Álvaro de Campos, para quem não sabe (e eu também não sabia até hoje), é um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa. No poema que transcrevo abaixo (disponível, como muitos outros do poeta, em http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16598 ), ele se mostra perplexo com a exagerada auto-estima das pessoas comuns, de tal forma que eu, blogueiro, me reconheço no sentir do poeta e reconheço, nos seus interlocutores, as pessoas comuns com quem tenho me relacionado. Mas vamos ao texto:
Poema em Linha Reta
Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Outubro 26, 2009 às 2:27 pm
amigão, há um projeto do Paulo Autran, em que ele leu vários poemas do Pessoa, dentre eles, esse acima.
Vendidos por esse site http://www.luzdacidade.com.br
muito bom
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do blog:
Luiz Roberto:
Andei tentando descobrir, nos últimos tempos, “o que é Poesia”. Fiz inclusive indagações ao Barone, do “Escrevinhamentos”. Pois é, depois de ler Fernando Pessoa, descobri que o que ele fazia era Poesia, pois são coisas que eu entendo e que falam à minha vivência pessoal. Agora já não me preocupo em saber o que é Poesia, mas “quem é Poeta”. FP, sem dúvida, é; mas o que existe de Picareta por aí!…
Vou dar uma olhada nesse site, embora o sítio do Governo Federal disponibilize muitos textos de FP que estão em domínio público.
Outubro 29, 2009 às 10:21 am
é…
sobre esse tema é legal ler o Harold Bloom, ele dá uma versão universal pra coisa toda.
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do blog:
Valeu, Luiz Roberto. Vou pesquisar.