Arquivo da categoria ‘Corrupção’

Voto de Cabresto

outubro 4, 2010

Dolores recebeu a visita de Mercedes, uma “conhecida”, alguns dias antes das eleições. Foi informada de que receberia R$ 100,00 se apusesse numa folha de papel, já parcialmente preenchida com dados de outras pessoas, o seu nome e o número do seu título eleitoral.

Dolores ditou o seu nome completo para a visitante e entrou em outro cômodo da casa, à procura do documento. Procurou, procurou, e não achou o seu título. Lembrou-se então de que mantinha, no pequeno oratório de seu quarto, documentos e fotos de seu filho Walterson, falecido no ano passado num acidente de carro. Pegou o título de eleitor do finado e o entregou à “conhecida”, que anotou criteriosamente o número ao lado do nome anteriormente coletado. Dolores deveria, no mesmo dia ou no dia seguinte, procurar Semíramis, no endereço X, perto dali, apresentando-se como um dos nomes da lista.

No dia seguinte (já que não precisava tanto assim do dinheiro) Dolores foi ao citado endereço, citou seu nome e exigiu os cem Reais. Semíramis examinou uma pilha de listagens até que encontrou o nome procurado. Abriu uma bolsa e retirou uma reluzente nota de cem, que entregou a Dolores, recomendando: “Não se esqueça de levar a “cola” no dia 3!”

No dia da eleição a mulher agraciada notou que tinha um sério problema: Mercedes, cujo endereço Dolores não conhecia, não lhe entregara nenhuma cola. Abriu-se então com a vizinha da frente, amiga de muitas horas difíceis, terminando por confessar que, malgrado toda a propaganda eleitoral das últimas semanas, não sabia o número de nenhum candidato, nem mesmo o do cargo majoritário principal.

A vizinha então propôs: “Olha, eu tenho aqui uma cola pronta para meu uso. Se você quiser, posso fazer uma igual para você.” E foi detalhando, para ver se a outra não tinha alguma objeção, o nome e o número de cada candidato da cola já pronta. Dolores asseverou que gostaria de votar nos mesmos candidatos da amiga, e esta fez uma cópia de sua cola.

E assim Dolores votou: voto de cabresto, mas não voto vendido…

Cumprido o dever cívico, veio-lhe um remorso insidioso como a intermitência de uma dor-de-dente. “Não é justo! Eu devia ter votado no candidato Cenzão!”

Voltou então à amiga da casa da frente, contou o seu novo drama, e recebeu o seguinte conselho: “Amiga, dinheiro de corrupção é maldito! Deus castiga! Transforme esse dinheiro maldito num dinheiro abençoado: vá até o barraco do seu Legário, que deve estar “passando necessidade”, e dê o dinheiro a ele!”

Dolores achou um envelope branco, embora um pouco amassado, colocou dentro a nota azul (não a azul de R$ 600,00 do Serra, mas a verdadeira, de R$ 100,00) e saiu em expedição rumo ao barraco do velho homem, que aos 73 anos era obrigado a arranjar dinheiro extra para sustentar o crack de um filho e três netos (mas desses detalhes nem Dolores nem a amiga sabiam).

Seu Legário ia saindo e recebeu o envelope amarrotado com um gesto de mau humor. “Velho ingrato!” saiu resmungando a Dolores. “Mulher esquisita!” resmungou o velho voltando ao barraco e destrancando o cadeado (há muitos ladrões no bairro). Entrou pesadamente, contornou o grande recipiente onde armazenava latinhas vazias de cerveja, achou o recipiente dos papéis, acabou de amassar o envelope usado e ali o jogou, com raiva e desgosto…

“Roteiro para Daniel Dantas”

julho 30, 2008

Transcrição parcial de artigo de HÉLIO FERNANDES no TRIBUNA DA IMPRENSA ONLINE de 30/07/08:

Um roteiro inteiro para Daniel Dantas

Bandoleiro da bandalheira, mercenário da moeda-podre

Daniel Dantas é o bandoleiro da moeda, da especulação, do desprezo pelas regras, pela ética, pela moralidade. Para ele importante é acumular dinheiro, embora afirme sempre que não tem o menor interesse por isso. É uma espécie de Howard Hughes provinciano que se julga aristocrata. Não sai de casa, não é visto publicamente, mas apesar disso aparece nas mais diversas colunas, com notas sempre “plantadas” a seu favor.

Seria impossível acompanhar suas aventuras, e portanto já alertamos o leitor que o que vou arrolar sobre ele não deve representar nem 1 por cento da sua desonestidade congênita e adquirida. Daniel Dantas pode até me processar, com a motivação: “O repórter que é geralmente considerado bem informado, se reduziu em mais de 99 por cento as minhas desonestidades, com isso só pretendeu me diminuir”.

1 - Começou a aparecer no governo Collor, espalhou até que havia sido convidado para ministro da Fazenda, não aceitou.

2 - Isso teria ocorrido (?) por volta de 1990, portanto mais de 18 anos.

3 - O próximo passo de “exaltação” do seu talento foi o de dizer “fui aluno do professor Mario Henrique Simonsen, que me convidou até para trabalhar com ele”. Mas teve o cuidado (Dantas é sempre cuidadoso, até nas falcatruas) de só espalhar essas coisas depois de Simonsen morrer. E não existem rastros dessa ligação.

4 – Baiano, foi muito ligado a ACM-Corleone, aí, nada a desmentir. A afinidade entre os dois vinha do total desinteresse pela credibilidade, por isso, a enorme amizade entre os dois.

5 - Por indicação de ACM-Corleone, Daniel Dantas fez sua entrada “triunfal” no mundo das altas negociatas, ao receber INFORMAÇÕES PRIVILEGIADAS sobre DOAÇÕES-PRIVATIZAÇÕES.

6 – FHC (e alguns economistas, hoje espantosamente ricos) é o seu ídolo e sua grande admiração.

7 - Com as “informações privilegiadas”, mandou comprar fábulas em ações que iam ser privatizadas, como Telebrás, Usiminas, Vale do Rio Doce, companhias de energia e bancos estaduais.

8 – Mas teve quase uma visão ou adivinhação, ao comprar toneladas de moedas que não valiam nada e que seriam utilizadas no “pagamento” das sólidas empresas estatais.

9 -
Essas, que se chamariam de “moedas podres”, foram utilizadas em 1 por cento (às vezes 2 ou 3 por cento) do valor de face, fizeram grandes milionários, entre eles e maior ganhador, Daniel Dantas.

10 - Um dos seus caminhos de enriquecimento passava por um economista de muito talento e despudor, que ganhou mais do que quase todos do Plano Real.

11 – Por sorte tinha um caso íntimo (não era novidade, todos tinham) com uma futura economista, popularmente conhecida como “Heleninha calça frouxa”.

12 - A CSN já havia enriquecido alguns, Dantas tomou isso como parâmetro. Comprou muito Siderbrás, títulos da Reforma Agrária que valiam 1, 2 ou 3 por cento, e trocou todos esses papéis miseráveis por empresas rendosas e estatais.

13 - Muita gente no governo FHC, principalmente os que estavam na Comissão de Desestatização, enriqueceram.

14 – Ganharam fortunas, mas sejamos justos: tinham que dividir.

15 - Sergio Motta serviu a FHC e outros “puristas” como apanhador de trigo em campo de centeio. Morreu muito moço, depois de fazer um negócio de centenas de milhões com o coronel Golbery. Negócio vetado pelo ministro Aureliano Chaves, que me deu o furo e me autorizou a publicar, citando o nome dele.

16 - Com esse dinheiro todo, fundou o Opportunity, existem dúvidas sobre o parceiro com quem se desentendeu.

17 – Dizem que foi expulso, outros que recebeu 70 milhões para sair.

18 - A privatização da Telesp permitiu que Dantas atraísse a Telecom Italia, Vicunha (do então bandoleiro pobre Steinbruch, hoje mais rico do que Dantas) até a Organização Globo.

19 - A Globo, muito ENDIVIDADA pelo alto custo do Projac, sofreu baque ainda maior com a VALORIZAÇÃO do dólar a partir de 19 de janeiro de 1999. Esse ENDIVIDAMENTO chegou a 5 BILHÕES de dólares, assustando os sócios.

20 - Mas a desvalorização desse dólar e a simpatia e quase amor do governo Lula transformaram o passivo em quase ativo.

PS – Ainda há muito a contar como a ligação ESPÚRIA de Dantas com os Fundos Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa Econômica). Como Dantas é moço, dá tempo para ir contando.

“O Supremo Volta do Recesso . . .”

julho 17, 2008

Transcrição parcial de artigo de HÉLIO FERNANDES no TRIBUNA DA IMPRENSA ONLINE de 17/07/08:

O Supremo volta do recesso em 1º de agosto

E se revogarem as liminares que soltaram Daniel Dantas?

Essa questão provocada pela prisão de Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta está cheia de “coincidências e contradições”. O agora ministro-presidente do Supremo, Gilmar Mendes, não é a primeira vez que se envolve com processos de Daniel Dantas. No governo FHC, ninguém mandava mais do que Nelson Jobim. Que conseguiu a nomeação de Gilmar Mendes para advogado geral da União.

Durante o amaldiçoado processo de DOAÇÃO de parte substancial do patrimônio do Brasil, Daniel Dantas foi incluído entre os beneficiados. Foi a sua REVELAÇÃO COMO POTÊNCIA. Ganhou o direito de se associar à Petrus (fundo da Petrobras) e à Previ (fundo do Banco do Brasil), protegido e garantido pelos “gênios da economia” do governo FHC.

Protegeram, favoreceram e foram favorecidos por Daniel Dantas: André Lara Resende, Mendonça de Barros (demitido desonrosamente pelo próprio FHC, quando ainda estava no Senado ouvindo discurso no estilo Pedro Simon) e Pio Borges (presidente da Comissão de Desestatização), todos donos de fortunas fabulosas. Gilmar Mendes, advogado geral da União, teve que intervir na questão, “influenciado” por Jobim.

Logo depois, ainda pelo prestígio e influência de Nelson Jobim, Gilmar Mendes chega ao Supremo. Agora, alguns anos depois, se encontra “nos autos” com o mesmo Daniel Dantas. Sem esquecer o passado, subverte a hierarquia judiciária, solta duas vezes Daniel Dantas. O assunto ganha relevância nacional, a repercussão negativa é completa, o Supremo sempre foi respeitado, mesmo errando.

Numa decisão estranha, esdrúxula e inaceitável, o presidente do Supremo vai se encontrar com o presidente da República numa evidente burla à Constituição. E quem leva com ele? O protetor, Nelson Jobim. O que fazia ali o ministro da Defesa?

O Supremo representado por Gilmar, o Executivo pelo presidente Lula, por que o Congresso ficou de fora? Garibaldi Alves devia estar ali, os dois ministros não representavam coisa alguma.

E começa ou continua o rol de incongruências, que palavra. O advogado milionário do cliente bilionário deveria ter entrado com habeas-corpus para seu cliente não ir depor. Ele mesmo se fartou de dizer na televisão, “meu cliente não responderá a coisa alguma”. Lógico, não quis complicar mais a vida de Gilmar. Daniel Dantas estava sabendo de tudo, teve habeas-corpus pedido pelo mesmo causídico no dia 11 de junho. Antes da explosão e prisão, vazamento? Ou precaução?

Mais “coincidência”. O delegado que há 4 anos dirige as investigações é afastado inesperadamente. O superintendente da Polícia Federal diz que “ele pediu afastamento”. O delegado nega. Não podia resistir à tentativa de suborno, devia ter aceitado. Os dois auxiliares que trabalhavam com ele, também afastados e também garantindo que não pediram para sair.

Agora, Daniel Dantas e Jobim indicarão os substitutos. Quem pode afastar os três delegados? O superintendente da Polícia Federal, subordinado ao ministro da Justiça. Que República.

Lógico, visível, razoável e compreensível. Gilmar Mendes, sorridente e satisfeito, diz: “Não há crise entre o Executivo e o Judiciário”. Então, por que foi conversar com o presidente da República, insultando a Constituição?

PS - Essa questão Daniel Dantas vai longe. Ele mesmo acha que é por aí. Está com medo da investigação do suborno do delegado. Que aliás já foi afastado, “golaço de Dantas e do advogado milionário do cliente bilionário”.

PS 2 – Daniel Dantas só tem uma saída: dizer que não sabia de nada. Que auxiliares dedicados tentaram “resolver” por conta própria. Esses “auxiliares dedicados” aceitarão ficar com a culpa, presos e o patrão livre?

(. . .)

Os 10 ministros do Supremo em recesso têm conversado em Brasília e até fora de Brasília. Compreensível. A partir de 1º de agosto serão personagens ativos e privilegiados. Por enquanto não têm voz nem voto. Mas recuperarão imediatamente dentro de 13 dias. A primeira questão a resolver: votarão as liminares concedidas por Gilmar Mendes libertando Daniel Dantas duas vezes? Imprevisível.

Por convicção, Gilmar Mendes teria 7 votos contra. Mas a vida não é feita de convicções e sim de oportunidades. O problema: como os ministros ficam até os 70 anos, o governo não tem pouco a oferecer.

Conheço liminares que ficaram anos sem serem votadas e ninguém reclamou. É verdade que não tiveram a repercussão de agora. E o Conselho de Justiça? Gilmar disse que mandaria as decisões para lá.

Muita gente que estava tranqüila tem perdido o sono. Eike Batista, que se julgava seguro, divulgando, “sou o homem mais rico do Brasil e serei o mais rico do mundo”, está revoltado.

Diz que foi “atingido por amadores primários, que não sabem o que fazer”. Mangabeira Unger, que disse horrores de Lula, o melhor caminho para ser ministro dele, foi acusado de ter recebido 1 milhão de dólares de Daniel Dantas, pessoalmente.

Um grande amigo de Daniel Dantas, que era diretor da CVM, favoreceu desabridamente o amigo. Foi demitido do cargo na CVM, e proibido de operar durante 1 ano. “Opera” no Country, diária e satisfatoriamente.

Grande problema para Daniel Dantas: o processo do Citibanque contra ele, calculado em 500 milhões. Era Naji Nahas que tratava disso, Daniel Dantas não ia aos EUA, com medo de ser preso.

E agora que Naji Hahas não pode sair do Brasil, e Daniel Dantas muito menos, quem cuidará desse processo? Há anos (na época da Kroll), o próprio Dantas confessou: “Se perder, vou à falência”.

O que Daniel Dantas dizia e repetia com visível orgulho e satisfação: “Não tenho nada com Cacciola, não sei por que chamam ele de banqueiro”. Cacciola dizia o mesmo de Dantas.

Mangabeira Unger garante: “Nunca ouvi falar em Daniel Dantas”. Tem a mesma credibilidade de quando assumiu um ministério no governo Lula, não se lembrando que atacara violentamente o presidente.

Como Daniel Dantas é criminoso financeiro há mais de 20 anos, muita gente está sendo “ressuscitada”. Movimento enorme no São João Batista.

O único fato que não enterra ainda mais Daniel Dantas é a participação dele no mensalão. Deu a Marcos Valério apenas 132 milhões de um total “movimentado” de 6 bilhões. Por aí, escapa.

Na verdade, o espanto pelos personagens que aparecerão envolvidos tem duas vertentes assombrosas.

1 – A luta da Telecom Itália com o Opportunity.

2 - A ligação de Dantas com os fundos. Aí não são 6 bilhões, a importância vai para a casa de CENTENAS DE BILHÕES. Chegarão lá?

De qualquer maneira, digam o que disserem, tentem esconder de todas as maneiras, há uma crise de Poderes. Tanto que Gilmar Mendes diz “não sofrerei impeachment”. O que não deixa de ser surpreendente.

É evidente e mais do que comprovado que o chefe de gabinete pessoal de Lula, Gilberto Carvalho, não seguiu o padrão de Ética, socorrendo o amigo Luiz Eduardo Greenhalgh. Este, não tendo conseguido obter dados que precisava, recorreu ao amigo.

Gilberto Carvalho consultou a Abin, o Detran (para verificar uma placa), voltou a Greenhalgh: “Nada disso é verdade, tudo é falso”.

Informação privilegiada. Gilberto entrou de licença, alguma ligação? Voltará ao cargo? Então por que a licença na crise?

(. . .)

Daniel Dantas sabe que o seu roteiro de crimes financeiros chegou ao fim. Não há recuperação. Celso Pitta vivia de mesada de Daniel Dantas “recolhida” por Naji Nahas, mensalmente.

Surpreendentemente, quem está em melhor situação é Naji Nahas. Vai se livrar da convivência com Daniel Dantas, continuará investidor.

“Daniel Dantas : de Ágata Christie a Hitchcock”

julho 15, 2008

Transcrição de artigo de PEDRO DO COUTTO no TRIBUNA DA IMPRENSA ONLINE de 15/07/08:

Daniel Dantas: de Ágata Cristie a Hitchcock

Matéria do repórter Gerson Camarotti, “O Globo” de 12 de julho, chama atenção para a planilha apreendida pela Polícia Federal no apartamento de Daniel Dantas, no Rio, que registra enigmáticos pagamentos de 36 milhões de reais “ao clube” e a uma pessoa chamada Leticia. Seriam pistas deixadas propositalmente pelo nebuloso banqueiro para confundir as investigações e ameaçar pessoas indiretamente?

É uma hipótese que não deve ser abandonada, pois ele sabia que estava sendo investigado. Os segredos não resistem aos fatos. Os diamantes são eternos. E segredo, como compôs Herivelto Martins, é para quatro paredes.

A falsa trilha, a meu ver, remete o dossiê Daniel Dantas para o universo de sombra e suspense que consagrou tanto Ágata Cristie quanto Alfred Hitchcock. Isso de um lado. De outro, a desenvoltura de Dantas, sua confiança na absoluta impunidade, o destaca também – como se lê na reportagem da “Veja” que está nas bancas -, como o homem que sabe demais, tornando-o um personagem duplo do diretor inglês que se consagrou em Hollywood e encantou o mundo com a expressão de sua arte.

Dois enredos podem tê-lo como protagonista. Pelo menos. O primeiro eu já citei. O segundo é o ladrão de casaca interpretado por Cary Grant. Mas sua ousadia permanente, sem limites, a atração pelo ilegal e o veneno que carrega em si o tornam um ser humano extremamente singular. Só se fixa no negócio e no dinheiro. Parece ser um homem de gelo.

Poucas pessoas há no mundo com sua capacidade de imaginar e colocar em prática transações de altíssimo risco, de forjar situações, de produzir documentos e utilizar procurações, de envolver ou subornar centenas de pessoas. Mas como não é um robô, é falível como todos os humanos. Na clara tentativa de “comprar” o delegado Protógenes Queiroz, falhou. Tanto falhou que seus intermediários foram até filmados num restaurante em São Paulo. Neste lance, avaliou mal.

Generalizou. E ignorou que, se muitos aceitam propostas imorais, outros tantos rejeitam. Além disso, não levou em conta que, se muitos estão a seu lado, outros atores do palco econômico o detestam profundamente. É o caso, por exemplo, do empresário Nélson Tanure, que encontrou na luta mortal contra ele a motivação para adquirir o “Jornal do Brasil”. Não fosse isso, o JB já teria desaparecido. Tanure certamente não será o único inimigo do Opportunity. É claro. Pois alguém que age como Dantas, mobilizando um trator na área financeira, cria naturalmente uma corrente ativa de prejudicados que se transformam em inimigos eternos.

Um outro aspecto: na vida, por maior e mais intenso que se disfarce a corrupção, nem todos encontram-se à venda. Graças a Deus. Pois se o dinheiro passasse à categoria de valor absoluto, dentro de curto prazo não poderíamos sair mais de casa. De tanto recorrer ao suborno, o que assinala sua descrença na espécie humana, Daniel Dantas caiu na cilada da simplificação que ele próprio armou. Partiu para um denominador comum, colocou-o no computador, que não tem emoção, é gelado como ele, e achou que poderia acionar o seu sistema em todas as ocasiões, em relação a todos. Não só quanto a políticos que estranhamente o defendem. Embora ele cause prejuízos enormes à economia do País. Entretanto, o roteiro de sua ações foi desvendado.

No seu percurso, que já dura, creio, vinte anos, esqueceu que há juízes como Fausto de Sanctis. Não contava também com a reação de expressiva parcela do Judiciário contra os atos do ministro Gilmar Mendes. Uma reação que fez o presidente do STF recuar na representação contra o magistrado de primeira instância. A vida é bastante complexa, um processo de muitos lados e diversos espelhos. Um destes espelhos, a opinião pública. Contra ela, quando se manifesta maciçamente, não há impulso que resista.

Assim não fosse, ninguém precisaria ocultar nada. A cronologia dos episódios em torno da trajetória de Dantas é impressionante. Mas nem por isso é absoluta, intocável. Tudo é relativo, definiu Einstein. Outro cientista de grande importância, Enrico Fermi, é autor de uma frase de rara simplicidade e exatidão: o que existe aparece. Ele disse isso na década de 50, quando contestou a presença de extraterrestres em nosso planeta.

Esta semana, Daniel Dantas, preso ou solto, terá que voltar à Polícia Federal para prestar esclarecimentos. Conseguirá sair logo em seguida, ou seus advogados terão que recorrer novamente ao Supremo? Não é possível, como acham 95 por cento das pessoas, que Daniel Dantas seja inocente, tal o gigantesco volume de denúncias contra ele. Evidências que se transformam numa enciclopédia. Algumas assinaladas por ele próprio, como afirmou à revista “Piauí”, hoje dirigida por Marcos Sá Correa.

Disse, com todas as letras, e “O Estado de S. Paulo” republicou a matéria domingo, só temer a Polícia Federal e a Justiça de primeira instância. Não negou as acusações. Porém fez questão de registrar que o desfecho no Supremo o deixa confiante e seguro. Mais uma sombra, portanto, mais um enigma que ele coloca em volta da Corte Suprema. Mais uma nuvem de mistério que passa por Ágata Cristie e Hitchcock. Mas que acabará se dissipando. Termina. Aliás, como tudo na vida. As falsificações evaporam e desabam por si mesmas.

“Gilmar Mendes : O Supremo sou Eu”

julho 14, 2008

Transcrição parcial de artigo de HÉLIO FERNANDES no TRIBUNA DA IMPRENSA ONLINE de 14/07/08:

Gilmar Mendes: “O Supremo sou eu”

Pode libertar Daniel ou esperar a prisão de Eike Batista

É possível que depois da novela Daniel Dantas surja a novela Eike Batista. Este, que modestamente se declarou “o homem mais rico do Brasil e no futuro o mais rico do mundo”, teve a casa e o escritório vasculhados pela polícia com ordem judicial. Ele é acusado de uma porção de crimes financeiros. E será muito difícil justificar o patrimônio de 16 BILHÕES e 500 MILHÕES, alardeado, que palavra, por ele mesmo.

Como é muito esperto e bilionário, estando no exterior, já teria contratado o advogado milionário. E fez um pedido que até o advogado milionário teria achado estranho: “Se eu tiver que ser preso, quero que isso aconteça imediatamente até 31 de julho”.

Como o advogado não tivesse entendido, Eike explicou: “Até 31 de julho a liminar será despachada exclusivamente pelo presidente Gilmar Mendes. A partir de 1º de agosto voltam os sorteios para escolher os relatores”.

E diante do espanto pela reflexão veloz, concluiu: “Aí pode ir para um ministro que não tenha tanta obsessão por habeas-corpus e eu fique preso indefinidamente”.

O presidente Gilmar Mendes disse várias vezes: “Querem confrontar e desmoralizar o Supremo”. Ora, o Supremo está em recesso, Gilmar Mendes é presidente por rodízio, e responde eventual e circunstancialmente pelas liminares. Nada mais.

Liminares que podem ser derrubadas pelo plenário a partir de 1º de agosto. E como disse o próprio Daniel Dantas, “muita coisa irá acontecer”. Até ser preso outra vez, com o habeas-corpus já redigido e garantido por Gilmar Mendes.

Este, se quisesse, poderia citar em francês, que conhece em profundidade: “O Estado (Supremo) sou eu”.

Em todo esse tortuoso episódio da prisão e libertação de Daniel Dantas, minha surpresa total vai para o advogado milionário. Como conseguiu ficar famoso e cheio de clientes com o primarismo exibido?

Falar em nazismo, referendar a afirmação de “perseguição política”, assinar um texto que não seria aprovado em escola primária? Seu cliente é criminoso financeiro há mais de 20 anos, quem desconhece?

Há 20 anos Daniel Dantas, apesar da concorrência, é o maior falcatrueiro de plantão. Mas surpreendentemente tem “espaço cativo” entre famosos colunistas e até em arrogantes jornalões. Não se passa um dia sem que surjam notícias plantadas por ele.

Agora, cotistas do Opportunity sacaram 1 bilhão, Daniel Dantas ficou em situação financeira dificílima. Os jornalões deram notinhas sobre o fato, esconderam o mais que puderam.

Não importa o montante dos ativos de uma instituição e sim a sua liquidez. Perder 1 bilhão e poder recompor (quem irá investir ou manter investimentos no Opportunity?) será praticamente impossível para um “banqueiro criminoso?”.

Daniel Dantas acredita que pode recorrer ao Banco Central, sob a alegação de que muita gente perderia dinheiro. Dantas é um novo Cacciola e ganhará um novo Proer?

Desculpem, estou escrevendo no domingo, às 7 horas da noite. Não sei se Daniel Dantas está preso ou solto. O ministro Gilmar Mendes bravamente espera no gabinete. Reprovado pela Associação dos Juízes Federais e do Ministério Público, se julga um vencedor.

Espera o julgamento do Conselho de Justiça, presidido isenta e heroicamente por ele mesmo. Esse Conselho irá julgar mesmo o quê? Ninguém sabe.

PS - Às 7 da noite, pressionado pela redação e pela oficina, tenho que terminar. Dantas continua em liberdade, Gilmar tem que rasgar o habeas-corpus já redigido para o caso de nova prisão. A esperança de Gilmar, agora, se volta para Eike Batista. O auto-apregoado homem mais rico do Brasil pode ser solto por Gilmar.

( . . . )

A televisão mostrou a polícia apreendendo documentos na casa de Eike Batista. Ficou visível que ele está construindo, I-L-E-G-A-L-M-E-N-T-E, OUTRA CASA em cima da casa. Como ali é “zona unifamiliar”, a obra deveria ser embargada. Quem faria?

O advogado milionário do cliente bilionário também está territorialmente irregular. Na rua onde mora, os cidadãos não podem passar, sua genialidade tomou conta dos espaços. Os nazistas foram tomando a Europa da mesma maneira.

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