Posts de março \22\UTC 2010

A Grama Eleitoreira

março 22, 2010

Campo Grande – MS. O Córrego Prosa, no trecho entre a Rua Ceará e o ponto em que ele se torna subterrâneo (junto à Rua Padre João Crippa), não apresentava, em 2008, nenhum problema especial. Em chuvas excepcionais alguns metros de gabião descolavam do talude e tombavam sobre o leito, mas eram facilmente refeitos alguns dias depois.

Mas 2008 era ano de eleição (quando o atual prefeito seria reeleito), e havia na cidade, principalmente no segundo semestre, um frenesi de obras públicas em execução. No Brasil, como se sabe, a pauta eleitoral não versa sobre as qualidades de administrador do prefeito (funcionamento adequado de escolas, transporte público, sistema de saude, trânsito, justiça da tributação), mas sim, sobre as suas qualidades de movimentador de verbas públicas em direção a empreiteiras.

Desde o início daquele ano havia muitas verbas para gastar e poucos problemas que urgissem obras de engenharia. Então começou-se a inventar problemas para essas verbas desviadas da administração mas “devidas”, por algum direito divino (ou por algum acordo da divindade com os humanos), às empreiteiras. Foi assim que se lembraram dos córregos da cidade. Na bacia que corta o centro da cidade, o Sóter estava realmente a exigir a construção de represas de contenção do ímpeto das enxurradas, mas o Anhanduí não pedia alargamento e o Prosa só pedia para ser deixado em paz. Entretanto, como havia verbas de sobra (provavelmente as mesmas que faltavam para Saúde, Educação, Transporte Público e Trânsito), resolveu-se intervir também no Prosa.

Criou-se, durante alguns meses, vários transtornos para a população, com interdições parciais das vias que margeiam o famoso córrego. Num trecho, operários faziam pequenas concretagens “de reforço” no leito; mais abaixo uma pesada retro-escavadeira ia, com seus deslocamentos desastrados, desbarrancando os taludes e afrouxando o enraizamento das árvores. Como era época de chuvas, cada chuva maior começou a causar mais estragos do que aqueles da fase anterior à “obra”. E como a eleição se aproximava, surgiu a brilhante idéia de aplicar, nos gabiões, antigos e novos, um fino jateamento de cimento de endurecimento super-rápido. Isso pareceu dar uma trégua à empreiteira, mas deixou nos muros de arrimo o atual aspecto de trabalho de marreteiros de vila, um retrocesso em relação ao belo aspecto dos gabiões originais.

Como nesse negócio de obras públicas a aparência é tudo, resolveu-se retificar o perfil dos taludes malgramados existentes, dividindo-os numa metade superior agora plana e em outra metade mais íngreme do que o talude anterior. O novo perfil foi conseguido com o assentamento de sacos de terra, firmados em alguns pontos por estacas de madeira. Depois, camada superficial de terra solta. E tacaram tapetes de grama esmeralda (procedimento rápido e prático, porém inadequado), porque as eleições seriam daí a alguns dias.

Realmente, no dia das eleições a obra estava “pronta”.

Ora, sabe qualquer Zé Mané que essa grama esmeralda é própria para jardins e gramados planos; seu sistema de raízes não se aprofunda no solo, concentrando-se nos primeiros 5 centímetros da superfície. Até as empreiteiras sabem que em taludes se deve plantar grama Mato Grosso, ou Braquiária, ou mesmo um coquetel de gramíneas e leguminosas (como fizeram nos taludes do Córrego Sóter, conforme se vê na última foto desta postagem). Conclusão, na primeira chuva forte depois das eleições, a enxurrada levou largos pedaços do tapete verde e do solo superficial, deixando à mostra a triste imagem dos sacos empilhados, alguns já dilacerados. A empreiteira (ou a prefeitura?), que no começo logo refazia os estragos, depois da décima vez cansou-se e desistiu.

As imagens abaixo mostram a situação do Córrego Prosa na manhã do domingo, 21 de março de 2010, consequência da mega enxurrada do dia 27/02/2010. Até agora ninguém se animou a reparar os desmanches no talude malfeito. Aposto que vão gastar mais um milhão para resolver o problema criado pela obra da época eleitoral, que deixou como saldo negativo, além desse talude insustentável, a morte de pelo menos 20 árvores e o enfeiamento dos gabiões (agora impedidos de drenar) por grosseira camada de cimento.

Abaixo, um talude, à margem direita do Córrego Sóter, fixado com coquetel de gramíneas e leguminosas. Essas plantas têm raizes que se espalham profundamente no solo, tornando-o estável.


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P.S. 08 maio 2012:

Em abril-maio de 2011, há 1 ano portanto, finalmente a Prefeitura mandou construir gabiões nos lugares mais vulneráveis à força das enxurradas. A situação atual do trecho do Prosa é mostrada nas fotos abaixo.

Gabião novo sobre gabião antigo (este, inutilmente jateado com mistura de areia e cimento). Uma enxurrada mais forte levou terra e grama da área acima dos dois gabiões.

O mesmo trecho. A margem direita não é vulnerável, pois só recebe remansos da correnteza.

Trecho pouco adiante. Na margem direita as Leucenas proliferam por conta própria. A Prefeitura deveria deixá-las crescer, apenas raleando a alta concentração das mudas.

Os novos gabiões apenas deslocaram a vulnerabilidade do talude para outros pontos.

Jateamento de concreto armado (!). Só serviu, do ponto de vista das boas práticas administrativas, para enfeiar ainda mais a margem do córrego.

Aqui vai se formando uma cratera.

O lixo de uma enxurrada só é retirado… pela próxima enxurrada. Que deixa um lixo novo no lugar do antigo.

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Tentando Montar um Puzzle

março 15, 2010

Entediada com quebra-cabeças fáceis, Rosângela comprou um que consiste em reconstruir uma figura previamente dividida em 1530 partes. Essas partes, numa mistura infernal, têm dezenas de formatos diferentes, variações de retângulos de 2 cm por 2 cm em que foram feitas reentrâncias ou a que foram adicionados apêndices. Uns e outros em posições e formatos diferentes, indo do redondo ao oblongo. Resumindo, e para economizar 1000 palavras, apresento na foto abaixo alguns dos formatos citados.

E a seguir, um exemplo de como são feitos os encaixes (para os leitores que não se lembram):

Bom, o blogueiro não resistiu e resolveu participar da montagem que deveria resultar numa figura de 60 cm por 90 cm. Um jogo desses é ótimo para treinar a paciência da pessoa, bem como a sua acuidade visual, e até o seu raciocínio.

Bom, analisamos inicialmente a figura (de 20 cm por 30 cm) estampada na caixa do puzzle, representando uma paisagem italiana. A figura que formaríamos seria 9 vezes maior (3 em largura e 3 em comprimento) que a da caixa, e esperávamos riqueza de detalhes para um passatempo tranquilo e produtivo. Estabelecemos então, como estratégia, iniciar a montagem pelas peças da figura central, uma pequena igreja rural com sua torre. Levou um bom tempo até que conseguíssemos esparramar as peças pela mesa, e depois garimpar aquelas que tivessem riscos e contornos geométricos.

Era sábado, e à noite, após cerca de 6 horas/mulher e mais 6 horas/homem, chegamos ao seguinte resultado (com cerca de 200 peças):

Acontece que a resolução da foto da embalagem já é muito baixa, o que torna qualquer coisa pequena, mesmo objetos geométricos, meio borrada, o mesmo valendo para coisas com pouco contraste entre as partes constituintes. Vejam, na foto abaixo, que as flores cor-de-rosa não são identificáveis:

E constata-se que a foto sofrível da embalagem foi repassada diretamente ao puzzle, simplesmente “esticando” os pixeis originais de baixa qualidade. O normal, para uma empresa que se preza, seria fazer o contrário: passar ao puzzle uma imagem de alta resolução e dessa foto gerar um outra para a embalagem, com os pixeis “encolhidos”. Isto permitiria identificar as flores já na foto da embalagem, e melhor ainda na foto do puzzle. Mas da forma como a fabricante do puzzle fez, vejam como aparece parte da imagem acima, com os pixeis “esticados” 9 vezes ( 3 na horizontal, 3 na vertical):

E se a flor inteira é irreconhecível, imaginem topar, na mesa, com o recorte de um pedaço dela:

Para piorar as coisas, a foto da embalagem teve as partes correspondentes à moldura elegantemente surrupiadas. Assim, se você quiser começar o preenchimento por um dos lados, terá que considerar apenas metade da peça escolhida. E se começar por uma das quatro peças de canto, você só achará, na foto da embalagem, 1/4 da peça; as outras três partes ficaram sob a moldura.

Bom, com isso o passatempo se tornou um exercício de masoquismo. Domingo à noite, depois de mais 12 horas de trabalho conjunto, haviámos encaixado 400 peças e chegado no ponto mostrado abaixo.

Depois dessa etapa o blogueiro “caiu fora” do projeto, mesmo porque achou que estavam faltando algumas peças no jogo. Mas Rosângela continua, agora com a ajuda de Odete. Boa sorte para ambas. Quanto ao fabricante, pensarei 1530 vezes antes de comprar outro brinqueda da marca, trate-se ou não se trate de um puzzle.

Post Scriptum

Pois é, com o entusiasmo e persistência das mulheres, a desistência do blogueiro não durou 24 horas. Eis o que aconteceu depois:

Situação do projeto na noite de 17/03/2010:

Situação do projeto na noite de 18/03/2010:

Na noite de 22/03/2010:

Na noite de 24/03/2010:

Na noite de 25/03/2010:

Na noite de 27/03/2010:

Finalmente, na noite de 31/03/2010:

Quebra-cabeça resolvido, desafio vencido! Fica assim desmentida a suspeita inicial de que faltariam peças. E ficam reforçadas as afirmativas de que a empresa aproveitou estampa antiga e ainda suprimiu parte importante da foto-guia da embalagem, fatos que seriam válidos se tivessem sido informados claramente, entrando como graus extras de dificuldade. De qualquer modo, vamos adquirir um novo desenho do mesmo jogo, para ver em quanto tempo ele será, desta vez, resolvido…


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