por desenhos originais, assinados por Jarbas Similevinsk, que serão apostos paulatinamente.

Campo Grande, fevereiro de 2013.

Valdir Dala Marta.

Incongruências na Tradução

1. Não levei em consideração os versos de 46 (“(With the Corporation…”) a 51.  A comparação se vale de preciosismos gastronômicos pouco compreensíveis para quem não mora na Inglaterra.

2. Outro trecho cortado foi o dos versos 67 (“Quoth one: . . . “) a 69. É mais uma das muitas referências bíblicas (aqui, Juizo Final) do autor. Se essas referências eram reconhecíveis por todos em sua época, hoje isto não mais ocorre, apenas atravancando a narrativa.

3. Robert Browning utiliza rimas irregulares (às vezes aabb, às vezes abba, às vezes abbba). Como o resultado é interessante, dispus-me a fazer o mesmo, até porque isto aproxima a tradução do espírito do original.  Por outro lado, o poeta começa com versos de 7 sílabas e passa, mais à frente, para 9 ou 10 sílabas.  Tentei fazer o mesmo, mas não consegui bons resultados. Desisti e mantive tudo uniforme em 7 sílabas. Com isto temos uma tradução com muitos mais versos do que os 303 originais.

4. Na sequência de versos 124 a 145, Browning perde o fio da narrativa, novamente (e extensamente) enveredando por preciosismos culinários, desta vez pretensamente do ponto de vista dos ratos. Cortei-os, sem qualquer prejuízo (ao contrário, ao meu ver com ganho) para a narrativa ou o poema. Mas ao cortá-los tive de inventar um novo motivo para a salvação do ratinho.

5. Cortados também os versos de 240 a 248.  A descrição do mundo mágico  sugerido pelo sopro do flautista deixa muito a desejar.

6. Os subtítulos foram acrescentados por mim.

O Arrebanho

novembro 7, 2012

História e ilustrações de JARBAS SIMILEVINSK

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1. A Bicicleta

O pacato Gê, rapaz moreno de 16 anos, ajudante do pai numa oficina de automóveis, percorre uma rua do bairro com sua bicicleta de marcha única. De repente é abordado por outro rapaz, que empunha um estilete:

– Desce daí, que eu quero a tua bicicleta!

Gê já perdera, no bairro, tênis e bonés para assaltantes ocasionais, mas dessa vez resolveu resistir e não desceu. O bandido então guardou o estilete e empurrou o aprendiz de mecânico, tentando fazê-lo cair; o rapaz porém reequilibrou-se e pedalou para longe do assaltante, que começou a gritar:

– Você não me escapa: eu vou te matar!

A partir daí começou uma perseguição sistemática. Em muitas das saídas do laborioso rapaz, o jovem bandido surgia do nada para fazer novas ameaças, às vezes portando uma faca. Gê, esperto, corria a bom correr. Seu pai começou a acompanhá-lo em várias ocasiões, mas então o marginal não aparecia nem ao longe.

A perseguição terminou meses depois, quando o bandido foi preso ou recolhido, por outros crimes ou outras circunstâncias.

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2. O Garanhão Recalcitrante

Maicom é também um rapaz moreno, mas de pele mais clara que a do Gê, e uma boca grande, julgada atraente pelas meninas, o que lhe valeu o apelido de Bocão. Mesmos 16 anos, idade em que o instinto sexual exige seu tributo e os rapazes ficam “doidos” para arranjar a sua “mina”, ou mesmo a sua “cachorra”.

E o Bocão encontrou uma bela garota de 17 anos. Ou melhor, foi encontrado por uma bela garota de 17 anos, desejosa de experiências sexuais em que ela ditasse as regras, os avanços e os recuos dos órgãos do rapaz ainda virgem. Quando a mãe deste saia para um compromisso mais demorado, os pombinhos se reuniam na casa. Depois dos fracassos iniciais, cheios de lances que não honram qualquer biografia masculina, o rapaz se acertou… e se apaixonou. Assumiu o namoro publica e orgulhosamente.

Logo, porém, surgiu um novo e mambembe pretendente, coisa que a menina, quando sozinha, descartaria com um simples olhar de desprezo. Acompanhada, passou a queixar-se para o namorado que, sem coragem para “tomar satisfações” com o concorrente, limitou-se a “olhar feio” para ele. O rival não gostou e, macaco velho de outras contravenções, encarou o jovem apaixonado, desafiando-o com ameaças.

Bocão não podia perder a mina por pretensa covardia, mácula elencada com destaque no Código de Honra do Machismo. Conversar abertamente com a namorada e tentar uma estratégia em comum, nem pensar. Começou a sondar colegas, inclusive o Gê, para encontrar alguém que lhe vendesse uma arma. “Para me defender”, dizia.

Bocão não encontrou o vendedor de armas, mas encontrou um novo amigo. Ou melhor, foi encontrado por um novo amigo, o Dango, rapaz mais novo porém bem mais precoce. Dango era o novo morador da casa ao lado, onde há tempos o seu pai morava sozinho.

Para azar do Bocão, sua mãe (viuva) descobriu as andanças sexuais do filho através de espionagens e visões de camas desfeitas, e, enciumada, passou a pressionar o rapaz e… a mãe da moça. Os encontros sexuais se tornaram impossíveis. Justo agora que o novo amigo lhe garantira apoio (“Tem uns caras aí que vão te resolver esse problema!…”) contra o concorrente e este, “por medo”, desaparecera !…

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3. O Extorquido

Dinho era um garoto branquelo, de 13 anos, gordinho e irrequieto. A mãe, no passado usuária de drogas e por isso abandonada pelo marido, estava sempre ausente, porque precisava trabalhar duro. O rapaz vivia à solta pelas ruas. Na escola, constantes reclamações da diretora, o que obrigou a mãe a transferi-lo para outro estabelecimento de ensino, do outro lado do córrego.

Na nova escola, novos e piores colegas. Pegaram o malemolengo gordinho para Saco de Pancadas, mas ele conseguiu livrar as costas colaborando com os agressores em dinheiro vivo. Módicas prestações diárias. Dinho roubava da mãe, que atribuía o sumiço do dinheiro a forças ocultas. Quando a prestação deixou de ser módica, a mãe descobriu. E transferiu-o para uma terceira escola.

Aos 14 anos, Dinho arranjou novos amigos, compreensivos e leais. Eram antigos vizinhos, mas naquela ocasião vistos sob novo olhar.

Agora, aos 15, fuma maconha sempre que pode, mais para agradar aqueles novos amigos (fornecedores e protetores)  do que propriamente por vício.

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4. Machista e Cria

Nos antigos vizinhos de Dinho, o chefe da casa era o Nhac, moreno de bigodes, avesso ao trabalho regular e adepto de bicos esporádicos, muito esporádicos. Sua mulher, desde que os dois filhos chegaram à idade escolar, era quem de fato sustentava a casa, com seu trabalho de faxineira diarista. Tudo ia precariamente bem, até que, anos depois, Nhac resolveu trocar a cerveja dos fins-de-semana por aditivos mais excitantes. Aí o dinheiro da mulher e dos bicos já não era mais suficiente. O filho mais velho, aos 16 anos, arranjou um emprego fixo e estabilizou-se, mas logo arranjou mulher e a trouxe para a casa paterna, de modo que a situação voltou ao ponto de desconforto para Nhac. E não adiantava bater na mulher (ação que praticava frequentemente): o fluxo de dinheiro não aumentava.

Nhac então resolveu trocar as incertezas dos bicos mal realizados (e porisso mal pagos) pela estabilidade da Boca de Fumo. Seu filho caçula, o  Gambá, desde menino ladrãozinho contumaz, aderiu de imediato e com entusiasmo. Tornou-se ponta de lança do programa Traficante Jovem, contraponto fornecedor ao projeto Juventude Drogada.

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5. Dango

Consta que um empresário bem-sucedido, dono de franquias, é o proprietário de um terreno no bairro, terreno esse que tem uma edícula nos fundos. Essa edícula esteve alugada durante um bom tempo, mas depois nela alojou-se, sozinho, o Moisés, um parente desse empresário.

Ora, separado o Moisés da esposa, os dois filhos adolescentes ficaram com a mulher. Um deles, porém, começou a dar problemas, e a mulher encaminhou-o para morar com o pai. Era o Dango. Mas logo o pai arranjou nova companheira e sumiu do bairro, deixando o filho sozinho e livre na edícula.

Dango começou fazendo bicos de pintor, e quando não tinha trabalho chegava desesperado no serviço de colegas, louco para cheirar thinner. Tempos depois se enturmou com o Gambá, abandonando bicos e thinner e rendendo-se à maconha. E virou, como Gambá, e ainda mais que Gambá, amigo ad-hoc de jovens confusos ou perseguidos. “O amigo certo nas horas incertas”.

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6. A Garota Amaciada

Dango gostava de Marcilane, que gostava do Bocão, que era grato a Dango. Os dois rapazes combinaram que Bocão iniciaria um namoro com Marcilane, preparando a moça para uma futura abordagem de Dango. O namorico aconteceu, mas durou pouco, e terminou logo depois da primeira transa, ocorrida na edícula. O rapaz se disse enfastiado por ser a moça muito “grudenta”, isto é, sempre procurando introduzir temas românticos na conversa; a moça sentiu-se enfastiada pela insistência do rapaz em relatar as excelências e vantagens do amigo Dango.

Bocão jogou a moça para Dango, que a pegou depressinha. Marcilane achou tudo muito natural. A mãe dela, conhecida no bairro como A Gritadeira, pois grito é o seu modo de se comunicar (com as filhas, o marido quase invisível, a cadela pittbull e qualquer ser que passe à altura de sua fúria institucionalizada), concordou com tudo. E a moça passou a visitar diariamente o seu novo namorado.

A mãe só não gostou quando, ao voltar um dia para casa, flagrou o casal transando em sua casa e em sua cama. Fez um escândalo, alguns poucos decibéis acima dos 120 usuais, e chamou a Policia, que nada pode fazer porque o rapaz ainda era menor. No dia seguinte tudo voltou ao normal, com os pombinhos jurando por São Demônio nunca repetir o malfeito.

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7. Rito de Iniciação

Gê não sabia da prisão do seu perseguidor, e portanto continuava sentindo-se vulnerável. Bocão mostrou-se o amigo de todas as horas, garantindo que a partir daí o outro seria efetivamente protegido por ele, Bocão, por Dango e por “todos os nossos amigos”. Para selar o pacto, foi realizada uma festinha de confraternização, onde a maconha correu solta. Gê porém não quis experimentar a droga.

Na próxima ocasião, Gê foi repreendido pela falta de coleguismo no encontro anterior. Afinal, “amigo é amigo; e os amigos têm que fazer tudo junto”. Para se redimir, o tímido rapaz deveria provar a sua lealdade ao grupo, que naquele momento era composto por ele, por Dango, por Bocão, por Gambá e por Jone, adolescente de 15 anos, outra aquisição recente do grupo.

Sairam em direção ao Shopping, andando por ruas mal iluminadas, e quando chegaram na avenida bateram o olho num rapaz que, à frente, caminhava sozinho. Ia também ao Shopping. O rapaz foi escolhido como alvo.

– “Vai lá, dá um tranco no Cara e toma o boné dele!” Ordenou Dango.

Gê hesitava.

– “Você não é homem?! Vai lá, cara!”

E completou, virando-se para o outro neófito:

– “Vai com ele, Jone!”

Os dois foram, e deram um tranco no rapaz. Em inferioridade, o rapaz largou o cobiçado boné e fugiu em desabalada carreira. Perseguiram a vítima por alguns metros, e então cairam na gargalhada, felizes com o êxito da ação. Gê, feliz, sentiu-se vingado dos bonés que perdera para outros meliantes.

A vítima, porém, era filho de um policial, e logo voltou, devidamente acompanhado. Os PMs pegaram Gê e Jone, não vendo Dango e Bocão, que, preventivamente distanciados, disfarçaram e desviaram da rota.

Os dois neófitos foram apreendidos e encaminhados a uma UNEI. Os pais de Gê, honestos trabalhadores, não conseguiram liberar o rapaz, que ficou retido durante 1 semana. Saiu sob condicional de seis meses, prazo em que não poderia estar na rua após as 22 horas e em que sua conduta na escola (onde tinha boas notas) e no trabalho junto ao pai seria monitorada.

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8. O Rebelde Pusilânime

Casca também trabalhava em meios-períodos na oficina do pai do Gê. Mas esporadicamente (imitando o próprio pai, Gerson) e muito a contragosto. Gostava e tinha talento para desenhar, mas sempre as mesmas figuras de águias, demônios, caveiras e peixes. Tentou virar tatuador, adquirindo técnicas e instrumentos, mas desistiu. Foi quando apareceu Bocão para renovar e fortificar antiga e frouxa amizade.

Casca foi convencido das vantagens de pertencer ao grupo. Ainda mais quando agora namorava Ruana, na nova escola (para alunos atrasados) que Casca passou a frequentar, e que tem, em algumas áreas, o apelido de Fumódromo.

A partir daí, o comportamento do rapaz piorou muito. Passou a discutir com a mãe, quando antes só resmungava ódios contra o pai. Instado, sem reprovações, a apresentar a nova namorada, mudava de assunto ou simplesmente se afastava do questionador. Foi com Gê a um tatuador, e enquanto o outro marcava a parte lateral do tronco, escondida pela camisa, Casca mandava tatuar, bem grande, o nome da namorada no antebraço.

Consta que ele uma vez foi visto parado na praça do bairro vizinho, próximo a um posto policial, passando papelotes. Possivelmente um teste. E a amizade com Bocão e Dango continuava, apesar da proibição e restrições dos seus pais.

Casca e a mina sairam daquela escola que facilita as progressões até o nono ano. Ruana foi fazer 1º grau do Secundário num lado da cidade, Casca no outro lado, mais próximo à sua casa. O rapaz falta sistematicamente às aulas e refuga serviço tanto quanto pode. Ele só quer, só pensa em namorar. Sob o guardachuva dos amigos, quer transferir matrícula para a escola da menina (em curso noturno), o que parece vai acontecer. Mas ele não poderá acompanhar os novos colegas, já que acumula muitas faltas e atrasos.

Casca agora adota o linguajar e a postura do grupo de maconheiros. Todos se consideram Homens, isto é, adultos. E Casca ainda procura uma edícula deserta.

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9. Dominós e Gato Preto

A Polícia ocupou a vila vizinha, e com isso o movimento na casa do Nhac diminuiu drasticamente. Mas o grupo Dango, e a sua atração fatal, continuou crescendo. Caiu Hércules, filho da Hortência, e outros rapazes bem vestidos da redondeza. Até Lourival, outro bem vestido e com namorada regular (os dois bem relacionados com os respectivos pais e “sogros”) já vem pedir a “bênção” da gangue. O último baluarte é agora Gê, vigiado de perto por pais, irmãos, tios e Conselho Tutelar.

E a maré de azar do Nhac continuou. Sua mulher, após uma nova surra e ameaças de morte, fugiu de casa e foi morar com parentes, bem longe do Machista. E parece que desta vez, dois meses depois, ao contrário de várias outras debandadas, não vai voltar. O dinheiro das duras faxinas não mais apareceu, e Dango tomou o lugar de Gambá na presidência da promissora célula juvenil do tráfico maconheiro.

Mas a ressaca da maré também atingiu Dango. A Polícia fez uma batida, com revistas, na esquina da quadra, a 50 metros da edícula. Dango e Gambá ainda puderam assistir de camarote, botando a cara entre as grades do portão, e rindo muito da Polícia e da desgraça de eventuais maconheiros descuidados. Mas, advertido das estripulias do Dango, o pai resolveu voltar à casa, com a nova companheira a tiracolo. Marcilane arranjou emprego e não está mais tão disponível. E a edícula já não serve de motel. Bocão agora, já maior de idade, usa uma moita na calçada defronte à sua casa, com uma providencial Romanzeira a vedar os olhares da rua. Foi visto às 20 horas naquele escurinho, sentado numa cadeira, com uma adolescente no colo e outra ao seu lado, servindo de apoio ou estepe.

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10. A Bicicleta

Os pais do Gê o transferiram para uma outra escola, no período noturno, longe do “louco” perseguidor e das amizades maconheiras.

Não se passa uma semana e numa noite aparece, nas imediações da escola, o Hércules, um dos novos amigos do Dango. Fica dissimulado na penumbra de uma árvore. Um rapaz de bicicleta, com uma garota na garupa se aproxima dele. Hércules cochicha:

– É aquele cara ali, com a camisa amarela…

Gê chega despreocupadamente à calçada defronte ao estabelecimento, preparando-se para adentrá-lo. De repente achega-se a ele o ciclista com a namorada, tira um revólver 38, libera o tambor para rodá-lo e diz:

– Eu vou te matar, cara!

Surpreso, Gê inventa de responder:

– Por quê? O que foi que eu te fiz?! Eu nunca te vi na vida!…

– Ordem do Presídio, cara! Eu vou te matar!…

– Mas eu nem te conheço, cara! Se quiser atirar, atira logo!

Surge então o Hércules, puxando o Gê pelo braço:

– Você tá louco, cara?! Vamos correr!

Enquanto o bandido aponta a arma para o Gê, todos debandam, inclusive alguns outros assistentes da cena.

A garota desce da garupa, pois é aluna da escola. O bandido guarda o revólver e pedala rua abaixo, tranquilo e calmo.


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